Por
Antonio Luiz Carlini
Findava o ano 1947, extenue serenidade na noite de temperatura amena, naquele
sábado, mesmo sendo dezembro, quando o calor prevalecia, no nosso amado Vale do
Rio Tabocas, talvez uns dois quilômetros distantes da Capela de N.S.
Auxiliadora e, idem com a do Sagrado Coração, na Fazenda do Nonno Pierim
Rasseli. Fora segundo relataram os avós, um ano de pouca chuva, com muito calor
durante o dia e frio durante as madrugadas.
Na residência de um Patriarca italiano, chegaram quarenta, dos cem convidados
para um pitoresco baile. Aqueles dos quais, sentem saudades, os que os
vivenciaram. Pois, os bailes em residências na área rural, em períodos
anteriores a 1975, sempre deixaram saudades em quem os frequentou. Entrementes,
muitos primos, vizinhos e eu, íamos a até 35 destes por ano, não nos importando
o tempo de caminhada ou cavalgada para chegar até eles, tais como a distância
entre Tabocas/Caldeirão e Vinte e Cinco de Julho, onde por três vezes corremos
para não apanhar dos xenófobos.

Mas o Patriarca Tabocano, casualmente xará do Nonno Pierim, viu adentrar sua
sala, ao menos quinze belas jovens e, dentre elas a que o estimulou na
realização do evento. Moças exibindo belos vestidos, alguns muito exóticos ali,
por serem a ultima moda pós-guerra, outros modestos, mas também enfeitando as
ditas “donzelas”, despercebidas pelo ancião, exceto aquela da família
recém-chegada, para como a família dele, ser consorte em uma meia de café
noutras fazendas de Tabocas. Esta parecia ter um ímã no corpo, atraindo como pó
de minério, os olhos do Piero Anfitrião!
Três sanfoneiros para revezarem-se... Quando o primeiro esboçou cansaço,
próximo das 21 horas e outro assumira a animação com outra sanfona. Aquele
tocador, meio embebedado como a maioria dos homens ali presentes, naquela hora,
somando todos, já eram umas sessenta pessoas. Viu ele que a Sra. Mendes
Alvarenga, era a única dama que não dançava. Aparecia sentada a um pesado banco
de madeira rústica, numa lateral da sala e resolveu convidá-la, por que com a
dança de um xote, o álcool se misturaria, segundo ele, ao sangue.
Ela que sorvia fumaça de um enorme charuto de palha de milho e fumo artesanal,
aceitou a dança, entregando o Cigarro de Palha para um menino de seis anos que
a acompanhava, porém, foi para a dança ordenando que o infante não deixasse o
seu – PITO - apagar, enquanto ela dançava. Deu-se aí o inicio do primeiro porre
daquele Alvarenga, pois, para obedecer a mãe, sorveu fumaça daquilo, tentando
manter aceso o pito. Entretanto, antes de terminar aquele xote arrastado, o pobre,
magro e barrigudo pequerrucho caiu do banco. Pois, nicotina, alcatrão e sabe-se
lá mais o quê, o tonteou, por que lhe criou náuseas e provocou um desmaio, tal
uma convulsão epiléptica. O sanfoneiro, preocupado com a saúde do menino quis
ir em seu socorro, porém, a Sra. Alvarenga Mendes, obtemperou: -Não se
preocupe, ele caiu por que é o primeiro, depois que vomitar, melhora. Vamos
terminar a dança!
No
intervalo entre músicas irei levo-o lá na fonte e ele melhora! Entrementes, o
Sr. Alvarenga, auto- promovido segurança particular, o era muito dedicado ao
Garrafão de Cachaça, sobre uma mesa na área de serviço da casa, donde ignorava
tudo o que não tinha relação direta com o recipiente, ao qual vigiava e
esvaziava, tirando dele o líquido e o guardando no próprio estômago.
“- Ah! Que saudade daquelas fontes! Água corria livremente, para banho e
eteceteras!”
Enquanto isso, Sr. Piero, já com mais de meia dúzia de doses da água que boi
não bebe, no seu “cemitério de galinhas” (estômago), ainda mais se interessava
pela donzela novata na comunidade! Conseguiu uma dança com ela, depois de
convidá-la com o maior respeito, imitando os cavalheiros “gentleman” da corte,
pois, aquele pacato cinquentenário, não via que suas três filhas presentes no
baile eram apertadas como uvas para o vinho, por que o pacato e tímido
agricultor meeiro, ficara lá fora, debaixo da mesa!
Respeitado, mesmo com aquele bafo e inteligência comprometida pelo álcool, mais
e mais ele avançava sobre a moça, apertando-a. Chegou até conseguir ir além da
sexta dança, quando um rival mais jovem, mas não anfitrião, fofocou ao pai da
moça que ela corria perigo nas mãos do velho lobo! Sim, todas as ações e
gentilezas do velho Pietro, a esta altura, já esquecido de Dona Maria e dos
nove filhos adultos. Conquanto netos “se correndo” atrás na maior baderna.
Atenções voltadas para o cheiro de juventude da bela moça. Confessou
posteriormente ter se sentido nas nuvens, ao poder abraçar e apertar aquele
corpo com cheiro agradável, mesmo quando do suor dela escorrendo, não pelo
esforço com a dança, mas pelo tanto que prendia a respiração enquanto era
apertada pelo mal cheiroso ancião.
Foi o pai de ela ter com o casal, quando viu que Piero já exagerava. Sugeriu
que ela fosse beber água e ir para o “toillete”. “- Imaginem toillete na área
rural em 1947, o que era!” -. A moça foi e, acompanhada da mãe pode desabafar
que não mais suportava aquele assédio, tendo inclusive solicitado a permissão
para “passar caroço” ou “dar tábua” em Piero. Isto lhe foi negado pelos pais.
Pediu para ir embora, retornar a casa e escapar do velho babão. Aquele que em
pé na porta da Casa ou sala, aguardava seu retorno, por que já iria ter a
próxima dança e, “ele já perigote”, estava que “tava”!
Desta vez, na dança ele foi além, quer seja no aperto daquele corpo jovem,
conquanto sua fala no ouvido dela, expressando e revelando suas intenções para
com aquela menina. A música parou, ele não a soltou e continuo argumentando
quando Dona Maria o puxou avisando que havia mais um lugar vazio lá na manga de
porcos, onde ele devia ir. Ele soltou a moça ruborizada, pois, a mesma sabia
estar correndo o risco da difamação perante a sociedade, a qual pertencia sua
família!
Um pequeno escândalo ocorreu ali, mas como não havia sido desrespeitado o
ancião, ficou a moça em risco, conquanto seus pais, haja vista que o respeito
pelos mais velhos, especialmente um patriarca e anfitrião, devia ser praticado
até as últimas consequências.
Foram raros, mas quando estes vexames ocorreram, poucos homens foram punidos. Porém,
virava alvo de chacotas e fofocas, onde entre um grupinho de rapazes, ao menos
um tinha coragem de imitar o berro de um bode ou o rosnar de um porco quando de
uma manga com uma fêmea no cio!
O machismo imperou. O respeito ao anfitrião idem. Situação ruim para moças e
mulheres, por que recusar uma dança, negando uma solicitação, era falta grave.