quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Da Fila do Osso ao Prato Vazio um Legado Bolsonarista

 


Por Dag Vulpi — 07 de outubro de 2026

O impacto social e a dor das ruas no governo Bolsonaro (2019–2022)

Entre 2019 e 2022, o Brasil viveu um período em que os números da economia não correspondiam à realidade percebida por milhões de brasileiros. Enquanto Brasília discutia reformas, equilíbrio fiscal e indicadores econômicos, nas ruas cresciam os sinais de uma crise social marcada pela perda do poder de compra, pelo desemprego, pela informalidade, pelo encarecimento dos alimentos e do gás de cozinha e pelo retorno da fome em dimensões que o país havia conseguido reduzir. A chamada “fila do osso” tornou-se uma das imagens mais dolorosas daquele período. Mais do que uma fotografia da pobreza, ela representava a distância entre a capacidade econômica de um país e a capacidade de seu povo de colocar comida na mesa.

A fome voltou a ocupar as ruas

A fome talvez tenha sido o retrato social mais contundente daquele período. Em 2021, imagens de pessoas esperando por doações de ossos e restos de carne em Cuiabá ganharam repercussão nacional. Eram famílias que dependiam daquela doação para complementar a alimentação. A cena ficou conhecida como “fila do osso” e acabou se transformando em um dos símbolos sociais do governo Bolsonaro.

Em 2022, o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar, realizado pela Rede PENSSAN, estimou que 33,1 milhões de brasileiros estavam passando fome, enquanto 58,7% da população conviviam com algum grau de insegurança alimentar. O dado revelava uma contradição difícil de ignorar: um dos maiores produtores de alimentos do planeta tinha milhões de pessoas sem acesso regular à alimentação adequada.

Quando a comida ficou cara demais

A inflação dos alimentos atingiu especialmente as famílias de menor renda. Em 2020, enquanto o IPCA geral acumulou 4,52%, o grupo Alimentação e Bebidas subiu 14,09%. O arroz aumentou 76,01% e o óleo de soja, 103,79%. Em 2021, o IPCA fechou em 10,06%, enquanto o gás de botijão acumulou alta de 36,99%. Em 2022, mesmo com a inflação geral recuando para 5,79%, os alimentos continuaram pressionando o orçamento: Alimentação e Bebidas acumulou 11,64%, e a alimentação no domicílio aumentou 13,23%.

Para quem tinha renda suficiente, inflação significava trocar marcas ou reduzir o consumo. Para quem já vivia no limite, significava retirar alimentos da mesa. Quando a carne sobe, uma família de maior renda pode substituí-la; uma família pobre pode simplesmente deixar de comprá-la. Quando o gás aumenta, uma família com renda confortável absorve o reajuste; outra pode recorrer a lenha, carvão ou outras formas improvisadas de cozinhar. É nesse ponto que uma estatística econômica deixa de ser apenas um número e passa a representar sofrimento.

Desemprego, informalidade e renda

O mercado de trabalho também deixou marcas profundas. A taxa média anual de desemprego chegou a 13,2% em 2021, depois de atingir níveis ainda maiores durante a crise sanitária. Mas o problema não estava apenas na quantidade de desempregados, e sim também na qualidade do trabalho disponível. Em 2022, mesmo com a recuperação do mercado de trabalho, a taxa média de informalidade permanecia em 39,6%, envolvendo milhões de trabalhadores sem carteira assinada e sem a mesma proteção previdenciária e trabalhista dos empregados formais.

A recuperação do emprego, portanto, não significou automaticamente recuperação do poder de compra. Milhões de brasileiros voltaram ao mercado de trabalho por meio da informalidade, de atividades por conta própria ou de ocupações de baixa remuneração. O desemprego pode cair e, ainda assim, a vulnerabilidade permanecer. Afinal, emprego não é sinônimo automático de segurança econômica.

Aposentados também fizeram contas

Entre aposentados e pensionistas, a perda do poder de compra também teve consequências. Para quem depende de uma renda fixa, aumentos expressivos nos preços dos alimentos, medicamentos, aluguel, energia e gás reduzem diretamente a capacidade de consumo. Não se trata de despesas que possam simplesmente desaparecer do orçamento. Quando o dinheiro não alcança, a escolha frequentemente recai sobre aquilo que deveria ser preservado: alimentação, medicamentos ou outros cuidados essenciais.

Há ainda uma particularidade brasileira: em muitas famílias, a aposentadoria funciona como uma última barreira contra a pobreza de filhos e netos. Quando o mercado de trabalho não oferece renda suficiente, é comum que o aposentado passe a sustentar ou complementar a renda da família. Assim, a precarização do trabalho acaba alcançando também quem já deveria estar desfrutando de uma velhice mais protegida.

Transferência de renda e sobrevivência

Durante o período, o governo criou e ampliou programas de transferência direta de renda. O Auxílio Emergencial alcançou dezenas de milhões de brasileiros e tornou-se uma das principais ferramentas de proteção social durante a crise. Posteriormente, o Bolsa Família foi substituído pelo Auxílio Brasil, com aumento dos valores pagos.

Esses programas foram importantes para milhões de famílias, mas também revelaram uma contradição: era necessário ampliar significativamente a transferência de renda justamente quando pobreza e insegurança alimentar haviam avançado. O benefício podia impedir que uma família passasse fome, mas não eliminava necessariamente as causas de sua vulnerabilidade. Transferir renda pode garantir sobrevivência; não significa, por si só, autonomia econômica.

Saúde, educação e serviços públicos

Na saúde pública, o período deixou filas, procedimentos represados e dificuldades de acesso que atingiram principalmente quem dependia do SUS. Na educação, escolas, universidades e institutos federais enfrentaram dificuldades administrativas e orçamentárias, enquanto estudantes pobres foram particularmente afetados pela desigualdade de acesso às condições necessárias para acompanhar o ensino.

A questão, porém, não se resume ao volume de recursos. Um serviço público precisa ser avaliado também pelo resultado que entrega à população. Para uma família de baixa renda, uma consulta que demora meses, um exame que não é realizado ou uma interrupção na formação escolar pode representar uma consequência muito maior do que representa para uma família que dispõe de recursos para recorrer ao setor privado.

O Brasil que os números não mostram

Existe uma tendência no debate político de selecionar os indicadores que melhor favorecem cada narrativa. Um governo destaca o crescimento do PIB; outro, a queda do desemprego; outro, o resultado fiscal ou a arrecadação. Todos esses indicadores são importantes. Mas existe uma pergunta que nenhum governo deveria ignorar: quanto custa viver?

O trabalhador não paga suas contas com PIB. Não compra arroz com crescimento econômico, gás com superávit ou remédio com discurso político. Ele precisa de renda — e precisa que essa renda seja suficiente.

Por isso, uma avaliação social de governo precisa olhar também para aquilo que acontece dentro das casas. A mãe diante da prateleira do supermercado fazendo contas. O aposentado escolhendo entre o remédio e a feira. O trabalhador informal sem saber quanto ganhará no dia seguinte. A família que recebe um benefício para conseguir atravessar o mês. A pessoa que espera na fila por um pedaço de carne que, em outras circunstâncias, jamais imaginaria precisar receber como doação.

Essas imagens também são indicadores.

O legado social de 2019 a 2022

O período de 2019 a 2022 terminou deixando uma combinação difícil de ignorar: milhões de brasileiros em situação de fome, níveis elevados de insegurança alimentar, forte informalidade, perda do poder de compra e uma parcela expressiva da população dependente de programas de transferência de renda para atravessar a crise.

A pandemia faz parte dessa história, mas não explica sozinha todos os resultados. Governos existem para enfrentar crises, proteger os mais vulneráveis e definir prioridades. E é justamente pelas escolhas feitas diante das dificuldades que também devem ser julgados.

A “fila do osso” tornou-se símbolo porque mostrou, de maneira brutal, aquilo que algumas planilhas não conseguem revelar: havia brasileiros que não estavam discutindo qual corte de carne poderiam comprar. Estavam tentando conseguir qualquer alimento que pudesse chegar à mesa de suas famílias.

 O prato também é um indicador

O período de 2019 a 2022 deixou uma marca social que não pode ser apagada por gráficos ou discursos. O Brasil terminou aquele ciclo com milhões de pessoas passando fome, uma parcela enorme da população enfrentando insegurança alimentar, elevada informalidade e famílias que precisaram recorrer a programas de transferência de renda para sobreviver.

No fim, talvez exista uma medida mais simples para avaliar uma política econômica: não apenas quanto cresceu a economia, mas quanto melhorou a vida de quem mais precisava dela.

O PIB pode crescer. A bolsa pode subir. A arrecadação pode aumentar. O governo pode anunciar reformas.

Mas, se uma mãe precisa escolher entre o gás e a comida, alguma coisa essencial está dando errado.

Porque o prato vazio também é um indicador econômico.

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