segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O Pensador Coletivo: Quando Deixamos de Pensar e Passamos a Repetir

 



Dag Vulpi - 12 de janeiro de 2026

Muitas fake news não se espalham porque são convincentes, mas porque parecem familiares. Elas circulam em grupos de família, listas de amigos, comunidades virtuais e rodas de conversa cotidianas. Por trás desse movimento atua o Pensador Coletivo: uma lógica invisível que faz pessoas comuns compartilharem ideias que não analisaram, acreditando estar exercendo opinião própria. 

Platão, no Mito da Caverna, descreve pessoas que passam a vida observando sombras projetadas na parede e acreditam que aquilo é a realidade. Hoje, essas sombras não vêm do fogo atrás da caverna, mas da tela do celular. Um vídeo curto, uma manchete alarmista ou uma imagem fora de contexto bastam para criar uma impressão forte — mesmo que falsa.

Um exemplo simples: alguém recebe, em um grupo de WhatsApp da família, uma mensagem dizendo que determinado alimento “cura” ou “faz mal” de forma milagrosa. A informação não vem acompanhada de fonte confiável, mas confirma algo que a pessoa já desconfiava. Sem checar, ela repassa. Não por maldade, mas por reconhecimento. É exatamente assim que atua o viés de confirmação, conceito explicado pelo psicólogo Daniel Kahneman: tendemos a aceitar com facilidade aquilo que reforça nossas crenças e a rejeitar o que as contraria.

O mesmo ocorre na política, no futebol ou na economia. Uma notícia que elogia “o nosso lado” ou demoniza “o outro” circula rapidamente, mesmo quando é imprecisa ou falsa. Questionar esse conteúdo passa a ser visto como traição ao grupo. Nesse ponto, o Pensador Coletivo já cumpriu sua função: substituiu a análise pelo pertencimento.

As redes sociais potencializam esse mecanismo. Ao curtir, comentar ou compartilhar certos conteúdos, o usuário passa a receber cada vez mais do mesmo tipo. Aos poucos, cria-se a sensação de que “todo mundo pensa assim”. O filósofo Michel Foucault ajuda a compreender esse processo ao mostrar que o poder também se manifesta na repetição do discurso. Aquilo que aparece o tempo todo tende a ser percebido como verdadeiro, simplesmente por estar presente.

Outro exemplo cotidiano é o compartilhamento automático de manchetes sem leitura do conteúdo. Quantas vezes alguém comenta indignado uma notícia que sequer abriu? O filósofo Byung-Chul Han observa que vivemos uma cultura da reação imediata: responder, opinar e compartilhar se tornaram mais importantes do que compreender. O excesso de informação não produz mais reflexão, mas pressa.

Há ainda situações mais sutis. Um áudio “vazado”, um print sem contexto, uma frase atribuída a alguém famoso. Mesmo quando surge a correção, ela circula menos do que o erro original. A filósofa Hannah Arendt chamaria atenção para esse ponto: grandes distorções podem se sustentar não por intenção maliciosa, mas pela falta de pensamento. As pessoas apenas seguem o fluxo, sem parar para avaliar as consequências do que propagam.

O Pensador Coletivo se fortalece justamente nesse cotidiano apressado. Ele não precisa convencer profundamente; basta tornar o conteúdo fácil de repetir. Frases curtas, culpados bem definidos, soluções simples para problemas complexos. Assim como na caverna de Platão, as sombras não apenas enganam — elas confortam.

Romper com esse ciclo não exige erudição, mas atitude. Desconfiar de conteúdos “bons demais para ser verdade”. Perguntar de onde vem a informação. Resistir ao impulso de compartilhar imediatamente. Esses pequenos gestos representam, hoje, uma forma concreta de sair da caverna.

Pensar coletivamente é inevitável. Mas pensar automaticamente é perigoso. Em um mundo saturado de informação, talvez o verdadeiro pensamento crítico comece com uma pergunta simples, feita antes do clique no botão “compartilhar”.

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