terça-feira, 26 de agosto de 2014

Tese de que comoção impulsiona Marina é falsa


Por Josias de Souza no UOL
Veio à luz mais uma pesquisa do Ibope, a primeira desse instituto desde que a morte retirou Eduardo Campos da corrida presidencial. Eis as novidades: Marina Silva (29%) abriu dez pontos sobre Aécio Neves (19%). E está a cinco pontos dos calcanhares de Dilma Rousseff (34%). Num eventual segundo turno, Marina prevaleceria sobre Dilma com uma vantagem de nove pontos: 45% a 36%.

Atônitos, tucanos e petistas buscam um lenitivo na ilusão. Afirmam que Marina sobe graças à comoção que a morte de seu ex-companheiro de chapa ateou no eleitorado. Nessa versão, a candidatura dela murcharia depois que passasse o choque provocado pela tragédia. A tese é falsa.

Marina ostenta agora o mesmo tamanho que exibia em outubro de 2013, quando o Datafolha enviou seus pesquisadores às ruas, nas pegadas do acordo firmado entre Marina e Eduardo Campos. Num cenário em que Marina encabeçava a chapa do PSB, ela amealhava os mesmos 29% que o Ibope lhe atribui agora. Estava 12 pontos à frente de Aécio, que tinha 17%. Dilma aparecia um pouco mais bem posta do que agora: 39%.

Ou seja: o potencial de votos de Marina esperava desde o ano passado para acontecer. Foi sufocado pela falta de registro da Rede Sustentabilidade na Justiça Eleitoral. Sem partido, o fenômeno teve de se contentar com o papel de coadjuvante de um projeto protaginizado por Eduardo Campos. A morte de Campos como que ressuscitou Marina. De volta ao jogo, ela dá um nó na língua de João Santana.

Também em outubro de 2013, poucos dias antes da veiculação do Datafolha que atribuía a Marina 29% das intenções de voto, o marqueteiro do PT dissera o seguinte ao repórter Luiz Maklouf Carvalho: “A Dilma vai ganhar no primeiro turno, em 2014, porque ocorrerá uma antropofagia de anões. Eles vão se comer, lá embaixo, e ela, sobranceira, vai planar no Olimpo.”

João Santana incluía no rol dos “anões” Marina Silva, Aécio Neves e Eduardo Campos. Numa entrevista ao blog, Marina comentou na época: “Quando a gente olha de baixo pra cima, a gente vê o que está acima de nós. E o que está acima de nós é o Brasil. Esta é a posição dos anões, pelo menos a minha. Olhar de baixo pra cima pra ver o que está acima de mim. E o que está acima de mim é o Brasil.”

Três meses antes, em julho de 2013, o Datafolha detectara os primeiros efeitos políticos do ronco das ruas de junho. A popularidade de Dilma despencara 21 pontos. E o segundo turno em 2014, antes improvável, ganhara impulso. Só João Santana não acreditava: “Essa pesquisa tem o valor de uma vaia em estádio. Não passa de catarse temporária. Redobro a aposta: Dilma ganha no primeiro turno.”, disse ao Painel na ocasião..

A 40 dias da eleição, é mais fácil enxergar a empáfia de João Santana do que distinguir Davi de Golias. Sob ameaça de cair do Olimpo, Dilma já não está em posição tão sobranceira. Talvez tenha de se envolver na antropofagia de anões.

Veja deverá deixar de ser panfleto para ser uma revista propriamente dita

O colunista Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo, acredita que, após mudanças na Abril, a revista Veja terá nova linha editorial sob o comando de Fabio Barbosa – pela primeira vez sem um Civita.

O derramamento de sangue nos altos escalões da Abril na ÚLTIMA segunda-feira não surpreendeu.

O novo presidente executivo da editora Abril, Alexandre Caldini, foi para lá para comandar o desmantelamento da divisão de revistas.

Sobrarão, com o massacre da internet, quatro ou cinco títulos, e bem diminuídas, num espaço de poucos anos.

E a Abril tem ainda uma estrutura feita para produzir dezenas de revistas que quase ninguém mais quer ler e nas quais cada vez menos anunciantes estão dispostos a anunciar.

Demissões, fechamento de revistas, cortes de custos desesperados – este é o futuro da Abril.

Então, não há surpresa nas dispensas de hoje.

O que chama a atenção é que, pelo comunicado interno da Abril, pela primeira vez a redação da Veja vai responder a alguém que não seja um Civita.

Ao executivo Fabio Barbosa, presidente da Abril Mídia, responderá o diretor de redação da Veja, Eurípides Alcântara.

O fundador da Abril, Victor Civita, controlou a Veja nos primórdios, ao lado do filho Roberto. Depois, ainda vivo, o patriarca entregou tudo a Roberto.

Morto Roberto, num primeiro momento a Veja esteve sob a supervisão do filho caçula de Roberto, Victor Civita Neto.

São previsíveis duas coisas sob Barbosa.

Primeiro, um forte ajuste nas despesas da revista. Sob a proteção de Roberto, um apaixonado sem limites pela Veja, a revista virtualmente passou ao largo das demissões ocorridas nos demais títulos da Abril.

A Veja tem cinco redatores-chefes, uma extravagância que nem a Time nos anos de ouro das revistas semanais de informações ousou cometer.

Barbosa chega sem os compromissos de Roberto Civita – herdados pelos filhos – com as pessoas-chave da Veja.

Não deve estar nada fácil o clima na revista. Na realidade de hoje – publicidade e circulação em queda livre – uma redação do porte da Veja não se sustenta.

A segunda mudança previsível é na linha editorial da revista.

Fábio Barbosa, ao longo de sua carreira, se caracterizou por posições muito mais progressistas – ou menos radicais no campo da direita — do que o que se lê na Veja.

Era conhecido por suas posições a favor da sustentabilidade, por exemplo – coisa que para a Veja é bobagem de esquerdistas interessados em atrapalhar o capitalismo.

A Veja acabou se transformando num depósito do pensamento ultradireitista de Olavo de Carvalho, nela representado por nomes como Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Felipe Moura Brasil e Lobão, para citar uns poucos entre tantos.

Barbosa, pode-se imaginar, tentará reconduzir a Veja para o terreno que ela ocupou nos anos 1980, quando era considerada a melhor escola de jornalismo do Brasil.

Isso significa dar a ela feições liberais, pró-livre iniciativa, ao estilo americano – mas sem babar.

Significa também deixar de ser panfleto para ser uma revista propriamente dita.

No mundo, há um exemplo que pode servir de modelo: a inglesa Economist. É uma revista de centro-direita que faz um jornalismo sério, de alto nível.

Modelo, há.

O que é difícil é recuperar a credibilidade destruída nos últimos anos por um jornalismo panfletário, manipulador e inconsequente.

De toda forma, vai ser interessante observar o comportamento da revista nas próximas semanas.

Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.


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