sábado, 10 de junho de 2017

Saiba que a hanseníase tem cura

Por Laila de Languiche* no site da DAHW Brasil

Sou hansenologista , e dermatologista há 18 anos. Dar o diagnóstico de hanseníase ainda é muito difícil para mim e certamente também para meus colegas de profissão. O estigma que infelizmente esta doença ainda carrega dificulta muito nosso trabalho em todas as áreas da saúde.

Confesso que no inicio de minha carreira algumas vezes me deparei tentando encontrar outros diagnósticos que justificaria tais sintomas. As vezes protelava um diagnóstico evidente, com receio de precipitar-me. Solicitava e até repetia exames complementares.

Imaginava as múltiplas consultas e acompanhamento que este paciente deveria se submeter nos próximos meses, nas possíveis reações adversas que porventura poderia comprometer o paciente e a dificuldade de abordagem social. A reação da sua família. O medo de rejeição e a incerteza da aceitação.

Sempre apaixonada pela hanseníase, este assunto acabou sendo corriqueiro na minha família, onde todos entendem e compartilham minhas frustrações e dilemas, se surpreendem quando escutam mitos bíblicos desta doença, como perda de dedos etc, são muito pro ativos contra a estigmatização e não tem medo algum de contrair esta doença, já que tiveram a oportunidade de conhecê-la. Não hesitei em perguntá-los o que eu poderia dizer de mais precioso a um paciente que acaba de receber seu diagnóstico de hanseníase. E qual foi minha grande surpresa quando escutei:” fale que tem cura!”

Eis o que eu gostaria de enfatizar aos pacientes que acabam de receber seu diagnóstico: saibam o quanto é e foi difícil seu médico chegar a seu diagnóstico, saiba que o preconceito é oriundo da desinformação, saiba que é normal ter medo e dúvidas. Voce deverá ser muito paciente. Conte com seu médico, que é capacitado para explicar todas suas dúvidas e ouvir suas queixas. A convivência será próxima e longa, seus encontros mensais ou mais curtos ainda. Tome seus medicamentos corretamente pois será essencial para o sucesso de seu tratamento, efeitos secundários podem existir mas serão perfeitamente controláveis.

E acima de tudo: saiba que a hanseníase tem cura.


*Laila de Languiche (Dermatologista)

Frente independente – um caminho possível para a esquerda brasileira (2)

Por James Connolly do Santa

No texto anterior eu falei das delícias de se constituir uma frente progressista independente. É chegada a hora, no entanto, de falar das dores que tal empreitada trará à tona se levarmos a ideia à frente.

Quem assistiu “A Vida de Brian”, clássico da trupe de humor inglesa Monty Python, sabe que uma das especialidades da esquerda é rachar. As diferenças de visão e de prática são um dos principais motivos para o fim da famosa “unidade da esquerda®”. A menor divergência é motivo para que um grupo se separe lançando anátemas um ao outro, e achando que vai conseguir fazer a revolução® sozinho. Eu mesmo já passei por discussões homéricas com meus pares de outros grupos (outras questões, de ordem pessoal, estavam envolvidas no meio, mas não cabe falar delas neste espaço).

Saiba Mais:

Aí vem a pessoa e me diz: “Bicho, tu tá doido? Tu vai querer colocar diferentes grupos de esquerda num mesmo espaço de militância, reflexão e ação? Quero só ver o que tu vai fazer quando o petista xingar o psolista de esquerda-que-a-direita-gosta, quando o cara de movimentos sociais arrotar pro filiado a partido que quem fez 2013 foi ele, quando o stalino disser pro trosko que vai fuzilá-lo e o anarquista chegar baixando o sarrafo nos dois…”

Bem, o fato é que é preciso constatar algumas coisas, e eu venho percebendo isso inclusive com uma certa relutância de minha parte, mas a realidade é uma criatura que pouco se importa com os nossos melindres. A primeira é que ninguém vai fazer mudanças sendo a Frente de Libertação Democrática Popular da Judeia (aquele grupo de um homem só no filme). A segunda é que em algum momento alguém vai terminar discordando de você no meio da ação. A terceira é que é preciso ter consciência de que você é um ser humano, que você erra, e que quando alguém te aponta um erro ela não está, necessariamente, sendo escrota com você e se tornando sua inimiga para sempre.

Nos tais Círculos de Estudos e Atividades, penso que a lógica do racha pode ser hackeada reconhecendo que os seus membros constituintes possuirão liberdade para agir como quiser. Se você quiser gritar “Lylamito” na rua, vá lá, você pode gritar. Você quer criticar a galera que age como o cara da hipótese anterior, vá em frente. Quer colocar essas questões em pauta no seu círculo para votação, beleza. A questão é que não necessariamente estas atitudes serão endossadas pelo pleno, em votação democrática, e que na verdade é melhor que não haja endosso explícito, especialmente fora do período eleitoral, nem críticas que tenham um cunho desrespeitoso, que tenham como intenção apenas diminuir alguém por suas opções ou sair se pavoneando com uma superioridade moral que, no fundo, não serve pra muita coisa.

O que vai dar a liga a esse pessoal é o tal do programa mínimo, sob o qual as atividades dos círculos obrigatoriamente ocorrerão, sem um milímetro pra fora (neste caso, a ação ficaria por conta do indivíduo). É a definição daquilo no qual as pessoas concordam e que possam levar a frente com suficiente conforto. Essas questões normalmente surgem em momentos de discussão coletiva e podem ser facilmente identificadas como pontos de partida, e se escolhe avançar. É um processo longo, mas a identificação dos pontos em comum surge com muito estudo e compartilhamento de ideias, cabendo ao grupo o fomento desta cultura e a coibição de práticas puramente destrutivas. Alguns grupos políticos chamam isso de consenso progressivo.

Os membros dos círculos definem seus programas mínimos e se empenham, com toda energia, em fazê-los avançar. Da mesma forma, é possível que representantes de círculos, em plenárias estaduais e nacionais, definam seus programas mínimos e façam avançá-los. Mas se o pleno de um círculo sinta que a divergência de um ou outro membro à interpretação é inconciliável com suas posições, pode fazer um chamamento a que este faça uma autocrítica ou mesmo que o desligue das atividades. Por mais que tenhamos boa vontade, nem sempre é possível acolher qualquer coisa em nome de bom-mocismo.

Para que isso ocorra, é preciso um ambiente democrático e atuante. Reuniões periódicas, frequentes e utilizando-se dos recursos que a tecnologia proporciona (videoconferência, fórums, etc.) auxiliam neste sentido. Um periódico, como um blog, uma newsletter eletrônica ou até mesmo um fanzine mimeografado (!), ajudam não só na propagação de ideias para fora como também internamente, em que textos com teses teóricas ou de atuação podem ser compartilhados e fomentar um ambiente de debate respeitoso.


Finalmente, gostaria de deixar um aviso contra o “democratismo”, ou seja, aquela tentativa de tentar definir absolutamente tudo através de uma eleição que pode se mostrar por vezes redundante. Atividades de caráter operacional, como por exemplo comunicação, tesouraria, logística, podem ser muito bem deixadas com membros ou comissões eleitas especificamente para aquele fim. Caso contrário, corre-se o risco de paralisação e perda de dinamismo.

Bob Fernandes e a desmoralização na política e no judiciário brasileiro


Frente Independente – um caminho possível para a esquerda brasileira


Por James Connolly do Santa

Eu não preciso dizer a vocês que a política brasileira está vivendo seu crepúsculo dos deuses. As principais lideranças político-partidárias do país foram abatidas, e nos mesmos escândalos de corrupção (em especial nas propinas da JBS e da Odebrecht). Se caciques do PMDB e do PSDB foram implicados, Lula e algumas eminências pardas do PT também, e não há sinal de que irão sair ilesos também. No entanto, os elementos agregadores do futuro ainda estão em construção, e nem sempre sinalizam algo de bom: Dória e Bolsonaro tentam agitar a direita brasileira, mas falta ao primeiro resultados concretos e ao segundo inteligência, e a ambos falta empatia e compreensão com a população mais humilde e marginalizada. Marina Silva não tem mais o mesmo charme de outrora, tendo em vista que levanta nos ricos desconfiança de que irá levar a cabo suas reformas e nos pobres levanta desconfiança de que irá efetivamente proteger seus direitos, e a Rede ainda não decidiu o que quer ser, além de uma grande tenda mais ou menos libertária.

O Psol ainda precisa gastar sola de sapato e língua nas periferias, deixar ocupar-se mais pela favela, campo e precariado, e construir um programa econômico mais consistente antes de se constituir em uma alternativa séria para o país. Ciro se mostra como uma alternativa por sua boquirrotisse, conseguiu um programa econômico que não é necessariamente progressista (em alguns pontos é francamente de direita) e tem passados (o mais recente é o de governador do Ceará) a lhe assombrarem. Finalmente, existem os aventureiros que são incensados aqui e ali, mas que possuem como projeto algo que vai pouco além do “consertar o Brasil”, se tanto.

No entanto, existem pessoas dentro dos partidos de esquerda e movimentos sociais, e mesmo fora deles (eu diria que a grande maioria está nesta situação) que não gostariam de ficar à mercê dos acontecimentos, que gostariam de discutir a crise das lideranças, e que estão atualmente sem espaço para fazer qualquer coisa.

Seja por não saber como articular um movimento, ou mesmo por não saber que podem fazer tal coisa, estas pessoas hoje em dia se veem órfãs, quando não descambam para o niilismo e a desesperança. Tal realidade precisa mudar, caso queiramos ter um futuro, e eu penso que posso apontar um dos caminhos alternativos. Notem bem: estou elucubrando aqui como faria em uma mesa de bar ou assistindo um jogo do meu querido Santa Cruz Futebol Clube, o tricolor do Arruda. Não estou dizendo que é pra fazer as coisas desse jeito, mas ficaria feliz se alguém tomasse esse rumo.

Eu visualizo o surgimento de Círculos de Estudos e Atividades, onde o propósito seria, bem, estudos e atividades relacionadas a tudo aquilo que se encontre no campo do progressismo. Estes círculos poderiam constituir-se em nível de bairro, município, estado e nacionalmente, e ainda de forma temática, ou ainda virtualmente. Quem conheceu a Raiz vai ver ecos de sua organização aqui, e não por acaso, já que eu já fui parte atuante dela. A organização nestes círculos é uma das coisas boas que ela gerou, e de forma alguma é responsável por sua degeneração (algo que poderemos tratar em outra ocasião). É democrática e comporta ampliação com facilidade.

Estes círculos teriam como responsabilidade a discussão ampla e democrática de alternativas para problemas locais, regionais e nacionais. Nenhuma proposta, no entanto, deve deixar de lado o escrutínio da população onde o círculo está inserida, que fará o juízo final de sua aplicabilidade e evita que se “viaje demais”. As propostas deveriam comportar o seu versionamento, tanto para prover uma contínua atualização bem como recuperação das ideias anteriores para reanálise – e autocrítica por eventuais bobagens ditas anteriormente.

Por envolver a população, é imprescindível que tais círculos realizem um amplo trabalho de divulgação de suas ideias. Seja pelos meios tradicionais (jornais, panfletos, reuniões públicas), seja utilizando novas mídias, é importantíssimo que as ideias saiam da torre de marfim e cheguem a todos. Também por isso, os círculos deverão priorizar o contato com as populações da periferia, os trabalhadores urbanos precários, as comunidades rurais e tradicionais e as pequenas cidades do interior.

O objetivo seria criar uma frente progressista nacional e independente, de caráter suprapartidário, que admitiria a entrada de membros filiados a partidos ou não, embora imagine que um mínimo de identidade com as pautas das mais diferentes esquerdas seja necessário para o bom funcionamento.

Tal frente não impediria os membros de se filiarem a partidos políticos ou outros movimentos (incluso aqui as federações anarquistas), mas se reservaria o direito de endossar candidaturas que tenham identidade com suas propostas, levadas à frente por seus filiados ou não.

Ao mesmo tempo, esta frente também poderia realizar atividades de militância clássicas, como a participação em protestos e atos públicos, greves, pressão junto a parlamentares, etc. Promoveria palestras e reuniões periódicas em espaços públicos abertos à comunidade, como escolas, praças, centros comunitários, associações de moradores, etc. Ofereceria oficinas e cursos com o intuito de oferecer medidas de autonomia econômica e social. Apoiaria medidas de autogestão, como cooperativas populares de produção, fábricas ocupadas, bem como de apoio, como por exemplo a manutenção de uma banca de aconselhamento jurídico para presos injustos, políticos e de consciência.


Até aqui tudo bem, mas eu tenho consciência das broncas que tal iniciativa enfrentaria, que são assunto pro próximo texto.

Sobre o Blog

Bem‑vindo ao Blog Dag Vulpi!

Um espaço democrático e apartidário, onde você encontra literatura, política, cultura, humor, boas histórias e reflexões do cotidiano. Sem depender de visões partidárias — aqui prevalecem ideias, conteúdos e narrativas com profundidade e propósito.

Visite o Blog Dag Vulpi