quinta-feira, 8 de março de 2012

A Devassa da Devassa - "A Inconfidência Mineira"

"A Devassa da Devassa - A Inconfidência Mineira: Brasil e Portugal 1750-1808"


“Delinear a ampla interação de Brasil e Portugal na segunda metade do século XVIII” (MAXWELL, p. 13) é, segundo Kenneth Maxwell, o objeto do seu “A Devassa da Devassa – A Inconfidência Mineira: Brasil e Portugal 1750 – 1808”. (link para baixar o livro em PDF no final da postagem)

Lançado em 1973 na Inglaterra, país natal do autor, com o título original de “Conflicts and Conspiracies: Brasil & Portugal 1750 – 1808”, o livro chega aos 500 anos do Brasil na sua terceira edição, e com o status de leitura obrigatória sobre o período. Resultado de uma minuciosa pesquisa, que se faz presente na constante exposição de dados quantitativos, “A devassa da devassa” em nenhum momento corre o risco de ser mais um livro sobre a Inconfidência Mineira. Kenneth Maxwell vai muito além da simples exposição dos fatos que compuseram o episódio e tampouco se deixa levar pela livre especulação que as lacunas documentais tornam tentadora. O livro mostra um autor preocupado em colocar suas hipóteses mas sem nunca deixá-las sem o respaldo de um documento e/ou raciocínio que a sustente. E desta forma vai penetrando na História de um Brasil-Portugal imerso numa crise cuja solução extrapola o período selecionado, sem nunca esquecer de situá-la na Europa pré e pós-Revolução Francesa.

O livro mostra o eterno esforço de Kenneth Maxwell em tentar encontrar a versão mais lógica para os acontecimentos que nortearam a relação de brasil e Portugal entre 1750 e 1808. Daí a opção pela ordem cronológica dos fatos, que em alguns momentos chega a se aproximar da estrutura narrativa. O tempo é usado como fio condutor para a sucessão de informações costuradas por análises para chegarem à categoria de hipótese.

Dentro deste padrão geral que dá unidade à obra, “A Devassa da Devassa” é dividida em oito capítulos de títulos simples e diretos, sempre seguidos de duas citações documentais sobre o assunto a ser tratado, e quase sempre contemporâneas ao mesmo.

Tudo começa em julho de 1750, com a morte de D. João V, que leva D. José I ao trono. Está dada a deixa para o tema que permeará todo o primeiro capítulo e, de forma geral, todo o livro: Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marques de Pombal, e sua atuação no governo. Após uma apresentação da situação econômica e política de Portugal, o autor debruça-se sobre as façanhas pombalinas, sempre remetendo-se à relação entre Portugal e Inglaterra como fator imprescindível à compreensão do processo. É dado assim um panorama geral sobre a situação do Brasil das Companhias de Comércio, dos jesuítas, do contrabando. Os capítulos seguintes, “Mudança” e “Divergência”, continuam, cronologicamente, a expor os movimentos principalmente econômicos que geraram a situação que culminaria no episódio central do livro, a Inconfidência Mineira.

A crise do ouro aparece como fator de desenvolvimento não só de Portugal, mas também do Brasil, ambos impulsionados pela substituição de importações, o que acaba por gerar uma burguesia incompatível com a política pombalina de altamente mercantilista. A morte do Rei, a demissão de Pombal e a Independência dos Estados Unidos levam o autor a apresentar a década de 1780 como cenário quase óbvio para a Inconfidência: a nova política metropolitana era desastrosa e os interesses coloniais ganhavam força.

Nesse contexto, Kenneth Maxwell apresenta Minas Gerais com seus personagens. Terra de economia dinâmica e intelectualidade efervescente, entre outros atributos. Terra do grupo de Vila Rica, terra de Tiradentes, o tão proclamado herói da República. E é exatamente essa glorificação, essa imutabilidade nacionalista de uma História sedenta por heróis, como a nossa, que é questionada no livro. Questionamento que se dá via fatos, via raciocínio lógico, sem qualquer fúria tendenciosa. O autor começa descrevendo cada um dos participantes da chamada Inconfidência mineira, apresentando-os como endividados membros da plutocracia mineira, em conflito com um governo cada vez mais rígido principalmente no que cerne à cobrança de tributos. É a partir daí que se dá a desmistificação do movimento.

O capítulo “Conspiração” e uma descrição quase em tom de romance, não fossem os vários e precisos dados apresentados pelo autor, da preparação tentativa de revolução. Descrição física, detalhamento de horário, composição do cenário, números das dívidas. Tudo é descrito. E é nesse momento que aparece com força a tese do autor de que Inconfidência foi movida única e exclusivamente por motivos pessoais, por homens que viam na proposta de um Estado independente a única solução para seus problemas bem menos nobres que uma preocupação ideológica de fundo nacionalista. O nacionalismo era sim exaltado, mas como veículo natural para uma revolução que buscava a independência. E o povo também era convocado por razões não menos óbvias, como coloca o autor: “A conspiração dos mineiros era, basicamente, um movimento de oligarcas e no interesse as oligarquia, sendo o nome do povo invocado apenas como justificativa” (idem, p. 119).

A historiografia institucionalizou a versão de que , estando a revolução programada para a ocasião em que fosse imposta a derrama (já que era necessário um contexto de insatisfação popular), e sabendo-se que Joaquim Silvério dos Reis delatou a intenção do movimento para o governador de Minas Gerais, Barbacena, este último teria cancelado o imposto em função da
denúncia. A proposição de outra versão por Maxwell é talvez um dos pontos mais interessantes da sua tentativa de repensar o episódio. Diante de várias evidências por ele reunidas, o autor chega à conclusão de que a suspensão precedeu a denúncia, e que a atitude de Joaquim Silvério dos reis correspondeu a uma tentativa de ter sua dívida perdoada por fidelidade à coroa, já que com a suspensão da derrama a rebelião fracassaria.

Outro ponto que “A devassa da devassa” mostra-se uma obra inovadora é na apresentação de evidências de que, ao contrário do que mostram os documentos oficiais, Cláudio Manoel da Costa, um dos inconfidentes, teria sido assassinado, e não provocado suicídio.

Mas o ponto principal em que toca Kenneth Maxwell ao propor uma nova visão da Inconfidência mineira diz respeito a Tiradentes, hoje tido como grande herói da Inconfidência e, consequentemente, da Independência. O livro traz a tese de que o alferes Joaquim José da Silva Xavier trazia em si todas as condições para ser “eleito” bode expiatório, sendo o único a ter sua sentença efetivamente executada. Indivíduo em busca de ascensão social, elemento periférico dentre os plutocratas que compunham o grupo revolucionário. É assim que Tiradentes é mostrado, e o autor sugere até mesmo que aquele que viria a ser herói não atuava além das questões práticas, sendo posto de lado nas decisões do movimento, preterido pelos próprios companheiros. A sua morte, espetáculo público, usada como exemplo por um governo temeroso e ainda atônito, fez dele um símbolo. E Maxwell nos lembra que, ao ser interrogado, o inconfidente defendeu ferrenhamente os ideais de República e Independência, trazendo para si toda a responsabilidade da rebelião fracassada. E aí reside seu mérito incontestável: a coragem a e determinação que o transformaram em herói póstumo.

Mas não fossem as circunstâncias a coragem de um homem não teria força para firmar-se como feriado nacional séculos depois. Em “A devassa da devassa” fica claro o papel paradigmático que a fracassada Inconfidência mineira assume no momento de crise entre metrópole e colônia em que ela ocorre. O autor nos lembra que, dentre tantas revoltas, esta ganha destaque por ter sido pioneira no seu nacionalismo e na clareza com que atacava o sistema colonial. E o fato de não terem conseguido o que planejaram, ou a verdadeira natureza de suas motivações não fazem o grupo de Vila Rica menos importante como agente histórico. Nada voltaria a ser como antes. A morte de Tiradentes em nada intimidaria uma sociedade que passava a ver em Portugal um obstáculo, e não uma matriz incondicional. A Inconfidência trouxe à tona um sentimento cujo controle escapava às garras de um mercantilismo já senil.

Desde 21 de abril de 1792 seriam quase três décadas. Foi este o tempo da gestação de uma independência concebida na clandestinidade mineira.
Maxwell encerra o livro fazendo uma análise dos anos que se seguiram, até a vinda da corte portuguesa para o Brasil, em 1808. Anos de conflitos políticos na Europa e de incertezas quanto ao Brasil, movimentado pela Revolta dos alfaiates, na Bahia. E, como se já não bastasse a prolixidade com que expõe dados e ideias, o autor disponibiliza, ao final, mapas, gráficos e tabelas que ilustram todo o período tratado. Uma verdadeira devassa sobre Brasil-Portugal de 1750 a 1808.

Com 'tsunami monetário', Copom corta Selic em 0,75 ponto porcentual

Trata-se do quinto corte consecutivo feito durante o governo Dilma. Questão cambial leva autoridade a aumentar velocidade da redução da taxa de juros

Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, durante evento em 2011 Alexandre Tombini, presidente do Banco Central: questão cambial faz BC aumentar o corte (Dida Sampaio)
Na segunda reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de 2012, o Banco Central (BC) decidiu nesta quarta-feira reduzir a taxa básica de juros (Selic) em 0,75 ponto porcentual, para 9,75% ao ano. É o quinto corte consecutivo efetuado pelo Copom durante o governo da presidente Dilma e o maior desde junho de 2009. Também é a primeira vez, desde 2010, que a Selic recua a menos de 10% ao ano. Ao contrário das reduções anteriores, que não representaram surpresa alguma para o mercado, a de hoje levantava algumas dúvidas.
Até poucos dias atrás, a maior parte dos analistas apontava para um corte de 0,5 ponto porcentual. Esse impasse justifica o fato de, segundo o comunicado do BC, a decisão atual ter tido cinco votos a favor e dois votos pela redução da Selic em 0,5. O que mostra que o corte maior é visto com ressalvas até mesmo entre os próprios diretores do órgão. A autoridade monetária afirmou, em nota, que o corte dá "seguimento ao processo de ajuste das condições monetárias" - o mesmo discurso usado para justificar as decisões anteriores.
Como o câmbio voltou a ser foco de ataque do Planalto, com direito até mesmo à criação de uma metáfora por parte da presidente - o "tsunami monetário" -, o mercado começou a considerar a possível intenção do BC de anunciar um corte  maior para a Selic. Tanto que, na manhã desta quarta-feira, o mercado futuro de juros mantinha apostas majoritárias em um corte de 0,75 p.p.
Enquanto alguns arriscavam esse palpite, outros mais vorazes já apostavam na redução de um ponto. Segundo o analista da Moody's para América Latina, Alfredo Coutiño, a Selic ideal para o momento é de 9,5%. "Se a política monetária continuar restritiva, a atividade econômica continuará fraca", afirma o analista. Já a escola mais ortodoxa não via razão ainda para um corte maior. "O Brasil não tem hoje fundamentos econômicos que justifiquem um corte de 0,75. A única justificativa é a intenção do governo de tirar a força do real", afirma o economista Robert Wood, da Economist Intelligence Unit (EIU).
Na avaliação do mercado, o corte de 0,75 é motivado não só pelo aumento da entrada de dólares no país - tema que vem causando a ira do governo nas últimas semanas - mas também pelo pífio resultado do Produto Interno Bruto (PIB) de 2011, divulgado na terça-feira, e que apontou crescimento de 2,7% para a economia brasileira. Outro número levado em consideração na decisão, na avaliação do mercado, é o dado da produção industrial de janeiro, divulgado na manhã desta quarta, e que apresentou retração de 2,1% - número abaixo do esperado para o período.
Inflação continua o cerne da questão -  O aumento da velocidade da redução da Selic aponta para um questionamento constante que ocorre desde meados de 2011. Até que ponto, para o governo, o crescimento do PIB é mais importante que o controle da inflação? A decisão de hoje mostra que, ainda que a economia brasileira dê sinais recentes de recuperação (o crescimento do PIB do quarto trimestre foi de 0,3%), e a inflação enfim comece a ensaiar uma volta a algo mais próximo do centro da meta (o mercado aponta para o IPCA a 5,24% em 2012), os números parecem não satisfazer a ânsia desenvolvimentista da equipe econômica. Se é preciso sacrificar o PIB para controlar a inflação, a presidente Dilma já deu sinais suficientes de que não irá fazê-lo.
Promessa de crescimento - Na terça, logo após o anúncio do dado, a presidente afirmou, ainda na Alemanha, que o governo anunciará medidas de estímulo à economia - além do corte ampliado da Selic. "O governo brasileiro terá uma posição proativa no sentido de ampliar, cada vez mais, a taxa de crescimento no Brasil de forma sustentável, respeitando o equilíbrio macroeconômico com finanças públicas e uma estrutura fiscal sólida", disse Dilma, em Hannover. Em coletiva de imprensa em Brasília, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, mostrou sintonia com a chefe do Executivo e afirmou que o governo tomará novas ações no decorrer do ano para garantir um crescimento mais forte. Mantega prometeu estímulos à indústria e disse que os bancos públicos continuarão reduzindo juros e o spread bancário.
O primeiro veículo de estímulo deverá ser o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O governo já ordenou o barateamento das linhas de financiamento voltadas para novos investimentos e um aporte de 30 bilhões de reais para a instituição este ano. Com a Selic mais baixa, o governo irá revisar as linhas de financiamento do Programa de Sustentação dos Investimentos (PSI), que contam com subsídios do Tesouro Nacional.
A presidente Dilma também determinou a ampliação das medidas do Plano Brasil Maior (a política industrial lançada no ano passado) para dar estímulos mais fortes ao setor que sofre com o câmbio desfavorável. Segundo assessores próximos, Dilma - e todo o empresariado - está insatisfeita com o programa, que ainda está longe de surtir os efeitos desejados para a indústria.

As piadas estão ficando sem graça?

Pânico chega à Band pedindo liberdade que Rafinha Bastos não teve; ele saiu do CQC depois de piada sobre Wanessa Camargo e o bebê; a trupe de Emílio, no entanto, acumula processos judiciais; humor precisa se reinventar?

Foto: Divulgação 

Por que trabalhar com humor ficou tão perigoso no Brasil? Dá processo, indenização, polêmica… O que está errado: o ofício dos humoristas, cuja vocação é fazer rir, ou a cultura do “politicamente correto”, que tenta higienizar deboche e ironia de todas as partes, inclusive dos programas humorísticos? A alta cúpula da Band está se deparando com essas questões e terá que bater martelo sobre um pedido de seus mais novos funcionários. Recém-chegada da RedeTV!, a irreverente galere do Pânico quer mais do que salários e bônus advindos de merchandising. A coluna Outro Canal, da Folha, informa nesta terça, 21, que os humoristas pediram “liberdade total” no programa.

A preocupação da gang do Pânico é tomar um pito da Band, que tirou do CQC Rafinha Bastos, em outubro do ano passado. O motivo foi a declaração de Rafinha no programa, considerada por muitos infeliz, de que “comeria” Wanessa Camargo e o filho. Os fãs do humorista acharam uma bobagem a dimensão que a brincadeira tomou… Virou caso de Justiça, com direito a feto como autor de ação e uma sentença proferida de maneira ligeiríssima, muito diferente de inúmeras ações que tramitam na Justiça brasileira, condenando Rafinha.



 

A repercussão desse episódio fez o Pânico se certificar de que não vai ser repreendido na nova casa. Para decidir se atende ou não à trupe bem-humorada, a Band poderá levar em conta o histórico judicial da trupe de Emílio, Carioca e Sabrina. O programa já perdeu ações na Justiça da ordem de milhares de reais para globais como Carolina Dieckmann, Luana Piovani e continua enfrentando outros processos, como da própria TV Globo (por uma hilária invasão no Big Brother Brasil).

Além de Band e RedeTV!, a própria TV Globo está na mira do que os humoristas consideram patrulhamento do “politicamente correto”. A dupla mais badalada do programa Zorra Total, Valéria e Janete, foi alvo de uma representação do Sindicato dos Metroviários de São Paulo. A entidade defende que as cenas incentivam assédio sexual porque um homem sempre encosta e abusa de Janete no final do quadro “Metrô Zorra Brasil”. Segundo a Folha, a Globo rebate a carta do sindicato e frisa que nunca incitou abuso sexual e, ao contrário, sempre defendeu os direitos da mulher.

Um entretenimento de sábado à noite, para aqueles que ficaram em casa e não saíram para festa e farra é tão prejudicial assim? O espectador pode mesmo achar que é engraçado atacar Janetes no metrô e sair por aí abusando?



 

Não dá para culpar o humor por um crime… O que se pode discutir é o quanto o humor pode deseducar. Ou, até por causa disso, o quanto pode ser pedagógico. Um bom exemplo é o quadro de Valéria e Janete mesmo.

Ali, reforçam-se estereótipos. Por um lado, a travesti escandalosa está doida atrás de um homem. Por outro lado, a jovem “socialmente feia” não sabe falar direito e é desprezada pela espertalhona Valéria.

Ora, toda travesti faz escândalo e quer homem? Não seria possível fazer uma personagem diferente e tão engraçada quanto? Que tal uma travesti nerd e virgem? Muito inverossímil? Que tal uma jovem “socialmente feia”, Ugly Betty da vida, muito esperta e pegadora? Pegadora, tipo o mulherengo, e não tipo a piranha!

Se você considera que o humor é de mau gosto, vale questionar se você não foi contagiado pela febre do “politicamente correto”. Ao mesmo tempo, se realmente os excessos (de ofensas e preconceitos) é que estão dominando a telinha e as redes, talvez seja o momento de o humor se reinventar. Mas esse é um trabalho duplo: do humorista e do público.

Afinal, o que é que te faz rir?


By: Brasil247

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