quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O neoliberalismo depois do neoliberalismo

 


Por Dag Vulpi - 30 de Setembro de 2026

Entre a liberdade dos mercados e a responsabilidade do Estado, permanece uma pergunta que atravessa nosso tempo: quem deve decidir os limites da economia?

Quando o mercado deixa de ser instrumento e passa a ser princípio

O neoliberalismo costuma ser apresentado de maneira simplificada, ora como sinônimo de liberdade econômica, ora como uma espécie de doutrina de redução do Estado. Nenhuma dessas definições, isoladamente, dá conta de sua história.

Mais do que uma fórmula econômica única, o neoliberalismo foi um conjunto de ideias que ganhou forma ao longo do século XX, em reação ao crescimento do planejamento estatal, ao socialismo e, posteriormente, ao predomínio das políticas econômicas keynesianas. Intelectuais como Friedrich Hayek, Milton Friedman e outros pensadores liberais participaram dessa reconstrução do pensamento de mercado. A criação da Sociedade Mont Pèlerin, em 1947, tornou-se um dos marcos dessa articulação intelectual.

Sua influência cresceu especialmente a partir das décadas de 1970 e 1980. A abertura comercial, a desregulamentação de determinados setores, as privatizações, a disciplina fiscal e a maior circulação internacional de capitais passaram a fazer parte das reformas adotadas por diferentes países, embora em combinações muito distintas.

O princípio fundamental era relativamente simples: mercados competitivos poderiam alocar recursos com mais eficiência do que estruturas estatais excessivamente centralizadas.

O problema começa quando uma ideia originalmente econômica transforma-se em uma espécie de explicação universal para a sociedade.

Porque uma coisa é reconhecer a capacidade do mercado de produzir eficiência, inovação e riqueza.

Outra, muito diferente, é acreditar que tudo aquilo que possui valor social precisa necessariamente obedecer à lógica do mercado.

E talvez seja justamente aí que a discussão sobre o neoliberalismo se torne mais importante.

O mercado e o Estado: adversários ou instrumentos diferentes?

Durante muito tempo, o debate foi apresentado como uma escolha entre dois extremos.

De um lado, o Estado excessivamente intervencionista, burocrático e incapaz de responder com eficiência às necessidades da sociedade.

De outro, um mercado supostamente capaz de corrigir sozinho seus próprios desequilíbrios.

A experiência das últimas décadas mostrou que a realidade é muito mais complexa.

Mercados precisam de regras, instituições, contratos, infraestrutura, moeda estável, segurança jurídica e mecanismos capazes de enfrentar situações em que a concorrência não funciona adequadamente.

O próprio debate econômico internacional passou a reconhecer essa complexidade. Uma análise publicada pelo FMI, por exemplo, observou que algumas políticas associadas à agenda neoliberal produziram benefícios importantes, especialmente na expansão do comércio e no investimento estrangeiro, mas advertiu que determinados tipos de liberalização financeira e de austeridade podem trazer custos relacionados à volatilidade e à desigualdade.

Portanto, talvez a pergunta mais produtiva não seja:

Estado ou mercado?

Mas:

Que Estado? Que mercado? E a serviço de quais objetivos sociais?

A experiência brasileira

No Brasil, a agenda de abertura econômica, privatizações e reformas ganhou grande impulso a partir dos anos 1990 e alcançou especial dimensão durante os governos de Fernando Henrique Cardoso.

As privatizações atingiram setores importantes da economia e fizeram parte de uma transformação mais ampla do papel do Estado na atividade produtiva.

Mas também é preciso evitar uma simplificação histórica: os recursos obtidos nas privatizações não tiveram uma única destinação. O próprio BNDES registra diferentes mecanismos de pagamento e objetivos associados ao programa, incluindo redução de passivos e ajuste fiscal.

O episódio merece ser lembrado não apenas para perguntar se determinada privatização foi “boa” ou “ruim”, mas para compreender uma questão maior:

quando o Estado deixa de ser proprietário, ele necessariamente deixa de ser responsável?

A resposta é não.

Mesmo quando uma atividade passa para a iniciativa privada, continuam existindo questões de regulação, concorrência, universalização do serviço, proteção do consumidor e interesse público.

Privatizar uma empresa não significa privatizar a responsabilidade do Estado perante a sociedade.


China, Índia e a lição que incomoda os extremos

Talvez uma das maiores mudanças na discussão econômica desde que escrevi o texto original esteja justamente aqui.

China e Índia demonstraram que desenvolvimento econômico não precisa seguir uma única cartilha.

A Índia promoveu importantes reformas de liberalização a partir dos anos 1980 e, sobretudo, dos anos 1990. A China iniciou sua transformação ainda em 1978, combinando abertura, mecanismos de mercado, investimento estrangeiro e forte coordenação estatal.

A experiência chinesa é particularmente reveladora.

O país não simplesmente escolheu entre capitalismo e socialismo, Estado e mercado. Construiu uma combinação própria, na qual forças de mercado passaram a desempenhar papel crescente enquanto o Estado continuou exercendo enorme influência sobre setores estratégicos.

O próprio FMI descreve a experiência recente da China como uma combinação de reformas orientadas pelo mercado e direção estatal dos recursos.

Isso nos leva a uma constatação desconfortável para os defensores de respostas prontas:

não existe uma única fórmula econômica capaz de explicar todas as experiências de desenvolvimento.

Quando a educação entra no mercado

É na educação, talvez, que a discussão adquire uma dimensão ainda mais delicada.

Uma sociedade pode — e deve — preocupar-se com eficiência, qualidade, inovação tecnológica e preparação profissional.

Mas existe uma diferença fundamental entre preparar uma pessoa para o trabalho e preparar uma pessoa para a vida.

Quando a educação passa a ser avaliada exclusivamente pelos critérios de produtividade, competitividade e empregabilidade, existe o risco de que sua dimensão cultural, política, ética e humana seja progressivamente relegada a segundo plano.

Isso não significa que toda aproximação entre educação e mercado seja necessariamente prejudicial. Sistemas educacionais podem utilizar mecanismos de escolha, competição e avaliação com diferentes objetivos. A própria OCDE reconhece que mecanismos de competição podem gerar incentivos à eficiência, mas também alerta que seus resultados dependem do contexto e que uma competição mal desenhada pode produzir efeitos contrários aos objetivos educacionais.

A questão, portanto, não é impedir que a escola prepare alguém para o mercado de trabalho.

É impedir que o mercado de trabalho seja transformado no único critério para definir o valor da educação.

O aluno não é apenas consumidor.

O professor não é apenas um fornecedor de conteúdo.

E a escola não é apenas uma fábrica de trabalhadores.

Ela também é um dos lugares onde uma sociedade decide que tipo de ser humano pretende formar.


E o que mudou desde 2015?

Muita coisa.

A pandemia mostrou a importância de sistemas públicos capazes de reagir a uma crise de proporções globais. As guerras e tensões geopolíticas revelaram novamente a importância estratégica das cadeias produtivas, da energia, dos alimentos e da tecnologia. A inteligência artificial começou a alterar profissões, processos produtivos e relações de trabalho.

Ao mesmo tempo, a globalização deixou de parecer uma estrada de mão única.

Países que durante décadas defenderam a máxima abertura passaram a discutir segurança econômica, autonomia tecnológica, semicondutores, energia e proteção de setores considerados estratégicos.

O mundo que surgiu depois da Guerra Fria, baseado na expansão contínua da integração econômica, revelou suas próprias contradições.

E isso talvez nos permita olhar para o neoliberalismo com menos paixão e mais maturidade.

Nem tudo aquilo que veio do mercado deve ser rejeitado.

Nem tudo aquilo que veio do Estado deve ser preservado.

A questão é descobrir onde cada um funciona melhor — e quem deve pagar o preço quando ambos falham.

“Entre o Estado e o mercado, existe uma sociedade.”

Conclusão — depois das certezas

Talvez o maior erro do debate econômico tenha sido transformar instrumentos em dogmas.

O mercado é extraordinariamente eficiente em determinadas circunstâncias. O Estado é indispensável em outras. Há situações em que ambos precisam atuar simultaneamente.

O problema surge quando deixamos de enxergar essas diferenças e passamos a tratar uma determinada doutrina econômica como se ela fosse uma lei natural da sociedade.

O neoliberalismo nasceu, em grande medida, como uma reação à expansão excessiva do poder estatal. Sua trajetória posterior ajudou a transformar mercados, relações de trabalho, empresas e governos em praticamente todas as partes do mundo.

Mas a experiência acumulada desde então também mostrou que mercados não existem no vazio.

Eles dependem de instituições.

Dependem de regras.

Dependem de sociedades minimamente organizadas.

E, sobretudo, dependem de pessoas.

Por isso, talvez a pergunta mais importante para o século XXI não seja se devemos escolher o Estado ou o mercado.

Talvez seja outra:

Como construir uma economia suficientemente livre para produzir riqueza, mas suficientemente responsável para que essa riqueza não se transforme em poder absoluto sobre aqueles que a produzem?

Essa pergunta continua aberta.

E talvez seja justamente por isso que ainda valha a pena discutir o neoliberalismo.


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