quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O neoliberalismo depois do neoliberalismo

 

Por Dag Vulpi - 30 de Setembro de 2026

Entre a liberdade dos mercados e a responsabilidade do Estado, permanece uma pergunta que atravessa nosso tempo: quem deve decidir os limites da economia?

Quando o mercado deixa de ser instrumento e passa a ser princípio

O neoliberalismo costuma ser apresentado de maneira simplificada, ora como sinônimo de liberdade econômica, ora como uma espécie de doutrina de redução do Estado. Nenhuma dessas definições, isoladamente, dá conta de sua história.

Mais do que uma fórmula econômica única, o neoliberalismo foi um conjunto de ideias que ganhou forma ao longo do século XX, em reação ao crescimento do planejamento estatal, ao socialismo e, posteriormente, ao predomínio das políticas econômicas keynesianas. Intelectuais como Friedrich Hayek, Milton Friedman e outros pensadores liberais participaram dessa reconstrução do pensamento de mercado. A criação da Sociedade Mont Pèlerin, em 1947, tornou-se um dos marcos dessa articulação intelectual.

Sua influência cresceu especialmente a partir das décadas de 1970 e 1980. A abertura comercial, a desregulamentação de determinados setores, as privatizações, a disciplina fiscal e a maior circulação internacional de capitais passaram a fazer parte das reformas adotadas por diferentes países, embora em combinações muito distintas.

O princípio fundamental era relativamente simples: mercados competitivos poderiam alocar recursos com mais eficiência do que estruturas estatais excessivamente centralizadas.

O problema começa quando uma ideia originalmente econômica transforma-se em uma espécie de explicação universal para a sociedade.

Porque uma coisa é reconhecer a capacidade do mercado de produzir eficiência, inovação e riqueza.

Outra, muito diferente, é acreditar que tudo aquilo que possui valor social precisa necessariamente obedecer à lógica do mercado.

E talvez seja justamente aí que a discussão sobre o neoliberalismo se torne mais importante.

O mercado e o Estado: adversários ou instrumentos diferentes?

Durante muito tempo, o debate foi apresentado como uma escolha entre dois extremos.

De um lado, o Estado excessivamente intervencionista, burocrático e incapaz de responder com eficiência às necessidades da sociedade.

De outro, um mercado supostamente capaz de corrigir sozinho seus próprios desequilíbrios.

A experiência das últimas décadas mostrou que a realidade é muito mais complexa.

Mercados precisam de regras, instituições, contratos, infraestrutura, moeda estável, segurança jurídica e mecanismos capazes de enfrentar situações em que a concorrência não funciona adequadamente.

O próprio debate econômico internacional passou a reconhecer essa complexidade. Uma análise publicada pelo FMI, por exemplo, observou que algumas políticas associadas à agenda neoliberal produziram benefícios importantes, especialmente na expansão do comércio e no investimento estrangeiro, mas advertiu que determinados tipos de liberalização financeira e de austeridade podem trazer custos relacionados à volatilidade e à desigualdade.

Portanto, talvez a pergunta mais produtiva não seja:

Estado ou mercado?

Mas:

Que Estado? Que mercado? E a serviço de quais objetivos sociais?

A experiência brasileira

No Brasil, a agenda de abertura econômica, privatizações e reformas ganhou grande impulso a partir dos anos 1990 e alcançou especial dimensão durante os governos de Fernando Henrique Cardoso.

As privatizações atingiram setores importantes da economia e fizeram parte de uma transformação mais ampla do papel do Estado na atividade produtiva.

Mas também é preciso evitar uma simplificação histórica: os recursos obtidos nas privatizações não tiveram uma única destinação. O próprio BNDES registra diferentes mecanismos de pagamento e objetivos associados ao programa, incluindo redução de passivos e ajuste fiscal.

O episódio merece ser lembrado não apenas para perguntar se determinada privatização foi “boa” ou “ruim”, mas para compreender uma questão maior:

quando o Estado deixa de ser proprietário, ele necessariamente deixa de ser responsável?

A resposta é não.

Mesmo quando uma atividade passa para a iniciativa privada, continuam existindo questões de regulação, concorrência, universalização do serviço, proteção do consumidor e interesse público.

Privatizar uma empresa não significa privatizar a responsabilidade do Estado perante a sociedade.


China, Índia e a lição que incomoda os extremos

Talvez uma das maiores mudanças na discussão econômica desde que escrevi o texto original esteja justamente aqui.

China e Índia demonstraram que desenvolvimento econômico não precisa seguir uma única cartilha.

A Índia promoveu importantes reformas de liberalização a partir dos anos 1980 e, sobretudo, dos anos 1990. A China iniciou sua transformação ainda em 1978, combinando abertura, mecanismos de mercado, investimento estrangeiro e forte coordenação estatal.

A experiência chinesa é particularmente reveladora.

O país não simplesmente escolheu entre capitalismo e socialismo, Estado e mercado. Construiu uma combinação própria, na qual forças de mercado passaram a desempenhar papel crescente enquanto o Estado continuou exercendo enorme influência sobre setores estratégicos.

O próprio FMI descreve a experiência recente da China como uma combinação de reformas orientadas pelo mercado e direção estatal dos recursos.

Isso nos leva a uma constatação desconfortável para os defensores de respostas prontas:

não existe uma única fórmula econômica capaz de explicar todas as experiências de desenvolvimento.

Quando a educação entra no mercado

É na educação, talvez, que a discussão adquire uma dimensão ainda mais delicada.

Uma sociedade pode — e deve — preocupar-se com eficiência, qualidade, inovação tecnológica e preparação profissional.

Mas existe uma diferença fundamental entre preparar uma pessoa para o trabalho e preparar uma pessoa para a vida.

Quando a educação passa a ser avaliada exclusivamente pelos critérios de produtividade, competitividade e empregabilidade, existe o risco de que sua dimensão cultural, política, ética e humana seja progressivamente relegada a segundo plano.

Isso não significa que toda aproximação entre educação e mercado seja necessariamente prejudicial. Sistemas educacionais podem utilizar mecanismos de escolha, competição e avaliação com diferentes objetivos. A própria OCDE reconhece que mecanismos de competição podem gerar incentivos à eficiência, mas também alerta que seus resultados dependem do contexto e que uma competição mal desenhada pode produzir efeitos contrários aos objetivos educacionais.

A questão, portanto, não é impedir que a escola prepare alguém para o mercado de trabalho.

É impedir que o mercado de trabalho seja transformado no único critério para definir o valor da educação.

O aluno não é apenas consumidor.

O professor não é apenas um fornecedor de conteúdo.

E a escola não é apenas uma fábrica de trabalhadores.

Ela também é um dos lugares onde uma sociedade decide que tipo de ser humano pretende formar.

E o que mudou desde 2015?

Muita coisa.

A pandemia mostrou a importância de sistemas públicos capazes de reagir a uma crise de proporções globais. As guerras e tensões geopolíticas revelaram novamente a importância estratégica das cadeias produtivas, da energia, dos alimentos e da tecnologia. A inteligência artificial começou a alterar profissões, processos produtivos e relações de trabalho.

Ao mesmo tempo, a globalização deixou de parecer uma estrada de mão única.

Países que durante décadas defenderam a máxima abertura passaram a discutir segurança econômica, autonomia tecnológica, semicondutores, energia e proteção de setores considerados estratégicos.

O mundo que surgiu depois da Guerra Fria, baseado na expansão contínua da integração econômica, revelou suas próprias contradições.

E isso talvez nos permita olhar para o neoliberalismo com menos paixão e mais maturidade.

Nem tudo aquilo que veio do mercado deve ser rejeitado.

Nem tudo aquilo que veio do Estado deve ser preservado.

A questão é descobrir onde cada um funciona melhor — e quem deve pagar o preço quando ambos falham.

“Entre o Estado e o mercado, existe uma sociedade.”

Conclusão — depois das certezas

Talvez o maior erro do debate econômico tenha sido transformar instrumentos em dogmas.

O mercado é extraordinariamente eficiente em determinadas circunstâncias. O Estado é indispensável em outras. Há situações em que ambos precisam atuar simultaneamente.

O problema surge quando deixamos de enxergar essas diferenças e passamos a tratar uma determinada doutrina econômica como se ela fosse uma lei natural da sociedade.

O neoliberalismo nasceu, em grande medida, como uma reação à expansão excessiva do poder estatal. Sua trajetória posterior ajudou a transformar mercados, relações de trabalho, empresas e governos em praticamente todas as partes do mundo.

Mas a experiência acumulada desde então também mostrou que mercados não existem no vazio.

Eles dependem de instituições.

Dependem de regras.

Dependem de sociedades minimamente organizadas.

E, sobretudo, dependem de pessoas.

Por isso, talvez a pergunta mais importante para o século XXI não seja se devemos escolher o Estado ou o mercado.

Talvez seja outra:

Como construir uma economia suficientemente livre para produzir riqueza, mas suficientemente responsável para que essa riqueza não se transforme em poder absoluto sobre aqueles que a produzem?

Essa pergunta continua aberta.

E talvez seja justamente por isso que ainda valha a pena discutir o neoliberalismo.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Quando a riqueza do petróleo pertence à sociedade: a experiência norueguesa e uma pergunta para o Brasil

O que acontece quando uma nação decide transformar parte de seus recursos naturais em patrimônio coletivo?

Dag Vulpi 18 de setembro de 2026

Em um mundo onde a riqueza produzida por recursos naturais frequentemente se concentra em poucas mãos, a experiência da Noruega oferece um modelo que merece ser conhecido e debatido. Por meio da participação estatal na empresa petrolífera Equinor e da gestão de um dos maiores fundos soberanos do planeta, o país transformou parte de sua riqueza petrolífera em patrimônio público. Não se trata de distribuir diretamente os dividendos da empresa a cada cidadão, mas de utilizar os rendimentos e as receitas do Estado em uma estrutura de riqueza coletiva. A experiência norueguesa nos convida a refletir: seria possível pensar em mecanismos semelhantes para que a riqueza produzida no Brasil beneficiasse de maneira mais ampla toda a sociedade?

1. O petróleo pode ser mais do que uma fonte de lucro

Ao longo da história, a exploração de recursos naturais gerou riquezas extraordinárias. Petróleo, gás, minérios e outras matérias-primas contribuíram para o desenvolvimento de empresas, cidades e nações.

Mas uma questão permanece presente no debate econômico e social: quem deve se beneficiar da riqueza produzida por recursos que pertencem, em alguma medida, ao patrimônio de uma nação?

A resposta varia conforme as instituições, as leis e as escolhas políticas de cada país.

A Noruega oferece um exemplo relevante porque construiu um sistema no qual o Estado mantém participação em empresas estratégicas e administra as receitas petrolíferas com uma perspectiva de longo prazo.

2. A participação do Estado na Equinor

A Equinor é uma empresa petrolífera e energética de capital aberto. O governo norueguês detém 67% de suas ações, sendo o acionista majoritário.

Em 2025, segundo o relatório oficial de participação estatal, a Equinor pagou aproximadamente 34,7 bilhões de coroas norueguesas em dividendos ao Estado. O valor representa uma fonte de receita pública, não um pagamento individual automático aos cidadãos.

3. O Fundo Soberano: transformar riqueza presente em patrimônio futuro

O Fundo Soberano Global da Noruega foi criado para administrar parte das receitas petrolíferas do país e investir esses recursos no exterior.

Seu propósito é contribuir para a preservação da riqueza nacional ao longo do tempo, inclusive para as gerações futuras.

O mecanismo é relativamente simples de compreender:

  • O Estado arrecada receitas provenientes da atividade petrolífera e de outras fontes.

  • Parte desses recursos é acumulada no fundo.

  • O fundo investe em ativos financeiros internacionais.

  • O governo utiliza transferências do fundo no orçamento público, dentro das regras fiscais estabelecidas.

O dinheiro não é distribuído igualmente em contas bancárias de todos os noruegueses. O benefício ocorre principalmente por meio da gestão do patrimônio público e do financiamento das despesas estatais.

Aqui está a distinção que muitas vezes se perde nas explicações populares sobre o modelo norueguês.

O cidadão norueguês não precisa receber diretamente uma parcela dos dividendos da Equinor para que a participação estatal tenha potencial de gerar benefícios sociais.

Quando os rendimentos das empresas e os recursos petrolíferos contribuem para as finanças públicas, eles podem apoiar a capacidade do Estado de financiar políticas públicas, investimentos e serviços à população.

Isso não significa que cada benefício social seja financiado exclusivamente pelos dividendos da Equinor. O orçamento norueguês reúne diferentes fontes de receita, e o fundo obedece a regras específicas de utilização.

A propriedade pública, portanto, não equivale necessariamente à distribuição direta de dinheiro, mas pode representar uma forma de socialização dos benefícios econômicos de um patrimônio nacional.

5. O que essa experiência nos ensina sobre o Brasil?

O Brasil também possui empresas estratégicas e recursos naturais de grande valor. A Petrobras é um exemplo importante: o Estado brasileiro mantém o controle da companhia, que possui acionistas públicos e privados.

A discussão sobre os dividendos de empresas estatais envolve questões como:

  • Qual deve ser o papel do Estado na propriedade de empresas estratégicas?

  • Como equilibrar retorno financeiro, investimentos e objetivos de interesse público?

  • De que maneira a riqueza proveniente dos recursos naturais pode contribuir para reduzir desigualdades?

  • Seria possível constituir ou fortalecer mecanismos de patrimônio coletivo de longo prazo?

Não existe uma única resposta obrigatória para essas perguntas. Diferentes modelos de propriedade, tributação e distribuição podem ser examinados, levando em conta as características econômicas e institucionais de cada país.

O exemplo norueguês não deve ser tratado como uma fórmula que pode ser simplesmente copiada. A Noruega possui uma trajetória histórica, estrutura fiscal, população e condições de exploração petrolífera próprias.

Entretanto, sua experiência oferece um ponto de partida concreto para discutir como uma sociedade pode administrar riquezas naturais pensando não apenas no presente, mas também no futuro.

6. Riqueza coletiva e cidadania

Existe uma diferença significativa entre afirmar que os recursos de uma nação pertencem formalmente ao Estado e construir mecanismos que façam a população perceber benefícios duradouros dessa riqueza.

A propriedade pública, por si só, não garante uma distribuição justa. É necessário considerar a transparência, a qualidade da gestão, a responsabilidade fiscal, a prestação de contas e a forma como os recursos são convertidos em benefícios sociais.

Da mesma maneira, a distribuição direta de dinheiro não é o único modo de beneficiar a população. Serviços públicos de qualidade, investimentos em educação, saúde, infraestrutura e proteção social também podem representar formas de retorno coletivo.

A questão central não é apenas quanto o Estado arrecada, mas como a riqueza arrecadada é administrada e quais resultados produz para a sociedade.

Para refletir:

Uma reflexão sobre riqueza e sociedade

A riqueza produzida por uma nação não deveria ser avaliada apenas pelo tamanho dos lucros que gera, mas também pela capacidade de transformar esses lucros em oportunidades para as pessoas.

O exemplo norueguês nos lembra que um recurso natural pode ser administrado como patrimônio de longo prazo, e não apenas como uma fonte de ganhos imediatos.

O verdadeiro desafio de uma sociedade não é apenas produzir riqueza, mas construir instituições capazes de fazer com que seus frutos alcancem, de maneira responsável e sustentável, a população.

Fontes e referências

  • Governo da Noruega — Participação estatal.

  • Equinor — Relatórios anuais e informações aos acionistas.

  • Norges Bank Investment Management — Fundo Soberano Global.

  • Governo da Noruega — Regras de gestão das receitas petrolíferas.

Entre indícios e provas: o que realmente se sabe sobre as investigações envolvendo Alexandre de Moraes?

 


Por Dag Vulpi - 18 de Setembro de 2026

Quando a informação envolve autoridades públicas, a responsabilidade de quem comunica é tão importante quanto a de quem investiga

A divulgação de informações relacionadas a uma investigação da Polícia Federal envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o Banco Master despertou questionamentos sobre contratos advocatícios, comunicações com o banqueiro Daniel Vorcaro e possíveis tentativas de influência sobre assuntos investigativos. Mas, em meio à disputa política e à intensa circulação de notícias, uma pergunta precisa orientar o debate: o que são fatos documentados, o que são indícios e o que ainda depende de comprovação?

A democracia também depende da qualidade da informação

Em uma democracia, autoridades públicas não estão acima da fiscalização. Ministros do Supremo Tribunal Federal, parlamentares, membros do Executivo e representantes de instituições financeiras devem estar sujeitos aos mecanismos de controle previstos na legislação.

Entretanto, fiscalizar não significa condenar antecipadamente. Uma investigação existe justamente para esclarecer fatos, verificar responsabilidades e reunir elementos que permitam conclusões fundamentadas.

É nesse ponto que a discussão envolvendo Alexandre de Moraes exige atenção.

1. O que está sendo investigado?

As informações divulgadas sobre o caso Banco Master mencionam comunicações entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, além de contratos firmados entre o banco e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

Também foram divulgadas alegações relacionadas a possíveis pedidos de auxílio ou intervenção em assuntos de interesse do banqueiro.

Esses elementos justificam perguntas e podem ser examinados pelas autoridades competentes. Contudo, a existência de contatos pessoais, contratos ou solicitações não demonstra, isoladamente, a prática de um crime.

A análise precisa avançar para o conteúdo das comunicações, a natureza dos serviços contratados, os atos efetivamente praticados e a eventual existência de vantagem indevida.

2. Indício não é prova definitiva

Essa distinção é essencial para qualquer cidadão que deseje compreender uma investigação.

Um indício é um elemento que pode apontar para determinada hipótese e justificar aprofundamento investigativo. Já a comprovação de uma irregularidade exige um conjunto de provas capaz de sustentar a conclusão, respeitados o contraditório, a ampla defesa e o devido processo legal.

Por exemplo:

  • A existência de um contrato é um fato documental.

  • A suspeita de que esse contrato tenha sido utilizado para uma finalidade ilícita é uma hipótese que precisa ser investigada.

  • A demonstração de que houve crime depende da comprovação dos elementos específicos da conduta.

Confundir essas três etapas prejudica a compreensão pública e pode transformar uma investigação em um julgamento antecipado.

3. A importância da Polícia Federal e das instituições de controle

A Polícia Federal tem a função de investigar possíveis crimes dentro de suas atribuições legais. O Ministério Público, o Poder Judiciário e outros órgãos competentes possuem responsabilidades próprias no processo de apuração e responsabilização.

Ao mesmo tempo, as instituições também precisam ser fiscalizadas. Uma investigação deve respeitar os limites legais, e seus procedimentos podem ser questionados quando existirem fundamentos para isso.

A defesa de Alexandre de Moraes contestou aspectos da apuração, enquanto as informações divulgadas sobre o caso alimentaram questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses e relações com o Banco Master. Essas posições precisam ser apresentadas com clareza, distinguindo alegações, respostas e fatos comprovados.

4. O perigo da politização da informação

Em um ambiente de polarização, um mesmo documento pode ser utilizado por grupos políticos para sustentar narrativas opostas.

Alguns podem apresentar qualquer menção a uma autoridade como prova de corrupção. Outros podem rejeitar automaticamente toda suspeita por envolver alguém com quem concordam ou discordam politicamente.

Ambas as atitudes dificultam o exercício da cidadania informada.

O compromisso com a verdade exige que a avaliação das evidências não dependa da simpatia ou da antipatia por uma pessoa, partido ou instituição. A mesma régua deve ser utilizada para todos.

5. O que o cidadão deve perguntar?

Diante de uma notícia sobre uma investigação, algumas perguntas ajudam a evitar conclusões precipitadas:

Qual é a fonte original da informação? É o relatório integral da Polícia Federal, uma decisão judicial, uma manifestação da defesa ou uma reportagem baseada em documentos?

O que está comprovado documentalmente? Existem mensagens, contratos, registros financeiros ou outros elementos verificáveis?

Qual é a interpretação dos investigadores? Uma hipótese investigativa não deve ser apresentada como conclusão definitiva.

Qual foi a resposta da pessoa investigada? O direito de defesa faz parte da apuração legítima.

Existe uma decisão judicial ou conclusão formal? É preciso identificar o estágio real do procedimento, sem confundir investigação com condenação.

Essas perguntas não servem para proteger autoridades de fiscalização. Servem para garantir que a fiscalização seja séria e que o cidadão não seja conduzido por informações incompletas.

Para refletir

A democracia não exige que o cidadão suspenda seu senso crítico diante das instituições. Exige que ele o utilize com responsabilidade.

Questionar o poder é necessário. Examinar as provas é indispensável. E reconhecer os limites do que ainda não sabemos é uma demonstração de maturidade cívica.

Entre a defesa incondicional e a condenação precipitada, existe um caminho mais exigente: o compromisso com os fatos, com o devido processo legal e com a verdade.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

VOSSA EXCELÊNCIA, SÉRGIO MAURO, E A JUSTIÇA PARTILHADA

 


Uma crônica sobre poder, privilégios e a curiosa geometria da justiça

Por Dag Vulpi

A justiça, o patrimônio e um Fusca 66

Há histórias que começam com uma tragédia, atravessam o território da comédia e terminam oferecendo ao leitor uma desconfortável pergunta: afinal, de que lado estava a justiça?

A que vou contar é uma dessas.

Por razões que o leitor compreenderá ao final, preservarei o nome do meu velho conhecido. Afinal, existem pessoas que perdem os bens, outras que perdem a esperança e algumas que, por uma combinação particularmente infeliz de circunstâncias, quase perdem até o direito de reclamar.

Tudo começou quando ele me telefonou, anunciando, com um entusiasmo cuidadosamente moderado, que finalmente havia uma data para a audiência de partilha dos bens do casamento.

Estava separado havia quase um ano. O casamento, que durara mais de 25 anos, chegara ao fim. E, como costuma acontecer nessas ocasiões, o amor já havia deixado de ser assunto. Restava a parte mais delicada da união: decidir quem ficaria com o quê.

O problema é que meu amigo não estava exatamente diante de uma disputa comum.

Seu ex-sogro era juiz. A ex-sogra, uma advogada de reconhecida experiência. Um dos ex-cunhados ocupava o cargo de deputado. Do outro lado da mesa, ele contava com um jovem advogado obtido por intermédio da Defensoria Pública.

Não era exatamente uma partida de xadrez equilibrada. Parecia mais uma dessas partidas em que um jogador chega com o tabuleiro, as peças, o árbitro e, por precaução, alguém para explicar as regras ao adversário.

Mas meu amigo ainda acreditava na Justiça. E isso, convenhamos, já era uma demonstração considerável de esperança.

O patrimônio de uma vida

Ao longo de mais de duas décadas de casamento, ele havia trabalhado muito. Construíra um patrimônio que lhe dava orgulho, não apenas pelo valor financeiro, mas pelo significado de cada conquista.

Havia um apartamento de frente para o mar, onde vivera com a esposa durante mais de 15 anos. Dois outros apartamentos, presenteados às filhas quando se casaram. Um sítio nas montanhas capixabas, dois carros importados, uma moto e uma respeitável quantia de dinheiro aplicada.

Era o resultado de uma vida dedicada ao trabalho e à família.

De vez em quando, ele gostava de lembrar os tempos mais modestos. Contava que, quando jovem, seu único patrimônio havia sido um Fusquinha 1966. O carro, guardado como relíquia na garagem da casa da mãe, ainda recebia algumas voltas ocasionais, mais por afeto do que por necessidade.

Agora, entretanto, o Fusca havia deixado de ser uma lembrança.

Era seu principal meio de transporte.

A vida, às vezes, tem um senso de humor que nenhum roteirista ousaria apresentar a um produtor.

Uma proposta razoável

Sugeri que nos encontrássemos para conversar. Talvez uma análise mais tranquila pudesse ajudá-lo a enxergar alguma saída para aquela situação.

Marcamos um almoço.

Ele chegou pontualmente, tentando vestir a serenidade de quem já havia perdido algumas noites de sono. Depois das amenidades de praxe, entramos no assunto.

Ouvi o que tinha a dizer e procurei organizar a situação com alguma objetividade. Não era advogado, tampouco pretendia substituir o profissional que o acompanhava. Mas acreditava que, diante de um problema, uma conversa sensata poderia ajudar a encontrar uma solução menos dolorosa.

Comecei pelo sítio.

Ele gostava daquele lugar. A ex-esposa, ao contrário, não suportava passar ali nem um final de semana. O apartamento na praia, por sua vez, era uma paixão dela, enquanto ele não demonstrava o mesmo entusiasmo.

— Veja — disse eu —, talvez exista uma solução relativamente simples. Se os imóveis têm valores equivalentes, cada um poderia ficar com aquele de que mais gosta.

Ele me olhou com atenção.

A ideia parecia razoável.

Quanto aos carros, a divisão também não seria tão complicada. Cada um ficaria com um veículo. A moto poderia ser destinada à ex-esposa ou ao neto. E ele conservaria o velho Fusca.

Fiz, contudo, uma ressalva: como o Fusca estava registrado em seu nome, era necessário considerar os direitos patrimoniais da ex-esposa.

Quanto ao dinheiro aplicado, a solução seria igualmente objetiva: uma divisão em partes iguais.

Meu amigo coçou a cabeça.

— Sabe que você tem razão? A partilha talvez não seja tão complicada quanto eu estava imaginando. Mas é muita sacanagem dividir em partes iguais tudo o que consegui com uma vida inteira de trabalho. Quase não tenho dormido pensando nisso.

Eu compreendia sua angústia. Ainda assim, procurei mostrar-lhe outro ângulo.

— Você também precisa considerar que vocês viveram juntos durante mais de 20 anos. Construíram uma família. Suas filhas, que você tanto admira, também fazem parte dessa história. Talvez seja importante reconhecer que o patrimônio não é a única medida de uma vida compartilhada.

Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois concordou.

— É verdade. Sem ela, eu não teria aquela família. Pelo menos, não aquela.

Tomamos um café. Quando nos preparávamos para ir embora, ele fez um pedido:

— Você poderia me acompanhar ao fórum no dia da audiência? Sua presença me transmite tranquilidade. Meu advogado não consegue fazer isso.

Aceitei.

Não imaginava, naquele momento, que estava prestes a assistir a uma das mais curiosas interpretações da palavra partilha.

O dia da audiência

No dia marcado, cheguei ao fórum.

Meu amigo já estava lá. Havia ido com o velho Fusquinha, seu talismã, como costumava dizer. Talvez acreditasse que aquele pedaço de sua história pudesse lhe trazer alguma sorte.

O jovem advogado apareceu no instante em que os envolvidos foram chamados.

Uma pena. Eu gostaria de ter conversado com ele, conhecido sua estratégia, entendido como pretendia conduzir a defesa. Talvez pudéssemos trocar algumas ideias sobre a divisão dos bens.

Mas a Justiça tem seus próprios horários. E quem está no fórum, seja para trabalhar ou buscar atendimento, aprende rapidamente que a espera é uma espécie de disciplina institucional.

Eles entraram na sala.

Encontrei alguns conhecidos, troquei meia dúzia de palavras e, depois de alguns minutos, resolvi ir embora.

Mais tarde, telefonei para meu amigo.

Nada.

A ligação caía na caixa postal. Imaginei que estivesse sem bateria. Afinal, quem poderia prever que, em uma disputa patrimonial, até um telefone celular poderia adquirir importância estratégica?

Decidi ir à casa da mãe dele, onde estava morando havia mais de oito meses.

Conversas de mãe

Fui recebido com o sorriso acolhedor de sua mãe. Fazia algum tempo que não nos víamos. Ela me convidou a entrar e preparou um café enquanto aguardávamos a chegada do filho.

Conversamos sobre os tempos antigos, sobre como a vida era difícil e sobre a curiosa impressão de que, apesar das dificuldades, as pessoas pareciam encontrar mais motivos para se alegrar.

Como quase sempre acontece quando se conversa com uma mãe, o assunto acabou chegando ao filho.

Ela contou que o casamento já vinha se deteriorando havia algum tempo. Segundo ela, o filho estava infeliz e dizia não confiar mais na esposa.

Depois, com a cautela de quem apresenta uma informação que ainda não pode ser confirmada, mencionou um rumor: a ex-nora estaria se relacionando com um jovem advogado ligado ao ex-sogro.

Não fiz comentários.

Há notícias que, quando chegam acompanhadas de um café, continuam sendo apenas notícias. E rumores, por mais convenientes que sejam para uma narrativa, não se transformam em fatos pela força da repetição.

Como meu amigo demorava a chegar, despedi-me de sua mãe e disse que telefonaria mais tarde.

Saí para a rua.

O calor era intenso.

Atravessei até o bar da esquina, pedi um chope e me acomodei. Minha expectativa era simples: que ele aparecesse com boas notícias.

Na verdade, eu já havia planejado um final de semana no sítio. Se a partilha tivesse chegado a um resultado razoável, poderíamos descansar, conversar e tentar fazer com que ele deixasse aquela história para trás.

O primeiro chope terminou.

Eu estava prestes a pedir o segundo quando um carro passou diante do bar.

Olhei.

E precisei olhar novamente.

A geometria da justiça

Era ele.

Meu amigo.

Ao volante.

Mas havia alguma coisa profundamente errada naquela cena.

O carro parecia... menor.

Não menor no sentido figurado. Menor mesmo.

Foi então que compreendi.

Ele estava dirigindo meio Fusca.

Isso mesmo.

Um Fusca cortado ao meio.

Por um instante, fiquei sem saber se deveria rir, chorar ou pedir ao garçom que trouxesse algo mais forte. Optei por continuar olhando, porque há situações em que o espanto precisa de alguns segundos para se organizar.

Mais tarde, fiquei sabendo dos detalhes da audiência.

E foi assim que a história, que já parecia estranha, alcançou o território do absurdo.

Segundo o relato que me chegou, meu amigo havia ficado praticamente sem nada. O apartamento na praia, o sítio, os carros importados, o dinheiro aplicado e até o celular haviam permanecido com a ex-esposa.

O juiz, Sérgio Mauro, seria próximo do ex-sogro. A ex-sogra participara como advogada. O deputado, irmão da ex-esposa, teria telefonado de Brasília durante a audiência, pedindo para falar com o magistrado.

E o advogado que deveria defender meu amigo — aquele jovem profissional obtido pela Defensoria Pública — seria justamente o advogado ligado à família da ex-esposa e mencionado no rumor que sua mãe havia contado.

Não sei se o leitor já percebeu, mas, nessa altura, a palavra imparcialidade começava a parecer um conceito de difícil localização geográfica.

Contudo, havia ainda uma questão a resolver.

O Fusca.

O velho Fusquinha 66.

A relíquia.

O último símbolo de uma vida anterior à partilha.

O último bem

O juiz teria identificado que o Fusca havia sido adquirido antes do casamento.

Portanto, segundo a lógica apresentada na narrativa, seria necessário dividir o bem.

Mas como dividir um Fusca?

Ora, a Justiça é criativa quando se dispõe a ser.

O magistrado teria determinado que o veículo fosse cortado ao meio.

Duas partes.

Uma para cada lado.

Como quem divide um pão francês.

Meu amigo, que havia passado anos trabalhando para construir um patrimônio, agora contemplava a síntese material de sua partilha: metade de um automóvel antigo.

O patrimônio se reduzira à sua mais elementar expressão geométrica.

E tudo, naturalmente, em nome da justiça.

Resumo da ópera

O apartamento de frente para o mar ficou com a ex-esposa.

O sítio nas montanhas, também.

Os dois carros importados, idem.

A quantia de quase dois milhões de reais, igualmente.

O celular, que não atendia quando eu telefonava, mudou de mãos.

E o Fusca 66, comprado antes do casamento, foi dividido em duas partes.

Não sei se o leitor consegue imaginar a solenidade de uma decisão como essa.

Talvez o nobre representante da lei tenha pensado que, diante da impossibilidade de dividir o patrimônio de maneira equânime, restava ao menos dividir o automóvel com precisão.

Uma justiça milimétrica.

Uma justiça que, ao que parece, não deixava nada inteiro.

Nem mesmo o Fusca.

Epílogo: a medida das coisas

Há quem diga que a justiça deve ser cega.

Talvez.

Mas, diante de certas histórias, a pergunta que nos ocorre é outra: será que ela também deveria aprender a reconhecer quando está diante de uma balança desequilibrada?

Meu velho conhecido, que entrou no fórum com um patrimônio construído ao longo de uma vida, saiu da história com metade de um Fusca.

A outra metade, imagino, ficou do lado de lá.

E assim terminou a partilha.

Não sei se houve justiça.

Mas uma coisa é certa: quando o poder se senta à mesa, até a divisão de um pão francês pode exigir uma interpretação jurídica.

E, se algum dia você vir um Fusca 66 circulando pela cidade, cortado ao meio, não se apresse em concluir que se trata de uma excentricidade mecânica.

Pode ser apenas a justiça tentando encontrar seu ponto de equilíbrio.

Ou, quem sabe, sua metade.

Nota editorial

A versão acima é uma recriação literária satírica baseada na narrativa do artigo de 22 de abril de 2017, que poderá ser conferida clicando aqui . As referências a favorecimento, contatos pessoais e relacionamento entre personagens devem ser compreendidas como elementos da crônica, não como comprovação independente de fatos ou acusações contra pessoas reais.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A Ilusão de Competência: Como a Era da Informação Virou Refúgio da Ignorância

 


Dag Vulpi — 16 de setembro de 2026

O grande dilema contemporâneo não é a falta de conhecimento de quem admite não saber, mas a arrogância do pseudoinformado. Entre bolhas algorítmicas e certezas prontas, a estupidez encontrou voz, plateia e validação mútua.

Nunca tivemos tanto conhecimento ao alcance das mãos. Contudo, jamais foi tão fácil converter ignorância em certeza, desinformação em convicção e mera opinião em autoridade. A revolução digital democratizou o acesso ao saber, mas trouxe um efeito colateral severo: a democratização e a escala industrial do desconhecimento.

A Queda das Barreiras e o Novo Paradigma

Durante séculos, o saber esteve protegido pela barreira física do acesso. A internet derrubou esses muros, permitindo o escrutínio imediato de acervos e pesquisas globais — uma conquista extraordinária para quem busca a emancipação intelectual. No entanto, a mesma estrutura que liberta o saber facilita a difusão da mentira.

A diferença fundamental entre ambos reside no método:

  • O conhecimento exige esforço, tolera a dúvida e convida à investigação.

  • A desinformação exige apenas aceitação, entrega respostas fáceis e demanda contágio rápido.

O Excesso de Dados e a Ilusão de Saber

Historicamente, o desafio humano foi a escassez de dados; hoje, o drama é a saturação. Bombardeados por manchetes apelativas, vídeos curtos e recortes fora de contexto, sofremos uma sobrecarga cognitiva.

Quando a capacidade crítica não acompanha a velocidade do fluxo, a informação deixa de gerar aprendizado e passa a produzir apenas uma sensação de conhecimento. O indivíduo contemporâneo não sabe mais, mas sente que sabe — e a distância entre compreender e ter a impressão de compreender é abissal.

A Diluição entre Opinião e Ciência

Divergir é natural, mas o ambiente digital borrou a fronteira entre emitir um palpite e dominar um fato. Na mesma tela e sob a mesma lógica algorítmica, o especialista com décadas de pesquisa dedicada disputa espaço e relevância com o leigo que assistiu a um vídeo de cinco minutos. Para parcela expressiva do público, ambos passam a ter o mesmo peso.

A Bolha e a Estupidez Organizada

Mais grave do que a mentira isolada é o isolamento em ecossistemas imunes ao contraditório. Nas bolhas digitais, a repetição substitui a comprovação. O grupo autogera sua própria autoridade: qualquer evidência contrária é sumariamente descartada como manipulação, rotulando cientistas, educadores e jornalistas como "doutrinadores" ou "comprados".

Espelhando a clássica análise de Carlo M. Cipolla sobre a estupidez, a ignorância moderna deixou de ser uma limitação individual para se organizar em rede. Trata-se de uma verdadeira cooperativa da ilusão: nenhum membro possui respaldo técnico, mas todos oferecem convicção suficiente para validar uns aos outros.

O Pseudoinformado e o Resgate da Razão

O ignorante consciente é saudável, pois reconhece seus limites e se abre ao aprendizado. Já o pseudoinformado padece da ilusão de competência: absorveu dados suficientes para abandonar a modéstia, mas não o bastante para alcançar a complexidade do tema. A ignorância deixa, assim, de provocar o silêncio prudente e vira vetor de pertencimento e exibição.

A maior promessa da Era da Informação nunca foi o direito de todos opinarem sobre tudo, mas a oportunidade de todos aprenderem sobre quase tudo. A liberdade de expressão é um pilar democrático inegociável, contudo, o direito de falar não converte o discurso em verdade. Cabe ao rigor lógico, às evidências e ao estudo conferir real autoridade ao pensamento.

domingo, 13 de setembro de 2026

Quando a ignorância ganhou voz: informação, bolhas e a estupidez organizada


Dag Vulpi - 13 de Setembro de 2026

Nunca tivemos tanto conhecimento ao alcance das mãos. Mas também nunca foi tão fácil transformar ignorância em certeza, desinformação em convicção e opinião em uma espécie de autoridade. A revolução da informação democratizou o conhecimento — mas, involuntariamente, também democratizou a capacidade de produzir e espalhar o desconhecimento.

Durante séculos, o conhecimento esteve protegido por uma espécie de barreira natural: o acesso.

Para consultar determinados livros era preciso encontrar uma biblioteca. Para conhecer uma pesquisa científica, er de Setembro de a necessário localizar uma publicação. Para compreender determinados assuntos, muitas vezes era necessário procurar alguém que tivesse estudado aquilo durante anos.

A internet derrubou quase todas essas barreiras.

Hoje, uma pessoa pode, em poucos segundos, consultar documentos, pesquisas, livros, jornais, universidades e especialistas de praticamente qualquer parte do mundo.

É uma conquista extraordinária.

A informação, quando encontra uma mente disposta a aprender, pode produzir algo próximo de uma emancipação intelectual.

Mas existe uma contradição incômoda.

A mesma ferramenta que democratizou o acesso ao conhecimento democratizou também o acesso à desinformação.

E existe uma diferença fundamental entre os dois.

O conhecimento exige esforço.

A desinformação exige apenas aceitação.

O conhecimento admite dúvidas.

A desinformação oferece certezas.

O conhecimento convida à investigação.

A desinformação frequentemente exige apenas compartilhamento.

A informação em excesso

Durante muito tempo, o problema da humanidade foi a escassez de informação.

Hoje, o problema pode estar começando a ser justamente o contrário.

Recebemos informação em uma quantidade e velocidade para as quais nosso cérebro, nossa formação e nossa capacidade de discernimento nem sempre estão preparados.

São milhares de estímulos por dia.

Uma notícia.

Um vídeo.

Uma manchete.

Um comentário.

Um gráfico.

Uma suposta pesquisa.

Uma opinião de alguém que se apresenta como especialista.

Um áudio de WhatsApp.

Uma imagem fora de contexto.

Uma frase atribuída a alguém que jamais a pronunciou.

Tudo isso chega ao mesmo indivíduo praticamente no mesmo espaço cognitivo.

E quando a capacidade de avaliar aquilo que recebemos não acompanha a velocidade com que recebemos, a informação pode deixar de produzir conhecimento e começar a produzir apenas sensação de conhecimento.

Essa talvez seja uma das características mais curiosas do nosso tempo.

A pessoa não sabe necessariamente mais.

Mas sente que sabe.

E essa diferença é gigantesca.

Quando a opinião passou a valer tanto quanto o conhecimento

Ter opinião é uma característica inevitável da vida em sociedade.

O problema surge quando desaparece a distinção entre opinar sobre aquilo que se conhece e afirmar aquilo que não se conhece como se fosse conhecimento.

Uma pessoa pode perfeitamente discordar de um economista.

Mas, para sustentar uma posição econômica contra décadas de estudos, deveria possuir argumentos proporcionais àquilo que pretende contestar.

Pode discordar de um historiador.

Mas seria razoável conhecer, ao menos minimamente, os fatos históricos que pretende reinterpretar.

Pode questionar um cientista.

Mas deveria estar disposta a estudar as evidências que sustentam aquilo que está contestando.

O ambiente digital, porém, criou uma situação inédita: a distância entre conhecimento e opinião tornou-se praticamente invisível.

Na mesma tela, o pesquisador que passou vinte anos estudando determinado assunto aparece ao lado daquele que acabou de assistir a um vídeo de cinco minutos sobre o tema.

Visualmente, ambos ocupam o mesmo espaço.

Algoritmicamente, ambos podem alcançar milhares ou milhões de pessoas.

E, para uma parcela do público, ambos passam a possuir exatamente o mesmo valor.

A bolha: quando a mentira encontra companhia

Mas talvez o fenômeno mais perigoso não seja sequer a existência da desinformação.

É a formação das bolhas.

Porque uma mentira isolada ainda pode ser confrontada.

Uma pessoa pode apresentar uma informação falsa e outra pode apresentar a informação correta.

O problema começa quando pessoas que compartilham a mesma crença passam a viver dentro de um ambiente informacional no qual praticamente ninguém as contradiz.

Aí acontece algo muito mais poderoso.

A convicção passa a ser confirmada pela repetição.

Uma pessoa publica uma afirmação falsa.

Outra compartilha.

Uma terceira comenta: “É exatamente isso!”

Uma quarta acrescenta uma suposta prova.

Uma quinta conta uma experiência pessoal que parece confirmar a história.

E, depois de algumas horas, aquela informação já não parece uma hipótese.

Parece um fato.

Não porque tenha sido comprovada.

Mas porque foi repetida por pessoas que pensam da mesma maneira.

A bolha produz, assim, uma espécie de consenso artificial.

Não é necessário que alguém saiba.

Basta que todos acreditem.

E quanto mais fechada a bolha, menos importante se torna aquilo que acontece fora dela.

A realidade exterior passa a ser tratada como manipulação.

O especialista que discorda é “comprado”.

O jornalista que contradiz é “vendido”.

A universidade que apresenta evidências diferentes é “doutrinadora”.

O estudo científico que desmente a crença é “fraude”.

A instituição que não confirma a narrativa é imediatamente incorporada à própria narrativa como parte da conspiração.

A bolha possui, portanto, uma característica extraordinariamente resistente:

ela consegue transformar qualquer evidência contrária em evidência a seu favor.

Cipolla e a estupidez que produz vítimas

É nesse ponto que Carlo M. Cipolla oferece uma lente particularmente interessante.

Em As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, Cipolla propõe uma classificação provocadora do comportamento humano baseada na relação entre os benefícios e os prejuízos provocados pelas ações de cada indivíduo.

O aspecto mais perturbador de sua reflexão está na figura do estúpido: aquele que produz prejuízo para os outros e, muitas vezes, também para si próprio.

Transportada para o ambiente das redes sociais — sem pretender reduzir a complexidade da obra de Cipolla a esse fenômeno — a ideia ganha uma atualidade impressionante.

Porque a estupidez contemporânea deixou de ser necessariamente individual.

Ela pode se organizar em rede.

O indivíduo acredita em uma falsidade.

Outro indivíduo reforça.

Um terceiro fornece uma justificativa.

Um quarto encontra uma “prova”.

E todos passam a validar uns aos outros.

O resultado é uma espécie de cooperativa da ignorância.

Ninguém possui conhecimento suficiente para sustentar aquilo que afirma, mas todos possuem confiança suficiente para sustentar uns aos outros.

E é justamente isso que torna a situação tão difícil de combater.

O pseudoinformado não se sente ignorante

Talvez esse seja o ponto mais delicado de todos.

O ignorante que sabe que não sabe está em uma posição intelectualmente saudável.

Ele pode perguntar.

Pode ouvir.

Pode aprender.

Pode mudar de opinião.

O pseudoinformado, porém, vive uma situação completamente diferente.

Ele recebeu informação suficiente para abandonar a consciência da própria ignorância, mas não recebeu conhecimento suficiente para compreender a complexidade do assunto.

É uma espécie de ilusão de competência.

E quando encontra outros pseudoinformados, essa sensação se fortalece.

Um confirma o outro.

A certeza de um passa a ser a prova da certeza do outro.

O grupo cria sua própria autoridade.

E aquilo que antes seria reconhecido como desconhecimento passa a ser apresentado como coragem.

O sujeito que talvez antigamente se calasse diante de um assunto que não dominava agora pode sentir orgulho de falar sobre ele.

Não porque tenha estudado.

Mas porque descobriu outras pessoas que também não estudaram e que pensam exatamente como ele.

A ignorância, então, deixa de ser motivo de silêncio.

Passa a ser motivo de pertencimento.

Quando a escuridão passa a parecer luz

É por isso que determinadas bolhas são tão difíceis de romper.

Não estamos mais diante de uma simples disputa entre informação verdadeira e informação falsa.

Estamos diante de uma disputa pela própria percepção da realidade.

Para quem está dentro da bolha, aquilo que está fora parece suspeito.

E aquilo que está dentro parece verdadeiro justamente porque é compartilhado por todos.

A luz que vem de fora é percebida como ameaça.

A escuridão interna, por sua vez, parece familiar.

É aqui que a metáfora da luz ganha força.

Não adianta simplesmente gritar para alguém que está no escuro que ele está no escuro.

É preciso acender uma luz.

Mas existe uma dificuldade adicional: algumas pessoas, depois de muito tempo na escuridão, passam a acreditar que a luz é o problema.

A informação que contradiz suas convicções não é recebida como oportunidade de aprendizado.

É recebida como agressão.

E quanto maior a pressão externa, mais a bolha pode se fechar.

A verdadeira liberdade intelectual

Talvez a maior promessa da sociedade da informação nunca tenha sido a possibilidade de todos falarem sobre tudo.

Talvez tenha sido a possibilidade de todos aprenderem sobre quase tudo.

Existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

A liberdade de expressão é fundamental.

Mas liberdade para falar não transforma automaticamente aquilo que é dito em verdade.

A democracia pode garantir a todos o direito de expressar uma opinião.

Não pode garantir que todas as opiniões tenham o mesmo valor factual.

E uma sociedade que confunde essas duas coisas corre o risco de transformar o conhecimento em apenas mais uma opinião entre muitas.

Precisamos, portanto, recuperar uma virtude aparentemente simples, mas cada vez mais rara: a humildade de reconhecer os limites do próprio conhecimento.

Dizer “não sei” não é uma derrota.

É uma porta aberta.

Perguntar não é fraqueza.

É inteligência em movimento.

Mudar de opinião diante de uma evidência não é humilhação.

É maturidade.

E desconfiar daquilo que confirma perfeitamente aquilo que já pensamos talvez seja uma das maiores formas de inteligência na era das redes.

Porque a informação pode nos libertar.

Mas somente se estivermos dispostos a permitir que ela também nos contradiga.

Caso contrário, deixamos de utilizar a informação para descobrir a realidade e passamos a utilizá-la apenas para justificar aquilo em que já acreditávamos.

E então acontece o paradoxo definitivo da nossa época:

nunca tivemos tanta luz disponível — e, ainda assim, milhões de pessoas conseguem viver voluntariamente dentro de bolhas de escuridão, iluminadas apenas pela falsa claridade produzida umas pelas outras.

Talvez o desafio do nosso tempo não seja simplesmente levar informação às pessoas.

É ensiná-las a reconhecer a diferença entre informação e conhecimento, entre opinião e evidência, entre convicção e verdade.

Porque, no fim das contas, não é a quantidade de informação que torna uma sociedade mais inteligente.

É a capacidade de distinguir, entre milhões de vozes, quais delas estão tentando iluminar o caminho — e quais apenas aprenderam a gritar no escuro.

Nota reflexiva

A tecnologia colocou nas mãos do indivíduo algo que, durante séculos, pertenceu a instituições, governos, universidades e grupos privilegiados: o poder de alcançar multidões.

Isso é extraordinariamente democrático.

Mas todo poder carrega uma responsabilidade.

Hoje, qualquer pessoa pode ser emissora de informação. Poucas, entretanto, possuem formação suficiente para compreender a responsabilidade que acompanha esse poder.

Talvez seja essa a grande tarefa educacional do século XXI: não ensinar apenas a encontrar informação, mas ensinar a duvidar corretamente dela.

Porque uma sociedade não se torna mais esclarecida simplesmente quando todos podem falar.

Ela se torna mais esclarecida quando seus cidadãos aprendem a ouvir, comparar, verificar, refletir — e reconhecer, sem vergonha, que às vezes a verdade está justamente do outro lado daquilo que desejavam acreditar.

E talvez seja aí que a velha frase ganhe um significado novo:

a escuridão não desaparece porque gritamos contra ela. Desaparece quando acendemos uma luz.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Quando o trabalho deixar de ser necessário

 


Dag Vulpi - 11 de Setembro de 2026

Durante milênios, a humanidade lutou para produzir o suficiente para sobreviver. O capitalismo acelerou como nunca essa capacidade de produção. Mas a inteligência artificial, a robótica e a automação podem nos colocar diante de uma mudança ainda mais profunda: e se, um dia, a riqueza puder ser produzida sem depender da maior parte do trabalho humano? Talvez a grande questão do futuro não seja mais como produzir riqueza, mas como distribuí-la e, sobretudo, a quem ela deve pertencer.

Há perguntas que parecem pertencer ao futuro, mas que começam a nascer no presente.

Uma delas talvez seja esta: o que acontecerá com uma sociedade quando o trabalho humano deixar de ser indispensável para produzir grande parte da riqueza de que ela necessita?

Não se trata de anunciar o fim do capitalismo, tampouco de defender antecipadamente algum modelo econômico alternativo. Trata-se, antes, de observar uma possibilidade histórica que pode alterar profundamente os fundamentos sobre os quais organizamos nossa vida social.

Durante milhares de anos, a humanidade esteve submetida à escassez. Produzir alimentos, construir moradias, transportar mercadorias, fabricar ferramentas e garantir a própria sobrevivência exigiam enormes quantidades de trabalho humano.

O desenvolvimento tecnológico foi mudando essa realidade.

A agricultura mecanizada substituiu grande parte do trabalho braçal. A industrialização multiplicou a capacidade produtiva. A eletricidade transformou as cidades. Os computadores alteraram a maneira como produzimos e nos comunicamos. Agora, a inteligência artificial e a robótica começam a avançar sobre atividades que, até pouco tempo atrás, pareciam exclusivamente humanas.

É possível que estejamos diante de mais uma transformação tecnológica.

Mas talvez seja uma transformação diferente.

Não apenas porque as máquinas poderão produzir mais, melhor e mais rapidamente. Mas porque, pela primeira vez, podemos começar a imaginar uma economia na qual uma parcela crescente da produção de riqueza não dependa diretamente da quantidade de trabalho humano empregado.

E é aqui que uma antiga questão ganha uma nova dimensão.

Marx diante do século XXI

Karl Marx escreveu no século XIX, em uma sociedade marcada por jornadas exaustivas, trabalho infantil, baixos salários, ausência de proteção social e condições de trabalho que hoje nos parecem inaceitáveis.

Sua preocupação central estava relacionada às relações entre capital, trabalho e propriedade.

É natural, portanto, imaginar que um Marx do século XXI encontraria problemas diferentes daqueles que encontrou no século XIX.

Talvez sua pergunta já não fosse apenas:

“Como reduzir a exploração do trabalhador?”

Talvez fosse:

“O que acontece quando a própria necessidade de trabalhadores começa a desaparecer?”

Essa mudança é enorme.

Se uma fábrica precisa de dez mil trabalhadores para produzir determinada quantidade de mercadorias, a questão distributiva passa necessariamente pelos salários pagos a esses trabalhadores.

Mas se, graças à automação, aquela mesma produção puder ser realizada por algumas centenas de pessoas — ou eventualmente por muito menos — surge uma questão nova.

Como a maioria da população participará da riqueza produzida?

Não basta responder que as pessoas poderão procurar novos empregos.

Essa resposta funciona enquanto novas atividades humanas surgem em quantidade suficiente para substituir aquelas que desapareceram.

Mas o que acontece se a velocidade da automação superar a capacidade de criação de novos postos de trabalho?

Nesse cenário, talvez o problema deixe de ser simplesmente o desemprego.

Poderá ser a própria relação entre trabalho e direito à riqueza.

Keynes talvez tivesse algo a dizer

É curioso lembrar que John Maynard Keynes, escrevendo em 1930, imaginou algo que ainda parece surpreendentemente contemporâneo.

Ao refletir sobre o futuro de seus netos, Keynes especulou que o progresso tecnológico poderia levar a humanidade a uma situação na qual o problema econômico fundamental — a necessidade de trabalhar incessantemente para sobreviver — ocupasse uma parcela muito menor da existência.

Keynes não estava propondo o abandono do capitalismo.

Ao contrário.

Sua preocupação era compreender como uma economia capitalista poderia lidar com a possibilidade de uma crescente abundância material e, ao mesmo tempo, garantir estabilidade, emprego, renda e demanda.

Hoje, a pergunta ganha uma dimensão ainda maior.

Se as máquinas produzirem cada vez mais, quem terá renda para comprar aquilo que as máquinas produzem?

Durante muito tempo, capitalismo e trabalho formaram uma espécie de engrenagem.

O trabalhador recebia salário.

Com o salário, consumia.

O consumo ajudava a sustentar a produção.

A produção gerava lucros.

E os lucros alimentavam novos investimentos.

A automação pode começar a alterar essa engrenagem.

Se uma empresa consegue produzir cada vez mais utilizando cada vez menos trabalhadores, ela pode aumentar sua produtividade e seus lucros.

Mas existe uma questão que não desaparece:

quem comprará toda essa produção?

E se o capital não precisar mais do trabalho?

Aqui talvez esteja uma das questões mais delicadas.

Durante a maior parte da história do capitalismo, capital e trabalho, apesar de suas profundas desigualdades, permaneceram economicamente interdependentes.

O capital precisava do trabalho para produzir.

O trabalhador precisava do salário para sobreviver.

E o sistema precisava dos dois.

Mas imagine uma situação em que inteligência artificial, robótica, energia abundante e sistemas automatizados permitam produzir quase tudo aquilo que uma sociedade necessita com uma quantidade muito pequena de trabalho humano.

Nesse cenário, uma grande concentração de capital poderia significar também uma crescente independência em relação ao trabalho.

E então a antiga oposição entre capital e trabalho poderia assumir outra forma.

Talvez o conflito fundamental já não fosse:

“capital contra trabalhadores”.

Poderia tornar-se:

“capital concentrado contra uma sociedade que já não possui participação significativa na propriedade do capital produtivo”.

Essa mudança seria profunda.

Porque o problema deixaria de ser apenas o salário.

Seria a propriedade da capacidade de produzir riqueza.

A pergunta que talvez venha depois

É aqui que nossa conversa retorna àquela frase que resume, de certa maneira, todo o problema:

A humanidade passou milênios lutando contra a escassez. Quando finalmente começar a vencê-la, poderá descobrir que o maior problema não era produzir riqueza — era decidir a quem ela pertence.

Não é uma pergunta necessariamente contra o capitalismo.

Também não é uma defesa automática do socialismo.

É uma pergunta sobre o futuro.

Se uma sociedade conseguir produzir riqueza em abundância, talvez não seja necessário abandonar mercados, empresas, empreendedorismo ou propriedade privada.

Mas talvez seja necessário repensar a ideia de que o acesso à riqueza deve depender exclusivamente da capacidade de cada indivíduo de vender sua força de trabalho.

Essa distinção é fundamental.

Uma sociedade pode continuar valorizando o trabalho, o mérito, a iniciativa e o empreendedorismo sem transformar o emprego em condição absoluta para uma existência digna.

Talvez surjam novas formas de participação econômica.

Uma renda básica.

Serviços públicos universais.

Fundos sociais de investimento.

Participação dos cidadãos nos ganhos proporcionados pela automação.

Tributação sobre grandes patrimônios produtivos.

Participação dos trabalhadores nos resultados das empresas.

Ou até alguma forma de patrimônio social coletivo, capaz de fazer com que parte dos ganhos da tecnologia pertença, de alguma maneira, à própria sociedade.

Nada disso está determinado.

São possibilidades.

E o Estado?

Aqui surge outra questão interessante.

Durante muito tempo, parte do pensamento socialista imaginou que, em uma sociedade futura, o Estado perderia progressivamente sua função.

Mas talvez a revolução tecnológica produza justamente o problema inverso.

Quanto mais poderoso se tornar o capital automatizado, maior poderá ser a necessidade de uma instituição capaz de garantir que a riqueza produzida pela sociedade não seja apropriada de maneira absolutamente concentrada.

Isso não significa necessariamente um Estado que controle toda a economia.

Pode significar um Estado democrático com uma função diferente daquela que conhecemos hoje: garantir que os ganhos extraordinários produzidos pela tecnologia sejam convertidos também em benefícios coletivos.

E talvez, em um mundo onde o capital já atravessa fronteiras com enorme facilidade, essa discussão não possa permanecer exclusivamente nacional.

As grandes empresas são globais.

O dinheiro circula globalmente.

A tecnologia é global.

Os dados são globais.

Mas a maior parte das instituições democráticas continua organizada em torno de Estados nacionais.

Talvez essa seja uma das grandes contradições políticas do século XXI.

Não seria o fim do capitalismo

Talvez o erro esteja em imaginar que toda transformação profunda precise terminar com a substituição completa de um sistema por outro.

O capitalismo já mudou muitas vezes.

A sociedade que conhecemos hoje seria praticamente irreconhecível para um capitalista do século XIX.

Direitos trabalhistas, previdência social, educação pública, saúde pública, sindicatos, legislação ambiental, tributação progressiva e inúmeras outras instituições foram incorporadas à vida econômica sem que isso significasse necessariamente o desaparecimento do mercado.

Talvez o futuro siga caminho semelhante.

Não necessariamente uma ruptura.

Talvez uma transformação.

O mercado poderia continuar existindo.

Empresas poderiam continuar existindo.

A propriedade privada poderia continuar existindo.

O lucro poderia continuar existindo.

Mas talvez a sociedade precisasse encontrar mecanismos para garantir que uma parcela dos benefícios produzidos por uma economia cada vez mais automatizada fosse compartilhada por todos.

Nesse caso, a grande mudança não estaria necessariamente na forma de produzir.

Estaria na forma de participar da riqueza produzida.

Uma conversa que ainda não terminou

Se Marx estivesse sentado à mesa, talvez perguntasse:

“Quem possui as máquinas?”

Keynes talvez acrescentasse:

“E quem terá renda para comprar o que elas produzem?”

Um economista do nosso tempo poderia perguntar:

“Como financiar uma sociedade em que o trabalho representa uma parcela cada vez menor da produção?”

E nós, olhando para o século XXI, talvez precisássemos acrescentar uma pergunta ainda mais simples:

“Se a tecnologia permitir que todos vivam melhor, por que não permitir que todos participem dessa prosperidade?”

Não sabemos ainda qual será a resposta.

Talvez o capitalismo encontre uma nova forma de adaptação.

Talvez surjam modelos econômicos híbridos que hoje ainda não conseguimos definir.

Talvez a própria ideia de propriedade econômica seja transformada.

Talvez a humanidade simplesmente não consiga resolver essa questão e atravesse um período de enorme concentração de riqueza e poder.

Mas uma coisa parece razoavelmente certa:

a tecnologia pode mudar a pergunta econômica fundamental.

Durante séculos perguntamos como produzir mais.

Depois perguntamos como produzir melhor.

Agora talvez tenhamos de começar a perguntar:

como compartilhar a abundância?

Porque, se um dia chegarmos ao ponto em que máquinas possam produzir quase tudo aquilo de que precisamos, talvez a maior conquista da humanidade não seja simplesmente ter conseguido vencer a escassez.

Talvez seja descobrir uma maneira de fazer com que a abundância não pertença apenas a quem possui as máquinas.

E talvez seja aí que Marx, Keynes e o próprio capitalismo possam, pela primeira vez, começar uma conversa verdadeiramente nova.

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