Rubem Alves*
Meninos,
meninas, vou lhes contar como tudo começou, do jeito como me ensinaram. Há
muitos milênios atrás (um milênio são mil anos!), antes mesmo que a roda
tivesse sido inventada, a vida era uma pancadaria generalizada, pauladas,
pedradas, furadas ( eram feitas com paus pontudos; ainda não haviam descoberto
um jeito de fazer flechas com pedras lascadas), cada um por si, cada um contra
todos. Um famoso pensador chamado Hobbes disse que era um estado de “guerra de
todos contra todos”. Não havia leis. As leis servem para proibir aquilo que não
pode ser feito. Assim, cada um fazia o que queria. Roubar não era crime porque
não havia uma lei que dissesse “é proibido roubar”. Matar não era crime porque
não havia uma lei que dissesse “ é proibido matar”. E não havia pessoas
encarregadas de fazer cumprir a lei: juizes, polícia. É para isso que a polícia
existe: para impedir que a lei seja quebrada e para proteger os cidadãos
comuns. Quem tivesse o porrete maior era o que mandava. Houve até um famoso
presidente dos Estados Unidos que explicou o seu jeito de governar: “Falar
manso e ter um porrete grande nas mãos...” Os jeitos primitivos continuam ainda
em vigor.
É
fácil entender. Imaginem uma coisa doida: um jogo de futebol em que não haja
regras e
