Investigados por desvio de R$ 21
milhões em dízimo, pastores agora são acusados de coagir testemunhas, inclusive
com armas. Objetivo era mudar os depoimentos
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Presidente
nomeado no fim de 2012, o pastor Elson Pedro
dos Reis fez exame de corpo de delito do
DML
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Uma testemunha do inquérito que
investiga possíveis irregularidades no uso de dinheiro do dízimo da Igreja
Cristã Maranata foi ameaçada diretamente, nesta terça-feira (12), logo após as
primeiras informações sobre a operação da Polícia Federal e do Ministério
Público Estadual que levou à prisão de quatro pastores da igreja. A informação
é do promotor de Justiça Paulo Panaro, do Grupo de Atenção Especial de Combate
ao Crime Organizado (Gaeco).
"Tão logo a imprensa começou a divulgar a execução dos mandados de busca e
de prisão preventiva pela Polícia Federal, essa vítima da coação recebeu três
ligações. Em duas delas não se falou nada. Na terceira, o interlocutor que estava
do outro lado da linha dizia para a vítima: 'Olha, você viu o que você acabou
de fazer? Eu vim de longe para te pegar. Vou só esperar a poeira baixar e você
vai ver o que vai acontecer", contou o promotor.
Paulo Panaro disse que um documento, datado e assinado pela testemunha, foi
deixado no gabinete dele, no MPES, com essas informações. A ameaça será
investigada. O Gaeco vai tentar identificar de onde partiram os telefonemas.
Além da investigação sobre o dinheiro do dízimo, o MPES e a PF começaram a investigar
ameaças que testemunhas do inquérito começaram a receber ao longo das apurações
dos promotores.
Pelo menos 20 pessoas – incluindo promotores e até uma juíza – foram ameaçadas
pela cúpula da Igreja Maranata desde outubro passado. É o que apontam
investigações conduzidas pelos Gaeco. A intenção com a coação era fazer com que
as pessoas mudassem depoimentos que já haviam prestado e que incriminavam
membros da igreja no desvio de recursos do dízimo, um rombo que pode chegar a
R$ 21 milhões. E as investidas deram certo: segundo a promotoria, sete pessoas
mudaram suas declarações.
Por essas atitudes, quatro pastores foram presos, na manhã desta terça-feira
(13), todos em Vila Velha, pela Polícia Federal, numa operação feita em
conjunto com o Gaeco. Entre eles está Elson Pedro dos Reis, pastor nomeado
presidente no final do ano passado, depois que a Justiça afastou todos os
administradores da igreja.
Preso em seu apartamento na orla da
Praia da Costa, às 6h, ele foi levado ao Centro de Detenção Provisória de Viana
assim como outro pastor, Amadeu Loureiro Lopes. Antes, fez exame de corpo de
delito no Departamento Médico Legal.
Outro recolhido foi o pastor, advogado e PM reformado Carlos Itamar Coelho
Pimenta, levado ao Quartel da PM em Vitória. Já o líder histórico que presidia
a igreja até 2012, Gedelti Victalino Gueiros, ficará em prisão domiciliar por
ter mais de 80 anos. Segundo os promotores, dois policiais ficarão na casa
dele. As prisões foram decretadas pelo juiz Marcelo Loureiro, da Vara da Central
de Inquéritos.
O promotor Paulo Panaro relata que as
apurações apontam, com provas, que testemunhas e autoridades eram coagidas. “Há
coações morais e psicológicas.” Mas houve situações mais graves: “Até com uso
de armas”, disse. No caso das autoridades do Ministério Público (MP) e do
Judiciário, as ameaças eram feitas para convencê-las a mudar atitudes nas
investigações ou decisões a serem tomadas.
Sem tolerância
O procurador-chefe do MP, Eder
Pontes, considerou a situação grave e disse que não vai tolerar interferência
no trabalho dos promotores. “O MP não se curvará à pressão de quem quer que
decida interferir na apuração do fatos e na ação da Justiça”, frisou, assinalando
que quem fizer isso responderá na Justiça.
Pontes observou que as investigações que apuram as fraudes praticadas por
administradores da Maranata não representam uma ação direta contra a igreja.
“Pelo contrário: nosso objetivo é preservar a boa imagem da instituição”,
disse.
Entre os crimes cometidos pelos que fizeram as ameaças estão desobediência à
Justiça. No fim de 2012, a diretoria da Maranata foi afastada e impedida de
cuidar da administração, o que não foi respeitado. Também é considerado o crime
de coação no decurso do processo e de formação de quadrilha para colocar as
intimidações em prática.
Pastor usou até arma para coagir testemunha
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Carlos
Itamar Coelho Pimenta, que além de pastor é
advogado e
militar reformado, foi levado ao Quartel da PM
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Até uma arma foi utilizada por um
pastor da Maranata para coagir uma testemunha a mudar o depoimento que
prejudicava líderes da igreja. O relato foi feito em depoimento prestado a
Paulo Panaro, um dos promotores que apuram os casos de coações contra
testemunhas e autoridades.
Panaro relata que a testemunha foi convidada para uma conversa sobre a situação
da igreja e, ao chegar ao local, foi surpreendida com a presença de uma arma em
cima da mesa. Diante da situação, a testemunha desabafou ao promotor: “Se estão
ameaçando até promotores, o que vão fazer comigo?”
Engano
Em outras
situações, as testemunhas eram convidadas a reuniões para tratar de assuntos
administrativos de suas igrejas. Ao chegarem, eram surpreendidas com ameaças.
“Aproveitavam-se da credulidade dos fiéis. Não faziam ameaças diretas, mas
diziam: ‘O que você está fazendo não está bom e está prejudicando pessoas.
Seria melhor mudar o que está dizendo para que isso não ocorra. E várias
mudaram depoimentos”, disse Panaro.
Também foram constatados casos de fiéis conduzidos a cartórios, com seus
pastores para alterar as declarações. “E o teor dos documentos era ditado pelos
pastores”, assinalou o promotor Otávio Guimarães.
Ele revelou que
testemunhas relataram que pastores da Maranata haviam “declarado guerra” a um
dos promotores que investigavam o caso. “Quando isso é falado para outra
autoridade pública de forma tal que conduza esta autoridade a repensar o que já
fez antes, fica claro que estamos tratando de pessoas que, aparentemente, não
estão medindo palavras ou transmitindo uma mensagem de intimidação”, pontuou
Guimarães.
Foram afirmações como esta que levaram os promotores a pedir a prisão de quatro
líderes da Maranata, detidos nesta terça-feira (12). “Somados a outros
elementos que indicam a possibilidade potencial de algo mais grave nos levou a
uma medida cautelar”, explicou o promotor Guimarães, ao se referir as prisões
feitas.
Outra modalidade de ameaça constatada pelos promotores do Gaeco foi a abertura
de processos nas áreas cível e criminal. Todos eles foram movidos pela Igreja
Maranata contra as pessoas que já prestaram depoimentos no processo e contra
autoridades que investigam o caso.
Panaro só teme que as prisões não perdurem o tempo necessário, em decorrência
do poder de influência que pastores da Maranata têm em órgãos federais,
estaduais e municipais. “As prisões não serão revogadas com o aval do
Ministério Público”, assinalou. E o procurador-chefe do MP, Eder Pontes,
adiantou: “Não aceitamos ações, sejam de pessoas comuns ou ligadas ao meio
jurídico, que venham inibir ou coibir testemunhas ou autoridades que investigam
as fraudes. Isto não será tolerado”.
As ameaças
Arma
Há relato de que
uma testemunha foi convidada por um pastor da Maranata a mudar seu depoimento –
que a igreja considerava prejudicial a seus líderes – e que a conversa
aconteceu com uma arma em cima da mesa.
Cartórios
e ditados
De acordo com os promotores,
vários fiéis que prestaram depoimento foram levados a cartórios, conduzidos por
seus pastores, para alterar suas declarações. Os novos depoimentos eram ditados
pelos pastores.
Medo
Observações
veladas eram ditas aos fiéis, em frases como: “Para o seu próprio bem, é melhor
alterar seu depoimento”. Com medo de represálias no aspecto moral e
psicológico, fiéis decidiram alterar seus depoimentos.
Autoridades
Promotores e até
uma juíza também foram alvo de ameaças. O objetivo era impedir as investigações
ou fazer com que promovessem revisões em suas decisões. Houve casos de
depoimentos em que fiéis relataram que pastores “declararam guerra” a um
promotor que investiga o caso.
Processos
Diversas ações,
tanto na área cível como na área criminal, foram abertas contra as pessoas que
já prestaram depoimentos na Justiça. Isso foi considerado como um mecanismo de
coação pelos que investigam o caso. Há processo também contra promotores, além
de uma representação no Conselho Nacional do Ministério Público, em Brasília.
Gazeta Online