domingo, 13 de setembro de 2026

Quando a ignorância ganhou voz: informação, bolhas e a estupidez organizada


Dag Vulpi - 13 de Setembro de 2026

Nunca tivemos tanto conhecimento ao alcance das mãos. Mas também nunca foi tão fácil transformar ignorância em certeza, desinformação em convicção e opinião em uma espécie de autoridade. A revolução da informação democratizou o conhecimento — mas, involuntariamente, também democratizou a capacidade de produzir e espalhar o desconhecimento.

Durante séculos, o conhecimento esteve protegido por uma espécie de barreira natural: o acesso.

Para consultar determinados livros era preciso encontrar uma biblioteca. Para conhecer uma pesquisa científica, er de Setembro de a necessário localizar uma publicação. Para compreender determinados assuntos, muitas vezes era necessário procurar alguém que tivesse estudado aquilo durante anos.

A internet derrubou quase todas essas barreiras.

Hoje, uma pessoa pode, em poucos segundos, consultar documentos, pesquisas, livros, jornais, universidades e especialistas de praticamente qualquer parte do mundo.

É uma conquista extraordinária.

A informação, quando encontra uma mente disposta a aprender, pode produzir algo próximo de uma emancipação intelectual.

Mas existe uma contradição incômoda.

A mesma ferramenta que democratizou o acesso ao conhecimento democratizou também o acesso à desinformação.

E existe uma diferença fundamental entre os dois.

O conhecimento exige esforço.

A desinformação exige apenas aceitação.

O conhecimento admite dúvidas.

A desinformação oferece certezas.

O conhecimento convida à investigação.

A desinformação frequentemente exige apenas compartilhamento.

A informação em excesso

Durante muito tempo, o problema da humanidade foi a escassez de informação.

Hoje, o problema pode estar começando a ser justamente o contrário.

Recebemos informação em uma quantidade e velocidade para as quais nosso cérebro, nossa formação e nossa capacidade de discernimento nem sempre estão preparados.

São milhares de estímulos por dia.

Uma notícia.

Um vídeo.

Uma manchete.

Um comentário.

Um gráfico.

Uma suposta pesquisa.

Uma opinião de alguém que se apresenta como especialista.

Um áudio de WhatsApp.

Uma imagem fora de contexto.

Uma frase atribuída a alguém que jamais a pronunciou.

Tudo isso chega ao mesmo indivíduo praticamente no mesmo espaço cognitivo.

E quando a capacidade de avaliar aquilo que recebemos não acompanha a velocidade com que recebemos, a informação pode deixar de produzir conhecimento e começar a produzir apenas sensação de conhecimento.

Essa talvez seja uma das características mais curiosas do nosso tempo.

A pessoa não sabe necessariamente mais.

Mas sente que sabe.

E essa diferença é gigantesca.

Quando a opinião passou a valer tanto quanto o conhecimento

Ter opinião é uma característica inevitável da vida em sociedade.

O problema surge quando desaparece a distinção entre opinar sobre aquilo que se conhece e afirmar aquilo que não se conhece como se fosse conhecimento.

Uma pessoa pode perfeitamente discordar de um economista.

Mas, para sustentar uma posição econômica contra décadas de estudos, deveria possuir argumentos proporcionais àquilo que pretende contestar.

Pode discordar de um historiador.

Mas seria razoável conhecer, ao menos minimamente, os fatos históricos que pretende reinterpretar.

Pode questionar um cientista.

Mas deveria estar disposta a estudar as evidências que sustentam aquilo que está contestando.

O ambiente digital, porém, criou uma situação inédita: a distância entre conhecimento e opinião tornou-se praticamente invisível.

Na mesma tela, o pesquisador que passou vinte anos estudando determinado assunto aparece ao lado daquele que acabou de assistir a um vídeo de cinco minutos sobre o tema.

Visualmente, ambos ocupam o mesmo espaço.

Algoritmicamente, ambos podem alcançar milhares ou milhões de pessoas.

E, para uma parcela do público, ambos passam a possuir exatamente o mesmo valor.

A bolha: quando a mentira encontra companhia

Mas talvez o fenômeno mais perigoso não seja sequer a existência da desinformação.

É a formação das bolhas.

Porque uma mentira isolada ainda pode ser confrontada.

Uma pessoa pode apresentar uma informação falsa e outra pode apresentar a informação correta.

O problema começa quando pessoas que compartilham a mesma crença passam a viver dentro de um ambiente informacional no qual praticamente ninguém as contradiz.

Aí acontece algo muito mais poderoso.

A convicção passa a ser confirmada pela repetição.

Uma pessoa publica uma afirmação falsa.

Outra compartilha.

Uma terceira comenta: “É exatamente isso!”

Uma quarta acrescenta uma suposta prova.

Uma quinta conta uma experiência pessoal que parece confirmar a história.

E, depois de algumas horas, aquela informação já não parece uma hipótese.

Parece um fato.

Não porque tenha sido comprovada.

Mas porque foi repetida por pessoas que pensam da mesma maneira.

A bolha produz, assim, uma espécie de consenso artificial.

Não é necessário que alguém saiba.

Basta que todos acreditem.

E quanto mais fechada a bolha, menos importante se torna aquilo que acontece fora dela.

A realidade exterior passa a ser tratada como manipulação.

O especialista que discorda é “comprado”.

O jornalista que contradiz é “vendido”.

A universidade que apresenta evidências diferentes é “doutrinadora”.

O estudo científico que desmente a crença é “fraude”.

A instituição que não confirma a narrativa é imediatamente incorporada à própria narrativa como parte da conspiração.

A bolha possui, portanto, uma característica extraordinariamente resistente:

ela consegue transformar qualquer evidência contrária em evidência a seu favor.

Cipolla e a estupidez que produz vítimas

É nesse ponto que Carlo M. Cipolla oferece uma lente particularmente interessante.

Em As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, Cipolla propõe uma classificação provocadora do comportamento humano baseada na relação entre os benefícios e os prejuízos provocados pelas ações de cada indivíduo.

O aspecto mais perturbador de sua reflexão está na figura do estúpido: aquele que produz prejuízo para os outros e, muitas vezes, também para si próprio.

Transportada para o ambiente das redes sociais — sem pretender reduzir a complexidade da obra de Cipolla a esse fenômeno — a ideia ganha uma atualidade impressionante.

Porque a estupidez contemporânea deixou de ser necessariamente individual.

Ela pode se organizar em rede.

O indivíduo acredita em uma falsidade.

Outro indivíduo reforça.

Um terceiro fornece uma justificativa.

Um quarto encontra uma “prova”.

E todos passam a validar uns aos outros.

O resultado é uma espécie de cooperativa da ignorância.

Ninguém possui conhecimento suficiente para sustentar aquilo que afirma, mas todos possuem confiança suficiente para sustentar uns aos outros.

E é justamente isso que torna a situação tão difícil de combater.

O pseudoinformado não se sente ignorante

Talvez esse seja o ponto mais delicado de todos.

O ignorante que sabe que não sabe está em uma posição intelectualmente saudável.

Ele pode perguntar.

Pode ouvir.

Pode aprender.

Pode mudar de opinião.

O pseudoinformado, porém, vive uma situação completamente diferente.

Ele recebeu informação suficiente para abandonar a consciência da própria ignorância, mas não recebeu conhecimento suficiente para compreender a complexidade do assunto.

É uma espécie de ilusão de competência.

E quando encontra outros pseudoinformados, essa sensação se fortalece.

Um confirma o outro.

A certeza de um passa a ser a prova da certeza do outro.

O grupo cria sua própria autoridade.

E aquilo que antes seria reconhecido como desconhecimento passa a ser apresentado como coragem.

O sujeito que talvez antigamente se calasse diante de um assunto que não dominava agora pode sentir orgulho de falar sobre ele.

Não porque tenha estudado.

Mas porque descobriu outras pessoas que também não estudaram e que pensam exatamente como ele.

A ignorância, então, deixa de ser motivo de silêncio.

Passa a ser motivo de pertencimento.

Quando a escuridão passa a parecer luz

É por isso que determinadas bolhas são tão difíceis de romper.

Não estamos mais diante de uma simples disputa entre informação verdadeira e informação falsa.

Estamos diante de uma disputa pela própria percepção da realidade.

Para quem está dentro da bolha, aquilo que está fora parece suspeito.

E aquilo que está dentro parece verdadeiro justamente porque é compartilhado por todos.

A luz que vem de fora é percebida como ameaça.

A escuridão interna, por sua vez, parece familiar.

É aqui que a metáfora da luz ganha força.

Não adianta simplesmente gritar para alguém que está no escuro que ele está no escuro.

É preciso acender uma luz.

Mas existe uma dificuldade adicional: algumas pessoas, depois de muito tempo na escuridão, passam a acreditar que a luz é o problema.

A informação que contradiz suas convicções não é recebida como oportunidade de aprendizado.

É recebida como agressão.

E quanto maior a pressão externa, mais a bolha pode se fechar.

A verdadeira liberdade intelectual

Talvez a maior promessa da sociedade da informação nunca tenha sido a possibilidade de todos falarem sobre tudo.

Talvez tenha sido a possibilidade de todos aprenderem sobre quase tudo.

Existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

A liberdade de expressão é fundamental.

Mas liberdade para falar não transforma automaticamente aquilo que é dito em verdade.

A democracia pode garantir a todos o direito de expressar uma opinião.

Não pode garantir que todas as opiniões tenham o mesmo valor factual.

E uma sociedade que confunde essas duas coisas corre o risco de transformar o conhecimento em apenas mais uma opinião entre muitas.

Precisamos, portanto, recuperar uma virtude aparentemente simples, mas cada vez mais rara: a humildade de reconhecer os limites do próprio conhecimento.

Dizer “não sei” não é uma derrota.

É uma porta aberta.

Perguntar não é fraqueza.

É inteligência em movimento.

Mudar de opinião diante de uma evidência não é humilhação.

É maturidade.

E desconfiar daquilo que confirma perfeitamente aquilo que já pensamos talvez seja uma das maiores formas de inteligência na era das redes.

Porque a informação pode nos libertar.

Mas somente se estivermos dispostos a permitir que ela também nos contradiga.

Caso contrário, deixamos de utilizar a informação para descobrir a realidade e passamos a utilizá-la apenas para justificar aquilo em que já acreditávamos.

E então acontece o paradoxo definitivo da nossa época:

nunca tivemos tanta luz disponível — e, ainda assim, milhões de pessoas conseguem viver voluntariamente dentro de bolhas de escuridão, iluminadas apenas pela falsa claridade produzida umas pelas outras.

Talvez o desafio do nosso tempo não seja simplesmente levar informação às pessoas.

É ensiná-las a reconhecer a diferença entre informação e conhecimento, entre opinião e evidência, entre convicção e verdade.

Porque, no fim das contas, não é a quantidade de informação que torna uma sociedade mais inteligente.

É a capacidade de distinguir, entre milhões de vozes, quais delas estão tentando iluminar o caminho — e quais apenas aprenderam a gritar no escuro.

Nota reflexiva

A tecnologia colocou nas mãos do indivíduo algo que, durante séculos, pertenceu a instituições, governos, universidades e grupos privilegiados: o poder de alcançar multidões.

Isso é extraordinariamente democrático.

Mas todo poder carrega uma responsabilidade.

Hoje, qualquer pessoa pode ser emissora de informação. Poucas, entretanto, possuem formação suficiente para compreender a responsabilidade que acompanha esse poder.

Talvez seja essa a grande tarefa educacional do século XXI: não ensinar apenas a encontrar informação, mas ensinar a duvidar corretamente dela.

Porque uma sociedade não se torna mais esclarecida simplesmente quando todos podem falar.

Ela se torna mais esclarecida quando seus cidadãos aprendem a ouvir, comparar, verificar, refletir — e reconhecer, sem vergonha, que às vezes a verdade está justamente do outro lado daquilo que desejavam acreditar.

E talvez seja aí que a velha frase ganhe um significado novo:

a escuridão não desaparece porque gritamos contra ela. Desaparece quando acendemos uma luz.

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