quinta-feira, 13 de maio de 2010

Uma muambazinha não dói

Grampos mostram o secretário da Justiça Romeu Tuma Júnior tentando comprar videogame em reduto de pirataria e revelam sua amizade com chinês acusado de contrabando.

"ASSESSOR ESPECIAL"
Paulo Li (de costas), com Lula e o ministro Tarso Genro: o convite para ir à solenidade partiu do amigo Tuma Júnior, de quem o chinês era "assessor especial", segundo anuncia seu cartão de visita.
O que acontece quando um secretário nacional de Justiça é pego em flagrante intimidade com alguém acusado de viver da pouco honrosa atividade de importar celulares baratos, etiquetá-los com marcas famosas e revendê-los como se legítimos fossem? E o que acontece se esse secretário, que é também presidente do Conselho Nacional de Combate à Pirataria, é gravado cotando o preço de uma muamba com a ajuda do mesmo amigo suspeito? A resposta é: não acontece nada. Ao menos até o presente momento, o delegado Romeu Tuma Júnior segue sua função como presidente do conselho cuja principal atribuição é definir os caminhos pelos quais o estado brasileiro vai combater o crime da pirataria. Não há dúvida de que ele entende do assunto.

Em 2008, a Polícia Federal começou a investigar uma quadrilha de contrabandistas chefiada pelo chinês Lee Kwok Kwen, conhecido como Paulo Li. A quadrilha movimentaria pelo menos 12 milhões de reais por ano. Ao longo dos trabalhos, os policiais depararam diversas vezes com telefonemas e e-mails para Li vindos de Tuma Júnior. Algumas dessas conversas, publicadas pelo jornal O Estado de S. Paulo, mostram o apreço que o secretário tinha pelo chinês, preso em setembro de 2009. Em um dos diálogos interceptados pela polícia, ele chega a convidar o amigo para dividir o mesmo quarto de hotel, numa viagem ao interior de São Paulo. "Assim, você não gasta em hospedagem", diz. Em outra gravação, Tuma Júnior aparece perguntando a Li se o videogame Wii está à venda "lá na Vinte e... lá na Paulista". O secretário se refere à Rua Vinte e Cinco de Março, em São Paulo, reduto de produtos piratas e contrabandeados, o mesmo tipo de comércio praticado numa conhecida galeria da Avenida Paulista. Tuma Júnior prossegue: "Dá pra saber quanto é que é? Eu preciso comprar pra Renata (sua filha), mas na Europa tava caro". Li diz que vai passar na loja para olhar, ao que Tuma responde: "Tá bom (...) Daí me fala, aí eu já levo o dinheiro pra você". Outras conversas sugerem também que o secretário prestava favores a Li, facilitando ou agilizando a liberação de vistos para imigrantes chineses. Em e-mails endereçados a Tuma Júnior, Li relaciona números de processos e lhe pede providências. Em julho passado, na cerimônia de sanção da lei de anistia a imigrantes ilegais, Tuma Júnior levou o amigo a Brasília. Li posou para foto ao lado do presidente Lula e do então ministro da Justiça, Tarso Genro.

Li não é íntimo apenas de Tuma Júnior, mas também de seu pai, o senador Romeu Tuma. Na década de 80, quando Tuma era superintendente da PF em São Paulo, ele dava aulas de kung fu aos policiais federais. Foi quando conheceu Tuma Júnior. Mais tarde, participou da eleição do amigo para deputado estadual e tornou-se seu assessor parlamentar. No dia em que Li foi preso, os policiais encontraram no escritório dele um cartão de visita que o apresentava como "assessor especial" da Secretaria Nacional de Justiça. O escândalo veio à tona na quarta-feira. No mesmo dia, o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, chamou o diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, para lhe pedir um relatório sobre a participação do secretário no episódio. Parte da conversa foi presenciada pelo próprio Tuma Júnior. No dia seguinte, o ministro declarou que não iria "sair rifando as pessoas, condenando e executando a condenação em público".

O fato de o secretário continuar até agora no cargo pode ter outra explicação além da notória candura com que o governo do PT trata aliados flagrados em situações pouco republicanas. Tuma Júnior foi nomeado para a Pasta da Justiça mediante uma barganha que envolveu a ida de seu pai para o PTB, da base governista. Ocorre que, nestas eleições presidenciais, o partido ainda não definiu se vai ficar ao lado da candidata petista, Dilma Rousseff, ou se bandear para a arena do tucano José Serra – no nível estadual, o apoio ao PSDB já está praticamente acertado. Assim, quando o governo se empenha em blindar Tuma Júnior – "um homem que tem uma folha de serviços prestados a este país", nas palavras do presidente Lula –, está de olho no peso que Romeu Tuma tem dentro do PTB e na possibilidade de que o cacique o utilize em favor de Dilma Rousseff. Enquanto as negociações não se definem, a Secretaria Nacional de Justiça e o Conselho Nacional de Combate à Pirataria continuarão sob o comando de alguém que não vê nenhum problema em dividir um quarto com um sujeito enrolado com a Justiça e comprometido com a pirataria. Parece deboche? Pois é mesmo.

BLINDAGEM
O governo sai em defesa de Tuma Júnior para tentar atrair Tuma pai (à esq.) e seu PTB para o palanque petista. Para o ministro Barreto (à esq), não se pode "sair rifando as pessoas"

quinta-feira, 6 de maio de 2010

PF liga Tuma Júnior a suposto chefe da máfia chinesa

Relação foi mapeada ao longo de seis meses de investigação

Gravações telefônicas e e-mails interceptados pela Polícia Federal (PF) durante investigação sobre contrabando ligam o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, ao principal alvo da operação, Li Kwok Kwen, apontado como um dos chefes da máfia chinesa em São Paulo. A relação de Tuma Júnior com Kwen, conhecido como Paulo Li, foi mapeada ao longo dos seis meses da investigação que deu origem à Operação Wei Jin (trazer mercadoria proibida, em chinês), deflagrada em setembro de 2009.

Paulo Li foi preso com mais 13 pessoas sob acusação de comandar quadrilha especializada no contrabando de telefones celulares falsificados, procedentes da China. Ao ser detido, Paulo Li telefonou para Tuma Júnior na frente dos agentes federais que cumpriam o mandado. Dias após a prisão, ao saber que seu nome poderia ter aparecido no inquérito, Tuma Júnior ligou para a Superintendência da PF em São Paulo, onde corria a investigação, e pediu para ser ouvido.

O depoimento foi tomado num sábado, para evitar exposição. Ele declarou que não sabia de atividades ilegais de Li. O surgimento do nome Tuma Júnior no inquérito seguia em segredo até agora. O esquema, estimou a PF à época, envolvia R$ 1,2 milhão por mês. Os aparelhos eram vendidos no comércio paralelo de São Paulo e no Nordeste. Denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) pelos crimes de formação de quadrilha e descaminho, Paulo Li seguia preso até ontem.

Paulo Li, que de acordo com as investigações também ganhava dinheiro intermediando a emissão de vistos permanentes para chineses em situação ilegal no País, tinha livre trânsito na secretaria. Segundo o inquérito, Li conseguia acelerar processos em tramitação no Departamento de Estrangeiros, órgão subordinado diretamente ao secretário. Os telefonemas também revelam Tuma Júnior como cliente assíduo do esquema: sem hesitar, ele fazia encomendas por telefone de aparelhos celulares, computador e até videogame.
Ministério

Procurada pela reportagem, a assessoria do Ministério da Justiça afirma, em nota, que não há investigação nem pedido de interceptação telefônica contra o secretário Romeu Tuma Júnior, mas sim “trechos de conversas do secretário com um alvo da Polícia Federal”.

“A Assessoria de Comunicação do Ministério da Justiça informa que não há, na Polícia Federal, investigação nem pedido de interceptação telefônica contra o secretário nacional de Justiça Romeu Tuma Júnior, mas que trechos de conversas do secretário com um alvo investigado foram captadas pela PF, em inquérito que corre sob sigilo”, limitou-se a dizer o ministério.

Horas antes, depois de contato telefônico informando o teor da reportagem, a reportagem havia enviado 15 perguntas destinadas a Tuma Júnior e ao diretor do Departamento de Estrangeiros, Luciano Pestana. O ministério não informou a razão pela qual preferiu não responder às questões.



terça-feira, 4 de maio de 2010

PF liga Tuma Júnior, secretário nacional de Justiça, a chefe da máfia chinesa

Interceptação de gravações telefônicas e mensagens eletrônicas aponta contato frequente com Li Kwok Kwen, também conhecido como Paulo Li

Por Rodrigo Rangel, de O Estado de S.Paulo
Gravações telefônicas e e-mails interceptados pela Polícia Federal (PF) durante investigação sobre contrabando ligam o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, ao principal alvo da operação, Li Kwok Kwen, apontado como um dos chefes da máfia chinesa em São Paulo.

A relação de Tuma Júnior com Kwen, também conhecido como Paulo Li, foi mapeada ao longo dos seis meses da investigação que deu origem à Operação Wei Jin, deflagrada em setembro de 2009.

Paulo Li foi preso com mais 13 pessoas, sob a acusação de comandar uma quadrilha especializada no contrabando de telefones celulares falsificados, importados ilegalmente da China.

Ao ser preso, Paulo Li telefonou para Tuma Júnior na frente dos agentes federais que cumpriam o mandado. Dias após a prisão, ao saber que seu nome poderia ter aparecido no inquérito, Tuma Júnior telefonou para a Superintendência da PF em São Paulo, onde corria a investigação, e pediu para ser ouvido. O depoimento foi tomado num sábado, para evitar exposição. Tuma declarou que não sabia de atividades ilegais de Li. O surgimento do nome Tuma Júnior no inquérito seguia em segredo até agora.
O esquema, estimou a PF à época, girava R$ 1,2 milhão por mês. Os aparelhos eram vendidos no comércio paralelo de São Paulo e no Nordeste. Denunciado pelo Ministério Público Federal pelos crimes de formação de quadrilha e descaminho, Li seguia preso até ontem.

Além de ocupar um dos postos mais importantes da estrutura do Ministério da Justiça, Tuma Júnior preside, desde o último dia 23 de abril, o Conselho Nacional de Combate à Pirataria.

Foi investigando Paulo Li - a quem a PF se refere nos relatórios como comandante de "uma das maiores organizações criminosas de São Paulo e do Brasil" - que os policiais descobriram seus laços com Tuma Júnior. Entre os telefonemas gravados com autorização judicial, são frequentes as conversas de Li com o secretário nacional de Justiça.

Li, que de acordo com as investigações também ganhava dinheiro intermediando a emissão de vistos permanentes para chineses em situação ilegal no País, tinha livre trânsito na secretaria.

Vistos. De acordo com o inquérito, Li conseguia agilizar processos em tramitação no Departamento de Estrangeiros, órgão subordinado diretamente ao secretário. Os telefonemas também revelam o secretário como cliente assíduo do esquema: sem hesitar, ele fazia encomendas por telefone de aparelhos celulares, computador e até videogame.

As gravações mostram Li especialmente interessado nos bastidores da aprovação da lei que deu anistia a estrangeiros em situação irregular no País. Assim que a lei foi sancionada, em julho passado, o chinês logo passou a intermediar a aprovação de processos de anistia.

As demandas de Paulo Li eram transmitidas abertamente a Tuma Júnior - muitas delas, por telefone. Nos contatos, o secretário se mostrava diligente, de acordo com a PF. Num deles, em 1º de agosto de 2009, ele convida Li para uma conversa em Brasília ou em Ribeirão Preto, onde daria palestra dias depois. "Eu tenho um monte de respostas daqueles negócios. Se você quiser vir...", disse.

Tuma demonstra ter proximidade com Li, a ponto de convidá-lo para dividir o quarto de hotel caso quisesse encontrá-lo durante seu compromisso oficial em Ribeirão Preto. "Mesmo que você tenha que dormir lá, você dorme comigo no quarto. Não tem problema. E você não paga hospedagem", afirmou.

Busca e apreensão. Durante busca e apreensão no escritório de Li, os policiais federais apreenderam cartões de visita, com brasão da República e tudo, em que o chinês se apresentava como "assessor especial" da Secretaria Nacional de Justiça, comandada por Tuma Júnior.

Nos contatos com o secretário, Li se mostrava ansioso pela aprovação da anistia. "Está todo mundo esperando a anistia, hein, caramba!", disse, em 29 de maio. "Eu sei, eu vou ver esta semana", respondeu Tuma.

Assim que a lei foi aprovada no Congresso, semanas depois, Tuma se encarregou de dar a notícia ao amigo chinês. "Já aprovou, viu?", anunciou. "Ih, caramba! Coisa boa!", festejou Li. "Só que mantiveram a data de primeiro de fevereiro", ressalvou o secretário, referindo-se ao fato de a lei beneficiar imigrantes que ingressar no Brasil até 1º de fevereiro de 2009.

"Agora vai pro presidente, ele vai marcar uma data pra assinar", diz Tuma. O chinês pede: "Me avisa, hein". Tuma não só avisou mas colocou Li, à época já investigado pela PF, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia em que a lei foi sancionada, em 2 de julho.


Via Estadão

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