
Alexandre
Aprá*
Um
levantamento feito pela Associação
dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (AEPPSP), com base em
critérios de um grupo de estudo da Universidade de São Paulo (USP), identificou
os maiores sites de notícias do Brasil que disseminam informações falsas,
não-checadas ou boatos pela internet, as chamadas notícias de
"pós-verdades".
O estudou
da AEPPSP utilizou os critérios do "Monitor
do Debate Político no Meio Digital" - criado por pesquisadores da USP
-, uma ferramenta que contabiliza compartilhamentos de notícias no Facebook e
dá uma dimensão do alcance de notícias publicadas por sites que se prestam ao
serviço de construir conteúdo político "pós-verdadeiro" para o
público brasileiro.
Não
são sites de empresas da grande mídia comercial, tampouco veículos de mídia
alternativa com corpo editorial transparente, jornalistas que se
responsabilizam pela integridade das reportagens que assinam, ou articulistas
que assinam artigos de opinião.
Tratam-se
de sites cujas "notícias" não têm autoria, são anônimos e estão
bombando nas bolhas sociais criadas pelo Facebook e proliferam boatos,
calúnias, difamações e até correntes de WhatsApp.
Características em comum
Todos
os principais sites que se encaixam no conceito de "pós-verdade" no
Brasil possuem algumas características em comum:
1.
Foram registrados com domínio .com ou .org (sem o .br no final), o que
dificulta a identificação de seus responsáveis com a mesma transparência que os
domínios registados no Brasil.
2.
Não possuem qualquer página identificando seus administradores, corpo editorial
ou jornalistas. Quando existe, a página 'Quem Somos' não diz nada que permita
identificar as pessoas responsáveis pelo site e seu conteúdo.
3.
As "notícias" não são assinadas.
4.
As "notícias" são cheias de opiniões — cujos autores também não são
identificados — e discursos de ódio (haters).
5.
Intensiva publicação de novas "notícias" a cada poucos minutos ou
horas.
6.
Possuem nomes parecidos com os de outros sites jornalísticos ou blogs autorais
já bastante difundidos.
7.
Seus layouts deliberadamente poluídos e confusos fazem-lhes parecer grandes
sites de notícias, o que lhes confere credibilidade para usuários mais leigos.
8.
São repletas de propagandas (ads do Google), o que significa que a cada nova
visualização o dono do site recebe alguns centavos (estamos falando de páginas
cujos conteúdos são compartilhados dezenas ou centenas de milhares de vezes por
dia no Facebook).
Produtores
Os
produtores de "pós-verdades" mais compartilhados nas timelines dos
brasileiros são os seguintes:
*
Ceticismo Político: http://www.ceticismopolitico.com/
*
Correio do Poder: http://www.correiodopoder.com/
*
Crítica Política: http://www.criticapolitica.org/
*
Diário do Brasil: http://www.diariodobrasil.org/
*
Folha do Povo: http://www.folhadopovo.com/
*
Folha Política: http://www.folhapolitica.org/
*
Gazeta Social: http://www.gazetasocial.com/
*
Implicante: http://www.implicante.org/
*
JornaLivre: https://jornalivre.com/
*
Pensa Brasil: https://pensabrasil.com/
Uma
pesquisa mais profunda poderá confirmar a hipótese de que algumas destas
páginas foram criadas pelas mesmas pessoas, seja por repercutirem
"notícias" umas das outras, seja por utilizarem exatamente o mesmo
template e formato.
Distribuição
Todos
esses sites possuem páginas próprias no Facebook mas, de longe, os sites com
mais "notícias" compartilhadas são o JornaLivre e Ceticismo Político,
que contam com a página MBL - Movimento
Brasil Livre como seu provável principal canal de distribuição, e o site Folha Política, que conta com a página Folha Política para distribuir suas
próprias "notícias". Ambas as páginas possuem mais de um milhão
de curtidas e de repercussões (compartilhamentos, curtidas, etc.) por semana
realizadas por usuários do Facebook.
O
que é "Pós-verdade"?
O
jornal eletrônico Nexo fez uma reportagem explicando o conceito de pós-verdade
(https://goo.gl/iYgOSp).
Seguem alguns destaques:
"Anualmente
a Oxford Dictionaries”, departamento da University of Oxford responsável pela
elaboração de dicionários, elege uma palavra para a língua inglesa. A de 2016
foi “pós-verdade” (“post-truth”).
Para
diversos veículos de imprensa, a
proliferação de boatos no Facebook e a forma como o feed de notícias funciona
foram decisivos para que informações falsas tivessem alcance e legitimidade.
Este e outros motivos têm sido apontados para explicar ascensão da pós-verdade.
Plataformas
como Facebook, Twitter e Whatsapp favorecem a replicação de boatos e mentiras.
Grande parte dos factóides são compartilhados por conhecidos nos quais os
usuários têm confiança, o que aumenta a aparência de legitimidade das histórias.
Os
algoritmos utilizados pelo Facebook fazem com que usuários tendam a receber
informações que corroboram seu ponto de vista, formando bolhas que isolam as
narrativas às quais aderem de questionamentos à esquerda ou à
direita." (Com informações da AEPPSP)
Nota
Metodológica
A
AEPPSP publicou, após o post, uma nota metodológica explicando os critérios
para a aferição dos sites. Confira:
O
mapeamento de sites que têm perfil de produção de notícias falsas e que contam
com ampla distribuição em páginas do Facebook aqui realizado baseou-se nos oito
critérios abaixo elencados e na lista de fontes utilizadas pelo Monitor (que
não tem qualquer responsabilidade por estudos derivados dos dados que eles
publicam, vale reforçar).
O
principal critério utilizado foi o anonimato, mas não o único. Pareceu-nos um
bom critério: "Constituição Federal, Art. 5º, IV - é livre a manifestação
do pensamento, sendo VEDADO O ANONIMATO;".
Catalogamos
todos os sites listados pelo Monitor nas categorias imprensa e comentário
alternativo de esquerda e de direita e então, dentre aqueles cuja
responsabilidade pelos conteúdos publicados não é possível de ser identificada
(os sites e/ou as matérias são anônimos), aplicamos os demais critérios.
Isto
não quer dizer que sites autorais estejam livres de produzir notícias falsas,
tampouco que sites cujos autores preferem não se identificar não possam
produzir material honesto e de qualidade jornalística.
Para
evitar distorções e qualquer viés neste estudo ainda inicial, preliminar,
ampliaremos a listagem inicial com TODOS os sites mapeados seguindo unicamente
o critério de ANONIMATO, e nenhum outro.
Deste
modo, entendemos que pesquisas mais refinadas possam ter neste nosso mapeamento
uma fonte de inspiração. Compartilhamos
aqui uma planilha online para dar a máxima transparência deste
levantamento que, reforçamos, ainda é bastante preliminar e pode ser aprimorado
por qualquer pesquisador interessado no assunto.
Finalmente,
lamentamos por quaisquer incompreensões e distorções derivadas deste mapeamento
e estamos abertos para aprimorá-lo. Nosso objetivo é contribuir com todos
aqueles que estão empenhados na luta para que a Internet brasileira seja um
espaço democrático e livre — livre, inclusive, de haters, de discursos de ódio
e de notícias falsas.
Lista
com os 17 sites ANÔNIMOS mapeados, ordenados em ordem alfabética e sem outros
filtros:
*
Ceticismo Político: http://www.ceticismopolitico.com/
*
Click Política: http://clickpolitica.com.br/
*
Correio do Poder: http://www.correiodopoder.com/
*
Crítica Política: http://www.criticapolitica.org/
*
Diário do Brasil: http://www.diariodobrasil.org/
*
Folha do Povo: http://www.folhadopovo.com/
*
Folha Política: http://www.folhapolitica.org/
*
Gazeta Social: http://www.gazetasocial.com/
*
Implicante: http://www.implicante.org/
*
JornaLivre: https://jornalivre.com/
*
PassaPalavra: http://www.passapalavra.info/
*
Pensa Brasil: https://pensabrasil.com/
*
Política na Rede: http://www.politicanarede.com/
*
Pragmatismo Político: http://www.pragmatismopolitico.com.br/
*
Rádio Vox: http://radiovox.org/
*
Rede de Informações Anarquista: https://redeinfoa.noblogs.org/
*
Revolta Brasil: http://www.revoltabrasil.com.br/
*Alexandre Aprá é jornalista, editor do
blog Isso É Notícia


