O comércio de aves silvestres movimenta R$ 2,7 bilhões por ano no
Brasil. Nessa fauna, as celebridades são os pássaros cantores. Os
melhores intérpretes custam R$ 200 mil
Chegou
a vez do Universo. Embora jovem e um tanto imaturo, ele não demonstra
medo ou timidez. Ao contrário. Estufa o peito e preenche o ar com uma
voz cristalina e melodiosa. À medida que a apresentação avança, aumenta o
silêncio em torno do palco. A plateia aguça os sentidos e experimenta
um transe momentâneo. Ela identifica na execução do canto um tipo raro
de esmero, também chamado de talento. Ao final da última nota, segue-se o
estrondo. O público irrompe em aplausos e alguns urros (houve até
lágrimas). Ninguém duvida. Surgiu o campeão.
Universo é
um Pavarotti de penas. Um passarinho cujos dotes musicais superam as
qualidades artísticas observadas em seus pares. Cientificamente,
pertence ao grupo dos Oryzoborus angolensis, conhecidos como curiós (ou
avinhados, em algumas regiões do Brasil). Trata-se de uma ave típica da
América do Sul. A espécie, com aparência frágil e pouco mais de 10
centímetros de comprimento, canta. Não só o que a genética manda. Ela
aprende a cantar melodias complexas.
Os curiós reproduzem
uma sequência com 28 notas. Elas são divididas em uma introdução (12
notas) e um módulo de repetição (as 16 restantes). As frases desse
trecho final podem ser reproduzidas dezenas e dezenas de vezes. O limite
está no fôlego ou na disposição do artista. O mais surpreendente: a
partitura que os pássaros executam não é obra da natureza. Ela foi
criada pelo homem. Os bichinhos a interpretam. E essa habilidade de
executar uma música, idealizada por um ser estranho ao ninho, enlouquece
multidões.
Centenas de concursos de curiós cantores
ocorrem em todo o país entre os meses de agosto e dezembro. Nesse
período, uma primavera estendida, dá-se o auge da temporada lírica dos
pássaros. É a época do acasalamento, quando dispara o nível de
testosterona (o hormônio sexual) nos machos. Eles soltam o gogó para
seduzir as fêmeas e demarcar território perante os rivais. Universo foi o
vencedor de um torneio desse tipo, em setembro, na cidade de Bauru, no
interior paulista.
As entidades que organizam as
competições estimam que a criação de aves nativas (de papagaio a
tico-tico) movimente R$ 2,7 bilhões por ano no Brasil. Pelo menos 70%
desse montante tem como origem o negócio dos pássaros cantores (veja
quadro à pág. 118). Os curiós são os bichinhos mais populares dessa
engrenagem, movida pela paixão (quase vício) e pelo desafio de criar um
campeão. Por ser rara, essa façanha se torna valiosa. Os curiós que
alcançam o topo da parada de sucessos chegam a valer R$ 200 mil. Esse é o
caso do Cyborg, morto em 2007, que pertencia ao ex-jogador Roberto
Rivelino.
A vitória do Universo oferece um flagrante da
emoção de criar um grande astro. Pouco mais que um filhote, ele
enfrentou 45 concorrentes. No grupo havia competidores famosos como Chão
de Estrelas, Eclipse, Cobiçado e o astuto Professor – um bicampeão
nacional, que consegue longas séries de repetições. Antes do anúncio
oficial do resultado do concurso, o dono do Universo, o empresário
Francisco Copi Júnior, de Mogi Guaçu (SP), andava de um lado para o
outro. Reclamava de dores no peito. Seus amigos tentavam acalmá-lo, em
meio a recomendações de exercícios mais frequentes ou mesmo uma bateria
de testes cardíacos.
O restante da família experimentava
angústia similar. Eide, a mulher de Francisco, chorou no fim da
apresentação do Universo. Acreditava no sucesso do bichinho, mas, por
prudência, continha o otimismo. “A gente nunca sabe como funciona a
cabeça dos juízes”, dizia. Sim, os torneios de curiós são avaliados por
até três juízes oficiais, escalados pelas federações regionais. O filho
mais novo do casal, João Vitor, de 11 anos, era o mais confiante da
estirpe. Chegou a identificar certa rouquidão na voz de um dos
adversários. “O troféu é nosso”, afirmava.
E era. Júlio
César de Araújo, um dos três juízes da peleja, definiu como
“incontestável” a vitória do pássaro. Os árbitros lhe deram nota 9,3,
ante 8,5 para o Professor, o segundo colocado. “O Universo não repetiu
muito, mas cantou com bom andamento, ótima melodia e notas alongadas”,
disse Araújo. Para chegar a essa conclusão, ele se preparou por dez anos
para ser juiz em torneios. Tudo nas horas vagas, pois trabalha no ramo
de energia elétrica. “É o meu hobby”, afirma.
Como toda
disputa acirrada, o torneio não poderia terminar sem uma ponta de
polêmica. Os donos do Professor, os gêmeos Reinaldo e Renato Souza,
argumentavam que a ave executara um número maior de cantadas
(repetições). Queriam o primeiro lugar. Para participar do concurso,
eles rodaram 8 mil quilômetros de carro desde Itajaí, em Santa Catarina,
onde moram, até Bauru. Em uma temporada com 20 etapas, percorrem 30 mil
quilômetros (quase uma volta completa em torno da Terra). “Não tiro o
mérito do Universo”, disse Renato. “Mas o Professor se apresentou
melhor.”
E é assim todo fim de semana.
Três juizes (sentados) avaliam desempenho de curió em torneio em Bauru (SP)
| A criação de curiós é cheia de mimos. Os poleiros ideais para o bem-estar dos pássaros têm ranhuras longitudinais. Os lisos provocam calo nas patinhas. |  |
Aulas de canto
Uma
peça importante da indústria dos curiós está baseada nas lições de
canto ministradas para as aves. Os bichinhos tomam as primeiras aulas
logo após o nascimento. E os professores não são os pais. Os filhotes
escutam repetidas vezes CDs com o mote da espécie (a sequência de 26
notas). Essa audição é permanente. Mantém-se na fase adulta. No mercado,
existem sete diferentes gravações do gênero e cada uma cumpre uma
função.
O “Selo Vermelho” é indicado para os
recém-nascidos. Traz notas curtas do canto, intercaladas com alguns pios
em staccato (toques curtos) para acordar os pequeninos. Com quatro
meses, o disco muda. Nessa fase é recomendado o “Selo Laranja”, pois
acrescenta à versão anterior maior requinte melódico e um novo
andamento. Alguns discos corrigem falhas artísticas. A solução para
interpretações duras, por exemplo, é o CD “Prata Balanço”. Em conjunto, a
obra fonográfica dos curiós já vendeu 810 mil cópias.
As
gravações têm uma fonte em comum. É a voz do curió Ana Dias, capturado
em 1955 no município homônimo, no litoral sul de São Paulo. Naquela
época, essas aves não eram criadas em cativeiro. A performance do
pássaro deu origem ao canto Praia Grande Clássico. Ele é considerado o
tema mais nobre dos curiós. Ana Dias morreu aos 32 anos, em 1987.
Forneceu o estilo, o balanço e a referência melódica para seus
sucessores. Mas foi o homem (especificamente Olívio Nishiura) quem
definiu a sequência de notas.
Nishiura, de 63 anos, é o
maestro da passarinhada. Embora trabalhe no ramo de móveis, convive com
esses pequenos tenores desde criança. “É a minha vida”, diz. “Sempre
vivi cercado de passarinhos.” Ele participou do registro da primeira
versão do Ana Dias, em 1969. A gravação foi feita em vinil. O curió fez
várias versões, algumas em estúdio. O maestro editou o material.
“Eliminamos algumas repetições e acrescentamos outras notas para
aumentar a dificuldade do canto”, diz Nishiura. “Com esse modelo, essa
padronização, os torneios explodiram.”
Parafernália eletrônica
Os
criadores não usam qualquer sistema de som para reproduzir os CDs – e,
assim, ensinar os filhotes a cantar. Esse processo exige uma
parafernália especial. Os aparelhos executam o Praia Clássico em uma
frequência específica: 3.550 hertz. “É nesse espectro que os passarinhos
escutam”, diz Divaldo Fante, dono da Grataner, empresa de produtos
eletrônicos de Dracena (SP). Em 1990, a companhia estava prestes a
falir. Fante, no entanto, desenvolveu um equipamento para tocar o melô
dos curiós a pedido de um criador de pássaros. “Foi quando renascemos.”
Os
aparelhos dos principais fabricantes, que custam até R$ 600, contam com
células fotoelétricas. Elas acionam a música ao raiar do dia e a
desligam ao anoitecer. Simulam, assim, a rotina dos pássaros na
natureza. Contam com temporizadores (ligam o CD em intervalos
pré-programados), ajustes de velocidade da melodia e sensores de som
(para não interromper a ave). Alguns sistemas usam várias caixas de som.
Elas tocam em sequência para que o curió acredite estar cercado por
coleguinhas e se anime a interagir – e a cantar.
| O ovoscópio
é uma ferramenta importante na criação de pássaros cantores. Ele
permite observar o interior do ovo por meio de uma fonte de luz. O
criador acompanha o desenvolvimento do embrião |  |
Onde está Sinatra
Os
donos de passarinhos também são ótimos clientes de empresas que
realizam testes de DNA. Fazem 250 mil exames por ano para definir o sexo
das aves logo após seu nascimento. Esse tipo de análise é importante,
pois os machos são os mestres-cantores da espécie. Eles precisam ser
separados das fêmeas, tanto para a venda como para o treinamento. O
setor recorre anualmente a outros 5 mil exames do perfil genético dos
pássaros. Nesse caso, o objetivo é confirmar o parentesco dos bichinhos.
O filhotinho de um campeão pode custar dez vezes mais que um curió sem
comprovado sangue de artista. “Apostamos que o mercado de testes
genéticos vai dobrar nos próximos dois anos”, diz Juliana Paz, da
Helixxa, companhia especializada nesse ramo com sede em Campinas. “Os
criadores estão cada vez mais profissionais.”
Hoje, a
seleção da espécie é feita com base na sensibilidade dos passarinheiros.
Isair Alves, de 70 anos, dedica-se há meio século ao aprimoramento
genético dos curiós. Ele atua no ramo imobiliário, mas sua paixão
balança nos poleiros. Vive mergulhado em uma pasta catálogo onde reúne
planilhas com o resultado de cruzamentos de várias gerações de pássaros.
Alves considera fácil criar uma ave com características morfológicas
superiores, como o porte ou a plumagem. Ele persegue, porém, atributos
sutis, como a capacidade de aprendizado e o timbre da voz. “Aí a coisa
fica difícil”, afirma. “Eu busco um Frank Sinatra, mas encontro muitos
Waldicks Sorianos.”
Os curiós são populares porque vivem
em quase todos os estados do Brasil. Mas o mundo dos pássaros cantores é
maior. Inclui espécies como bicudos, coleiros, canários-da-terra e
trinca-ferros. Cada um deles é comum em regiões específicas do país. Há
ainda centenas de variações de canto apenas de curiós, além do Praia
Clássico. Existem também outras modalidades de concurso. Nos torneios de
fibra, por exemplo, as aves são dispostas em uma roda. Vence quem
cantar por mais tempo, intimidando os adversários.
O
problema é que boa parte desse mundo, que reúne 400 mil criadores, vive
às turras com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis (Ibama). O primeiro conjunto de normas para a
criação desses pássaros foi produzido em 2001. Dez anos depois, o órgão
ambiental constatou que havia inúmeros abusos no setor: 90% das
apreensões de animais traficados no país eram passarinhos. O Ibama
decidiu apertar o cerco.
Proibiu o uso de pequenas
gaiolas acústicas, onde as aves são fechadas para escutar os CDs.
“Recentemente, um criador trancou um pássaro em um carro para ouvir a
música”, diz Maria Isabel Gomes, analista ambiental do Ibama. “Ele
gastou três baterias nessa loucura.”
Os donos dos
passarinhos, por sua vez, criticam o órgão federal. Afirmam que o
instituto não concede licenças para criadores comerciais desde 2007.
“Acreditamos que a proliferação de pequenos empresários diminuiria o
amadorismo e ajudaria a organizar o setor”, afirma Aloísio Tostes,
presidente da Confederação Brasileira dos Criadores de Pássaros Nativos.
Esse grupo formou até uma bancada de “passarinheiros” no Congresso
Nacional para defender sua causa.
Em um mundo com espaço
para o bom-senso, cheio de passarinhos cantando, os criadores e o Ibama
convergiriam para um ponto de interseção. Nesse caso, os primeiros
teriam de cumprir regras, mas receberiam licenças para tocar suas
empresas. O órgão público, por sua vez, usaria as técnicas de reprodução
dos criadores para repovoar regiões, onde algumas espécies (caso do
bicudo) foram extintas. Aparentemente, considerando as discussões em
curso em Brasília, é isso que os dois lados buscam.