
A
tese levantada pelo jornalista Carlos Alberto Sardenberg, ao afirmar que Dilma ganhou
as eleições pela esquerda e governará pela direita é no mínimo curiosa, ou
seja, escolher o nome do ortodoxo Joaquim Levy para comandar a economia, ainda
que essa seja a melhor opção segundo o próprio jornalista, não deveria ter sido
a opção da presidente reeleita, mas sim um economista mais flexível e liberal.
No entender do Sardenberg, que além de jornalista também é palpiteiro econômico
no jornal da Globo, a presidente Dilma não teria o direito de tentar salvar o
tão criticado, por ele próprio, atual modelo econômico, pelo fato de que para
isso ela esteja promovendo para ministro da fazenda um nome que ele julga que
somente poderia ser promovido para este mesmo posto por um presidente da
direita, caso aquele tivesse vencido as eleições. Para legitimar sua incoerência,
o próprio Sardenberg cita na sequencia de seu texto-desabafo, que este que ele
agora não admite como participante de um governo de esquerda é o mesmo que foi secretário
do Tesouro entre os anos de 2003 a 2006, época em que o presidente, a exemplo
da atual, também era petista e procurava manter os vagões da economia nos
trilhos.
Leia
abaixo o texto do Sardenberg na íntegra:
A
conspiração
A
nomeação de Levy para comandar a economia só faz sentido se ele tiver total
autonomia para aplicar seu receituário
Quer
dizer, então, que não tem nada de mais ganhar uma eleição pela esquerda e
governar pela direita? Pois é assim mesmo, não tem problema, andam dizendo por
aí: Lula não fez isso no seu primeiro mandato? E não é que deu certo?
Deu
mesmo. E com um personagem — Joaquim Levy, secretário do Tesouro de 2003 a
2006, campeão brasileiro de ajuste nas contas públicas — que está sendo chamado
de volta para repetir a façanha. E promovido a ministro da Fazenda do segundo
governo Dilma.
O
serviço é mais difícil hoje. Começa que a presidente Dilma tem visão bem
diferente em política econômica. Lula, no campo das ideias, é um pragmático.
Funcionou, tudo bem. Já Dilma, economista formada, tem convicções firmes. E,
falando francamente, opostas às de Levy, também ele muito seguro de suas
convicções mais ortodoxas. Nas funções públicas (Fazenda, Planejamento,
secretaria da Fazenda do Rio) sempre foi muito rigoroso na aplicação de seus
pontos de vista.
Assim,
a nomeação de Levy para comandar a economia só faz sentido se ele tiver total
autonomia para aplicar seu receituário, cuja peça central é a busca do
equilíbrio das contas públicas, com a redução do endividamento público. Ele já
disse que o governo brasileiro deveria buscar a nota A das agências de
classificação de risco — o que significa reduzir o déficit público nominal, a
inflação e a taxa real de juros.
Sobre
inflação, Levy declarou numa entrevista ao “Valor”: “Inflação de 6% a 6,5%,
todo mundo concorda, é muito alta.” Nem todo mundo: a presidente Dilma diz
sempre que a inflação está controlada e dentro da meta. Para ela, a meta está
nos 6,5% atuais e que constituem o teto da margem de tolerância. Já Levy acha
que a meta é 4,5%, que o BC deveria buscá-la com mais firmeza e, no futuro,
reduzi-la para algo como 3 a 3,5%.
Se
fosse para fazer mais do mesmo, Dilma não precisaria de Levy. E este, claro,
não toparia a parada.
Logo,
ao contrário do que diz formalmente, a presidente se convenceu ou foi
convencida ou forçada a aceitar que a tal nova matriz econômica é um fracasso.
Mas
tem também uma teoria conspiratória: os próximos dois anos serão difíceis.
Poderão ser mais ou menos difíceis, conforme a política aplicada, mas não há
como escapar de um aumento na taxa de desemprego, de juros mais altos,
contenção de gastos públicos, desvalorização do real, inflação ainda alta.
Mantida a política Dilma/Mantega do primeiro mandato, essas coisas aconteceriam
na fatalidade, “à selvagem”, descontroladas. Portanto, um ajuste na marra, mais
doloroso e mais longo.
Com
Levy, se ele puder fazer sua política, o ajuste será organizado, controlado e,
mais importante, com expectativas muito positivas. O mercado, os consumidores,
os contribuintes, os investidores, todo mundo gosta de coisas claras e
previstas. Como diz Levy, a meta para o equilíbrio das contas públicas pode ser
qualquer uma, desde que seja bem simplesinha. Se precisar ficar explicando
muito, não cola.
Ora,
é exatamente o contrário que está fazendo o governo Dilma nos estertores do
primeiro mandato. A meta de superávit primário era de R$ 116 bilhões, foi
corrigida para R$ 80 bilhões, depois abatida para R$ 49 bilhões — e agora a
base governista tenta aprovar no Congresso um projeto que elimina qualquer
meta.
Por
isso, aliás, os futuros ministros da Fazenda, Levy, e do Planejamento, Nelson
Barbosa, serão anunciados nesta quinta, mas não tomarão posse. Em vez de
assumir com a avacalhação da meta fiscal, vão começar propondo outra meta,
provavelmente com um programa de médio prazo de ajuste das contas públicas.
E
se Levy não for confirmado?
Aí
será um desastre. Tirante a esquerda, incluindo essa ala do PT, e economistas
alinhados com o pensamento original de Dilma, os meios econômicos receberam com
verdadeira animação a indicação de Levy, “vazada” pelo próprio Palácio do
Planalto. Se não for ele, os mercados desabam, a confiança de consumidores e de
investidores vai ao chão.
Tudo
considerado, ao menos na partida, Dilma-15 repete Lula-03. Ortodoxia na
política econômica, incluindo a senadora Katia Abreu no Ministério da
Agricultura, que repete o Roberto Rodrigues do primeiro mandato de Lula. Para a
esquerda, vão os ministérios sociais.
A
questão que fica para ver na prática é a seguinte: o ministro Levy terá tanta
autonomia e tanta habilidade política para comandar o ajuste quanto as teve o
então ministro Palocci em 2003?
Esse
é o teste.
E
qual seria, afinal, a conspiração? Dilma teria chamado os ortodoxos para fazer
o serviço sujo. Concluído o ajuste, em uns dois anos, quando o país estivesse
pronto para voltar a crescer, chamaria de volta os velhos amigos.