BRASÍLIA
— Com dois candidatos a mais na disputa, a previsão total de gastos da campanha
pela Presidência da República neste ano é 49,5% maior do que há quatro anos. Na
disputa pelo Palácio do Planalto, os 11 concorrentes somados preveem que suas
despesas podem chegar a R$ 918,4 milhões. Em 2010 os nove candidatos
protocolaram no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) previsão de limite de gastos
de R$ 482,5 milhões, valor que, corrigido pela inflação, equivale a R$ 614
milhões.
O que faz uma pessoa física que precisa honrar compromissos urgentes,
mas não tem recursos? Pega dinheiro emprestado e se endivida com juros.
Com o governo, o processo é parecido, porém mais complexo. O Tesouro
Nacional emite títulos e se compromete a devolver o dinheiro com alguma
correção anos mais tarde, aumentando a dívida pública.
Responsável
por provocar momentos de susto nas contas públicas brasileiras nos 20
anos de Plano Real, a dívida pública está sob controle nos últimos anos.
Depois de ter disparado nas crises cambiais de 1998 e 2002, o
endividamento do governo caiu na última década, beneficiado pela
melhoria no perfil e pelo fato de o país ter passado de devedor a credor
externo.
Nos primeiros anos após a criação do Plano Real,
o Brasil tinha a maior parte da dívida interna atrelada ao câmbio e aos
juros básicos da economia. Segundo o professor Francisco Lopreato, da
Universidade de Campinas (Unicamp), especialista em política fiscal,
entre 1999 e 2002, cerca de 95% da dívida mobiliária – em títulos –
interna estavam corrigidos pelos juros básicos (60%) e pelo dólar (35%).
Esse
tipo de composição foi fatal para o Brasil nas crises da Ásia, da
Rússia e de 2002. A disparada do dólar multiplicou a dívida em reais
atrelada ao câmbio. Para tentar segurar a cotação e atrair capitais
estrangeiros, o Banco Central teve de aumentar os juros, o que impactou
os títulos vinculados à taxa Selic – juros básicos da economia.
O
efeito sobre as contas públicas foi perverso. Em 2002, a dívida líquida
do setor público, que considera tudo o que o setor público tem a pagar e
a receber, chegou a saltar para 60% do Produto Interno Bruto (PIB, soma
das riquezas produzidas no país). “Foi a pior combinação pela qual o
Brasil poderia passar naquele momento. A ancoragem do dólar forçou o
aumento dos juros e aumentou o endividamento do país”, recorda Carlos
Eduardo Freitas, diretor do Banco Central por duas vezes, entre 1985 e
1988 e de 1999 a 2003.
Segundo Freitas, também contribuiu para a
alta da dívida pública na primeira fase do Plano Real o reconhecimento,
pelo governo federal, de esqueletos econômicos, débitos resultantes de
planos econômicos antigos. Além disso, a renegociação das dívidas dos
estados e o Proer, programa de ajuda aos bancos que quebraram após o
Plano Real, impulsionaram o endividamento federal.
Atualmente,
apenas 10% da dívida estão atrelados aos juros; e 10%, ao câmbio,
considerando as vendas de dólares no mercado futuro feitas pelo Banco
Central. Para Lopreato, o trabalho de gerenciamento da dívida pública a
partir de 2003, que privilegiou a troca dos títulos atrelados aos juros e
ao câmbio por papéis prefixados – com taxas determinadas
antecipadamente – e corrigidos pela inflação, diminuiu a vulnerabilidade
do país. Atualmente, a dívida líquida do setor público está em 34% do
PIB.
Outro fator que contribuiu para a redução da dívida líquida
ocorreu em 2006, quando o Brasil passou de devedor a credor externo. O
Brasil virou credor ao acumular reservas internacionais, hoje em torno
de US$ 380 bilhões, em montante superior à dívida externa (pública e
privada), atualmente em US$ 326 bilhões.
“Para quem se lembra da
crise da dívida externa dos anos 80 e dos acordos com o Fundo Monetário
Internacional até 2004, essa é nossa maior vitória”, diz Lopreato.
“Agora, quando o dólar dispara, como aconteceu no ano passado, a dívida
líquida cai porque as reservas internacionais superam o endividamento
externo”, explica.
Apesar de estar sob controle, a dívida pública
tem sido pressionada nos últimos anos pelas ajudas do Tesouro Nacional
aos bancos públicos. Desde 2009, o Tesouro emitiu cerca de R$ 300
bilhões em títulos públicos para aumentar o capital do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A operação não tem impacto
na dívida líquida, mas aumenta a dívida bruta do governo.
O
reforço permite que a instituição empreste mais ao setor produtivo e
estimule investimentos, mas a ajuda oficial divide a opinião de
economistas. “De fato, os aportes para o BNDES aumentaram a dívida
bruta, mas o impacto é relativamente pequeno. As emissões são
importantes para ampliar os investimentos e ajudar a economia”, diz
Lopreato. “Essas ajudas só provocam inflação e não têm impacto sobre o
total de investimentos. O empresário, na prática, apenas deixa de usar
os próprios recursos e investe com empréstimos a juros baixos concedidos
pelo governo”, critica Freitas.
A estabilidade da moeda trouxe custos para o contribuinte. Necessário
para derrubar a inflação, o ajuste fiscal resultou em aumento de
impostos. De acordo com a Receita Federal, a carga tributária – peso dos
tributos sobre a economia – saltou mais de 10 pontos percentuais depois
do Plano Real.
De 25,72% do Produto Interno Bruto (PIB) em 1993, ano anterior ao
plano, o indicador subiu para 35,85% em 2012, dado mais recente.
Para
equilibrar as contas públicas, o governo federal criou e aumentou
tributos nos anos seguintes à criação do real. O destaque foram as
contribuições sociais, cujas receitas ficam todas com a União. As
principais são a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (Cofins), o
PIS, o Pasep e a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira
(CPMF), que taxou as transações financeiras até 2007. A voracidade sobre
os contribuintes, no entanto, destacam especialistas, puniu as camadas
mais pobres da população e não resultou em melhoria de serviços
públicos.
Presidente
do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), João Eloi
Olenike diz que o real acentuou uma tendência iniciada com a
Constituição de 1988, que permitiu aos governos (federal, estadual e
municipal) obter cada vez mais recursos por meio do aumento de tributos.
Para ele, o maior problema é que a tributação, no Brasil, concentra-se
no consumo e nos salários.
Com caráter regressivo, a tributação
sobre o consumo pune os mais pobres porque as alíquotas incidem sobre o
preço final dos produtos. Para uma mercadoria que custa R$ 5 e tem
alíquota de 20%, o consumidor pagará R$ 1 de tributo, independentemente
da classe social. Proporcionalmente, a quantia pesa mais no bolso dos
mais pobres. Com desconto direto na folha de pagamento, a tributação
sobre os salários taxa os trabalhadores, não os empresários.
“Hoje,
no Brasil, não temos uma política tributária para que haja uma
arrecadação de acordo com a capacidade contributiva de cada cidadão.
Existe, sim, uma política de arrecadação tributária. Aquela do quanto
mais eu arrecadar, melhor”, critica Olenike. Ele defende uma reforma
tributária executada em etapas que mude o foco da tributação para o
lucro e o patrimônio, que têm maior impacto sobre as parcelas mais ricas
da população. “Hoje não existe interesse em fazer reforma tributária.
Se cada vez se arrecada mais, por que fazer reforma tributária?”,
questiona.
Em
2012, os tributos sobre o consumo e os salários corresponderam a 76,26%
da arrecadação, segundo a Receita Federal. Nos países da Organização
para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo que reúne
nações desenvolvidas, a média correspondia a 58,35% em 2011. A
tributação sobre a renda e o patrimônio somava 21,69% da arrecadação no
Brasil, contra 38,27% da OCDE.
Para Cláudio Damasceno, presidente
do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal
(Sindifisco Nacional), as distorções no sistema tributário brasileiro
persistem porque, até hoje, o grande capital define os rumos da política
tributária. “Temos uma carga de primeiro mundo e retorno de terceiro
mundo nos serviços que o governo acaba oferecendo à população. Desde a
criação do real, pouco mudou”, comenta.
Damasceno cita a
defasagem de 61% na correção da tabela do Imposto de Renda e a isenção
na distribuição de lucros e dividendos para sócios e acionistas como
medidas que pioraram o sistema tributário brasileiro para a população de
menor renda nos últimos 20 anos. “Nos países desenvolvidos, a
tributação sobre o patrimônio é muito maior. Essa discrepância tem
raízes profundas”, diz.
Apesar do aumento da carga tributária nas
últimas duas décadas, a Receita Federal não considera o peso dos
impostos sobre a economia alto em relação a outros países. Segundo o
órgão, o Brasil está numa posição intermediária na comparação com os 27
países da OCDE. Além disso, a Receita informa que alguns países como o
Chile, cuja carga tributária soma 21,8% do PIB, não tem Previdência
Social.
A Secretaria de Política Econômica do Ministério da
Fazenda alega que a carga tributária líquida, que desconta dos tributos
arrecadados o retorno à sociedade por meio de subsídios e das
transferências de renda, ficou praticamente estável nos últimos anos,
passando de 18,39% em 2002 (dado mais antigo disponível) para 19,82% em
2012. Segundo a secretaria, a carga tributária líquida é mais importante
que a carga bruta porque considera as devoluções do governo, que
aumentam a renda disponível do setor privado e o bem-estar das famílias.
Produtos importados dividindo cada vez mais espaço
com as mercadorias nacionais nas prateleiras. Realidade nos primeiros
anos após a criação do real,
os resultados negativos na balança comercial (diferença entre
exportações e importações) voltaram a se repetir nos últimos anos.
Segundo analistas de comércio exterior, as circunstâncias desta vez são
diferentes. Na década de 90, as importações eram estimuladas pelo câmbio
fixo para conter a inflação. Hoje, com o câmbio livre, os déficits
estão relacionados ao custo Brasil e à perda de competitividade da
indústria nacional.
Alguns anos antes de o real entrar em vigor, a
balança comercial sustentava superávits expressivos. Medidas e
estímulos governamentais ajudavam a manter os saldos positivos para
equilibrar o balanço de pagamentos após o Brasil decretar a moratória da
dívida externa. A abertura do mercado às importações, no início dos
anos 90, e a circulação da nova moeda, no entanto, impactaram o saldo
comercial. De superávit de US$ 10,47 bilhões em 1994, a balança passou
para déficit de US$ 3,47 bilhões em 1995.
O
presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José
Augusto de Castro, destaca que o aumento do consumo após o Plano Real
também afetou a balança ao reforçar as importações. “Com o Plano Real, a
demanda interna cresceu assustadoramente. O Brasil não tinha condições
de atender. [Seria preciso] forte aumento da capacidade de produção.
Enquanto não tinha, a alternativa era importar. Foi de 1994 a 1999, um
período curto em termos de comércio”, diz.
“[A política] levava
ao déficit, mas era entendido que não era um grande problema. O país
estava mais estável, com políticas fiscais melhores”, lembra a
economista Lia Valls Pereira, pesquisadora do Instituto Brasileiro de
Relações Econômicas (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV). De acordo
com ela, a maior abertura às importações também ajudava a forçar uma
queda de preços no mercado interno, controlando a inflação.
Com as crises da Ásia e da Rússia, em 1997 e 1998, o cenário internacional mudou. A queda no preço das commodities
– bens primários com cotação internacional – e a dificuldade de captar
dólares dificultaram a manutenção do real valorizado. O governo
abandonou o sistema de banda cambial e passou ao de câmbio flutuante, em
janeiro de 1999. A desvalorização favoreceu as exportações.
“Em dezembro de 1998, todos reclamavam que [o real] estava muito valorizado. Era difícil exportar manufaturados. As commodities
não tinham espaço [na época]. Ao mesmo tempo, começavam a aparecer as
crises internacionais. As cotações não subiam, a demanda internacional
estava contida, e o Brasil não conseguia expandir as exportações para
reverter o déficit”, recorda o presidente da AEB.
A partir de
2001, a balança comercial reverteu os resultados negativos, tanto por
causa do câmbio favorável como pela explosão nos preços das commodities,
que atingiram níveis inéditos. A configuração internacional tinha uma
novidade: a ascensão da China como grande mercado consumidor e
exportador mundial. A balança acumulou saldos positivos na casa dos dois
dígitos, com o ápice em 2006, quando o superávit chegou a US$ 46,4
bilhões.
Para Castro, a fase exportadora de commodities
trouxe pontos positivos. “Houve interiorização do crescimento, mais
salário, mais distribuição de lucros”, enumera. Ele critica, no entanto,
a falta de reformas necessárias para diminuir o custo da produção e
aumentar a competitividade dos produtos manufaturados em meio à queda no
preço das commodities. Tal cenário, avalia, acarretou a volta
dos déficits comerciais. Nos seis primeiros meses deste ano, a balança
acumula resultado negativo de US$ 2,49 bilhões.
Segundo o presidente da AEB, no entanto, o país não pode depender das oscilações nas commodities. “O próprio FMI [Fundo Monetário Internacional] diz que o Brasil precisa de reformas. As commodities
tiveram uma década de ouro, mas estão em queda. Se o crescimento da
China diminuir, esse ajuste será mais forte ainda. Se não houver
reformas, o Brasil pagará um preço alto. O real está valorizado e o
custo Brasil subiu muito”, declara.
Para Lia Valls, o real
cumpriu o papel de estabilização e fez uma passagem relativamente
tranquila para o modelo de câmbio flutuante. Ela, no entanto, destaca a
necessidade de maior compromisso com a política fiscal e com o controle
da inflação nos tempos atuais.
“Foi correta a forma que a gente
conseguiu quebrar a inflação. O país saiu da banda cambial e passou para
o regime de metas. Mas [há] um déficit de transações correntes
relativamente elevado. É necessário rever a política, ter maior
compromisso com a responsabilidade fiscal e sinalizar um compromisso
mais claro com as metas de inflação, pois a gente tem batido o teto da
meta”, comenta a economista da FGV.
Atualmente cotado em torno de R$ 2,25 por dólar, o real atravessou uma montanha-russa cambial em 20 anos de existência. Na data de sua criação, em 1º de julho de 1994,
o real valia exatamente US$ 1. Em outubro do mesmo ano, o dólar chegou a
ser cotado a R$ 0,829. Após a crise da Rússia, o câmbio foi liberado e
ultrapassou R$ 2 pela primeira vez em fevereiro de 1999. O real, no
entanto, atingiu o ponto mais baixo em outubro de 2002, quando o dólar
chegou a encostar em R$ 4.
Depois
de 2003, o real experimentou uma valorização contínua (com queda do
dólar), interrompida pela crise financeira global de 2008. No entanto,
as injeções de dólares do Banco Central norte-americano fizeram a
cotação voltar a cair para abaixo de R$ 2. Somente no ano passado, com a
redução das ajudas monetárias nos Estados Unidos, o câmbio voltou a
subir até o nível atual. Apesar da alta recente do dólar, economistas
consideram que o real está sobrevalorizado, prejudicando a
competitividade e as exportações do país.
Segundo André Nassif,
professor titular de Economia Internacional da Universidade Federal
Fluminense (UFF), a taxa de câmbio de equilíbrio – com impacto neutro
para exportadores, importadores e produtores domésticos – está entre R$
2,70 e R$ 2,90. No nível atual, o câmbio incentiva as importações,
desestimula as vendas externas e, advertem os especialistas, torna o
país cada vez mais vulnerável a choques internacionais.
Atualmente,
o déficit em transações correntes do Brasil está em 3,65% do Produto
Interno Bruto (PIB, soma das riquezas produzidas no país). O indicador,
composto pela balança comercial, de serviços, de renda e pelas
transferências unilaterais, mede a dependência da economia em relação a
capitais estrangeiros, que costuma fugir do país em tempos de
turbulências externas.
Diretor
do Banco Central entre 1985 e 1988 e entre 1999 e 2003, Carlos Eduardo
Freitas diz que o país só não sofreu uma crise cambial aguda até agora
porque os investimentos estrangeiros diretos – que geram empregos no
país – continuam fortes, em torno de US$ 65 bilhões por ano. Segundo
ele, a política de estímulo ao consumo, que se reflete no aumento das
importações nos últimos anos, está gerando os déficits em transações
correntes.
“Há deterioração do balanço de pagamentos para elevar o
consumo. Se o país estivesse importando máquinas e equipamentos para
investir e produzir mais, seria outra história”, critica Freitas. “O
déficit em conta-corrente aumentou para uma zona de sinal amarelo. O
país está se endividando.”
Para Nassif, o Brasil está repetindo
os erros do começo do Plano Real. “Nos primeiros anos após o plano, o
câmbio foi artificialmente valorizado, e o país incorreu em grandes
déficits em transações correntes até o início da década de 2000”,
recorda. Os anos com piores resultados nas transações correntes após o
Plano Real foram 1999 (-4,32% do PIB) e 2001 (-4,19%).
Na
etapa inicial do Plano Real, o governo recorreu à âncora cambial para
impedir a volta da inflação. Os juros altos para evitar a explosão do
consumo e a renegociação da dívida externa em 1992 e 1993 fizeram os
recursos externos retornar ao país de uma só vez, pressionando o dólar
para baixo. “Havia muito capital estrangeiro represado, esperando para
entrar no país. Os brasileiros tinham muita poupança no exterior e havia
estrangeiros desejosos de aplicar no Brasil”, explica Freitas.
De
1994 a 1999, o Banco Central adotou o modelo de bandas cambiais, que
permitia ao dólar flutuar dentro de um intervalo e praticamente
equivalia a um regime cambial fixo. O modelo ajudou a baratear os
produtos importados e a conter os preços dos produtos nacionais. No
entanto, ressalta Nassif, o erro consistiu em tornar permanente uma
política temporária. “Diversos estudos recomendam usar a âncora cambial
no máximo um ano e meio. Não cinco anos”, diz.
Segundo o
professor da UFF, os problemas começaram a partir do momento em que os
investidores internacionais pararam de apostar no Brasil após as crises
da Ásia, em 1997, e da Rússia, em 1998. Por um momento, o Banco Central
queimou reservas internacionais, mas foi obrigado a deixar o real
flutuar em 1999. “Como os investimentos estrangeiros não compensavam
mais os déficits em transações correntes, o modelo de câmbio fixo deixou
de ser sustentável”, relembra. “Hoje, o país está com o câmbio livre,
mas com as contas externas insustentáveis do mesmo jeito.”
Em
1999, o governo adotou o modelo em vigor até hoje, baseado no controle
da inflação por meio da taxa Selic (juros básicos da economia), em vez
da âncora cambial. Apesar de o câmbio estar livre, Nassif diz que o real
continua sobrevalorizado, com prejuízo para os exportadores e a
indústria nacional. Ele sugere que o Banco Central deixe o dólar chegar
lentamente à taxa de equilíbrio para então introduzir o controle de
capitais estrangeiros que entram no país e impeçam o dólar de cair
novamente.
O número de cédulas nas mãos dos brasileiros
quadruplicou em 20 anos. Até 1993, o dinheiro em circulação correspondia
a menos de 1% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todo os bens e
serviços produzidos no país. No ano passado, essa relação estava em
4,2%, de acordo com dados do Banco Central (BC).
Número de cédulas nas mãos dos brasileiros quadruplicou nas últimas duas décadasMarcello Casal / Agência Brasil Segundo
o chefe do Departamento do Meio Circulante do BC, João Sidney de
Figueiredo Filho, antes do Plano Real, a população evitava ter dinheiro
na mão porque as cédulas perdiam o valor rapidamente devido à inflação
alta. “Naquele tempo tinha um custo de oportunidade muito elevado. Se
ficasse com dinheiro no bolso, estava perdendo poder de compra. As
pessoas ficavam com a menor quantidade de dinheiro possível no bolso”,
disse. Com a estabilidade ao longo dos anos e o aumento da confiança, o
uso do dinheiro se expandiu.
No dia 30 de junho de 1994, antes do lançamento do Plano Real,
estavam em circulação 797 milhões de cédulas de cruzeiro real e mais
2,661 bilhões de notas de cruzeiro (parte dessas carimbadas com a
exclusão dos últimos três zeros). Em valores convertidos, esse número de
cédulas corresponde a R$ 9 bilhões, bem menor do que os cerca de R$ 190
bilhões em circulação atualmente.
“E a população não cresceu
isso tudo”, disse Figueiredo Filho. De acordo com o Censo do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1991 a população
brasileira estava em quase 150 milhões. No ano passado, o instituto
estimou a população em 201 milhões de habitantes.
Além
do aumento da confiança da população, ele citou também a melhoria de
renda como fator de expansão do meio circulante. “Isso acaba favorecendo
o uso do dinheiro físico”, disse.
Mesmo com outros meios de
pagamento, como cheques e cartões, os brasileiros ainda usam bastante as
cédulas e as moedas de real para fazer transações. De acordo com a
pesquisa do BC de 2013, para 70% da população o dinheiro é a forma
preferida de pagamento. Na percepção do comércio, o percentual de uso de
dinheiro para pagamentos ficou em 57%. “Cerca de 51% dos brasileiros
recebem os seus salários em dinheiro”, acrescentou o chefe do
Departamento do Meio Circulante do BC.
Para
manter o dinheiro em circulação por mais tempo e com segurança, foi
necessário investir em tecnologia. A primeira mudança foi a troca das
moedas de aço inoxidável para as coloridas. “Em anos anteriores, houve
muitas trocas de padrão monetário, com muitas emissões de moedas.
Chegamos a ter 53 moedas no intervalo de 1980 até 1994”, contou
Figueiredo Filho. Toda vez que mudava o padrão monetário, eram usados os
mesmos discos das moedas antigas para cunhar os novos valores.
Sidney lembra que nessa época começaram a entrar no país as vendingmachines (equipamentos
automáticos usados na venda de produtos como refrigerante, cafés e
salgadinhos) e muita gente “pagava” o produto com moedas que já não
valiam mais. “A tecnologia era apenas pelo diâmetro e pelo sinal
magnético. Só que tudo era aço inoxidável e o sinal magnético era
igual”, disse.
Outra mudança na família do real apontada pelo
chefe do Departamento do Meio Circulante do BC foi o lançamento das
cédulas de R$ 2 e R$ 20. “Economizou dinheiro em circulação. Uma de 20
substitui duas de 10. Melhora para o lado do Estado, que não precisa
fazer tantas notas, e facilita o troco. Essas são as duas notas que mais
circulam no país”, disse.
Já as cédulas de R$ 1 saíram de
circulação devido ao desgaste elevado. “Em 2003, quase 40% dos gastos
foi com a produção de notas R$ 1. Estavam durando oito meses, enquanto
uma moeda de R$ 1 dura 30 anos. E havia queixas de que a nota estava
muito contaminada”, acrescentou.
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