Texto ensaístico para produção futura
Morávamos numa casinha simples, cercada por montanhas, e em frente à casa passava o rio Santa Maria. Meus pais eram agricultores e trabalhavam como se chamava na época de "meeiros". Na realidade, não eram meeiros porque a divisão do que era colhido nunca era meio a meio — muito pelo contrário, talvez o nome correto fosse "um-décimo-eiro". Mas tudo bem: graças aos esforços dos meus pais, conseguíamos o nosso sustento.
Meu irmão mais novo, naquela época, ainda era de colo. Desta forma, minhas brincadeiras eram quase sempre individuais; muito raramente meus primos apareciam para nos divertirmos. Dificilmente eu podia ir até a casa deles, pois todos moravam longe uns dos outros e não havia casas próximas como hoje.
Certa manhã fria — como todas as manhãs daquele lugar —, eu estava brincando no porão da casa com o meu "carrinho". Carrinho no subconsciente, porque, na realidade, não passava de um pedaço de madeira quadrado, sem rodas nem nada, só o toco. Aliás, eu passava todo o meu tempo brincando sozinho com brinquedos imaginários. De repente, dei de cara com um enorme sapo escuro e cascudo. Fiquei paralisado! Lembro que fiquei todo arrepiado ao ver aquele monstro no meu local de diversão. De imediato pensei: "preciso me livrar deste cara, é ele ou eu".
O pobre sapo não estava nem aí para mim: continuou lá, quietinho no cantinho dele. Foi aí que fiz a primeira besteira da minha vida. Saí do porão e fui procurar uma pedra. Não demorei muito para achar e retornei disposto a liquidar aquela coisa asquerosa. Levantei a pedra e desferi um golpe certeiro no meio das costas do pobre animal. Não consegui ficar olhando por muito tempo para aquela pobre criatura e saí em disparada.
Fiquei uns três dias sem ir brincar no meu local favorito. No quarto dia, lá fui eu para o porão: peguei o meu "carro" e saí puxando-o em direção ao local. Assim que comecei a entrar e a observar atentamente os quatro cantos, percebi a presença do monstro. Ele estava lá no cantinho e, o pior, estava vivo! O pobre animal, vendo a minha aproximação, começou a se arrastar. O coitado estava com as costas quebradas, mas continuava vivo.
Aquela cena me tocou fundo. Fiquei com muita pena do coitado e tentei reparar o mal que lhe havia feito. Fui até o quintal, peguei um pedaço de folha de bananeira e, da minha coleção de coisas raras para a época, peguei uma latinha e coloquei um pouco de água. Com o auxílio de uma varinha, empurrei o coitado para cima da folha de bananeira. De um lado do paciente, coloquei a latinha com um pouquinho de água e, do outro, um vidrinho de remédio vazio, na esperança de uma recuperação. A cada dez minutos eu ia fazer uma visita ao moribundo, mas não percebia nenhuma melhora no quadro do infeliz. A semana chegou ao fim e nada de recuperação.
Chegou o domingo, e este era um dia especial: dia de comer agnolini e ir à igreja. Neste domingo não foi diferente. Assim que chegamos da igreja, almoçamos e eu corri para visitar o meu paciente. Reservei para ele um pedaço de galinha daqueles que ficam misturados à sopa de agnolini. Certamente, depois de comer um pedaço de galinha ele iria sarar; afinal, aquela era a comida mais gostosa do mundo. Todos que estavam fracos ou doentes e comiam a sopa de agnolini rapidinho ficavam bons.
Mas, quando me aproximei do pobre coitado para lhe servir o almoço, já era tarde. O que vi foi de cortar o meu pequeno coração: presenciei o animal sendo dilacerado. Ele ainda estava vivo, mas milhares de formigas cobriam todo o seu corpo e iam lhe retirando pedaços. Já lhe faltava uma das pernas traseiras. Isso foi demais para mim. Lembro que chorei muito e o meu domingo acabou.
Daquele dia para cá, não suporto a ideia de ver animais sofrendo. Não concordo com a morte de insetos ou de qualquer outro tipo de animal. Até uma formiga, se percebo que vou pisotear, mudo o rumo do meu passo para preservar-lhe a vida.
