quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Uma das Lembranças da Minha Infância



Por Dag Vulpi

Texto ensaístico para produção futura

Uma das lembranças da minha infância se passa quando eu ainda era muito pequeno — tinha entre cinco e seis anos — e morava em Caldeirão. Isso mesmo, eu nasci em Caldeirão, em 31 de março de 1964. Caldeirão é um lugarejo da pequena cidade de Santa Teresa, na região das montanhas do Espírito Santo.

Morávamos numa casinha simples, cercada por montanhas, e em frente à casa passava o rio Santa Maria. Meus pais eram agricultores e trabalhavam como se chamava na época de "meeiros". Na realidade, não eram meeiros porque a divisão do que era colhido nunca era meio a meio — muito pelo contrário, talvez o nome correto fosse "um-décimo-eiro". Mas tudo bem: graças aos esforços dos meus pais, conseguíamos o nosso sustento.

Meu irmão mais novo, naquela época, ainda era de colo. Desta forma, minhas brincadeiras eram quase sempre individuais; muito raramente meus primos apareciam para nos divertirmos. Dificilmente eu podia ir até a casa deles, pois todos moravam longe uns dos outros e não havia casas próximas como hoje.

Certa manhã fria — como todas as manhãs daquele lugar —, eu estava brincando no porão da casa com o meu "carrinho". Carrinho no subconsciente, porque, na realidade, não passava de um pedaço de madeira quadrado, sem rodas nem nada, só o toco. Aliás, eu passava todo o meu tempo brincando sozinho com brinquedos imaginários. De repente, dei de cara com um enorme sapo escuro e cascudo. Fiquei paralisado! Lembro que fiquei todo arrepiado ao ver aquele monstro no meu local de diversão. De imediato pensei: "preciso me livrar deste cara, é ele ou eu".

O pobre sapo não estava nem aí para mim: continuou lá, quietinho no cantinho dele. Foi aí que fiz a primeira besteira da minha vida. Saí do porão e fui procurar uma pedra. Não demorei muito para achar e retornei disposto a liquidar aquela coisa asquerosa. Levantei a pedra e desferi um golpe certeiro no meio das costas do pobre animal. Não consegui ficar olhando por muito tempo para aquela pobre criatura e saí em disparada.

Fiquei uns três dias sem ir brincar no meu local favorito. No quarto dia, lá fui eu para o porão: peguei o meu "carro" e saí puxando-o em direção ao local. Assim que comecei a entrar e a observar atentamente os quatro cantos, percebi a presença do monstro. Ele estava lá no cantinho e, o pior, estava vivo! O pobre animal, vendo a minha aproximação, começou a se arrastar. O coitado estava com as costas quebradas, mas continuava vivo.

Aquela cena me tocou fundo. Fiquei com muita pena do coitado e tentei reparar o mal que lhe havia feito. Fui até o quintal, peguei um pedaço de folha de bananeira e, da minha coleção de coisas raras para a época, peguei uma latinha e coloquei um pouco de água. Com o auxílio de uma varinha, empurrei o coitado para cima da folha de bananeira. De um lado do paciente, coloquei a latinha com um pouquinho de água e, do outro, um vidrinho de remédio vazio, na esperança de uma recuperação. A cada dez minutos eu ia fazer uma visita ao moribundo, mas não percebia nenhuma melhora no quadro do infeliz. A semana chegou ao fim e nada de recuperação.

Chegou o domingo, e este era um dia especial: dia de comer agnolini e ir à igreja. Neste domingo não foi diferente. Assim que chegamos da igreja, almoçamos e eu corri para visitar o meu paciente. Reservei para ele um pedaço de galinha daqueles que ficam misturados à sopa de agnolini. Certamente, depois de comer um pedaço de galinha ele iria sarar; afinal, aquela era a comida mais gostosa do mundo. Todos que estavam fracos ou doentes e comiam a sopa de agnolini rapidinho ficavam bons.

Mas, quando me aproximei do pobre coitado para lhe servir o almoço, já era tarde. O que vi foi de cortar o meu pequeno coração: presenciei o animal sendo dilacerado. Ele ainda estava vivo, mas milhares de formigas cobriam todo o seu corpo e iam lhe retirando pedaços. Já lhe faltava uma das pernas traseiras. Isso foi demais para mim. Lembro que chorei muito e o meu domingo acabou.

Daquele dia para cá, não suporto a ideia de ver animais sofrendo. Não concordo com a morte de insetos ou de qualquer outro tipo de animal. Até uma formiga, se percebo que vou pisotear, mudo o rumo do meu passo para preservar-lhe a vida.

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