Por Dag Vulpi • Novembro de 2026
Categorias: Economia, História do Brasil, Filosofia Política, Sociedade
Nota Editorial: Ensaio reflexivo sobre os fundamentos históricos e sociológicos da intervenção estatal na formação econômica e estrutural do Brasil moderno, contrapondo o ideário do "Estado mínimo" e as premissas ultraliberais à luz do pacto social e do desenvolvimento nacional.
Todo santo dia, as redes sociais transbordam de críticas à carga tributária, rotulando o Estado de parasita e repetindo o dogma do "Estado mínimo". No fundo, porém, o incômodo dessa retórica não reside apenas na gestão do dinheiro público; o alvo real é a própria ideia de bem-estar social.
É cômodo pregar o fim dos impostos sob a bandeira do ultraliberalismo — partindo da premissa radical de que qualquer intervenção estatal é uma violação ética e uma ineficiência econômica — quando se fala do alto do privilégio de quem desfruta de uma estrutura construída há séculos.
Na prática, esse discurso escancara o desejo de desmontar as redes de proteção que sustentam políticas públicas essenciais, como:
- Programas de transferência de renda;
- Saúde básica e universal;
- Educação pública e gratuita;
- Amparo aos mais vulneráveis.
Tudo isso sob o pretexto de aliviar a carga tributária dos estratos de maior renda — muitos dos quais, ironicamente, alicerçaram suas fortunas à sombra de contratos, isenções e subsídios do próprio Estado que hoje atacam.
1. A história que o discurso ultraliberal ignora
Sustentar a ilusão de um mercado autossuficiente e livre de amarras estatais exige ignorar a história. Se o Brasil moderno emergiu como nação, foi porque o Estado atuou — com todas as suas contradições, burocracias e desvios — como o grande construtor, financiador e garantidor da infraestrutura básica.
Para testar se a ausência total do poder público geraria liberdade ou colapso civilizatório, convido os defensores dessa tese a um exercício simples de imaginação: como seria o Brasil se tivéssemos vivido sob o "Estado Zero" desde a Proclamação da República, em 1889? Sem governo central, sem leis uniformes, sem moeda soberana e sem instituições públicas.
2. O Brasil de 1889 sob o "Estado Zero": 6 cenários reais
Sem um poder central para manter a unidade política e territorial, o próprio conceito de Brasil teria se fragmentado nas primeiras décadas. Não existiriam empresas nacionais, hospitais estruturados e nem mesmo os refúgios privados de elite, pois tudo isso pressupõe segurança jurídica, títulos de propriedade e regulação.
O território teria retrocedido a um arranjo semifeudal e neocolonial:
- Segurança e Defesa (A lei do mais forte): Sem as Forças Armadas para blindar fronteiras e unificar o território, regiões estratégicas e ricas em recursos teriam sido facilmente anexadas por potências estrangeiras ou retalhadas por conflitos separatistas. Internamente, na ausência de forças policiais republicanas e de um Judiciário impessoal, a lei cederia espaço à força bruta. O país estaria sujeito a milícias particulares e ao retorno absoluto do coronelismo armado, condenando a população à servidão sem amparo legal.
- Economia e Moeda (Fragmentação e pilhagem): Sem Banco Central, moeda nacional ou arcabouço comercial unificado, o mercado interno jamais teria se integrado. Na ausência de indústrias de base e de fomento financeiro estatal, a economia estaria reduzida a enclaves de exploração estrangeira — minerando, extraindo e exportando riquezas diretamente para fora, sem gerar tecnologia, impostos ou desenvolvimento local.
- Infraestrutura (O isolamento geográfico): Sem planejamento macroestatal para traçar rodovias de integração ou erigir o parque energético nacional, estradas e eletricidade seriam privilégios pontuais. Companhias estrangeiras construiriam apenas trilhos isolados para escoar sua própria produção até os portos, deixando o vasto interior do país mergulhado no escuro e na intransitabilidade.
- Saúde (O flagelo das epidemias): Sem o amparo de agências sanitárias, institutos de pesquisa públicos e sistemas universais de atendimento, o país estaria permanentemente vulnerável ao colapso sanitário. A medicina de alta complexidade exige regulação, formação acadêmica em massa e cadeias de suprimento que o mercado isolado não sustenta para as maiorias. A elite importaria médicos particulares; o povo, entregue à própria sorte, sucumbiria a endemias e à caridade precária.
- Educação (O analfabetismo estrutural): Sem uma rede escolar pública e laica, o conhecimento se converteria em um privilégio de berço intransponível. Sem universidades para formar engenheiros, médicos e cientistas, a nação careceria de capital humano para sustentar qualquer complexidade produtiva, mantendo a imensa maioria da população atada ao trabalho braçal de subsistência.
- Saneamento Básico (A insalubridade urbana): Sem regulação e engenharia urbana integrada, redes de tratamento de água e esgoto seriam inexistentes fora de círculos restritos. As aglomerações urbanas conviveriam permanentemente com a contaminação de rios, esgotos a céu aberto e surtos de doenças infecciosas em larga escala.
3. Conclusão: o alicerce invisível do mercado
Em suma: o "Estado Zero" não redundaria no paraíso liberal da livre iniciativa, mas no retrocesso à barbárie feudal e à dependência colonial. Desprezar um prato de ovo frito quando a geladeira está cheia de picanha é fácil; o desafio real é sobreviver quando não há sequer uma cozinha.
Os tributos e as políticas públicas, quando geridos com probidade, constituem o preço da própria civilização. Eles asseguram a dignidade básica na base da pirâmide e criam o solo institucional, a segurança jurídica e a infraestrutura sem os quais o topo — a iniciativa privada e o mercado — sequer conseguiria existir.
E você, o que pensa sobre o papel do Estado na construção da nossa infraestrutura e na redução das desigualdades? Deixe sua opinião nos comentários!

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Dag Vulpi