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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

O Dia em que Beija-Flor Perdeu o Gás

 


Por Dag Vulpi

Há momentos em nossas vidas em que manter a serenidade é absolutamente imprescindível, mesmo quando tudo conspira contra, tornando essa tarefa quase impossível. Foi exatamente em um desses momentos adversos que o extrovertido e sempre "de bem com a vida" Beija-flor foi pego de surpresa.

Beija-flor é um cidadão de boa índole e cheio de amigos. Funcionário da Prefeitura de Vila Velha há mais de 30 anos, essa longevidade profissional acabou por render-lhe certos "privilégios" comuns no setor público — dos quais, coerentemente, ele jamais abriu mão. Entre esses privilégios estavam a redução informal de sua carga horária e a tolerância com constantes faltas. Afinal, ele era um dos funcionários mais antigos daquela casa.

Como manda a regra do apadrinhamento político, a maioria dos seus chefes entrava para os quadros funcionais a troco de favores eleitorais; o conhecimento técnico para a função era mero detalhe esquecido. A cada mudança no Executivo municipal, toda a chefia era substituída, mas Beija-flor continuava firme em sua rotina, acumulando tempo de vida e de serviço.

Sujeito boêmio, boa praça e com seus vícios — vícios que, aliás, quase todos nós temos —, trazia no próprio apelido a sua maior paixão: o prazer de criar passarinhos de gaiola. Não abria mão de ter em seu plantel um bom curió, um coleirinha de ponta e um belo trinca-ferro. Esse amor pelos canoros por vezes lhe trazia imensas alegrias, mas, como nem tudo são flores — e até o sorriso mais famoso esconde desilusões, que o diga a Mona Lisa —, a vida também lhe reservava rasteiras.

Uma coisa que Beija-flor não admitia de forma alguma era o questionamento sobre a qualidade de seus pássaros. Ai daquele que ousasse criticar seu plantel! Vez ou outra, algum desavisado fazia comentários pejorativos, prontamente rechaçados como "inadmissíveis" ou "opiniões inconsequentes de leigos". Seus pássaros eram sempre os melhores, e ponto final.

Os momentos mais felizes de sua vida eram quase todos atribuídos aos triunfos de seus bichos, em especial às vitórias do seu coleirinha "Pepê". Tornaram-se tradicionais na vizinhança as disputas — ou os "rachas", como ele gostava de dizer —, realizados todos os sábados pela manhã. A rapaziada se reunia para colocar as gaiolas lado a lado e testar qual pássaro daria o maior número de cantos.

Outro participante assíduo dessas rodas e admirador da passeriforme era o Seu Carlos, popularmente conhecido como "Carlinho Pereá". Pereá, vizinho de rua de Beija-flor, alimentava uma paixão do mesmo tamanho pelos pássaros. Porém, apesar do gosto em comum, os dois divergiam em absolutamente tudo. Aquela rixa era antiga, fruto de desentendimentos da juventude que o tempo não deu conta de apagar. Pauta constante entre os dois era a afirmação categórica de que cada um possuía o melhor pássaro da região. Não se entendiam quanto a isso — na verdade, não se entendiam em quase nada (mas isso é assunto para outra crônica). Por hora, vamos ao fato que tirou Beija-flor de circulação por uns dias.

O bom e velho Beija-flor acordou às quatro da manhã — hábito antigo de quem madruga. Levantou-se e ligou o rádio na sintonia AM, onde tocava seu programa sertanejo favorito, com músicas caipiras e locutor de sotaque interiorano. Ao pegar a chaleira para esquentar a água do café, ouviu um barulho estranho no quintal.

Imediatamente abriu a janela e, mesmo na penumbra da madrugada, percebeu um desconhecido carregando uma botija de gás. Antes que Beija-flor pudesse questionar a invasão de sua propriedade, o sujeito se antecipou e perguntou se ele não gostaria de comprar o botijão cheio, alegando estar desesperado para comprar remédio para o filho pequeno.

Beija-flor pensou por alguns segundos e recusou. "Vai que é fruto de roubo...", refletiu. Pediu ao cidadão que se retirasse de seu quintal, e assim foi feito. O homem pediu desculpas pelo incômodo e saiu com a botija debaixo do braço.

Certificando-se de que o estranho havia ido embora, Beija-flor voltou aos seus afazeres. Ao colocar a chaleira sobre o fogão e girar o botão, veio a primeira decepção do dia: o gás havia acabado. Tentou duas, três vezes, mas nada. O fogo não acendia. Teria que esperar o comércio abrir para comprar outro botijão.

Chateado, lamentou a oportunidade perdida: "Eu poderia ter comprado a botija daquele infeliz! Teria ajudado um filho de Deus e não ficaria sem o meu café até as lojas abrirem..."

Sem alternativa, resolveu adiantar o serviço e foi soltar a válvula do botijão para adiantar a troca. Acendeu a luz da área externa e caminhou até a casinha do gás. Chegando lá, teve a grande surpresa: só encontrou a mangueira pendurada. A botija não estava mais lá. O "visitante" já havia adiantado o serviço para ele!

Beija-flor não se conteve: jogou o boné no chão e praguejou tudo o que podia contra o larápio madrugador.

Como azar pouco é bobagem, Beija-flor cometeu um erro crasso para quem tinha anos de malandragem na prefeitura e na rua: foi contar o ocorrido logo para o "Suíno". Suíno era o dono da quitanda do bairro — e contar algo para ele era o mesmo que contratar um carro de som para divulgar nota de falecimento.

Antes das nove da manhã, o bairro inteiro já sabia da história, devidamente recheada de aumentos e exageros. A turma jamais deixaria passar uma oportunidade daquelas.

Vendo-se na incômoda posição de "bola da vez", Beija-flor precisou tomar uma atitude inédita. Logo ele, que se gabava de jamais ter tirado férias na vida, viu-se obrigado a pedir licença. O gozador nato virara a chacota oficial do bairro. Não teve jeito: tirou férias forçadas e foi passar uns dias na casa de um irmão no interior. Era isso ou fazer uma besteira.

Felizmente, o poeira baixou e tudo acabou bem, mas Beija-flor carregou a chateação por um bom tempo. Perdeu a banca de "esperto da área" e virou folclore local.

Até hoje a história é lembrada com risadas na vizinhança — inclusive por este que vos escreve.

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