sábado, 31 de outubro de 2026

Das Sombras Digitais à Luz do Pasto: Uma Fábula aos 60 Anos

 

Por Dag Vulpi • Outubro de 2026

Categoria: Crônicas, Psicologia Política, Democracia, Filosofia | Categoria: Reflexões do Autor

Nota do Autor: Esta crônica adota a estrutura clássica da Fábula Esópica adaptada à contemporaneidade para discutir a erosão do debate público brasileiro sob o influxo da desinformação algorítmica. O texto utiliza o recurso da autoficção — costurando a biografia do autor (nascimento concomitante ao golpe de 1964) com a alegoria fantástica do sonho — para propor uma reflexão de natureza essencialmente pedagógica e de mediação de conflitos. A versão atual integra o conceito da Alegoria da Caverna de Platão como antídoto à dissonância cognitiva induzida por bolhas digitais. Formatado e revisado em HTML para integrar o acervo de reflexões do blog.

Elemento da Fábula Categoria Analítica Função Didática no Texto
O Asno "Jair" Viés de Confirmação e Efeito Bolha Representa a vulnerabilidade cognitiva de indivíduos expostos a ecossistemas fechados de desinformação (WhatsApp/Facebook).
O Cabrito "Goat" Alteridade e Estereotipagem Encarna o "outro" político, frequentemente desumanizado e rotulado por espantalhos ideológicos antes de ser ouvido.
Corte do Wi-Fi e Leitura em Voz Alta Dissonância Cognitiva Induzida e Alegoria da Caverna (Platão) Ilustra a necessidade pedagógica de romper o fluxo da desinformação e introduzir a filosofia clássica (a busca pela luz da razão) como contraponto às sombras da bolha digital.
Perfil de Bolsonarista de Campinas Personas Digitais e Sátira Política Utiliza a caricatura subliminar para evidenciar como o asno, agora em processo de libertação, usa as próprias ferramentas da bolha para checar fatos.

No último domingo, 31 de março, a data do meu aniversário coincidiu mais uma vez com a efeméride da implantação do regime militar no Brasil. Isso mesmo: nasci exatamente no mesmo dia, mês e ano daquele infame sistema. Na infância, durante o ensino primário e parte do ginasial — pois, após os 13 anos, comecei a entender basicamente do que se tratavam aquelas festividades militares —, a data era celebrada nos desfiles escolares como "o dia da revolução". Sem as ferramentas cognitivas necessárias para compreender o contexto histórico, eu sentia um orgulho inocente diante daquela pompa cívica, justamente no dia do meu aniversário, enquanto nos aniversários dos meus amiguinhos nada daquilo acontecia. Mas deixemos o rigor da cronologia de lado e passemos ao que realmente importa.

Decidi organizar um churrasco para celebrar. Afinal, deixei de ser um simples senhor de meia-idade e passei a ser oficialmente um sexagenário. Entre os convidados, figuravam alguns bolsonaristas convictos. Após algumas rodadas de cerveja, enquanto eu circulava entre as mesas para agradecer a presença de todos, resolvi me sentar ao lado de um deles — o esposo da minha sobrinha —, a quem já conhecia de outros debates e de cuja radicalidade eu não tinha dúvidas. Minha intenção original passava longe do debate político, mas, no fundo, eu sabia que ele não me permitiria dar um simples abraço e ir embora sem ouvir ao menos uma provocação. Afinal, é notório como o isolamento de determinados cidadãos em bolhas ideológicas tornou a neutralidade uma possibilidade quase impossível no nosso cotidiano. Basta que um conservador identifique em você traços do espectro progressista para que o tribunal político se instale.

Assim que me sentei ao seu lado, antes mesmo que eu pudesse agradecer a sua presença e a de sua família, ele disparou:

— Você viu o que o cachaceiro aprontou desta vez?

Fingindo ignorar o alvo da provocação, devolvi: — O que dizem que eu aprontei desta vez?

— Não você — atalhou ele. — O cachaceiro ao qual me refiro é o Lula.

De pronto respondi: — Ah, ainda bem que desta vez não sou eu!

Seria o cúmulo da indelicadeza ser hostilizado numa data em que chego à terceira idade, com o interlocutor bebendo e comendo às custas de um velho comunista. Até ontem, em rodas reservadas de parentes radicais de extrema-direita, eu era chamado apenas de "comunista". Hoje, completando meus 60 anos, certamente o adjetivo "velho" antecederá expressões como doutrinado, utopista e fantasioso. Dei um largo sorriso, abracei-o em sinal de afeto, agradeci sua presença e mudei de quadrante. Fui provocar minha cunhada, lulista de fé. Praticamente todo lar brasileiro abriga hoje uma trincheira de cada lado do muro.

Fim de festa. Casa vazia. Após um banho demorado, acomodei-me confortavelmente no sofá e servi-me de um bom vinho que recebera de presente. Pensei até em acender um charuto, mas o bom senso doméstico prevaleceu: as cinzas no tapete despertariam a justa irritação de minha esposa. O Cabernet Sauvignon chileno, safra 2014, já era bom o suficiente. Lembro-me apenas de ter apoiado a taça vazia sobre a mesa de centro, virado a cabeça para a esquerda e adormecido. Foi um sono profundo e revitalizante, mas incapaz de afastar as imagens e pensamentos que invadiram minha mente — muito provavelmente influenciados pela experiência vivida com o esposo da minha sobrinha durante a festa.

1. A Fazenda, o Asno e a Bolha Digital

Assim que adormeci ali naquele sofá, meu cérebro cuidou de formular um sonho. O cenário era uma fazenda. Os protagonistas: eu, um jovem cabrito chamado Goat, e um velho asno chamado Jair, que coexistiam em aparente harmonia. O jovem cabrito habitava um pequeno cercado próximo à casa principal, alimentando-se das folhas secas que despencavam de uma grande árvore próxima dali. Como o aporte nutricional daquelas folhas era escasso, eu precisava, sem uma necessidade justificável, cumprir o laborioso rito diário de subir o morro caminhando até o pasto onde vivia o asno para cortar feixes de capim e complementar a dieta do jovem cabrito.

O arranjo ideal seria a unificação dos espaços, onde tanto o asno quanto o cabrito ficassem no mesmo local — no caso, no alto do morro, onde havia o enorme pasto ocupado exclusivamente pelo temperamental, ríspido e refratário velho Jair. Tentando compreender sua rabugice e sua ojeriza ao jovem cabrito, eu postergava a decisão. Buscando amaciar a convivência, passei a visitá-lo com frequência, oferecendo-lhe suculentas espigas de milho. Nossos diálogos eram monossilábicos e tensos, mas compreensíveis diante da natureza do bicho. Certo dia, decidi levar Goat para uma apresentação formal, tencionando iniciar a mediação sobre a partilha do solo. Jair relutou em se aproximar, desdenhou da espiga, mas acabou cedendo à curiosidade. Lançando um olhar de profundo desprezo ao jovem animal — que o espreitava com um misto de admiração e receio —, o velho Jair sentenciou, olhando fixamente para mim:

— Talvez você ignore, mas esse aí carrega a herança genética do velho Trotsky. Aquele bode barbudo e arruaceiro que nunca trabalhou na vida, vivia de espalhar balelas socialistas e comer às custas daqueles que faziam a fazenda funcionar. Um insano que defendia a divisão do pouco que se tinha. Até um sobrinho meu, para tristeza do Olavo, meu irmão, acabou contaminado por essas ideias e pirou da cabeça. Esse aí — apontou o casco para Goat — é farinha do mesmo saco. O fruto não cai longe da árvore que o produziu.

Dito isso, virou as costas e marchou para o outro lado do pasto.

Goat assistiu à cena perplexo. — Dos anciãos se espera a temperança da sabedoria — confidenciou-me o jovem caprino.

No caminho de retorno, enquanto deliciava-se com o tenro capim, Goat acabou me revelando algo intrigante: suspeitava que o velho Jair operava sob o influxo de redes de desinformação. Um jovem porco de uma fazenda vizinha mencionara que seu avô trocava mensagens de WhatsApp em regime de tempo integral com o asno, e que inclusive haviam criado um grupo para compartilhar conteúdos políticos. A revelation me trouxe um sobressalto: sob o teto da minha própria fazenda, o vírus da mentira sistemática já colonizava as mentes e formava bolhas radicais.

2. A Pedagogia do Confinamento e a Saída da Caverna

Naquela noite — dentro da própria lógica do sonho, claro, já que o meu "eu real" continuava dormindo profundamente no sofá após a taça de vinho —, a mente teimava em não sossegar, incapaz de dissipar as palavras rudes e incoerentes do velho asno. Ao despertar na ficção do sonho e tomar café, ainda me encontrava mergulhado na reflexão sobre como um ser pode ter seu próprio caráter moldado quando negativamente influenciado por fake news. Pensei em uma atitude radical: encontrar o celular no estábulo e lançá-lo no rio. Contudo, percebi que agir assim seria me igualar ao velho asno. Decidi retomar a conversa a sós, sem a presença do Goat e sem levar a espiga de milho. Aproximei-me da cerca e chamei com firmeza:

— Jair, faça-me um favor, venha até aqui. Precisamos ter uma conversa séria.

Ele ergueu as enormes orelhas, relutante. Insisti gritando seu nome: — JAIR!

Ele virou-se e aproximou-se. Fui direto ao ponto sobre os assuntos que me tiraram o sono: questionei sua propensão a acreditar em notícias falsas e o contrassenso de eu ter de subir o morro diariamente para cortar capim, quando o correto seria ambos compartilharem o amplo pasto. Além de me poupar trabalho, isso tornaria a vida do velho asno menos solitária, substituindo as mentiras virtuais por conversas agradáveis com o jovem cabrito.

— Me desculpe, mas não permitirei dividir o mesmo pasto com o neto de um comunista — respondeu o asno prontamente. — Além disso, as mensagens que troco com meus velhos conhecidos são uma particularidade que me é de direito. Se era isso que você tinha a me dizer, poupe-me. Afinal, vivemos numa democracia.

Contive-me para não ser grosseiro e ponderei: — Você tem certa razão quanto ao direito de trocar suas mensagens. No entanto, ao contrário de mim, que me preocupo com você, você parece não se sensibilizar com a possibilidade de dividir o espaço com um jovem cabrito — e não com uma cascavel. Contudo, tomei uma decisão: a partir de hoje haverá um revezamento. Nos meses pares, o Goat fica no pasto e você desce para o cercado, comendo as folhas secas. Como hoje é dia dois de abril, mês par, é sua vez de descer. Junte suas coisas.

Ao comunicar a decisão ao Goat, ele demonstrou hesitação por compaixão pela idade avançada do asno: — Respeito muito o senhor, mas prefiro ficar no cercado a evitar que o senhor Jair passe por este constrangimento.

Mantive a autoridade pedagógica: — Goat, esta é uma decisão minha. Acredite, essa mudança será muito boa, principalmente para o Jair. Estando mais próximo de nós, teremos tempo para conversar e mudar sua visão de mundo.

Subimos o morro para efetivar a troca. Ao questionar o asno sobre a ausência de seus livros — os volumes que lhe presenteei ao longo dos anos —, ele zombou: — Livros? Você realmente acredita que li uma página sequer daquele amontoado de besteiras? Estão jogados pelo pasto, se é que sobrou algo do sol, da chuva e dos meus pisoteios.

— Tudo bem — respondi. — Minha intenção era colaborar com sua conscientização. Mas, se o obrigo a trocar de espaço, faço-o para demonstrar que viver em coletividade é a única forma de tornarmos a vida melhor.

Fizemos a troca. No entanto, assim que transferi Jair para o cercado próximo à casa principal, adotei uma medida sanitária indispensável: mudei a senha do Wi-Fi da fazenda. Sem o pacote de dados e privado da rede, o velho asno viu-se abruptamente desconectado daquele grupo de WhatsApp que alimentava seu ressentimento diário. Nos primeiros dias, a reação foi a típica crise de abstinência de quem habita bolhas virtuais: andava de um lado para o outro no cercado, bufando contra as grades e encarando a tela apagada do aparelho como quem busca água no deserto.

Sabendo que ele jamais abriria espontaneamente uma das obras da minha biblioteca, decidi mudar de estratégia. Todas as tardes, eu me acomodava na varanda, a poucos metros do confinamento, puxava uma cadeira de balanço e passava a ler em voz alta. Escolhi o repertório com intenção cirúrgica: comecei pelo Livro VII de A República, de Platão — a célebre alegoria da Caverna.

Enquanto eu lia sobre os prisioneiros acorrentados que tomavam sombras projetadas na parede como se fossem a única realidade existente, percebia as orelhas do asno se erguendo. Ele tentava disfarçar desinteresse, mantendo-se de costas, mas a força da metáfora o atingia em cheio. Ouvir sobre homens manipulados por marionetistas que projetavam ilusões fazia-o, inevitavelmente, refletir sobre sua própria submissão às correntes digitais. Nos dias seguintes, intercalei a filosofia clássica com ensaios modernos sobre letramento midiático e psicologia política. Sem o ruído constante das notificações e sem a validação anestesiante da bolha, a leitura audível atuou como um antídoto para a ignorância.

Aos poucos, o rancor da clausura cedeu espaço à autocrítica. Tanto que, mais tarde, ao conseguir restabelecer acesso eventual à internet, o asno ingressou no Facebook utilizando uma conta com o perfil de um bolsonarista de Campinas — não mais para propagar hostilidades no grupo "Consciência Política Razão Social", mas para consultar, de forma oculta, plataformas especializadas em checagem de fatos e confrontar o que ouvira na varanda com a realidade.

3. O Abraço e a Restauração da Harmonia

Enquanto isso, Goat prosperava no pasto aberto, correndo livre e fazendo amizades com os animais da fazenda vizinha. Chegado o primeiro de maio, dia da alternância, subimos o morro para restabelecer a ordem. Ao se cruzarem no portão, Goat relatou a maravilha que fora o período no pasto. O velho asno, com o olhar transformado e desprovido da antiga arrogância, desabafou:

— Que bom que você gostou. Eu também adoro este lugar, onde nasci e envelheci. Porém, fui feliz apenas na juventude, antes de perder meus pais e amigos. Quando a velhice chegou, fechei-me em um mundo equivocado, fui grosseiro com nosso dono e com você. Se estivesse aberto à convivência, teria me poupado de mergulhar nesse oceano de fake news que transformou minha mente em terreno de radicais. Nesses dias no cercado, sem a cegueira do celular e ouvindo as leituras na varanda, compreendi que as sombras que eu tomava por verdade eram mentiras construídas para empoderar os donos do poder. Pesquisei em agências de checagem e vi a fraude em que vivi por dez anos. Quero aproveitar os anos que me restam: você me fará o asno mais feliz deste mundo se aceitar dividir este espaço comigo e mediar minha amizade com os vizinhos. E, por fim... me empresta seus livros? Prometo lê-los com todo o zelo.

Olhei para o Goat. Ele olhou para mim e falou: — Por favor, diga que você permite.

Abri um sorriso largo e nos envolvemos em um longo e afetuoso abraço triplo. A harmonia, enfim, espalhou-se por cada canto daquela propriedade.


Nota Reflexiva

A restauração democrática não se faz pelo aniquilamento do oponente, mas pela interrupção cirúrgica do ruído algorítmico e pela reeducação pedagógica através do diálogo e da filosofia. A verdadeira liberdade não reside na bolha das certezas convenientes, mas na coragem de abandonar as sombras da caverna e confrontar a luz da checagem de fatos e da alteridade.

Referências Bibliográficas (Padrão ABNT)

PLATÃO. A República. Tradução de Carlos Alberto Nunes. 3. ed. Belém: EDUFPA, 2000. (Livro VII: A Alegoria da Caverna).

RECUERO, Raquel. Discursos de desinformação de massa nas redes sociais. Porto Alegre: Sulina, 2022.

TAJFEL, Henri. Grupos humanos e categorias sociais. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1983.

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