sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O comando de Hartung frente a geopolítica capixaba esta em xeque



Por Dag Vulpi
Surge uma dúvida no meio político capixaba, mas que logo será respondida. Afinal, serão os deputados que dependerão do governador, ou será o governador que dependerá da assembleia para tocar seu mandato nos próximos quatro anos? Enfim, seja lá quem for o mais dependente, logo teremos a resposta afinal faltam poucos dias para iniciar-se a nova gestão com Paulo Hartung à frente do executivo capixaba.  

Terminado o processo onde Paulo Hartung e Casagrande digladiaram ferozmente na disputa por cada voto da sociedade capixaba, é pouco provável que predominará a unanimidade entre a casa de Leis e o palácio do governo.

Apesar de a maioria dos nomes que ocupam as atuais vagas na Assembleia terem participado do grupo de políticos formado e liderado por Hartung num passado muito recente, ainda assim, evidencia-se através de algumas iniciativas, como a que citarei mais abaixo, que parece não haver disposição dos deputados em aceitar pacificamente uma relação unilateral como ocorreu em mandatos anteriores.

O governador eleito Paulo Hartung sempre teve o cuidado de manter sobre sua batuta, a maioria das lideranças da política do estado, e foi assim, com o apoio da maioria que ele sempre tocou seus projetos, porém, como em tudo que envolve política, nada é garantido, o peemedebista certamente terá que reconquistar parte do prestígio perdido durante o tempo em que ficou sem a caneta na mão.

Uma mostra da perda do prestigio, que alguns preferem chamar de comando, foi o fato de um grupo de deputados estaduais, foi essa a iniciativa que mencionei acima, terem se posicionado pela aprovação das contas do governador socialista Renato Casagrande, de 2014. Resta-nos saber como Hartung interpretará esse gesto, se considerou uma atitude normal de uma bancada afinada com o governador que esta prestes a encerrar seu mandato, ou se esse foi um recado de rebeldia para o governador eleito. O que teria pesado no posicionamento dos deputados foi o resultado das eleições proporcionais, que deixaram mais da metade do plenário de fora da próxima legislatura.

Para alguns, será difícil que haja uma reconciliação entre Hartung e os deputados que participaram mais ativamente da base de Renato Casagrande na Assembleia. Porém, para outros, não seria de todo estranho, afinal falamos de política, se o grupo não fizer oposição alguma ao novo governo, e ainda, existem nomes que terão posição mais independente em relação ao governo do Estado. 

Tudo será posto à mesa quando se aproximar o processo eleitoral de 2016. E a tendência é que haja um acirramento no clima, pois estará novamente em disputa os interesses tanto do peemedebista quanto do pessebista.  

Casagrande e Hartung, criatura volta-se contra o criador



Dag Vulpi - Em entrevista concedida a um jornal da capital o governador derrotado nas urnas Renato Casagrande, conta sua versão de como foi “traído” pelo candidato eleito em outubro último, o peemedebista Paulo Hartung. Ainda segundo ele, articulará a formação de um grupo político formado por lideranças do estado, onde ele será o coordenador. Parece que de tanto participar dessa pratica, porém como liderança e não como coordenador, dessa vez será o socialista que tomará frente à liderança da geopolítica capixaba.  

A prática de formar e coordenar grupo com lideranças políticas aqui no ES sempre teve iniciativa e foi tocado com maestria por Hartung, grupos nos quais, Casagrande sempre teve presença garantida e, certamente aprendeu a receita para tocar o projeto de poder.  Resta saber se o atual governador e candidato derrotado nas urnas encontrará eco nessa sua tentativa de aglutinar lideranças, afinal, as lideranças que sempre estiveram presentes nos grupos coordenados por Hartung dificilmente se rebelarão exatamente  agora que atingiram seu objetivo maior, excetuando-se logicamente aqueles participantes que por acaso ficarem fora do projeto de governo do peemedebista. É a criatura voltando-se contra seu criador.

Por Renata Oliveira no Seculo Diário

Nada de balanço da gestão. Depois de repetir em vários veículos as realizações de seu mandato, o governador Renato Casagrande concede a Século Diário neste fim de semana uma entrevista com o balanço político de seu governo e dos episódios anteriores e posteriores às eleições deste ano, marcadas pelo fim da aliança política entre ele e o governador eleito, Paulo Hartung (PMDB). 

O governador contou como foi a conturbada relação com o peemedebista desde 2010, quando ele se tornou candidato palaciano ao governo, com o apoio de Hartung, em troca de um governo compartilhado com seu apoiador. Acordo que manteve durante todo o seu governo, mas que não impediu que o peemedebista o traísse neste processo eleitoral. 

Casagrande também faz uma avaliação dos motivos que o levaram a sair derrotado da eleição deste ano. Reconhece que a estratégia de seu adversário foi bem eficiente e que a eleição poderia ter segundo turno se ele não tivesse percebido tarde demais qual era o objetivo de Hartung. 

O governador também falou do episódio da avaliação das contas do exercício de 2013, em que saiu vitorioso na Assembleia Legislativa, e acredita que se trata de uma nova postura da Casa de não aceitar a submissão ao poder executivo. 

Ele também fala de futuros projetos. Casagrande pretende coordenar um grupo político que vai ter peso na disputa de 2016, embora evite dar pistas sobre a disputa de cargos. Mas garante que não vai permitir que seu governo seja desconstruído pelo seu sucessor, sem reagir.  

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Fascismo

Fascismo é a denominação que se dá ao regime político que surgiu na Europa entre 1919 e 1945, portanto, no intercurso das duas grandes guerras mundiais (I GuerraMundial e II Guerra Mundial). Suas características básicas são: o totalitarismo, o nacionalismo, o idealismo e o militarismo.

De modo geral o fascismo é identificado como o regime implantado por Benito Mussolini na Itália no período do pós-guerra. Contudo, ainda que a Itália seja o berço dessa ideologia, a Europa viveu sob ameaça de expansão deste regime durante toda a década de 1930. O fenômeno fascista estendeu-se para outros países europeus como Espanha (Francisco Franco), Portugal (Salazar), entre outros.

Os italianos eram um povo que possuía um extremo sentimento de nacionalismo. Sua identidade enquanto nação era determinada pela unidade de raça, língua, cultura e território. Este sentimento de nacionalidade foi profundamente atingido - no período do pós-guerra - pelo não cumprimento integral das promessas por parte dos Aliados da guerra. A I Guerra Mundial trouxera consequências desastrosas para a Itália, o país encontrava destroçado e os Aliados recusaram-se a cumprir os acordos feitos. Os italianos sentiram-se humilhados e foi deste sentimento de nacionalismo ferido que se estruturou na Itália o regime fascista.

Em meio às agitações do período, provocadas pela profunda crise econômica que a Itália vivia – situação que se agravava pelas greves e manifestações de trabalhadores insatisfeitos - Benito Mussolini, antigo agitador social, é convocado para chefiar o país. Encarregado de organizar um novo gabinete Mussolini dissolveu partidos de oposição e assumiu o comando do país.

Apesar de ter origem oficialmente em 1919, o fascismo torna-se conhecido a partir de 1922, quando Mussolini chega ao poder. Um mês depois de assumir o comando do estado italiano, o Parlamento lhe concederia plenos poderes enquanto governo. Benito Mussolini baseou o Estado fascista no corporativismo, no intervencionismo econômico por parte do Estado e também no expansionismo militarista. Mussolini permaneceu no poder até 1943. Foram, portanto, 21 anos de governo sob o regime fascista, resumido por Benito Mussolini da seguinte forma: “Tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Diálogo: ponte para uma sociedade mais solidária


Por José Fernandes P. Júnior
 
“Quando secam os oásis utópicos, estende-se um deserto de banalidade e perplexidade.”

O pensamento habermaseano faz coro com a crítica desferida à metafísica tradicional e tenta “desconstruir o paradigma da modernidade iniciado por Descartes e Locke, configurado na oposição racionalismo versus empirismo”. Em outras palavras, a teoria proposta por Habermas tem como objetivo dar à razão um limite, pois o endeusamento da racionalidade pode chegar a extremos irracionais. Veja-se o caso dos totalitarismos , que, ao se apegarem a solipsismos inconsequentes, geram projetos de poder contaminados de desvios. Este tipo de racionalidade é rechaçada por Habermas por ser subjetivista e porque a própria razão não fez a crítica a si própria.

Nesses termos, o modelo de racionalidade expedido na modernidade por Descartes deve ser posto à análise e à crítica. Desse modo, entendem Martins e Aranha que “o paradigma da racionalidade moderna precisa ser contestado, mas não por meio do irracionalismo e, sim, pela atividade crítica da razão mais completa e mais rica, que dialoga e se exerce na intersubjetividade”. Assim, o modelo que Habermas nos oferece é o do uso da razão comunicativa; não subjetivista, mas dialogal.

Nessa perspectiva, o viés que nos é apresentado é o da construção dialogal entre as pessoas, que, por sustentabilidade dos argumentos expostos, chegam ao consenso. Assim, a linguagem, a palavra, o discurso têm importância decisiva na tarefa de se chegar ao consenso e, por conseguinte, à ética. Esta construção dar-se-á pela "pluralidade de vozes" que argumentam em busca do consensual. Notemos, aqui, a importância que a palavra tem no mundo da vida das pessoas e na sociedade. Não era assim que os gregos – povo da palavra – tentavam sanar os problemas da polis? Certamente.

Entretanto, há que se ter cuidado diante das artimanhas sofísticas e falaciosas de que alguns se valem para persuadir. Nenhum interesse particular deve sobrepor aos da comunidade, pois, sendo o consenso construído por um pseudodiscurso, este revelará sua inautenticidade diante dos interesses da maioria. a ética do indivíduo não deverá estar acima do “todo” coletivo. Nesse sentido, o professor Olinto Pegoraro nos diz que “Habermas, partindo de um ponto de vista universal, de um lugar de observação e de julgamento pelo qual as contendas podem ser arbitradas imparcialmente e por consenso, não quer construir uma ética da obrigação como Kant, mas uma teoria ou instância de validação da norma existente feita por ‘nós’ e não por uma consciência solitária, solipsista e intimista”.

Esse modelo do qual Habermas – juntamente com Karl-Otto Apel (1922) – se vale é pautado, sobretudo, no diálogo. Este seria o aspecto de maior relevância na construção de uma sociedade mais equânime e tolerante. Registre-se que, como mencionamos acima, a ojeriza que nosso filósofo tem a qualquer ato de terror e intolerância contra a humanidade. Talvez por isso tenha encontrado na linguagem, no diálogo, o meio possibilitador da construção de uma sociedade mais solidária. Desse modo, como afirma C. Helferich, “a forma básica de seu pensamento é, portanto, reflexiva, ou seja, auto-referente [...]. Assim, o ponto de partida da reflexão não é – como em Kant – o pensamento solitário do indivíduo, mas o discurso, a argumentação em comum, sempre mediatizada pela linguagem”. No entanto, argumentar exige compromisso. E o discurso não pode ser vazio de sentido, pois, se assim for, não se sustentará e, consequentemente, será descartado pelos outros.

Dessa forma, não temos como fugir da argumentação. Todos nós precisamos de argumentos como condição vital. O jornalista se utilizará deles para evidenciar a notícia; o advogado, para defender seu cliente; o publicitário, para vender seu produto; o professor, para fazer com que o aluno compreenda; o político, para convencer que é o melhor candidato; o operário, para mostrar que merece aumento salarial etc. Os exemplos são inumeráveis. O certo é que a todo instante estamos a fazer discursos e buscando o consenso. Quando isso não ocorre, está aí a Justiça para resolver os conflitos; e mesmo que isso ocorra, as situações litigiosas não escaparão à esfera dos argumentos. “A situação da argumentação é, portanto, inescapável. Argumentar significa fazer valer pretensões por meio de argumentos; em outras palavras significa que aquele que argumenta, sempre se comprometa”, diz-nos Helferich.

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A fadiga do lulismo, o reformismo impotente






“Conheces o marinheiro, quando vem a tempestade”
Sabedoria popular portuguesa

“Mais vale ficar vermelho cinco minutos, que amarelo toda a vida”
Sabedoria popular brasileira

Por Valério Arcary* no Correio da Cidadania

Eis a questão metodológica central em uma análise marxista: a análise da transformação na correlação de forças social deve orientar a interpretação da mudança nas relações de força eleitorais, e não o contrário.

A correlação de forças não evoluiu, desfavoravelmente, para a classe trabalhadora e os seus aliados depois de junho, embora o resultado das eleições, mesmo com a reeleição de Dilma, tenha sido um castigo para o PT. O reformismo anêmico quase foi derrotado. Confundir os dois processos só pode conduzir a conclusões unilaterais, como aquela que insiste na versão da “onda conservadora”.

A crise do lulismo está revelando um descontentamento crescente de parcelas cada vez mais amplas da classe trabalhadora com os governos de coalizão. A decadência do PT poderá evoluir para uma ruína de toda a esquerda? Sim, pode. Mas está colocada, também, outra possibilidade, muito menos pessimista. A fadiga de frações do proletariado com os limites do lulismo pode favorecer a reorganização da oposição de esquerda.

Uma mudança na relação de forças entre as classes

Esta mudança nas relações de força tem muitas refrações diferentes, e com peso social diverso: maior divisão burguesa sob a pressão da desaceleração econômica, com frações reposicionando-se por um ajuste fiscal severo, enquanto outras insistem na defesa de um papel regulador mais forte do Estado para defesa da indústria; fortes deslocamentos das classes médias que tendem à polarização, tanto à direita como à esquerda, com o enfraquecimento das posições mais moderadas ao centro; gigantesco desgaste institucional provocado por escândalos de dimensões bíblicas; um relançamento de ativismo sindical que vinha de 2012 e, segundo o DIEESE, se manteve com o maior número de greves desde os anos 1980; um aumento de escala na capacidade de impacto de ocupações de movimentos populares; um relançamento com base de massas ampliada do movimento de mulheres etc.

Uma mudança na relação de forças eleitorais

Já em termos eleitorais, se compararmos o mapa eleitoral de 1989 com o de 2014, a votação do PT se inverte: desta vez o PT perde em 15 das 27 capitais do país e na maioria das grandes e médias cidades, incluindo importantes cidades operárias. O PT perdeu em todas as capitais do Sul: Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba. Perdeu em quase todas do Sudeste. Ganhou raspando no Rio (50,79% - PT/ 49,21% - PSDB) e perdeu em São Paulo; Belo Horizonte, Vitória. Perdeu nas capitais do Centro-Oeste: Brasília, Goiânia, Cuiabá, Campo Grande. No Norte, perdeu em Belém, Rio Branco, Porto Velho, Palmas e Boa Vista. Em São Paulo, o PT perdeu não apenas na capital, mas também na maioria das grandes cidades, como Campinas, Santos e São José dos Campos e também no antes chamado cinturão vermelho, ou seja, em quase toda a Grande São Paulo (Santo André, São Bernardo, Guarulhos, Osasco). O PT ganhou em todas as capitais do Nordeste e também cidades importantes do Rio, como na Baixada Fluminense (Caxias e Nova Iguaçu) e São Gonçalo. Mas, no resultado geral, o PT ganhou nas cidades menores: 2.528 municípios dos 3.879 com até 15 mil eleitores. Também ganhou nos municípios pequenos (entre 15 e 75 mil eleitores) – 882 dos 1.418. E perdeu em 100 das 179 cidades médias com mais de 75 mil eleitores, em 46 das 77 cidades entre 200 mil e 900 mil eleitores; e em 7 das 12 maiores cidades do Brasil.

Junho de 2013 é a chave para uma interpretação marxista

Qual deve ser a principal conclusão da conquista, muito apertada, de um quarto mandato pelo PT? É possível discernir um vínculo entre junho de 2013 e outubro de 2014? Junho desafiou a estabilidade político-social ao colocar nas ruas milhões de jovens, pela primeira vez nos últimos doze anos, e isso foi grandioso.

Mesmo se avaliada a intervenção manipuladora dos meios de comunicação. Mesmo quando considerada a ação de provocadores de extrema-direita. Mesmo que ponderada a ação ultra-esquerdista dos black blocks. As aspirações democráticas (denúncia do papel repressivo da polícia e denúncia da corrupção) e a reivindicação de direitos sociais como a educação, a saúde e o transporte públicos eram justas e necessárias.

O mais importante, contudo, é que parece estar em curso uma transformação essencial na relação dos batalhões mais concentrados da classe trabalhadora com o lulismo e o governo. Iniciou-se uma ruptura de massas, na escala de muitas dezenas de milhões, de setores do proletariado com o PT. Essa relação de confiança prevaleceu por trinta anos, ou seja, o intervalo de uma geração. Chamamos a este processo o princípio do fim do lulismo. Aqueles que caracterizam este processo como onda conservadora, impressionados pela votação de Aécio em grandes centros operários, estão sobrevalorizando um dos aspectos da nova situação.

Este processo de ruptura com o PT está sendo, como seria previsível, muito desigual, porque muito maior no Sul e Sudeste do que no Norte e Nordeste do país. Mas pode ser muito progressivo, se vier a confirmar-se uma maior disposição de luta e resistência do proletariado. Sem o desmoronamento do velho, o novo não pode surgir. Os ritmos dos dois processos não são os mesmos. Mas a crise da autoridade do PT abre a possibilidade de fortalecimento de novos instrumentos de luta, para ir além da CUT e da Força Sindical, nos grandes sindicatos ainda sob influência da burocracia sindical. E favorece a aceleração da reorganização da esquerda.

O processo de crise do lulismo poderá ser revertido em um quarto mandato do governo de coalizão liderado pelo PT? Ou se aprofundará, em consequência das medidas de ajuste e austeridade previstas? Qual das dinâmicas político-sociais prevalecerá? Maior ativismo sindical e resistência política da classe trabalhadora? Desgaste do lulismo diante das concessões do segundo governo Dilma às pressões da classe dominante? Fortalecimento da oposição de esquerda? Ou um realinhamento político face ao governo, como no giro anti-Aécio que assistimos no segundo turno de 2014?

A crise do lulismo

A crise do lulismo está condicionada, como todo fenômeno complexo, por muitos fatores. Entre muitos outros, a estagnação econômica, a inflação crescente, a corrosão da corrupção endêmica, a ruína de mais de uma década de políticas social-liberais, a transição demográfica (uma nova geração adulta que não viveu os anos 80), além da impotência diante de uma agenda de reivindicações amplas contra as opressões (legalização do aborto, criminalização da homofobia, equidade para afrodescendentes). Dependerá, por exemplo, dos posicionamentos que o novo governo venha a ter diante dos ultimatos de frações burguesas que exigem um superávit primário mais alto, a redução de gastos públicos, a contenção salarial etc. Mas dependerá, também, da capacidade da oposição de esquerda de responder ao processo de reorganização por baixo que já começou nos locais de trabalho.

A hipótese central deste artigo é que o mais determinante, de junho de 2013 a outubro de 2014, parece ter sido o efeito síntese de uma lenta acumulação de mal estar social: a mudança da relação social de forças entre as classes. Maior inquietação burguesa, oscilações febris da classe média e o nível mais elevado de atividade grevista são indicadores consistentes. É na estrutura da sociedade que encontraremos a chave para a análise dos deslocamentos na superestrutura. A temperatura político-social do país está mais alta, porque aumentou a ansiedade, a apreensão, a aflição de todas as classes, inseguras diante do futuro, e preocupadas em não perder as posições anteriores. Esta dinâmica explica o início de uma polarização mais intensa que apareceu na campanha eleitoral.

O governo Dilma já tinha sido atingido pelas ondas de choque de junho de 2013 e saiu mais frágil das eleições de 2014. A estabilidade do regime democrático, uma das principais conquistas da solidez da dominação política desde 1994/95, foi desequilibrada por junho de 2013. As eleições de 2014 foram uma confirmação de que uma nova situação se abriu: o tsunami da candidatura Marina Silva; a recuperação da oposição burguesa com Aécio; o impacto da audiência minoritária, porém, importante das candidaturas da esquerda socialista, especialmente, de Luciana Genro pelo PSOL; a reação de massas aos discursos homofóbicos e machistas das candidaturas da extrema-direita; e a montanha russa do segundo turno.

Se a crise do lulismo favorecerá ou não uma reorganização pela esquerda é algo ainda incerto, que será decidido pela luta de classes, mas é possível. Os quase dois milhões de votos na esquerda socialista através do PSOL, PSTU e PCB não são senão uma pequena parcela da audiência que foi conquistada entre a juventude e o proletariado. Mas é isso que esteve em disputa, tanto em junho de 2013 quanto em 2014.

O que está em disputa não é o destino do governo Dilma

É isso que esteve e permanecerá em disputa, não o destino do governo Dilma. A nomeação de Joaquim Levy para a Fazenda, de Nelson Barbosa para o Planejamento, e a permanência de Tombini no Banco Central, com a missão de tranquilizar os investidores, não permite qualquer dúvida de que a orientação do governo Dilma para o quarto mandato do governo do PT será de austeridade contra os trabalhadores. Ainda assim, a classe dominante elevará o tom de exigências sobre Brasília.

O que não significa concluir que a crise do lulismo será uma evolução linear, e à esquerda, da consciência média dos trabalhadores, como ficou claro pelo papel de Marina Silva no primeiro turno de 2014, e pelo fortalecimento do PSDB e crescimento de Aécio Neves durante o segundo turno. Mesmo que deformadamente, a votação sinaliza a fadiga de uma parcela ampla da classe trabalhadora com o lulismo. A votação não permite concluir que prevaleceu o desejo de continuidade.

Dilma se apresentou como a protagonista de um novo governo para poder vencer. Tampouco autoriza conclusões sobre o arraste de uma “onda conservadora”. Aécio precisou se mascarar, e defendeu até o fim do fator previdenciário que atormenta e adia a aposentadoria dos trabalhadores. Mesmo se é verdade que a oposição de direita saiu reforçada das eleições, também é significativo um fenômeno novo: ainda que minoritária, a extrema-direita “saiu do armário”, mais desafiadora que em junho de 2013.

Diretas já, Fora Collor, Junho de 2013

Um pouco de perspectiva histórica nos ajuda a compreender as relações entre junho de 2013 e outubro de 2014. Não se deve julgar um processo de luta pelos seus resultados imediatos. Em 1984, quando das Diretas Já, na fase final da luta contra a ditadura militar, a campanha mobilizou algo em torno de oito milhões de pessoas, que correspondiam a 20% da população economicamente ativa. Foi a maior mobilização política da história da nação, mas dirigida pelo PMDB de Tancredo, Ulysses e Montoro, e o PDT de Brizola.

O resultado das Diretas Já foi paradoxal: derrotou o governo Figueiredo, mas não foi capaz de derrubar a ditadura. José Sarney, o último presidente da Arena/PDS, acabou sendo o primeiro presidente do regime democrático, sem que tivessem ocorrido eleições. O programa das Diretas Já era estritamente democrático-liberal, e os trabalhadores estiveram nas ruas sem uma plataforma de reivindicações próprias. O PT ocupou um papel de codireção, subordinado à liderança burguesa, mas foi nesse processo que Lula e o PT se consolidaram como a referência nacional de esquerda.

Relembrar as Diretas Já pode ser útil para contextualizarmos o hiato, a defasagem, ou a discrepância, muito comum na história, entre as enormes energias liberadas em processos de luta de massas e as esperanças por elas despertadas, e os seus resultados. As Diretas Já foram uma campanha progressiva, porque colocaram em movimento milhões de pessoas, até então politicamente inativas, em choque direto contra a ditadura militar no poder por vinte anos.

Já a eleição da chapa Tancredo Neves/José Sarney no Colégio Eleitoral foi uma usurpação reacionária, mas efêmera, das ilusões populares. O prestígio inicial do governo Sarney, que se proclamou, ostensivamente, como Nova República foi como fogo de palha: brilhou intensamente, mas por pouco tempo. Entre 1987 e 1989, o Brasil conheceu a onda grevista mais importante de toda a sua história. E Lula foi para o segundo turno nas primeiras eleições presidenciais, derrotando Brizola, para terminar sendo vencido por Collor.

Em junho de 2013, depois de mais de dez anos de governos liderados pelo PT, uma explosão espontânea levou algo em torno a pelo menos dois milhões de pessoas às ruas em protestos com reivindicações, essencialmente ou somente democráticas, mas que merecem ser comparados com as mobilizações de 1984. Ou, também, com as mobilizações pelo Fora Collor em 1992, que culminaram com o impeachment de Collor.

Entretanto, ao contrário de 1984 e 1992, desta vez, em 2013, nenhum aparelho político teve papel significativo. Por serem acéfalas, as mobilizações de 2013 não foram menos significativas. Ao contrário, foram, talvez, mais impressionantes, por isso mesmo. No intervalo de poucas semanas, todos os governos e instituições do regime passaram, em graus diferentes de desconfiança, por um sério questionamento.

Em 2013, as ruas foram ocupadas pela juventude assalariada com maior instrução, em sua maioria precarizada em empregos de salários baixos. Os batalhões mais maduros do proletariado estiveram ausentes, embora apoiassem. As tentativas de unir junho com o movimento organizado dos trabalhadores em dois dias de greve nacional sob um programa de reivindicações com um corte de classe mais definido, embora fossem a perspectiva mais animadora, foram insatisfatórias. Dilma Rousseff venceu as eleições, apesar de junho. Mas as eleições de 2014 confirmaram o desgaste do governo de coalizão nas grandes cidades do país, onde se concentra o proletariado. Se 1984 marcou a ascensão do PT à força política nacional, 2013 sinalizou a decadência do lulismo, confirmada nas urnas de 2014.

A classe trabalhadora não é a mesma de trinta anos atrás

O que nos remete à análise do que mudou. O Brasil de 2014 é um país muito diferente do Brasil de trinta anos atrás. Nunca o país conheceu um intervalo histórico de regime democrático-liberal tão longo. Poucas sociedades contemporâneas viveram, em intervalo histórico tão breve, transformações tão significativas. O Brasil duplicou o seu PIB e a sua população nesses trinta anos. Mas esses dois indicadores, que evoluíam nas décadas anteriores aos anos 1980, aceleradamente, passaram a ter dinâmicas muito mais lentas.

O Brasil da alvorada do século 21 é agora uma nação com crescimento lento, que caiu da média histórica em torno de 7% ao ano para algo inferior a 2,5%, e a taxa de fecundidade desabou de mais de 5% para menos de 2%. A desaceleração econômica foi compensada, parcialmente, pela transição demográfica, mas isso não impediu que a desigualdade social, embora tenha sofrido oscilações nesses trinta anos, já que aumentou nos anos 1990 e caiu nos anos 2000, não tenha diminuído de forma significativa. O Brasil permaneceu, essencialmente, depois de três décadas de regime democrático-eleitoral, um país ainda entre os mais injustos.

Essa perspectiva histórica é indispensável para atribuir sentido à avalanche de mobilizações de junho de 2013, e aos resultados eleitorais de 2014. Sem compreendê-los, será impossível interpretar as transformações que o país viveu nesses trinta anos. A hipótese central deste texto é que estes dois processos estão relacionados, e revelam que os limites políticos da influência do lulismo, ou seja, a corrente político eleitoral que governa o Brasil nos últimos doze anos, são hoje muito grandes. O PT perdeu as eleições nas maiores cidades do país, onde se concentra a maioria dos trabalhadores. Essa massa assalariada, que votava em esmagadora maioria no lulismo até 2010 e não o fez em 2014, mudou, também, em muitas outras dimensões. Há uma nova classe trabalhadora no Brasil. Ela nunca foi, proporcionalmente à população economicamente ativa, tão grande, tão concentrada e tão instruída.

Este proletariado pode ir além do lulismo. Sua disposição de luta poderá favorecer uma reorganização pela esquerda. Se encontrar uma esquerda capaz de responder ao desafio histórico de ir além do eleitoralismo. Porque as lutas decisivas são aquelas que o futuro nos reserva, não as que ficaram para trás.

Nota:

Foram contabilizadas 86,9 mil horas paradas em 2012. Há, neste indicador, a confirmação de uma tendência de aumento nas horas paradas que vem sendo percebida mais claramente desde 2009. A série histórica também revela que o total anual de horas não trabalhadas em 2012 é o maior desde 1991 - www.dieese.org.br/balancodasgreves, consulta em outubro 2014.

*Valério Arcary é professor titular aposentado do IFSP.
Originalmente publicado em Marxismo 21 - http://marxismo21.org

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