
O Pensador Coletivo é uma máquina regida pela lógica da eficiência, não pela ética do intercâmbio de ideias.
Você sabe o que é MAV?
O Pensador Coletivo se preocupa imensamente com a crítica ao governo. Os sistemas políticos pluralistas estão sustentados pela prática da dissonância: a crítica pode ser benéfica para o governo quando descortina problemas reais que não seriam enxergados num regime monolítico, porém, poderá vir a ser lesiva caso os problemas levantados tenham por propósitos a desestabilização da governança. O Pensador Coletivo interfere nesse princípio democrático, tendo por imperativo, ou rebater a crítica imediatamente, evitando que o vírus da dúvida se espalhe pelo tecido social, ou, criando sustentação para que aquela dúvida seja revertida para uma certeza. É que, por sua própria natureza, o Pensador Coletivo não crê na hipótese de existência da opinião individual.
O Pensador Coletivo abomina argumentos específicos. Seu centro político não tem tempo para refletir sobre textos críticos e formular réplicas substanciais. Os militantes difusores não têm a sofisticação intelectual indispensável para parafrasear sentenças complexas. Você está diante do Pensador Coletivo quando se depara com fórmulas genéricas exibidas como refutações de argumentos específicos. O uso dos termos como: "elitista", “petralha”, "preconceituoso", “militonto” e "privatizante", assim como suas variantes, é um forte indício de que seu interlocutor não é um indivíduo, mas o Pensador Coletivo.
O Pensador Coletivo interpreta o debate público como uma guerra. "A guerra de guerrilha na internet é a informação e a contrainformação". Como, no mundo real, eles circulam por aí. Você provavelmente conversa com o Pensador Coletivo quando, no lugar de uma resposta argumentada, encontra qualificativos desairosos dirigidos contra o autor de uma crítica cujo conteúdo é ignorado. "Direitista", “comunista”, "reacionário", “bolivarianista” e "racista" são as ofensas do manual, mas existem outras. Um expediente comum é adicionar ao impropério a acusação de que o crítico "dissemina o ódio" ou “defende bandidos”.
O Pensador Coletivo é uma máquina política regida pela lógica da eficiência, não pela ética do intercâmbio de ideias. Por isso, ele nunca se deixa intimidar pela exigência de consistência argumentativa. Os procedimentos do Pensador Coletivo estão disponíveis nas latas de lixo de nossa vida pública: mimetizá-los é, apenas, uma questão de gosto.
Existem similares do MAV em todos partidos. O conceito do Pensador Coletivo ajusta-se a todas as correntes políticas que se acreditam ser possuidoras da chave da porta do futuro. Na era da internet, e na hora de uma campanha eleitoral, o invento vai sendo copiado e adaptado.
Esta publicação foi originalmente feita em 2015, com base no artigo “O Pensador Coletivo”, de Demétrio Magnoli, publicado na Folha de S.Paulo em 2 de novembro de 2013.
Na época, eu já vinha investigando comportamentos que me pareciam coordenados nas redes sociais, a partir de observações realizadas no grupo Consciência Política, Razão Social. A leitura do artigo de Magnoli contribuiu para organizar e aprofundar minha interpretação daquele fenômeno.
Ao republicar o texto, introduzi alterações que hoje reconheço que deveriam ter sido identificadas de maneira mais clara, distinguindo o conteúdo original das intervenções que fiz. Esta nota registra esse reconhecimento e preserva a distinção entre a autoria de Magnoli e a minha própria trajetória de investigação.
Para consultar o artigo original, acesse: O Pensador Coletivo — Demétrio Magnoli, Folha de S.Paulo, 2 de novembro de 2013.


