quarta-feira, 4 de abril de 2012

Caiu a máscara

O título, desculpem-me, é recorrente, mas, não encontrei outro mais adequado. Embora o carnaval tenha terminado há mais de quarenta dias, somente agora caiu a máscara do Senador Demóstenes Torres, ou, melhor, somente agora o Senador Demóstenes Torres tirou a máscara, pondo à mostra seu envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira e a máfia caça-níqueis.
Confesso estar surpreso, tanto quanto deve estar surpreso até quem não era admirador daquele político. Bem articulado, sempre demonstrando situar-se do lado da ética e da moralidade pública, formava, com o Senador Álvaro Dias, aquilo que parecia ser o lado bom  e positivo da oposição.
A surpresa torna-se ainda maior, como o foi, inclusive, para seus adversários políticos, levando-se em conta o histórico profissional do Senador Demóstenes Torres, como membro do Ministério Público, instituição que preza e prega a legalidade. Houve tempo em que o exemplo predileto de mau político era Paulo Maluf. Todavia, depois do mensalão do PT, no Governo Federal, do mensalão do DEM, no Governo do Distrito Federal, dos inúmeros mensalões municipais de diversas colorações e das sucessivas quedas de Ministros corruptos, patrocinados por vários partidos, Maluf perdeu a vez, ficando a indagação: será que há alguém que se salve ?!
Os políticos são verdadeiros atores, dignos de causar inveja aos melhores elencos das novelas das emissoras de televisão. Em Brasília existem dois enormes palcos: o da Câmara Federal, com centenas de figurantes, e o do Senado, com os atores de primeira linha. Os mais antigos passaram à categoria de diretores, como José Sarney, montando peças e distribuindo os papeis entre os mais novos.
Alguns políticos, quando indicados para atuar em outros palcos, como os ministeriais, não há quem os segure. Quem não se lembra da recente e magistral interpretação de Carlos Luppi, na peça "Trabalho escravo", de modo a merecer um "Roquete Pinto" ? Agora, com o acidente de Demóstenes Torres, sofrido nas coxias, o Senado acaba de perder um grande intérprete.
Difícil missão do advogado daquele Senador. Tão difícil, que muitos profissionais da área, como eu, ainda não entenderam o que o "nobre colega" pretende, ao alegar que as provas gravadas são nulas, porque seu cliente tem direito a foro privilegiado. Provavelmente, quis dizer que, tendo sido autorizada a escuta telefônica por um juiz que não é integrante do STF, foro privilegiado do Senador, então, as provas seriam nulas. Assim sendo, o certo é recomeçar. Um Ministro do STF autoriza as gravações, o Senador e o bicheiro voltam a se comunicar pelo telefone, obviamente desmentindo tudo que disseram anteriormente, e as provas passam a ter validade !
Demóstenes Torres está na iminência de ser expulso do seu partido, de ser processado pela Comissão de Ética do Senado e, eventualmente, de ter o seu mandato cassado, tornando-se inelegível. Ainda assim, pouco, muito pouco, para quem exerceu a arte teatral movido por uma enorme hipocrisia, com total desprezo aos seus eleitores e a quem espera um mínimo de decência de um Senador da República.
Qualquer pena será branda, porque se Demóstenes Torres, cassado, ou usando do seu talento, fizer uma "renúncia heróica", poderá voltar para  Promotoria de Justiça de Goiás, lá seguindo na sua brilhante carreira teatral, interpretando, até sua aposentadoria, com todo empenho e seriedade, o único papel da obra "J`accuse", de Emile Zola.
Enquanto isso, nós, brasileiros, ficaremos na expectativa da próxima estréia do "Festival Permanente de Artes Cênicas de Brasília".

Por Romeu Prisco Fonte

terça-feira, 3 de abril de 2012

TENTATIVAS E GOLPES VIRTUAIS

Que os golpes virtuais existem, e estão cada vez mais descarados é sabido por todos, e nós que temos este perfil “internáutico” estamos na categoria dos tentados por eles, ou já sofremos tentativas ou conhecemos alguém que também sofreu, ou pior, caiu em algum golpe. 

Quem nunca recebeu pedido para preencher os dados para atualização cadastral, inclusive solicitando  senha? Conheço muita gente que preencheu esses cadastros, inclusive colegas bastante esclarecidos.

Conheço uma pessoa que caiu em um golpe recentemente, boa pessoa,  simples, educada, porém  com suas fragilidades e carências de mulher de terceira idade, sozinha e  sem companheiro. 
Ela conheceu uma pessoa pela internet, também extremamente educado,  que a convidou para ir morar na Europa, empolgada ela aceitou e começou a enviar dinheiro ao suposto namorado… No final o namorado sumiu juntamente com o dinheiro enviado. Não é preciso nem dizer que isso pode acabar com a vida de uma pessoa, emocional e financeiramente.

Recentemente eu também fui tentado a cair numa esparrela dessas, recebi uma tentadora mensagem via facebook. 

Nela o Sr. Paulo Alson me faz a seguinte proposta:

“Caro Dagmar Vulpi,

Fiquei como parente mais próximo do "Mr. Michael Harris"
Eu preciso da vossa indulgência para esta carta, mesmo sendo de natureza não solicitada, mas confirmo meu desespero diante da situação atual. Por favor, tenha paciência comigo, mesmo que ela não atenda os seus interesses comerciais.
Meu nome é Sr. Paulo Alson, eu trabalho com o Royal Bank of Scotland, em Londres UK.  E existe um financiamento operacional staff. relacionado a um cliente "Mr. Michael Harris", que morreu no voo 447 da Air France, um Airbus A330-200 que voava do Rio de Janeiro, Brasil, para Paris, na França, que caiu no Oceano Atlântico, matando todos os 228 ocupantes, incluindo 12 tripulantes.

Agora eu estou desesperado como seu gerente de conta sobre como obter os parentes do falecido Sr. Harris porque ele tem multi-milhões de dólares de depósitos avaliados $ 18.5MILLION com o Royal Bank of Scotland, Londres, Reino Unido, e estou à procura de alguém que vai trabalhar comigo para ficar como o seu parente mais próximo para o fundo, portanto, eu te escrevi.

Por favor, devido à magnitude deste problema e algumas razões de segurança, eu não seria capaz de explicar tudo aqui, mas eu preciso de sua ajuda para reivindicar esse dinheiro. Eu gostaria que você defina um tempo que nós podemos falar sobre este projeto. Por favor me dê uma chamada no +447035914423, para que eu possa explicar e juntos podemos explorar a oportunidade e suas possibilidades.

Estou ansioso para um relacionamento mutuamente benéfico, como podemos ajudar a colher os benefícios dessa sinergia de negócios”.

Convenhamos que a proposta é tentadora, são $ 18,5 milhões de dólares que estão lá esperando que alguém apareça para sacá-los. O pobre do Sr. "Mr. Michael Harris" infelizmente faleceu naquele acidente aéreo  do vôo 447 Brasil/França, e não possui nenhum parente para reclamar aquela quantia, e o outro coitado o Sr. Paulo Alson que trabalha com o Royal Bank of Scotland, Londres, Reino Unido, está desesperado para encontrar um sortudo para sacar a “micharia” de R$ 33.300.000,00 (convertidos em reais). Bastando para isso entrar em contato pelo nº de telefone apresentado acima.

Outra tentativa de golpe virtual similar à que sofri, é esta que apresento abaixo, sofrida e narrada por outro amigo.

“Recebi um chamado com uma proposta das 1001 noites! Recebi um chamado através de meu Skype de uma pessoa, que não fazia parte de minha lista de contatos. Curioso,  dei a seqüência a conversação, que transcorreu em inglês.
Chamarei meu interlocutor de Sr. Abdulla, que se apresentou como sendo um alto executivo da área de tecnologia de um renomado banco dos Emirados Árabes. Nesse primeiro contato ele desabafa dizendo que foi pelos céus que ocorreu esse encontro tão procurado!  Em seguida ele pede meu email ou telefone para estreitar a conversa, afirmando que o assunto é de meu total interesse e que irei me beneficiar com isso, desde que mantivesse sigilo absoluto.
Passei a ele um email criado no Hotmail para esse tipo de situação, rapidamente ele responde passando os detalhes da proposta, que resumidamente me colocava como herdeiro de uma grande fortuna de um próspero empresário com o mesmo sobrenome que o meu e, sem nenhum parente! Esse empresário havia falecido no terremoto da Indonésia de 2006 e que desde então ele busca desesperadamente alguém com o mesmo sobrenome. Como ele é o detentor de todas as senhas dos sistemas do banco, não teria dificuldade em alterar o cadastro para modificar o herdeiro… Simples, não? Para isso ele propôs uma partilha de meio a meio… Justo, não? Também impôs  uma condição: eu não poderia comentar sobre esse assunto com ninguém. Ele ainda menciona que, por Deus, que me pôs em seu caminho, ele conseguiria abrir sua tão sonhada empresa de tecnologia, alcançando sua independência.
Dei seqüência ao assunto respondendo ao email e solicitando mais informações de como proceder para conseguir a fortuna, nada menos que US$ 26.000.000,00! A resposta foi a que já esperava, ele iria me colocar em contato com um advogado especializado nesse assunto e que seu nome não poderia ser envolvido em hipótese alguma, reforçando o total sigilo sobre o assunto.
Nesse mesmo email ele ousa um pouco mais e me passa um link com um artigo, real, sobre ele, porém os vigaristas criaram um perfil falso no Facebook. O incrível é que a pessoa existe e trata-se de um grande executivo, impressionante.
Retribui passando a ele também um link com algumas informações sobre mim, falso também, claro! Esse foi o pulo do gato! Esse subdomínio que passei estava sendo monitorado pelo Google Analytics! E Sr. Abdulla também se mostrou curioso! Passados alguns dias e para nenhuma surpresa da minha parte surge um acesso! Nigéria!
Esse foi o xeque mate no golpe!
O que eu percebi com tudo isso é que os golpistas utilizam golpes clássicos e por que não dizer, consagrados,  pois muitos tiveram diversos êxitos com eles, aprimorando suas técnicas e utilizando de tudo o que estiver disponível na rede. Emails, mensagens instantâneas, redes sociais, entre outros.
A seqüência desse golpe seria um contato com um suposto advogado, onde eu devia mandar algum dinheiro para despesas com diversas taxas, esse valor gira em torno de US$ 10.000,00 aproximadamente… Mas convenhamos que é um valor ínfimo para quem vai conseguir uma fortuna, não é mesmo?
Os golpistas chegam a passar alguns documentos falsos, imagens digitalizadas, como títulos, extratos e vários outros, para quem desconhece, chega a ser convincente. Os espertalhões também buscam um grau de intimidade com a vitima, afirmando que a partir daquele momento, um forte laço fraternal envolve os dois!”.   (Clécio Antao)

Então meus amigos, a rede nos proporciona muitas coisas boas, manter contato com amigos e parentes distantes, encontrar um parceiro para relacionamento íntimo, amigos do passado, mas permite também  que pessoas de má fé possam explorar esses recursos tecnológicos e principalmente a inocência de pessoas, na maioria simples e mal informadas.

Fica aqui o alerta, dinheiro nunca vem fácil e, como já avisa um velho ditado: Quando a esmola é demais, o santo desconfia!

Grande abraço.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O último dos neandertais parte I

A vida e o fim dos neandertais

Uma mulher neandertal em uma inédita reconstrução baseada na anatomia de fósseis e na recuperação de dados genéticos
Em março de 1994, um grupo que explorava um sistema de cavernas no norte da Espanha voltou suas lanternas para uma pequena galeria lateral e notou duas mandíbulas humanas se projetando do solo arenoso. Esse conjunto de grutas, El Sidrón, fica no centro de uma remota floresta de altitude na província de Astúrias, logo ao sul da baía de Biscaia. Temerosos de que aqueles maxilares pudessem ser da época da guerra civil, quando guerrilheiros republicanos usaram El Sidrófipara se refugiar das tropas de Franco, os exploradores avisaram a Guarda Civil. Na galeria, as autoridades toparam com resquícios de uma tragédia bem maior – e, como se veria, muitíssimo mais antiga que o conflito que dividiu os espanhóis em meados do século 20.
Em poucos dias, foram exumados cerca de 140 ossos, os quais foram enviados, por ordem de um juiz local, ao Instituto Nacional de Medicina Legal, em Madri. Quase seis anos depois, quando afinal os peritos concluíram seu trabalho, a Espanha viu-se diante de seu mais antigo enigma policial. Estava confirmado que os ossos achados em El Sidrófinão eram de combatentes republicanos, e sim de um bando de neandertais, que talvez tenham morrido de forma violenta, 43 mil anos antes. O local em que estavam os ossos põe esse grupo em uma das mais importantes interseções geográficas da pré-história, e a data o situa no âmago de um dos mais persistentes mistérios de toda a evolução humana.
Os neandertais, os nossos parentes pré-históricos mais próximos, dominaram a Eurásia por cerca de 200 mil anos. Durante esse tempo, eles meteram seu nariz protuberante em todos os cantos da Europa, e mais além – ao sul, na orla do Mediterrâneo, do estreito de Gibraltar até a Grécia e o Iraque; ao norte, até a Rússia; a oeste, até a Inglaterra; e, a leste, quase até a Mongólia. Mesmo no auge de sua ocupação da Europa ocidental, o número total de neanderdais jamais passou de 15 mil. Ainda assim conseguiram sobreviver, mesmo quando o resfriamento do clima transformou parte de seu território em uma paisagem parecida com a do atual norte da Escandinávia – uma tundra gélida e estéril, cujo horizonte sombrio é rompido por poucas árvores macilentas e uma quantia de líquefi suficiente apenas para manter vivas as renas.
Na época da tragédia de El Sidrón, todavia, os neandertais estavam lutando para sobreviver. Con! nados à península Ibérica, a bolsões na Europa central e ao litoral do Mediterrâneo, estavam oprimidos por condições climáticas cada vez piores. Também perdiam terreno pelo avanço dos seres humanos anatomicamente modernos, que eram originários da África e migraram primeiro para o Oriente Médio e depois para toda a Eurásia. Por volta de 15 mil anos depois, os neandertais haviam desaparecido para sempre, deixando apenas ossadas e dúvidas. Formavam eles uma linhagem de sobreviventes inteligentes e perseverantes, parecida com a nossa, ou não passavam de um beco sem saída em termos cognitivos? O que houve entre 45 mil e 30 mil anos atrás, quando os neandertais partilharam algumas regiões do território eurasiático com os homens modernos? Por que um tipo de ser humano sobreviveu e o outro se extinguiu?
Em uma manhã nevoenta de setembro de 2007, eu estou na gruta El Sidróficom Antonio Rosas, do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madri, coordenador dessa investigação paleoantropológica. Após dez minutos na caverna, cheguei à Galería del Osario. Desde 2000, cerca de 1,5 mil fragmentos de ossos foram retirados dali, constituindo os restos mortais de pelo menos nove neandertais. Rosas recolhe o fragmento de um crânio recém-exumado e outro pedaço de um osso comprido do braço, ambos com as bordas recortadas de maneira irregular.
“Essas fraturas – clack! – foram feitas por seres humanos”, diz Rosas, imitando o ruído do impacto de um instrumento de pedra. “Isso significa que estavam em busca do cérebro, no interior do crânio, e do tutano, presente nos ossos longos.” Além das fraturas, marcas de cortes nos ossos indicam que os indivíduos foram objeto de canibalismo. Logo após a morte dos nove, o solo sob eles cedeu de repente, impedindo que hienas e outros animais dispersassem as ossadas.
Uma maçaroca de ossos, sedimentos e pedras despencou 20 metros em uma câmara de calcário oca. Ali, protegidas por areia e argila, preservadas pela temperatura constante da caverna e incrustadas no osso mineralizado, sobreviveram preciosas moléculas do código genético dos neandertais, aguardando a época no futuro em que poderiam ser examinadas, de modo a revelar pistas de como viviam essas pessoas.
O primeiro indício de que o nosso tipo de ser humano não foi o primeiro a habitar a Europa surgiu há um século e meio, em um local 13 quilômetros a leste da cidade alemã de Düsseldorf. Em agosto de 1856, operários que trabalhavam em uma mina de calcário no vale do rio Neander escavaram um crânio com testa proeminente e ossos grossos nas pernas. Desde o início, os neandertais carregaram a pecha de um persistente estereótipo cultural, sendo vistos como abrutalhados moradores das cavernas. O tamanho e a forma dos fósseis sugerem que eram baixos e robustos (os homens tinham em média 1,60 metro de altura e pesavam cerca de 84 quilos), com músculos que protegeriam pulmões de grande capacidade. O paleoantropólogo Steven E. Churchill calculou que, para manter essa massa corporal em um clima frio, um neandertal adulto do sexo masculino teria de ingerir 5 mil calorias por dia. Contudo, por trás da fronte projetada, o crânio achatado de um neandertal abrigava um cérebro com volume algo superior ao da nossa própria média atual. E, ainda que suas ferramentas e armas fossem mais primitivas que as dos seres humanos modernos que os suplantaram na Europa, elas não eram menos elaboradas que os implementos produzidos pelos seres humanos da época na África e no Oriente Médio.


Por Stephen S. Hall Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Resgate da terra

Minas terrestres mutilaram o Camboja devastado pela guerra. Hoje o país é um modelo na recuperação desse flagelo

Chhin Boreak, 19 anos, perdeu o braço direito para uma mina terrestre aos 10 anos. Um entre 12 irmãos, ele foi viver no centro de auxílio no noroeste do Camboja fundado pelo especialista em remoção de minhas Aki Ra para crianças e jovens cuja família não tem condições de cuidar deles. “A minha ambição é ser guia turístico, para poder ensinar a história do meu país aos visitantes”, diz Boreak. “O que eu mais gosto são os entalhes nos templos e as histórias que eles contam.”
 
Delicadamente, Aki Ra remove a terra com os dedos e revela uma mina terrestre verde-escura enterrada a cinco centímetros da superfície de uma estrada de terra tomada pelo mato. Do tamanho de uma lata de leite, a mina foi instalada pelo Khmer Rouge há uns 15 anos nesse caminho de bois no noroeste do Camboja – a região mais densamente minada de um dos países mais densamente minados do mundo.
“É uma mina antipessoal do tipo ‘Bouncing Betty’ 69, feita na China”, diz Aki Ra, embaçando com a respiração o visor blindado de seu capacete. “Bouncing Betty” (Betty Saltitante) é o apelido americano para uma mina terrestre que pula e se fragmenta. Quando pressionada por um pé, ela salta do chão, explode e lança estilhaços para todo lado. É capaz de retalhar as pernas de um esquadrão inteiro.
Afável e rechonchudo como um querubim, Aki Ra conhece o funcionamento da Bouncing Betty e de praticamente qualquer outra variedade de mina. Em meados dos anos 1970, quando ele tinha cinco anos, o Khmer Rouge separou-o de seus pais e o levou para a selva com outros órfãos. Naquela época, Pol Pot, o comandante do Khmer Rouge, lançara o país no caos: fechara escolas, hospitais, fábricas, bancos e mosteiros, executara professores e empresários e mandara milhões de habitantes das cidades para um gulag de campos de trabalho e fazendas. As mãozinhas de crianças como Aki Ra eram ferramentas inestimáveis. Ele foi treinado para instalar minas terrestres, desarmar e desmontar minas inimigas e reutilizar a dinamite em dispositivos hoje chamados de artefatos explosivos improvisados (AEI).
Alguns anos depois, quando os vietnamitas invadiram o Camboja, alistaram Aki Ra compulsoriamente em seu exército, e ele foi obrigado a lutar contra seus ex-captores. Quando as forças de paz da ONU finalmente chegaram em 1992, ele tinha passado quinze anos na selva. Foi trabalhar com a ONU desarmando minas. Quando as forças de paz partiram, dois anos depois, boa parte das melhores terras agrícolas – hortas, pastagens, arrozais – continuavam minadas. Agricultores que tentavam voltar a cultivar seus campos eram feitos em pedaços. Por uma década e meia, usando apenas uma faca e um graveto, Aki Ra trabalhou voluntariamente como sapador, desarmando minas terrestres em vez de detoná-las e limpando seu país um metro quadrado por vez. Pelas suas contas, ele já desarmou uns 50.000 artefatos: minas explosivas (blast), minas antitanque, minas de salto e outros explosivos.
“Achei uma porção de minas que eu mesmo instalei”, ele conta com um misto de orgulho e vergonha.
Hoje ele tem certificado para atuar como desativador de minas e trabalha com sua própria equipe, a ONG Iniciativa Limpa-Minas do Camboja (Cambodian Self-Help Demining), parcialmente financiada pelos Estados Unidos. Usam detectores de metal especiais para procurar explosivos, e foi assim que encontraram a “Bouncing Betty”.
O suor escorre pelo rosto de Aki Ra enquanto ele põe uma pequena carga de explosivo ao lado da mina terrestre, liga fios e estende um cabo fino por cem metros. Como toda organização limpa-minas oficial, a equipe de Aki Ra agora não desarma as minas – detona-as no local. Agachado atrás de uma árvore, ele aperta o botão vermelho. A explosão é medonha. Com um meio sorriso, Aki Ra pondera “uma mina a menos, uma criança sem perna a menos”.
Na guerra que assolou o Camboja de 1970 a 1998, todos os lados usaram minas terrestres. Existem mais de 30 tipos. Os moradores da região têm nomes prosaicos para elas, baseados na aparência: rã, tambor, folha de betel, sabugo de milho. A maioria foi feita na China, Rússia ou Vietnã, e algumas nos Estados Unidos. Dizem que Pol Pot, cujo regime foi responsável pela morte de aproximadamente 1,7 milhão de cambojanos entre 1975 e 1971, chamava as minas de seus “soldados perfeitos”: elas nunca dormiam e esperavam com paciência infinita. Embora sejam armas de guerra, as minas terrestres diferem das balas e bombas em dois aspectos. Primeiro, destinam-se a mutilar e não a matar, pois um soldado ferido requer a ajuda de outros dois ou três, reduzindo as forças inimigas. Segundo, e mais sinistro, quando uma guerra termina, minas terrestres permanecem no solo, prontas para explodir. Apenas 25 por cento das vítimas de minas terrestres no mundo são soldados. As demais são civis: meninos pegando lenha, mães semeando arroz, meninas pastoreando cabras.

O caminho da evolução

A região do Médio Awash, na Etiópia, é o lugar habitado mais antigo do planeta. Agora seus ossos estão emergindo do solo

No deserto etíope de Afar, a morte chega de muitas maneiras. Há doenças, é claro, mas se pode morrer ainda pelo ataque de um bicho selvagem, caindo em um penhasco ou no fogo cruzado entre um dos clãs afares e o povo issa ao longo do rio Awash, mais a leste.
A vida é precária em toda a África. O mais surpreendente aqui é como os restos mortais perduram. A depressão do Afar está situada sobre uma falha cada vez mais larga da crosta terrestre. Com a passagem do tempo, vulcões, terremotos e a lenta acumulação de sedimentos conspiraram para enterrar as ossadas e, bem mais tarde, para trazê-las de volta à superfície sob a forma de fósseis. Esse é um processo que continua até hoje. Em agosto de 2008, um menino foi capturado por um crocodilo no lago Yardi, em uma área do Afar conhecida como Médio Awash. Protegidos pelos sedimentos no fundo, os ossos do menino algum dia também se tornarão fósseis. "Há milhões de anos tem gente morrendo por aqui", diz o paleoantropólogo Tim White, da Universidade da Califórnia em Berkeley, que três meses depois da morte do menino estava na margem do lago. "Às vezes, temos sorte e topamos com o que restou."
Em outubro do ano passado, o Middle Awash, um projeto dirigido por White com os colegas etíopes Berhane Asfaw e Giday WoldeGabriel, anunciou sua maior descoberta até agora: a exumação, 15 anos antes, do esqueleto de uma criatura que havia morrido 4,4 milhões de anos atrás em Aramis, um local cerca de 30 quilômetros ao norte do atual lago Yardi. Pertencente à espécie Ardipithecus ramidus, a fêmea adulta - apelidada de "Ardi" - é mais de 1 milhão de anos mais velha que a famosa ossada conhecida como "Lucy", e também bem mais informativa sobre um dos enigmas cruciais da evolução humana: as características do ancestral comum que compartilhamos com os chimpanzés.
Por mais sensacional que seja, contudo, o Ar. ramidus é apenas um instante em nosso trajeto evolutivo - de um obscuro primata até nossa espécie. Para tentar entender como ocorreu essa transformação, não há lugar mais propício na Terra que o Médio Awash. Além de Aramis, ali são encontradas camadas sedimentares associadas a 14 outros períodos que nos proporcionaram fósseis de hominídeos - os membros de nossa linhagem exclusiva -, desde formas ainda mais antigas e primitivas que o Ar. ramidus até as primeiras encarnações do Homo sapiens.
De acordo com White, várias dessas "janelas de tempo" encontram-se numa área tão restrita que seria possível, literalmente, caminhar de uma a outra em apenas alguns dias. Para provar isso, ele convidou-me a acompanhar sua equipe até a área de pesquisa. O plano era partir da época atual no lago Yardi e andar de volta ao passado, eliminando uma camada após outra daquilo que nos torna seres humanos - característica por característica, espécie por espécie.
Herto: o parente ancestral
Seguimos para a área de pesquisa em um grupo de duas dezenas de cientistas e estudantes, sob a proteção de seis guardas armados. Nossa caravana de 11 veículos leva equipamentos e suprimentos suficientes para seis semanas. Enquanto avançamos pelo planalto, as plantações de sorgo e cereais vão ficando para trás e dando lugar a florestas com neblina. O trajeto está coalhado de destroços da história mais recente - ainda é possível ler uma gasta inscrição com o nome mussolini, entalhada no lintel sobre um túnel, um legado da ocupação italiana do país na década de 1930.
Depois de alcançar o topo da escarpa, descemos em ziguezague por uma imensa encosta que se formou quando a placa continental da Arábia se afastou da África, um processo iniciado cerca de 30 milhões a 25 milhões de anos atrás, fazendo com que a depressão de Afar afundasse ainda mais na zona da sombra de chuva do planalto. No horizonte a sudeste, além da fita azul do rio Awash, as terras altas parecem se fundir ao cone do jovem vulcão Ayelu. E, aos pés do Ayelo, brilha uma lasca prateada: o lago Yardi.
Dois dias depois, estamos andando pela margem do lago - White, Asfaw e WoldeGabriel, além de dois veteranos do projeto, o geólogo Bill Hart e Ahamed Elema, o líder dos Bouri-Modaitu, um dos clãs afares. O lugar é o cenário perfeito para a produção de fósseis, tanto hoje como no passado. Afinal, é ali que se concentram os animais para comer, beber, matar e ser mortos. E seus ossos acabam sob a terra, protegidos da decomposição. Ao longo das eras, a água vai impregnando-os de minerais e eliminando os restos orgânicos. White, de 58 anos, revira com uma machadinha criaturas que morreram há pouco: um esqueleto de bagre, a cabeça de uma vaca. "Para quem quiser virar fóssil", comenta ele, "não há nada melhor que isso aqui."

Por Jamie Shreeve Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

A saga dos mamíferos

Quando os dinossauros sucumbiram da Terra, os mamíferos ganharam uma grande oportunidade de evolução, que resultou na espécie humana

Maternidade em carne e pedra. Uma mulher grávida embala um resquício do passado, a fossilizada Eomaia scansoria, ou “mãe da aurora”. Com cerca de 125 milhões de anos, este recém-exumado mamífero estava na linha evolutiva para a reprodução placentária e é 50 milhões de anos mais antigo do que previam os cientistas. Fósseis continuam a proporcionar indícios sobre o modo como os mamíferos surgiram, mas, além dos estudos dos ossos, recentes tecnologias genéticas fornecem respostas novas a questões antigas sobre nosso caminho evolutivo.
Do alto de uma duna conhecida como Areias Movediças, na planície africana do Serengeti, é possível contemplar milhares de mamíferos em movimento. Gnus, zebras, gazelas. Esta é a temporada de reprodução dos gnus, e muitos espécimes desse antílope gigante estão acompanhados de seus filhotes. De longe, parece ser uma marcha tranqüila rumo ao sudeste, onde chuvas recentes tornaram mais verdes os campos. Um exame mais atento, porém, revela ocorrências dramáticas.
Por entre os grupos de gnus, de repente uma jovem gazela-de-grant dispara, seguida de perto por sua mãe. No encalço delas, uma hiena. A mãe reduz a velocidade e faz movimentos evasivos para distrair o predador. Em pânico, o filhote inexperiente faz uma volta infeliz – e em segundos cai, vítima das mandíbulas da hiena. A poucos metros, com as orelhas trêmulas, a mãe observa sem nada poder fazer. Em seguida, como se para aliviar a raiva, ela investe contra dois chacais que estavam por perto.
“Ela deve ter sido dominada pela emoção, mas não há como provar isso”, comenta a bióloga Patricia Moehlman. “Ela tem instinto maternal. Seu cérebro talvez não funcione como o nosso, mas acho que ela sente dor. E medo. E fica estressada. Nós nos sentimos próximos dela porque também somos mamíferos”, prossegue Patricia.
As mulheres da tribo masai consideram a duna como um local sagrado associado à fertilidade. Na verdade, sobretudo durante a grande migração anual dos gnus, nenhum outro ponto da Terra apresenta uma abundância tão espetacular de nossos parentes, de todos esses animais dotados de pêlos e que amamentam seus filhotes. Uma miríade de espécies de mamíferos pasta, galopa, ronda e chafurda por toda essa região da África.
Na vizinha cratera de Ngorongoro, em uma lagoa lamacenta, a fêmea de hipopótamo acaricia com o focinho seu rosado filhote, enquanto um leão e uma leoa se acasalam sem pressa à beira do caminho. No bosque de acácias, um bando de girafas – membros de uma família de mamíferos que, até 20 milhões de anos atrás, eram pequenos habitantes da floresta – mordisca os ramos mais altos das árvores. A poucos quilômetros, elefantes tomam o banho do meio-dia em um regato reforçado pelas chuvas. Macacos guenon-etíopes descem das árvores a fim de roubar comida pela porta aberta de uma van de turismo. E um dos raros rinocerontes-pretos remanescentes vagueia camuflado pela relva alta.
São tantos os mamíferos – com formas e comportamentos tão variados – a ocupar essa terra que é difícil crer que quaisquer deles poderiam ser descendentes do mesmo ancestral. Apesar disso, o hipopótamo anfíbio, com sua substanciosa dieta de até 45 quilos de gramíneas por noite, tem uma linhagem em comum com o rato-toupeira-pelado, que mede 8 centímetros – uma salsicha com dentes que vive tal como os cupins, sob a terra, alimentando-se de tubérculos.
Os mamíferos são todos aparentados entre si. Os mais antigos conhecidos são os morganucodontídeos, criaturas do tamanho dos pequenos musaranhos que, há 210 milhões de anos, viviam à sombra dos dinossauros. Eles constituíam uma das várias linhagens diferentes de mamíferos que surgiram naquela época. Todos os atuais mamíferos, entre os quais nós, os seres humanos, descendem da única linhagem sobrevivente. Nos 145 milhões de anos de evolução que se seguiram, o predomínio dos dinossauros impediu que os nossos remotos ancestrais mamíferos se tornassem maiores que um gato doméstico. Quando uma catástrofe provocada por um asteróide ou um cometa extinguiram os dinossauros, há 65 milhões de anos, os mamíferos, no entanto, viram-se diante da mais importante oportunidade evolutiva que lhes foi oferecida. Sem os dinossauros, eles agora poderiam explorar todos os recursos do planeta. E, no prazo de poucos milhões de anos após o cataclismo, o registro fóssil revela uma explosiva diversificação entre os mamíferos.

Sobre o Blog

Bem‑vindo ao Blog Dag Vulpi!

Um espaço democrático e apartidário, onde você encontra literatura, política, cultura, humor, boas histórias e reflexões do cotidiano. Sem depender de visões partidárias — aqui prevalecem ideias, conteúdos e narrativas com profundidade e propósito.

Visite o Blog Dag Vulpi