quinta-feira, 17 de junho de 2021

Eles estão em todos os lugares

Dag Vulpi

Não teve jeito. Como não consegui fazer a prova de vida através do site, fui obrigado a me dirigir até uma agência da Caixa para provar que apesar da pandemia, de já ter sido infectado pelo CORONAVIRUS, para a tristeza dos genocidas e alegria dos meus familiares e amigos, estou firme, forte e fazendo jus à minha aposentadoria. Inclusive já tomei a primeira dose da vacina. 

Mas o que me motivou a escrever este texto foi uma experiência que vivi enquanto aguardava que o número da minha senha se tornasse o protagonista no painel de chamada.

Sentada a uma cadeira de distância estava uma senhora, também aposentada e que também aguardava sua vez. Notei que algo a perturbava, e por mais de uma vez a flagrei olhando para minha mão que repousava sobre encosto da cadeira. Olhei direto para ela e a desejei um bom dia. Ela me respondeu meio surpresa e após responder, me perguntou se eu aceitaria um pouco de álcool em gel que ela levava em num pequeno frasco. Para ser simpático eu aceitei sua oferta e agradeci.  Após ela derramar o gel na minha mão, me orientou a esfregar bem inclusive entre os dedos. Em seguida ela perguntou qual era o número da minha senha, aliás, saber o número da minha senha parecia ser o objetivo maior daquela senhora. Eu respondi que era cox66. Ela sorriu e me disse que a dela era cox65, portanto, seria atendida antes. Eu respondi que se a dela fosse depois da minha eu, por gentileza proporia uma troca. Ela sorriu novamente e falou que toda gentileza que fazemos é recompensada por Deus. Na sequência ela perguntou se eu era evangélico. Respondi que era cristão mas de outra igreja. Ela mudou um pouco a expressão, talvez decepcionada. Mas fez um comentário sobre a pandemia que passamos e que ela toma todos os cuidados para evitar se infectar. Eu respondi que também estou muito preocupado, que tomo todos os cuidados mas que, mesmo assim eu havia me contaminado, mas que ela ficasse tranquila, pois já fazia quase dois meses e que não havia nenhum risco, até porque, eu já tinha tomado a primeira dose da vacina. Foi aí que o papo ficou interessante, pois ela simplesmente demonizou a vacina. Disse que ela e seus familiares não serão vacinados. Que a vacina coronavac é produzida através de células de fetos abortados na China. Fiquei chocado com a fala e não resisti, questionando-a sobre quem teria dito aquilo pra ela. Ela me respondeu que foi o pastor da igreja dela. Aí eu perguntei se além de pastor ele também seria médico. Ela respondeu que não, mas que ele sabia a verdade sobre o assunto. Aí eu perguntei se ela não concordava que os pastores entendem mais da Bíblia e da palavra de Deus e, por sua vez os médicos e cientistas entendem mais da ciência e das doenças. E por isso devemos ouvir os pastores quando tivermos alguma dúvida quanto as escrituras e as palavras de Deus e aos médicos quando nossas dúvidas forem sobre doenças e medicamentos.

Não tive resposta pois a senha dela apareceu no painel e ela apressou em se dirigir até o caixa. Na sequência a minha senha foi chamada e coincidiu de nos cruzarmos no corredor acesso  aos caixas. Naquele momento ela simplesmente virou o rosto para o outro lado. Se por alguns instantes pensei ter feito uma nova amizade, infelizmente o negacionismo tratou de me tornar persona não grata para mais uma bolsominiom.



quarta-feira, 16 de junho de 2021

Teste para voltar a postar

 Depois de dois anos ausente, resolvi voltar a fazer postagens nesse importante espaço democrático. 

Agradeço a todos meus leitores, novos e antigos, pelo prestígio.


Fraterno abraço


Dag Vulpi

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Social Democracia




Dag Vulpi 28/05/20

Surgida no fim do século XIX a partir de uma partição do socialismo, a social democracia constitui um modelo de organização política e econômica que concorda, em parte, com as ideologias de esquerda, pois enxerga falhas e deficiências no modo de produção capitalista, mas que, por outro lado, não defende sua eliminação, mas sim, que sejam feitas compensações nas suas deficiências.

“Quando surgiu, dentro do movimento operário de caráter marxista, a social democracia apontava para a importância de conquista da democracia através da universalização do voto e da possibilidade de participação política por meio de assembleias populares. Nesse período, os sociais democratas também defendiam a necessidade de ampliação da democracia para além da esfera política, apontando para a emancipação da classe trabalhadora e a ruptura com o sistema de classes sociais (o que significaria também a realização da democracia na esfera econômica). Aos poucos, esses partidos ganharam mais adeptos, conquistando espaço nos parlamentos europeus, sobretudo na Alemanha. O crescimento e a massificação desses partidos trouxe algumas consequências; como a necessidade de compor alianças com outros setores (não só a classe operária) e o distanciamento entre a base dos partidos e os seus dirigentes, estes último tornando-se cada vez mais alinhados aos interesses da burguesia.”

Através da história os grupos e indivíduos que se identificam com a Social Democracia alteraram suas elaborações teóricas. Objetivando, através da ação de uma política justa e consciente, promover valores, como o de tornar o capitalismo mais justo e humanizado.
Até meados da década de 1910 os partidos sociais democratas ainda se reconheciam – e eram reconhecidos – como partidos revolucionários. No entanto, o início da I Guerra Mundial – quando os sociais democratas apoiaram os dirigentes de seus respectivos países – e o sucesso da revolução bolchevique na Rússia, mudam o cenário, provocando uma divisão dentro do socialismo. De um lado, os comunistas, influenciados por Lenin e pela Revolução Russa, continuaram a defender a necessidade de uma revolução que rompesse de forma radical com o modo de produção capitalista. De outro lado, os sociais democratas argumentaram que, através da via partidária, seria possível promover uma série de reformas dentro do capitalismo, pequenas conquistas que poderiam se acumular até a vitória do socialismo em si. Para esses últimos, o comunismo representava uma forma autoritária do socialismo, enquanto a social democracia seria sua face democrática. Entretanto, com o tempo, o foco nas pequenas reformas e a constante preocupação de garantir a representatividade nos parlamentos, foram fazendo com que o horizonte socialista fosse se afastando das perspectivas social democratas. Ainda assim, deve-se notar que elas foram responsáveis por muitos ganhos para a classe trabalhadora europeia.

Ao final da II Guerra Mundial, a social democracia começa a ganhar outros sentidos, afastando-se definitivamente da perspectiva de ruptura com o capitalismo. O dilema entre reforma e revolução deixa de ser o centro do debate e os partidos social democratas passam a se diferenciar dos declaradamente liberais apenas pela sua defesa do Estado de bem-estar social. Nos dias de hoje, normalmente são partidos que se localizam no centro do espectro político e se diferenciam da direita pela importância que dão a necessidade de defesa do meio ambiente, dos setores mais vulneráveis da sociedade, dos direitos trabalhistas e da regulamentação do mercado. Alguns países com ampla tradição social democrata são a Alemanha, Holanda, Grã-Bretanha, Nova Zelândia e Bélgica.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Dilemas morais



Dilemas são momentos nos quais há hesitação ou inquietação quanto as nossas decisões. Experimenta-se, também, uma série de emoções e sensações, o que pode resultar em angústia. Não se trata, entretanto, de um sentimento de culpa ou de um conflito, simplesmente. Se, por exemplo, alguém experimenta uma demanda moral para agir de determinada maneira, mas possui interesses contrários a essa ação, muitos filósofos diriam que esse não é um dilema genuinamente moral.

O dilema moral envolve uma situação na qual um agente está moralmente obrigado a agir, e ele ou ela precisa escolher entre duas ou mais ações possíveis, sendo que realizar uma implica em não realizar a(s) outra(s). Um questionamento surge naturalmente: como podemos aceitar que alguém esteja moralmente obrigado a realizar duas ações conflitantes?

Não seria muito difícil escolher entre desmarcar um compromisso, pessoal ou profissional, e levar uma pessoa acidentada ao hospital. Considera-se que algumas ações possam anular outras – não ao desconsiderar seus valores ou implicações morais, mas ao colocá-los em segundo plano diante do contexto da situação –, pois o valor moral que fundamenta essas ações se sobrepõe ao(s) valor(es) que fundamentam as outras opções. Muitos dilemas do cotidiano consistem exatamente na dificuldade de avaliar essa característica anuladora.

A filósofa Philippa Foot abordou muitos dilemas em seus textos e idealizou um dos mais conhecidos exemplos no meio acadêmico:

“Edward é condutor de um bonde cujos freios falharam. No trilho adiante dele, estão cinco pessoas. As margens são tão íngremes que elas não serão capazes de sair do trilho a tempo. O trilho tem um desvio à direita e Edward pode virar o bonde para este lado. Infelizmente, há uma pessoa neste trilho. Edward pode virar o bonde matando esta pessoa, ou ele pode abster-se de virar o bonde, matando os cinco. ” (THOMSON, 1976, p. 206)

A situação aproximasse do cotidiano, quando nos encontramos entre a ação e a omissão. A solução de Philippa Foot, em todo caso, toma por base a distinção entre os deveres positivos, nos quais temos uma obrigação para agir, como cuidar de crianças, e os negativos, que consistem em ações que devemos evitar, como matar um assaltante, que teriam precedência.

Judith Jarvis Thomson associa esse caso ao de um juiz que é confrontado com a exigência de que um crime seja julgado. Embora a polícia não tenha nenhum suspeito, cinco reféns morrerão se o juiz não apresentar um culpado. Os casos são certamente distintos. O condutor precisa decidir entre dois deveres negativos, o de evitar matar cinco pessoas e o de evitar matar uma pessoa, mas o médico está entre um dever negativo e outro positivo, a saber o de prestar ajuda. Por que aceitaríamos ser permissível matar um no caso do bonde, mas não aceitaríamos matar um no caso do médico?

Judith Thomson propôs uma importante revisão do exemplo original de Philippa Foot, que se tornou conhecido como o dilema do bonde. Em sua modificação, um transeunte está próximo ao local em que o bonde trava, o que traz a oportunidade de alterar a trajetória do bonde através de uma alavanca:

“Parecerá, talvez, para alguns até mesmo menos evidente que a moralidade requeira do transeunte que vire o bonde do que a moralidade requerer do condutor que vire o bonde; talvez alguns se sintam até mais desconfortáveis com a ideia de o transeunte virar o bonde do que com a ideia de o condutor virá-lo. [...] Sua escolha é, portanto, entre acionar a alavanca, caso no qual ele mata um, e não acionar a alavanca, caso no qual deixa cinco morrerem.” (THOMSON, 1985, p. 1398, tradução nossa)

A intuição de que matar um é pior do que deixar cinco morrerem é colocada em cheque com essa revisão!

Em geral, os dilemas trabalhados em filosofia são experimentos de pensamento, desenvolvidos para explicitar nossas intuições e questioná-las. Em outros casos, servem para refletirmos nas explicações teóricas dos valores morais. Além dos dilemas elaborados filosoficamente, há outros dilemas, como a escolha de Sofia, por exemplo. Temos também, em um contexto mais amplo, o dilema de Abraão, descrito no livro de Gênesis, entre obedecer a Deus e sacrificar o próprio filho.
O importante é perceber que o caráter ficcional dos dilemas não elimina sua relevância para a reflexão moral.

Marco Aurélio Caetano Oliveira é Mestre em Filosofia (UFRJ, 2012)
Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação (UFF, 2015)
Graduado em Filosofia (UFRJ, 2010)


Referências:

FOOT, Philippa. The problem of abortion and the doctrine of double effect. In: Virtues and Vices and Other Essays in Moral Philosophy. Los Angeles: University of California Press, 1978. p. 19-32.

_____. Moral Dilemmas Revisited. In: Moral Dilemmas and other topics in Moral Philosophy. Oxford: Clarendon Press, 2002. p. 175-188.
THOMSON, Judith Jarvis. Killing, letting die and the trolley problem. The Monist, v. 59, n. 2, p. 204-217, apr. 1976. Disponível em: <https://doi.org/10.5840/monist197659224> Acesso em: 30.04.2018.

_____. The Trolley Problem. The Yale Law Journal, v. 94, n. 6, p. 1395-1415, may 1985. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/796133>. Acesso em: 20.03.2018.
Texto originalmente publicado em https://www.infoescola.com/filosofia/dilemas-morais/

A autonomia do observado, segundo a Hermenêutica


Por André Luis Silva da Silva

A partir da tradição sustentada por Dilthey, se pretendeu estabelecer uma teoria geral do modo como as objetivações da experiência humana podem ser interpretadas, defendendo a autonomia do objeto de interpretação, e à possibilidade de uma objetividade histórica na elaboração de interpretações válidas.

Dilthey adaptou o conceito de hermenêutica de Schleiermacher, como método de compreensão (doutrina ou teoria da arte de interpretar textos), tomando por base “uma análise da compreensão como tal e, incluindo no âmbito das suas investigações sobre o desenvolvimento das ciências do espírito, também prosseguiu no desenvolvimento da hermenêutica”. Schleiermacher colocou a hermenêutica, como doutrina da arte da compreensão, e enquanto disciplina, na relação com a gramática, a retórica e a dialética, sendo tal metodologia formal (HEIDEGGER, 2012).

A tradição hermenêutica de Heidegger e Gadamer orientou-se para a questão mais filosófica do que a interpretação em si mesma, defendendo que o ato da compreensão está ligado à descrição do que é; ”está a fazer ontologia e não metodologia”. Conforme seus opositores, ambos são críticos destrutivos da objetividade e pretendiam “mergulhar a hermenêutica num pântano de relatividade, sem quaisquer regras” (PALMER, 1986).

Heidegger avançou propondo que a hermenêutica, em seu significado mais moderno, seja abordada muito menos no sentido estrito de uma teoria da interpretação, mas que persiga o significado original do termo gregohermêutiká - que deriva de Hérmes, o deus mensageiro dos deuses - na realização do hermenéien (do comunicar), ou seja, da interpretação da faticidade que conduz ao encontro, visão, maneira e conceito fático. Entende ele por fático “algo que é”, articulando-se por si mesmo sobre um caráter ontológico, o qual é desse modo.

Já para Mannheim, a interpretação se ocupa da mais profunda compreensão do sentido, pois em seu conteúdo mais autêntico este somente pode ser compreendido ou interpretado. Assim sendo, as abordagens qualitativas trabalham com construtos sociais, cuja importância será reconhecida no processo interativo de pesquisa e de interpretação dos dados coletados (MANNHEIM, 1964).

Licenciatura Plena em Química (Universidade de Cruz Alta, 2004)
Mestrado em Química Inorgânica (Universidade Federal de Santa Maria, 2007)

Referências:
HEIDEGGER, Martin.  Ontologia – Hermenêutica da Faticidade. Petrópolis: Editora Vozes, 2012.
PALMER, Richard E. Hermenêutica. Lisboa: Edições 70, 1986.
MANNHEIM, Karl. Beiträge zur Theorie der Weltanschaungsinterpretation. Neuwied: Luchterhand, 1964.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Equívoco


Dag Vulpi 04/05/20

Ninguém está imune ao equívoco. E durante nossas vidas, certamente o cometeremos mais de uma vez.
"Proveniente do latim aequivocus, a palavra equívoco significa uma falácia que consiste numa afirmação com um significado diferente do que seria apropriado ao contexto, ou seja, a utilização da mesma palavra, mas com um sentido diferente, distorcendo o que seria na realidade dos fatos. Que pode ser entendido de diversas maneiras ou admitir diferentes explicações. ambígua."
Normalmente, porém nem sempre, os equívocos são cometidos por má interpretação, cuja situação permite entendimentos diversos.
Ao formar opinião a partir de suposições, o risco de cometer um equivoco é muito maior. Ao supor, despreza-se a regra elementar de sempre desconfiar quando determinada situação sugerir mais de uma maneira de ser compreendida.
"Dito" isso, não para justificar o equívoco do protagonista, mas sim para valorar o reconhecimento do erro. Trago abaixo uma ilustração para minhas considerações.
Confira:
Erick Vidigal, que apoiou eleição de
Bolsonaro em 2018, divulgou na sexta-feira (1) uma "carta aberta".
"Estou devendo desculpas aos meus alunos, às pessoas que sempre seguiram minhas orientações e para as quais eu dei essa infeliz orientação. Eu me arrependo, eu me iludi, como minha gente, como milhões de brasileiros. A gente estava na ânsia de ver as coisas mudarem e acabei me deixando levar por uma retórica populista, que é atraente. O discurso da moral e da ética não tinha como eu não apoiar, sendo membro da Comissão da Ética Pública. Isso me motivou. Depois eu percebi que foi uma apropriação indevida de um discurso que não é implementado na prática. É só um discurso, uma fachada."
O desabafo é do advogado Erick Vidigal, doutor e mestre em direito pela PUC de São Paulo, um dos seis conselheiros da CEP (Comissão de Ética Pública), que funciona no Palácio do Planalto vinculada ao presidente da República, Jair Bolsonaro. Durante a campanha eleitoral de 2018, Vidigal foi um dos subscritores de um "manifesto pela democracia, Brasil em debate. Juristas em apoio a Jair Bolsonaro".

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