terça-feira, 23 de junho de 2015

Lava Jato: nova denúncia contra André Vargas e mais dois por lavagem de dinheiro


Esta é a segunda acusação criminal contra o ex-deputado. Foram denunciados também seu irmão Leon Vargas e sua companheira Eidilaira, por ocultação de bens no valor de R$ 480 mil

Com informações do site do Ministério Público Federal - 23/06/2015

A Força-tarefa Lava Jato do Ministério Público Federal propôs nova denúncia contra o ex-deputado André Vargas, seu irmão Leon Vargas, e sua esposa Eidilaira Soares, por lavagem de dinheiro (ocultação de bens). A denúncia foi protocolada na 13ª Vara Federal de Curitiba nesta segunda-feira, 22 de junho. Esta é a segunda denúncia contra Vargas. A primeira foi proposta em 14 de maio deste ano.

Nesta nova acusação, o MPF afirma que Vargas, “com o objetivo de lavar parte do dinheiro gerado pelos seus crimes e não despertar a atenção das autoridades, adquiriu um imóvel de luxo em Londrina pelo seu valor de mercado (valor real), contudo registrou no contrato, na escritura pública e na declaração de imposto de renda um valor (nominal) bastante inferior ao preço real de aquisição, pagando a diferença informalmente (“por fora”, por “debaixo do pano da mesa”)". Para isto, contou com a ajuda do irmão, Leon (que negociou o valor com a imobiliária), e sua companheira Eidilaira (que emprestou seu nome para a aquisição do bem).

De acordo com a denúncia, Eidilaira assinou compromisso de compra do imóvel no valor de R$ 500 mil (uma entrada de R$ 20 mil seguida de uma parcela de pouco mais de R$ 303,5 mil e um financiamento dos R$ 176,5 mil restantes). No entanto, o vendedor do bem afirmou que o imóvel foi vendido, na realidade, por R$ 980 mil. Ou seja, ocultaram o valor de R$ 480 mil.

Lavagem de dinheiro - Para o MPF, esta “manobra” foi feita para lavar parte do dinheiro gerado pelos crimes já denunciados em maio – especialmente relacionado ao esquema criminoso que envolvia contratos de publicidade entre a Borghi Lowe e dois órgãos públicos: a Caixa Econômica Federal e o Ministério da Saúde. Segundo esses contratos, a agência deveria realizar “o estudo, o planejamento, a conceituação, a concepção, a criação, a execução interna, a intermediação e a supervisão da execução externa e a distribuição” das campanhas de publicidade do ministério e da Caixa. Esses contratos eram obtidos com a influência do ex-parlamentar.

A Borghi Lowe selecionava produtoras que eram então subcontratadas pelos órgãos e, como intermediária, recebia cerca de 10% dos valores pagos às subcontratadas, prática conhecida no mercado como “bônus de volume”. De acordo com a orientação do publicitário Ricardo Hoffmann, os bônus eram depositados nas contas das empresas Limiar Consultoria e Assessoria e LSI Soluções em Serviços Empresariais, controladas por André Vargas e seus irmãos, Leon e Milton Vargas.

As investigações comprovaram que tanto a Limiar como a LSI eram empresas “de fachada”, que só funcionavam para receber as vantagens indevidas prometidas ao ex-deputado pela influência na obtenção dos contratos de publicidade.

Na primeira denúncia oferecida contra Vargas, foram denunciados também seus irmãos Leon e Milton e o publicitário Ricardo Hoffmann, diretor da filial de Brasília da agência de publicidade Borghi Lowe, todos pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção ativa e passiva.


Crime e pena - Art. 1º da lei nº 9.613/98. Pena: reclusão, de três a dez anos e multa.

Medidas – O combate à corrupção é um compromisso do Ministério Público Federal. Por esta razão, o MPF apresentou ao Congresso Nacional um conjunto de dez medidas distribuídas em três frentes: investigação e punição efetivas da corrupção; implementação de controles internos, transparência, auditorias, estudos e pesquisas de percepção; e educação, conscientização e marketing. 


Lula não é investigado da Lava Jato neste momento, diz procurador do MPF


Por Caroline Stauffer na Reuters

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não faz parte das investigações da Lava Jato neste momento, disse à Reuters nesta terça-feira o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, do Ministério Público Federal (MPF).

“Neste momento, o ex-presidente não faz parte da investigação”, disse Santos Lima, que integra a força-tarefa da investigação do escândalo bilionário de corrupção envolvendo a Petrobras, funcionários da estatal, executivos da empreiteira, políticos e partidos.

“O que nós temos até agora (sobre Lula) são só notícias da imprensa”, disse.
“O fato é que se encontramos elementos, investigaremos (Lula) como qualquer outro”, afirmou o procurador, ao ser indagado sobre o fato de o ex-presidente não ter mais foro privilegiado.

A prisão do presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, na última sexta-feira gerou especulações na imprensa de que a Lava Jato estaria mais perto de alcançar Lula, devido à proximidade do ex-presidente com o influente empresário à frente do maior grupo de construção e engenharia da América Latina.

De acordo com Santos Lima, a operação Lava Jato ainda deve levar ao menos mais dois anos para ser concluída. As investigações já extrapolaram a Petrobras e, segundo o procurador, apontam para corrupção nos contratos de grandes empreendimentos no setor elétrico, como as usinas de Belo Monte e de Angra 3, ambas com participação da estatal Eletrobras.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Lava Jato - Escuridão no fim do túnel


Por Ricardo Melo na Folha de S.Paulo

Prisões de empreiteiros expõem as feridas do sistema que mantém o Brasil no atraso

Agora ficou mais interessante. As prisões dos presidentes da Odebrecht e Andrade Gutierrez conferem uma melhor dimensão do apodrecimento do "pacto" que há séculos emperra o crescimento do Brasil.

Registre-se, a propósito, que a operação seguiu o roteiro agente 86 tão a gosto do juiz Sérgio Moro. Na exposição de motivos para encarcerar os milionários, pode-se ler frases como "não é possível afirmar, nem afastar" a possibilidade de que terceiros podem ter pago algo "que se constitui em pagamento de propinas". Alega, ainda, por antecipação, a possibilidade de delitos numa licitação que nem sequer aconteceu!

A mesma peça (no sentido amplo) faz referência a um e-mail supostamente enviado ao presidente da Odebrecht. Não há notícia da resposta; em Londrina isso não faz diferença. Imagine a situação: um sujeito entra numa lan house, monta um perfil num portal qualquer e passa a disparar mensagens. Por exemplo: "Caro Sérgio, tudo acertado. Os pés de alface combinados serão entregues em breve. São tenros e verdes do jeito que você queria. Sempre na caixa, como encomendado. Não se preocupe que a plantação é grande. Lembranças ao Beto pelo bom trabalho."

O e-mail acima é fictício. Até por isso inexiste reply do destinatário. Mas vaza propositalmente. Um investigador astuto da turma de intocáveis poderia dizer: Bingo! Sérgio é o juiz Moro, alfaces são dólares, o pagamento é em cash e há muito mais em estoque. Beto, claro, é aquele famoso doleiro premiado. Caso resolvido. Só falta mandar prender alguém.

Isso quer dizer que o pessoal do cimento é inocente? Jamais. Mostra apenas que a Justiça pode ser manipulada ao sabor do momento, como arma política em vez de instrumento de apuração da verdade.

Mais importante. As sucessivas acusações de envolvimento da plutocracia com o Estado expõem uma relação secular; variam os protagonistas. Marcelo Odebrecht, por exemplo, cerca de um mês antes de ser preso, era festejado em convescotes com Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff.

Vamos além: com o escândalo da Fifa, barões da mídia sobem ao palco de suspeitos de roubalheira generalizada e fingem que não têm nada a ver com isso. Quer mais? Grandes bancos, dia sim, outro também, aparecem na berlinda de malfeitos. Às vezes como escoadouros de sonegação internacional, outras como pagadores de propina a agentes da Receita para burlar o pagamento de impostos. Belos exemplos da nossa prezada elite.

A lista, na verdade, é interminável. A cada enxadada, uma minhoca. Erra, no entanto, quem pensa ser suficiente um Torquemada tabajara para debelar o assalto ao erário. Em questão está o sistema que propicia a proliferação da rapinagem. Má notícia: no fim deste túnel por enquanto surge apenas o breu, a escuridão.

PEGO NA MENTIRA
"O governo federal usa recursos da Caixa Econômica Federal para o pagamento de benefícios sociais desde o governo Fernando Henrique (1995-2002), mas foi no governo Dilma Rousseff que a prática aumentou de maneira mais acentuada". (texto de manchete da Folha, 26/04/2015).


Com base na série histórica, o Tribunal de Contas da União decidiu iniciar um movimento de pressão sobre o Planalto. Deduz-se que o problema não são as chamadas pedaladas fiscais, mas seu uso "mais acentuado". Ou então quem ocupa o cargo quando o expediente é utilizado.

A esposa do juiz Sérgio Moro, que está à frente da Operação Lava Jato, advoga para o PSDB do Paraná e para multinacionais de petróleo

Wikileaks revela: "esposa do juiz Moro advoga para o PSDB e multinacionais de petróleo"

Sergio Moro e Rede Globo unidos pelos mesmos objetivos

Sérgio Moro, um juiz a serviço da TV Globo e do PSDB

A esposa do juiz Sérgio Moro, que está à frente da Operação Lava Jato, advoga para o PSDB do Paraná e para multinacionais de petróleo. A denúncia foi publicada no Wikleaks.

Por Emanuel Cancella, na "Carta Maior"

"O fato já seria suficiente para inviabilizar a participação do juiz Moro no processo que apura a corrupção na Petrobras (Operação Lava Jato). O Código de Processo Civil, em seu artigo 134, manda arguir o impedimento e a suspeição do juiz: “ IV- Quando nele estiver como advogado da parte o seu cônjuge ou qualquer parente seu, consanguíneo ou afim, em linha reta: ou na linha colateral até o segundo grau”.

Mais claro impossível. Ora, quem são os principais interessados na Operação Lava Jato, que afeta diretamente a Petrobrás? O PSDB e as multinacionais do petróleo, clientes da mulher de Moro! São eles os grandes beneficiados com essa Operação.

Na véspera da eleição presidencial, a Revista "Veja" estampou uma foto da então candidata Dilma, afirmando: “Dilma e Lula sabiam da corrupção na Petrobras”. A TV Globo" repercutiu no "Jornal Nacional".

A capa da "Veja" – um panfleto pró-Aécio – e o noticiário da emissora de maior audiência (ainda que decadente) manipularam até o final e, certamente, conseguiram arrancar alguns milhões de votos da presidenta, embora não o suficiente para derrotá-la.

Depois do estrago causado, a farsa montada pela "Veja" e pela "Globo" foi desmentida. O próprio advogado do doleiro Alberto Youssef (suposto delator) assegurou que “o seu cliente não fez declaração alguma envolvendo os nomes de Lula e Dilma”. Quem provavelmente “sabia” da manipulação montada, era o juiz Sérgio Moro.

Parcialidade e blindagens se revelam como um novo escândalo

A sociedade não deve nenhum respeito a um juiz que extrapola suas funções e, sem nenhuma base jurídica, destrata a autoridade máxima do país. É o que aconteceu no segundo turno das eleições presidenciais, quando foram veiculadas as acusações – depois desmentidas. Por esse fato, o juiz Sérgio Moro deveria se desculpar publicamente.

Por mais que os brasileiros queiram ver na cadeia corruptos e corruptores - também me incluo entre os indignados - não é possível aceitar que a Justiça tenha dois pesos e duas medidas. O juiz Sérgio Moro mantém preso o tesoureiro do PT, mas não mandou prender os tesoureiros dos demais partidos citados em delação premiada, dentro da mesma operação, dentre os quais havia políticos do PSDB, PMDB, PP e outros. O tesoureiro do PSDB, Marcio Fortes, que foi tesoureiro de campanha de FHC e de José Serra, além do envolvido com o PSDB na Lava Jato, é titular de conta para lavagem de dinheiro no HSBC da Suíça. Mas continua solto.

A parcialidade de muitos juízes se revela como um novo escândalo, tão grande quanto aqueles que apuram. Pior é a blindagem de personagens, como o atual presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha. Será ele refém ou artífice de um projeto conservador em andamento que pratica uma verdadeira devassa, derrubando conquistas históricas da sociedade civil e dos trabalhadores?

Por que não são investigados e punidos os empresários de comunicação que falam e escrevem o que bem entendem, contra tudo e contra todos, sem nenhuma regulamentação?

Por que esses escândalos não têm a mesma repercussão na mídia? O que se diz é que órgãos de comunicação também estariam envolvidos, em escândalos bilionários, como o "Swisslikes", "Zelotes" e "Trensalão".

A lei determina que todos os envolvidos em corrupção, corruptos e corruptores, depois da ampla defesa e, se condenados, sejam presos e os bens adquiridos por meio da corrupção sejam ressarcidos. Mas a regra deveria valer para todos os partidos!

A "TV Globo" deu ao juiz Sérgio Moro o título de personalidade do ano. A "TV Globo" apoiou e cresceu à sombra da ditadura, foi contra as eleições diretas e, no governo de FHC, na década de 1990, fez campanha pela privatização da Petrobrás, comparando a estatal a um paquiderme e chamando os petroleiros de marajás.

A Globo e o PSDB sempre defenderam a privatização da Petrobras. O seu projeto de país tem sido derrotado nas urnas. Mas, por vias transversas, está sendo retomado. É o que aponta o projeto do senador do José Serra/PSDB que retira a Petrobras como operadora única do pré-sal e acaba com o regime de partilha, retornando ao pior modelo, que é o de concessão, instituído em 1997 pelo entreguista PSDB/FHC.

Como funcionário da Petrobras e brasileiro não posso aceitar calado essa tramoia contra a empresa que é o maior patrimônio da nação e a única que pode pagar a dívida social que temos com nosso povo. A sociedade não pode permitir que a "Globo" e o PSDB destruam a Petrobras."

FONTE: escrito por Emanuel Cancella, na "Carta Maior". O autor é coordenador do Sindicato dos Petroleiros do Estado do Rio de Janeiro (Sindipetro-RJ) e da Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), ex-diretor da CUT e da FUP técnico da companhia, funcionário a 37 anos, advogado e também ex-diretor do Dieese. Artigo publicado no portal "Vermelho"  

(http://www.vermelho.org.br/noticia/265979-6). [Título acrescentado por este blog 'democracia&política'].

domingo, 21 de junho de 2015

Será ódio antipetista ou egoismo de classe?


Seria ódio ou o não menos execrável egoísmo, o sentimento que parte da sociedade brasileira vem demonstrando em suas atitudes, tanto em palavras quanto em atos.

O professor de Ética e Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Alessandro Pinzani, entende que as razões que explicam essa divisão entre os brasileiros têm tudo a ver com a política da gestão petista, que entre outras coisas criou programas e leis que não foram bem aceitas pelas camadas historicamente mais favorecidas. É o caso da regulamentação do trabalho doméstico.

"A classe média se sentiu ameaçada em seu estilo de vida e se viu em parte alcançada pelas classes sociais inferiores, que passaram a usufruir de bens e serviços que até então ela considerava como seus privilégios."

Isso explica em grande parte, segundo ele, os comentários preconceituosos nas redes sociais ou até mesmo por parte de alguns comentaristas na TV sobre o “pobre”, que agora compra carro, sobre os “farofeiros”, que agora frequentam os aeroportos ou os shopping centers – o que, aliás, desencadeou, a partir de 2013, a repressão policial aos rolezinhos dos adolescentes das periferias em centros de compras mais badalados, em bairros nobres.

"Na realidade, acabou vindo à tona um preconceito que já existia de maneira profunda, mas que não precisava se manifestar abertamente, uma vez que suas vítimas (os pobres, os negros, os nordestinos) não compartilhavam os mesmos espaços (físicos, sociais, econômicos) da classe média, a não ser em posição subordinada, como zelador de prédio, entregador de encomendas, empregada doméstica", diz Pinzani.

Ou seja, a classe média tem a sensação de estar perdendo terreno em termos de importância social e política e em termos de qualidade de vida. "Isso lhe provoca medo e uma reação quase instintiva de ódio contra os atores sociais que considera responsáveis por isso, a saber, o governo petista e os próprios membros das classes subalternas."

Pinzani entende que isso pode mudar com o tempo, uma vez que a presença dos filhos dos “pobres” (que já deixaram em parte de sê-lo) nas universidades pode levar à criação de uma nova classe média menos preconceituosa. "Não sei quantos dos médicos que pertencem àquele grupo de Facebook que sugeria a castração química dos nordestinos e dos pobres são filhos de pobre ou de nordestino. Com certeza, com o ingresso de mais nordestinos ou pobres nas universidades, o número de profissionais preconceituosos poderá diminuir, mas isso vai demorar ainda muito."

Ao lado da professora Walquíria Leão Rego, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Pinzani percorreu as regiões mais pobres entrevistando bolsistas do Bolsa Família. E garante que, ao contrário do que muita gente apregoa, não é apenas o programa de transferência de renda que estaria por trás do apoio dos mais pobres a Dilma.

"As pessoas mais pobres têm a percepção, bastante correta, de que os governos petistas foram os primeiros a se interessar concretamente por eles e por seus problemas. São quase 60 programas de combate à pobreza, não somente o Bolsa, e a maioria deles visa não somente a transferir renda, mas a criar condições estruturais que ajudem essas pessoas a saírem da sua situação. Óbvio que os pobres votam seguindo seu interesse, como o faz a classe média, quando vota em candidatos que prometem diminuir os impostos", analisa.

Para o professor, os que apoiam o governo da presidenta reconhecem também os avanços educacionais, sobretudo a partir de programas como o ProUni, o Fies, a ampliação na oferta de vagas pela ampliação da rede federal de ensino superior e o Pronatec. "Há ainda muitas outras coisas complementares. A população está percebendo que há esses programas.

Para o filósofo e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP Vladimir Safatle, essa divisão da sociedade não chega a surpreender, uma vez que, segundo ele, a sociedade brasileira é claramente dividida do ponto de vista ideológico, que chega a ultrapassar a divisão das classes sociais.

“Mesmo o Lula ganhava a eleição com uma média de 60% dos votos. Ou seja, 40% da população estava com o pensamento conservador, e não era só a classe média. Não existe 40% de classe média no Brasil. Esse percentual abrangia setores da classe mais pobre”, disse em entrevista à RBA.

Para Safatle, essa divisão é positiva. "Assim, as pessoas vão entender de uma vez por todas: nós não estamos no mesmo país. Nós não vivemos no mesmo país. Nós temos diferenças fundamentais com vários grupos, que representam o pensamento conservador nacional”, disse.

“Nem em relação a nossa história temos acordo: essas pessoas, em última instância, acham que é normal que o Estado não criminalize a tortura de Estado, que é normal falar que a ditadura militar foi um mal necessário, por exemplo.”

Para Alessandro Pinzani, uma sociedade dividida nunca foi e nunca será um fenômeno positivo. Ele lembra que as sociedades europeias superaram as profundas divisões sociais e econômicas somente através de revoluções, guerras e, sobretudo, de políticas sociais de amplo alcance e de longo prazo.

E que ao longo da história dos últimos séculos, as lutas sociais da classe operária e, em geral, dos trabalhadores, bem como o risco concreto de uma revolução social, levaram os governos – inclusive os mais conservadores – a tomar medidas para diminuir a desigualdade social e garantir um nível mínimo de qualidade de vida para todos.

"Na Alemanha do final do século 19, o reacionário chanceler Bismarck introduziu legislações sociais que muitos membros da classe média brasileira atual considerariam comunistas e dignas da Cuba castrista", lembra Pinzani.

Ainda segundo ele, o renovado aumento da desigualdade econômica é visto com muita preocupação na Europa, onde todos os governos afirmam querer tomar medidas contra o fenômeno. Isso por entenderem que uma sociedade que exclui uma parcela importante da população não é saudável e corre o risco de implodir.

"Agora, no Brasil, é difícil convencer os excluídos que eles têm o dever de manter-se leais a uma ordem jurídica e política que os discrimina ou prejudica. Os pobres aceitaram sua exclusão por séculos quase sem revolta, mas com importantes exceções. Agora não parecem estar mais dispostos a fazer isso, e com certeza não quererão voltar para o status quo anterior às políticas sociais dos governos petistas."


Se Aécio tivesse conseguido se eleger, sabia que deveria levar em conta tudo isso, ou enfrentaria muitas resistências e, provavelmente, manifestações populares como as de 2013. "Com a vitória, Dilma seguirá enfrentando o mal-estar da classe média. Em suma, durante algum tempo não haverá mandato confortável para nenhum dos que sejam presidente no Brasil."

sábado, 20 de junho de 2015

Fumando cigarro de palha, pescando com peneira e aprendendo alguns valores

Por Dag Vulpi

São muitas as estórias inusitadas que acontecem no entorno dessa "laranja". Eu mesmo conheço um monte delas, presenciei algumas, e essa que narrarei tive o “privilegio” de vivencia-la.

Pois bem, lá pelos idos dos anos 80 estive em Mutum – MG, e vivi um causo bastante singular. Estávamos lá de férias, eu e mais dois amigos, o Augusto (Gutim) que trabalhava na antiga CESAN, e o José Rubner (Zérrubi), este ultimo trabalhava comigo no extinto Banco Nacional e é natural daquela cidade.

Aproveitamos ao máximo nossa estadia na pacata e prazerosa Mutum daquela época. Foram muitas, e normais para a época nossas aventuras. Nossa solteirice e a tenra idade nos permitiam situações inimagináveis nos dias de hoje. Entre os passeios a cavalo, ver o trabalho dos destemidos domadores de burros chucros, assistirmos empolgados os acasalamentos dos alazões com aquelas pobres éguas, aprender a preparar os cigarros de palha, sim fomos pegos de surpresa, lá não eram comercializados cigarros de maços naquela época, e para sustentar nosso vício precisamos aprender a lidar com aquela novidade. À noite era a vez das jogatinas de cartas, realizadas no único boteco da cidade naquela época. As mineirinhas sabendo que havia rapazes de fora na “cidade” caprichavam no visual e desfilavam na pracinha, nós ficávamos de olhos espichados fazendo a seleção, mas era difícil tirar uma “casquinha”, os rapazes, ao contrário das moças, não estavam muito satisfeito com a nossa presença.

Mas vamos ao que realmente interessa. Era um sábado e o Zérrubi sugeriu uma pescaria, eu topei de pronto e o Gutin também acabou considerando uma boa ideia. O Zé por ser de lá, conhecia bem o riacho, e a pessoa certa para nos acompanhar na aventura. Perto dali morava o senhor que iria nos orientar na pescaria, tratava-se do maior “figura” da região, sua graça era  Genésio.

Ele era baixote, da pele curada pelo sol, como a maioria dos moradores de lá, mas tinha um diferencial, era um desses matutos de personalidade original, sem esforços, e com muita naturalidade não havia um único evento com sua participação que algo peculiar e digno de ser registrado não ocorresse. De saída já tínhamos uma certeza: nossa aventura renderia, talvez nem tantos peixes, mas estória pra contar, e estávamos certos, rendeu.    

Genésio foi logo dando as coordenadas, de fala pausada e quase inaudível ele foi logo dizendo que, por ser sábado, mandava a regra que a pescaria daquele dia deveria ser de peneira.  O Gutin e o Zérrubi aprovaram a ideia de pronto, eu tentei argumentar que uma pesca com anzóis seria mais emocionante, mas logo mudei de ideia, bastou o Genésio me inquirir: Cêjá pescoqui gumavez? Ele falou tão baixo e tão rápido que mudei de opinião no ato, e fui logo pegando uma peneira, e ele já sapecou outra: pégoutra quesseminha!  Não tive dúvidas, aquele era ‘o cara’.

Ficamos parados olhando para baixo (ele era baixo lembram?) quase ouvindo, e não entendendo nada de suas instruções murmuradas. Felizmente o Zé por também ser mineiro, entendia tudo que o mestre Genésio falava, e ia traduzindo para que eu e o Gutin não cometêssemos mais erros, eu então era o menos ousado, pensei até em inventar alguma desculpa para ficar do lado de fora, carregando o bornal com os pescados. Mas o senhor Genésio já havia pensado em tudo, e uma das suas regras era: “Quem sai para pescar tem que se molhar” (O Zérrubi traduziu a frase pra mim!).

Entramos todos os quatro no rio, a água estava gelada, Genésio olhou pra cima e nos fitando, deixou à mostra seus dentes, nunca me esqueci daquele sorriso, eram no máximo quatro dentes, distribuídos de forma irregular entre a parte superior e inferior, aqueles quatro nunca se encontrariam. Quase soltei uma gargalhada, mas felizmente segurei mordendo a língua, Gutim não teve a mesma “sorte” e disparou a risota. Genésio já sem o sorriso no rosto, e não entendendo o motivo da galhofa falou: Guafriané? É simmes Gunsmija gunsrri, Que segundo o nosso tradutor Zérrubi, o Genésio falou: Água fria né? É assim mesmo, Alguns mijam e alguns riem.

Depois dessa iniciamos a pescaria, Genésio sabiamente levava amarrado ao pescoço uma sacola plástica e em seu interior tinha um punhado de palha de milho previamente selecionadas e  cortadas, um isqueiro daqueles com pavio e um punhado de fumo de rolo desfiado, o matuto era prevenido, e sabia que caso molhasse o isqueiro e o fumo, ficaria privado de um dos seus maiores prazeres, o de fumar um belo picão de paia.

Seguíamos riacho abaixo com as águas até os joelhos, e a cada vez que levantávamos as peneiras aumentava a nossa decepção, nada de peixes. Num certo momento chegamos num ponto onde o rio avolumava-se, tanto na sua largura quanto na profundidade, e foi onde pegamos nossos dois primeiros pescados. Genésio falou algo indecifrável para dois capixabas como eu e o Gutim, mas o Zérrubi entendeu e traduziu para nós a seguinte: O Genésio sempre soube que só nesse ponto do rio é possível pegar peixe com peneiras, de lá onde entramos há meia hora até aqui, foi para praticarmos. Olhamos na direção dele que já estava fora do rio, preparando o quarto cigarro, era incrível, ele fumava o tempo todo, e mesmo dentro do rio com a água na altura do umbigo ele preparava seus cigarros de palha com a maior desenvoltura. Sinceramente fiquei um pouco chateado, em ter que sair d’água justo onde os peixes começaram a dar o ar graça, mas pensei melhor, e percebi que não havia maldade no ocorrido, afinal ele também penou rio abaixo, e com uma proporção do corpo bem maior que a nossa submersa na água.

Saímos d’água conforme as instruções do matuto, e logo na margem do rio havia um enorme pé de manga, com frutos maduros. Degustamos alguns, dividimos entre nós três um cigarro que o matuto havia gentilmente preparado e nos presenteado, e entre tossidos e risos “matamos” o cigarro e aguardamos as ordens para voltar à pescaria, que, aliás, era nosso objetivo maior, e até então só havíamos pescado dois peixes.

Finalmente ele deu a ordem e nós não hesitamos, pulamos na água e começamos a passar as peneiras, e os peixes vinham aos montes, em algumas oportunidades pegávamos até quatro de uma única vez. Nossa empolgação fez passar despercebido o fato de estarmos com água na altura dos ombros, e sendo o Genésio um quase anão, certamente ali não seria lugar pra ele. Tarde demais, o que vimos foi uma peneira boiando na correnteza do rio, e algo parecido com uma mão segurando algo sobre a superfície da água. Largamos as peneiras, felizmente os peixes estavam dentro do bornal preso ao meu corpo, senão seria perda total. O Zé alcançou a mão e puxou o restante do corpo já quase sem vida do matuto. Levamo-lo para a margem do rio, e entramos em desespero, pois parecia ter sido aquela a ultima aventura do ícone local. Como haveríamos de levar a noticia, afinal, todos da cidade tinham enorme afeição e consideração por ele. Posto de ponta a cabeça parecia que a água do rio estava toda dentro dele, tamanha era a quantidade de água que ele havia ingerido e agora escoava para fora de sua boca, em alguns momentos eu enxerguei até peixes escoando junto à água. Quando parou de sair água do seu bucho, nós o deitamos, de repente ele levantou a cabeça, balbuciou alguma coisa, abriu a tal mão que servira de referencia para que nós o localizássemos dentro d’água, e sorriu. Ali, na palma de sua mão estava o motivo de sua quase morte por afogamento, olhamos de perto e vimos o isqueiro, algumas lasquinhas de fumo e um corte de palha de espiga de milho, que seria o ultimo cigarro antes de voltarmos da pescaria. Ele contou, e o Zé interpretou para que pudéssemos entender que ele sabia nadar muito bem, era o melhor nadador da região, atravessava o rio doce, que é o maior do estado com uma única mão, na outra ele levava, quando não uma melancia, uma jaca, mas ele jamais largaria aquilo que mais te fazia feliz.

Ainda preocupados ficamos mais um tempo ali sentados, não demorou e, calmamente ele pegou a palha de milho, jogou as lascas de fumo uma a uma lá dentro, enrolou pacientemente o cigarro, passou a língua de um lado para o outro, prendeu o cigarro entre os lábios, pegou o isqueiro e, antes de tentar acende-lo olhou para o alto, como se pedisse algo, e então passou as digitais do dedão sobre o isqueiro e a chama brotou do pavio, ele deu outro sorriso, olhou para nós três, acendeu o cigarro, e deu uma bela baforada deliciando-se com a fumaça que saia de suas entranhas. Piscou um dos amarelados olhos e com a ajuda do nosso interprete em mineres falou. Se existir alguma coisa, qualquer coisa em suas vidas que os façam felizes, lutem para não perde-la, eu já tive muitas coisas nessa longa vida que trazia felicidade, e fui perdendo-as uma a uma sem dar-lhes o devido merecimento, e hoje como vocês perceberam eu quase dei minha vida para salvar não a palha de milho ou o fumo, pois esses são fáceis de conseguir, mas para não perder o único presente que o meu querido pai pode me dar, esse isqueiro, que pode parecer um  insignificante objeto para  muitos, mas que para mim é o único bem de real valor que ainda tenho nessa vida. 

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