Conseguiu
identificar uma mulher? Qual a idade dela, em sua opinião? O que diria de sua
aparência? O que está vestindo? Quais as atividades adequadas para ela?
Você
poderá dizer que a mulher tem 25 anos de idade, é bonita, veste-se bem e tem um
nariz pequeno encantador.
E
se eu dissesse que você está totalmente errado? E se eu dissesse que este
desenho mostra uma mulher de 60 anos ou mais, com ar cansado, um nariz imenso?
Alguém a quem se oferece ajuda na hora de atravessar a rua?
Quem
tem razão? Olhe novamente para o desenho. Consegue ver a velha agora?
Caso
não consiga, continue tentando. Viu o nariz grande, adunco? E o xale?
Se
você e eu estivéssemos conversando, face a face, poderíamos discutir o desenho.
Você
descreveria o que vê para mim, e eu poderia falar sobre o que estou vendo.
Poderíamos
continuar nos comunicando até que você me mostrasse claramente o que está vendo
no desenho, e eu fizesse o mesmo.
Uma
vez que não podemos fazer isso, estude o desenho. Consegue ver a velha agora? É
importante que você a veja, antes de prosseguir na leitura.
Tive
contato com este desenho pela primeira vez há muitos anos, na Faculdade. O
professor o utilizou para demonstrar de forma clara e eloqüente que duas
pessoas podem ver a mesma coisa, discordar, e ter razão, simultaneamente. Isso
não é lógico, é psicológico. Ele entrou na sala de aula com uma pilha de
cartões grandes e distribuiu-os entre os alunos da classe. Ele nos pediu que
olhássemos para os cartões, permanecendo concentrados neles por cerca de dez
segundos, devolvendo-os em seguida. Depois disso ele projetou em uma tela o
desenho. Aí pediu à classe que descrevesse o que via.
As
pessoas da sala que viram a moça no cartão a identificaram na imagem projetada.
E praticamente todos que viram a velha no cartão a identificaram na projeção.
O
professor então pediu a um estudante que explicasse o que estava vendo para um
estudante que divergira de sua opinião, e conforme eles conversaram, os
problemas de comunicação apareceram.
-
Como assim, "uma velha?" Ela deve ter uns 20 ou 22 anos!
-
Ei, espere aí! Você está brincando. Ela tem mais de 70, deve estar beirando os
80!
-
Puxa, você ficou cego? Tem algum problema? Esta rnulher é jovem, tem boa
aparência. Gostaria de sair com ela. É linda!
-
Linda? Ela é um canhão.
A
discussão prosseguiu, cada um dos estudantes certo e seguro de sua posição.
Tudo isso aconteceu apesar de haver uma vantagem muito importante para os
estudantes: sabiam que existia, realmente, outro ponto de vista. Isso é algo
que muita gente jamais admitiria. Mesmo assim, no início, poucos estudantes
tentaram ver o desenho a partir de outra perspectiva.
Depois
de alguns instantes de comunicação inútil, um estudante foi até a tela e
apontou para uma linha do desenho:
-
Eis aqui o colar da moça.
-
Não, isso é a boca da velha - retrucou o outro.
Gradualmente,
eles começaram a discutir com mais calma os pontos discrepantes, e finalmente
um estudante, depois outro, se esclareceu, ao conseguir focalizar as duas
imagens. Graças ao diálogo calmo, respeitoso e objetivo, cada um dos presentes
foi finalmente capaz de entender o ponto de vista do outro. Mas quando
olhávamos para o outro lado, e depois para o desenho projetado na tela, a
maioria via imediatamente a imagem que havia sido condicionado a ver nos dez
segundos iniciais de observação.
Utilizo
com freqüência esta demonstração de percepção quando estou trabalhando com
pessoas, porque ela fornece elementos profundos para a compreensão tanto da
eficiência pessoal como da interpessoal. Ela mostra, antes de tudo, o quanto
nossa percepção pode ser profundamente condicionada, ou nossos
paradigmas.
Se
dez segundos podem ter tal impacto em nossa maneira de ver as coisas, o que
dizer dos condicionamentos que duram a vida inteira?
As
influências marcantes em nossas vidas - família, escola, religião, ambiente de
trabalho, amigos, colegas e paradigmas sociais em vigor, como a Ética da
Personalidade – foram responsáveis por um impacto inconsciente e silencioso em
nossas mentes, ajudando a formar nossos quadros de referências, paradigmas e
mapas.
Podemos
concluir também que estes paradigmas são a nossa fonte de atitudes e
comportamentos. Afastados deles, não podemos agir com integridade. Simplesmente
não temos como manter a coerência se falamos e agimos em discordância com
aquilo que vemos. Se você faz parte dos que vêem a moça no desenho quando
condicionados a fazê-lo, indubitavelmente sentirá dificuldade em se imaginar
ajudando-a a atravessar uma rua. Tanto sua atitude quanto seu comportamento em
relação a ela precisam ser coerentes com seu modo de olhar para ela.
Isso
nos leva a um dos defeitos básicos da Ética da Personalidade.
Tentar
modificar as atitudes e comportamentos exteriores não adianta muito a longo
prazo, se deixamos de examinar os paradigmas básicos a partir dos quais estas
atitudes e comportamentos são gerados.
A
demonstração da percepção também revela a intensidade com que nossos paradigmas
interferem no modo como interagimos com outra pessoa. Pensamos que vemos as
coisas claras e objetivamente, e depois nos damos conta que os outros as vêem
de modo aparentemente tão claro e objetivo quanto o nosso. "O que vemos
depende de onde estamos”.
Cada
um de nós tem tendência para pensar que vê as coisas como elas são
objetivamente. Mas não é bem assim.
Vemos
o mundo, não como ele é, mas como nós somos - ou seja, como fomos condicionados
a vê-lo. Quando abrimos a boca para descrever o que vemos, na verdade
descrevemos a nós mesmos, nossas percepções e paradigmas. Quando as outras
pessoas discordam de nós, imediatamente achamos que há algo de errado com elas.
No entanto, como exemplificado pela demonstração, pessoas sinceras, com a
cabeça no lugar, podem ver as coisas de modo diferente, cada uma delas olhando
o mundo através das lentes específicas de sua própria experiência.
A
interpretação que cada pessoa dá a aos fatos revela experiências anteriores, e
os fatos não possuem significados algum quando separados da interpretação dada
a eles.
Quanto
mais nos conscientizamos de nossos paradigmas, mapas ou pressupostos básicos, e
do quanto somos influenciados por nossas experiências, mais responsabilidade
podemos assumir por estes paradigmas, mais podemos examiná-los, testá-los em
confronto com a realidade, ouvir a opinião dos outros e nos abrirmos para os
conceitos alheios, obtendo deste modo um quadro mais amplo e uma visão mais
objetiva.