quinta-feira, 19 de maio de 2011

FINANCIAMENTO ELEITORAL POR PESSOAS JÚRIDICAS DEVERIA SER CRIMINALIZADO

Legislação eleitoral republicana deveria criminalizar o financiamento feito por pessoas jurídicas


"We have the best government that money can buy", Mark Twain.


A forma e os mecanismos de escolha dos ocupantes dos poderes são fundamentais para caracterizar o padrão de democracia (ou não) de um país. No nosso caso, um dos aspectos dessa questão é quanto aos mecanismos (legais e ilegais) de financiamento eleitoral. Se queremos uma nação democrática de fato, é necessário um sistema de financiamento eleitoral também democrático, como poderia ser o financiamento público. Mas para a defesa de um sistema de financiamento eleitoral democrático é necessário denunciar a atual forma de financiamento.

A legislação que regula o financiamento eleitoral no Brasil permite que pessoas físicas façam doações para campanhas eleitorais de até 10% do rendimento anual bruto. Pessoas jurídicas podem fazer doações, desde que "limitadas" a 2% do faturamento anual. Essas normas, previstas respectivamente nos artigos 23 e 81 da lei eleitoral (Lei 9504 de 1997), nada têm de democráticas. 

De volta a 1824 

São muitos os problemas dessas normas. O primeiro deles é o que concede poderes políticos tão maiores quanto maior for a renda, o que nos remete diretamente à Constituição do Império, de 1824: quem não tivesse cem mil réis de renda anual não poderia votar nem mesmo em eleições paroquiais; para votar em deputados e senadores havia a exigência de uma renda mínima de 200 mil réis; finalmente, só poderiam ser deputados aqueles que tivessem renda de pelo menos 400 mil réis por ano.

Esse fato, freqüentemente contado como anedota para ilustrar como era precária a "democracia" no início do Império, tem o mesmo conteúdo do que está previsto na lei eleitoral de 1997: quanto mais rico alguém for, maior é o poder político que pode exercer. Exemplo: quem ganha um salário mínimo por mês poderia (poderia, pois quem ganha 500 reais por mês evidentemente não tem capacidade de financiar coisa alguma) contribuir com alguma coisa por volta de 500 reais e, portanto, financiar não mais do que algumas dezenas de votos, já que o investimento necessário para conquistar um voto varia entre cerca de dez reais até várias dezenas de reais, dependendo do cargo e do município. Já um milionário pode financiar, com 10% de sua renda anual, milhares de votos. 

Pessoa jurídica, no Brasil, é ente político 

Outro problema, e ainda maior, é o financiamento de campanhas políticas por pessoa jurídica. Ora, pessoas jurídicas (lojas, fábricas, bancos, agências de publicidade, fazendas, construtoras etc.) não deveriam ser entes políticos: não podem ter ideologia, vontade ou preferência política, não podem se filiar a partidos, nem se candidatar a nada e, óbvio, não podem votar. Portanto, e evidentemente, não deveriam poder interferir em eleições, partidos ou candidaturas. Entretanto, a lei eleitoral brasileira concede poderes políticos a pessoas jurídicas. 

Além disso, a doação feita por pessoa jurídica (note: o financiamento não é feito pelo dono da empresa ou por sua alta direção com dinheiro pessoal, mas por ela mesma, a empresa) é necessariamente incluída em sua planilha de custos e, portanto, transferida aos consumidores de seus produtos e serviços. Ou seja, quem decide os candidatos ou partidos a serem beneficiados são os controladores das empresas, mas quem paga a conta são os seus clientes ou fregueses. 

Também os seus trabalhadores são prejudicados, pois as despesas com financiamento eleitoral entram na planilha de custos no mesmo nível que os salários, os insumos, os impostos etc. E, ao que se saiba, nenhuma empresa jamais consultou seus clientes, fregueses ou trabalhadores para saber que partidos ou candidatos financiar. Em resumo: consumidores, clientes e trabalhadores dessas empresas entram com o dinheiro e seus donos, presidentes e altos dirigentes entram com a preferência política e ideológica; nós financiamos os candidatos e partidos que interessam às elites. 

Para ser coerente, a legislação eleitoral de 1997, permitindo que pessoas jurídicas financiem campanhas, deveria permitir que ocupassem cargos eletivos. Mas isso exporia os dirigentes e proprietários das empresas. Da forma que está, a lei eleitoral lhes concedeu o poder político sem o desgaste da exposição.

Empresas têm poder político quase ilimitado 

Outra questão é quanto ao valor do "limite": 2% do faturamento anual. Ora, faturamentos de grandes empresas são medidos em bilhões de reais anuais. Dois por cento desses valores são algo da ordem de muitas dezenas de milhões de reais. Com esses recursos, uma grande empresa pode financiar tantas candidaturas quanto precisar!

Para se ter alguma idéia do poder eleitoral das empresas, basta ver que o faturamento das 500 maiores empresas do país corresponde a cerca de 25 bilhões de reais. Dois por cento disso é uma quantidade de dinheiro mais que suficiente para eleger tantos candidatos quantos forem necessários para defesa de seus interesses. O corolário disso é óbvio: se ou quando for necessário, aumentarão o número de candidaturas financiadas. E isso, ainda, não lhes custará nada, pois a conta será paga pela população como um todo. 

Um dos efeitos dessa legislação de 1997 foi reduzir o poder da militância política nas campanhas eleitorais ao substituí-la por funcionários pagos e publicidade comercial. Outro efeito foi encarecer enormemente o custo eleitoral e transformar ocupantes de cargos eletivos em reféns dos grandes financiadores, com as conseqüências que qualquer um pode imaginar. 

Um discurso que foi usado na época para defender o financiamento eleitoral por pessoas jurídicas foi que, com ele se poderia acabar com o caixa dois em campanhas eleitorais. Ora, primeiro, o grande problema não era apenas o número do caixa; era (e é) o fato que o poder econômico das empresas era (e é) utilizado nas eleições e, obviamente, para fazer valer seus interesses. 

Ao permitir que as empresas financiem campanhas políticas e candidatos, os problemas, cuja origem atribuía-se ao caixa dois, continuam existindo, agora legalmente. Em segundo lugar, o caixa dois não acabou, tanto por haver despesas que não podem ser financiadas legalmente, como, por exemplo, os gastos pessoais dos candidatos ou de seus colaboradores, como pelo fato de algumas empresas e candidatos não quererem explicitar seus vínculos. Assim, a lei de 1997 criou uma situação esdrúxula: continuamos a amargar o caixa dois e temos empresas atuando como entes políticos. 

Precisamos fazer com que a frase de Mark Twain seja apenas uma piada

Uma legislação eleitoral republicana deveria criminalizar o financiamento eleitoral feito por pessoas jurídicas, qualquer que fosse o número do caixa, restringindo o financiamento apenas a pessoas físicas e ao poder público. 

No caso de pessoas físicas, deveria haver um limite máximo para a contribuição compatível com a renda média do brasileiro, independente da renda do doador. Apenas para ilustrar: um limite da contribuição de 2% da renda anual média do brasileiro, alguma coisa perto de 200 ou 300 reais, independente da renda individual. 

Evidentemente, esse valor ainda excluiria uma grande parcela da população que, por ser pobre ou remediada, dificilmente conseguiria abrir mão de duzentos ou trezentos reais sem comprometer sua vida financeira. Entretanto, um limite igual para todos e compatível com a renda média da população pelo menos pareceria mais republicano e contribuiria para que o peso eleitoral da militância política pudesse ter alguma importância. A legislação, como é hoje, deixaria muita gente indignada em 1824. 

Se queremos fazer um debate sério sobre reforma política no quesito melhoria da participação popular e, portanto, da representação, precisamos discutir mecanismos mais democráticos de financiamento. Essa tarefa passa pelo fim do financiamento por pessoas jurídicas, pelo estabelecimento de um limite republicano para o financiamento por pessoas físicas e pelo financiamento público. 

Tais providências poderão tanto dar condições, se não iguais, pelo menos não tão desiguais, para as diversas correntes de pensamento político como também contribuir para reduzir o custo atual do financiamento eleitoral, que exclui de antemão inúmeras candidaturas, principalmente dos campos populares. 

E é igualmente importante, e mesmo necessário, para a defesa do financiamento público, denunciar os atuais mecanismos, pois perece que a enorme maioria da população ainda não percebeu que, como está, nós financiamos os candidatos que as elites escolhem, e a altos custos. 

Enfim, desde 1824 a piada de Mark Twain, no Brasil, é lei. Precisamos mudar isso.


*Otaviano Helene é professor do Instituto de Física da USP, ex-presidente da Associação dos Docentes da USP e ex-presidente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

Por Otaviano Helene *
Fonte: Correio da Cidadania

OPOSIÇÃO SEM TRÉGUAS







Por Wladimir Pomar*
Sem tréguas

Nem bem passaram cem dias de governo Dilma e já assistimos a uma campanha orquestrada para demonstrar a sua incompetência. Essa campanha começou com a unção do senador Aécio Neves como nova liderança nacional do PSDB, aparentemente com o apoio de Serra. Aécio atacou desabridamente o PT, comparando-o negativamente ao PSDB.

Depois disso, surgiu o estudo de um pesquisador de um organismo estatal, apontando que as obras dos aeroportos, para atender ao crescimento da demanda de transporte aéreo, seja pelo aumento do poder de compra da população de baixa renda, seja pelo afluxo de visitantes para a Copa do Mundo e as Olimpíadas, não ficariam prontas a tempo para a Copa. Coincidentemente, no dia seguinte, apareceu ao vivo a propaganda política do PSDB, acusando o governo de incompetência nas obras e insinuando que há algo de errado (não chegou a dizer de podre) nesses projetos.

No mesmo período, um grande órgão da imprensa noticiou que o governo não tratará mais da inflação, com base na leitura transversa da declaração de alguma autoridade ou pesquisador. Coincidentemente, logo depois, a propaganda política do PSDB acusou o governo de incompetente no controle inflacionário, algo que, segundo ela, estaria resolvido desde 1994 (a memória curta impede a oposição de reconhecer o estouro inflacionário do final de governo FHC), e que haveria algo de errado (ou de podre?) nessa questão.

Essas dobradinhas coincidentes estão ocorrendo em relação a diversos outros assuntos, como o enfrentamento da crise econômica global, iniciada em 2008, o baixo crescimento das taxas de investimento, a desindustrialização, a queda na balança comercial e qualquer outro assunto que possa servir para atacar a suposta incompetência do governo e insinuar que existe algo de podre no reino petista. Algum especialista, do governo ou não, ingenuamente ou não, planta um estudo crítico. Isso, ou algum ponto tirado do contexto, logo se torna manchete num dos órgãos da grande imprensa. E, imediatamente ou mais tarde, se torna peça de propagando do PSDB, DEM ou algum de seus aliados.

Em outras palavras, a idéia de que a oposição continuaria desarticulada, dividida e inativa por um longo período já não tem mais sentido. Seus componentes chegaram a um acordo tácito para a guerra publicitária contra o PT e a pressuposta incompetência do governo Dilma. É lógico que essa campanha se choca com a realidade, mas ela pode ser acompanhada de sabotagens e trabalhos de sapa no interior do Estado. E alguns de seus argumentos jogam com interesses díspares, podendo encontrar ressonância em setores sociais e políticos que, neste momento, fazem parte do campo aliado. Portanto, não se pode deixar que apenas o tempo demonstre que a oposição reacionária está assacando mentiras e inverdades.

Tomemos o caso das taxas de investimento. Em termos percentuais, o governo Lula não conseguiu ultrapassar os 19% do PIB, quase a mesma taxa anual de investimento do período FHC. A direita tem se aproveitado do discurso da ultra-esquerda, que acusa Lula de haver mantido uma taxa de investimento semelhante à de FHC, o que comprovaria que Lula e FHC teriam sido idênticos.

É verdade que essa taxa é relativamente baixa para alavancar um crescimento econômico sustentável. No entanto, tanto a direita quanto a ultra-esquerda escondem que a natureza dos investimentos no governo Lula foi radicalmente diferente dos investimentos no governo FHC. Neste, os investimentos foram realizados principalmente para a compra de empresas estatais e privadas brasileiras e para o jogo especulativo na bolsa de valores. No governo Lula, embora não tenha sido fechado o cassino da especulação financeira, a privatização dos bens públicos foi paralisada e os investimentos diretos foram direcionados para a instalação de novas plantas industriais.

Nesse sentido, a acusação de Dilma continuar pondo em prática uma política de desindustrialização é, na melhor das hipóteses, propaganda enganosa, que mereceria sanções do Conar. Na verdade, por trás dela há uma intrincada teia de interesses de corporações estrangeiras e empresas mistas e brasileiras, que se sentem ameaçadas pela concorrência chinesa. Bobagens como a acusação de que o governo só se preocupa com investimentos no agronegócio, na mineração e no pré-sal, na perspectiva de vender soja, minérios e petróleo para o dragão China, são repetidas à exaustão, às vezes por economistas e politólogos de certo renome.

Tanto no governo Lula, quanto nos primeiros meses de governo Dilma, a preocupação com o processo de industrialização se expressou no PAC; na decisão política de sediar a Copa, as Olimpíadas e vários outros eventos internacionais, indutores de modernização da infra-estrutura (totalmente sucateada durante os 12 anos de governo neoliberais); e, agora, na decisão de visitar a China para dar um novo salto nas relações comerciais, econômicas, científicas, tecnológicas, sociais, culturais e políticas com aquele país.

Assim, não é por acaso, ignorância ou ingenuidade que o PAC, as commodities agrícolas e minerais, as obras para a Copa e as Olimpíadas, e as relações com a China, se tornaram um emaranhado intrincado de acusações, desinformações e desqualificações. Esse emaranhado engloba a suposta comprovação de que o PAC não teve ualquer efeito real sobre o desenvolvimento econômico. Engloba também a acusação de que a exportação de commodities agrícolas e minerais representa um retorno à condição do país como produtor exclusivo de produtos primários, o que alguns economistas chamam de re-primarização.

O governo Dilma, além disso, não teria competência para entregar as obras comprometidas com a FIFA e o COI no tempo aprazado. E, quanto à China, esta pretenderia usar no Brasil a mesma estratégia que estaria utilizando em outros países da América do Sul, da África e da Ásia, para controlar as fontes de matérias-primas e criar mercados para seus bens e serviços de alto valor agregado. O governo Lula, assim como o governo Dilma, estariam entregando o Brasil à China.

Com base nessa tese, não foram poucos os comentaristas econômicos e políticos que tentaram pautar os temas que a presidenta deveria tratar com os chineses, estimulando-a a interferir nos assuntos internos daquele país, com a mesma naturalidade com que apóiam a interferência dos Estados Unidos e outras potências estrangeiras nos assuntos internos do Líbia, Egito etc etc, e do próprio Brasil.

Portanto, mal começou na presidência, Dilma já se vê sob o fogo cruzado da oposição reacionária e de setores múltiplos, que pretendem traçar o rumo do desenvolvimento econômico e social brasileiro segundo seus próprios interesses. O que impõe, tanto aos petistas, quanto à esquerda em geral, aprofundar-se mais nesses assuntos, porque a tendência não é de trégua ou amainamento. Afinal, os Estados Unidos e a Europa não conseguiram sair da crise e pretendem descarregar o ônus dela sobre os outros. Quem pensa que o Brasil vive uma trégua generalizada, e está fora dos objetivos daquelas potências, certamente será apanhado de surpresa.


* Wladimir Pomar é analista político e escritor.

terça-feira, 17 de maio de 2011

MACHADO DE ASSIS DEFENDE CAPITU

Capitu Surfistinha

Talvez a maior e mais persistente polêmica brasileira seja se Capitu traiu ou não Bentinho com Escobar. Até o presente momento, eu não quis entrar nessa celeuma. Imaginei que, se esclarecesse o enigma, eu iria esvaziar muitas teses de mestrado, muitas festas literárias e suas mesas redondas. Alguns livros sobre o tema seriam simplesmente ignorados.

Sentia-me mais ou menos como um cientista que descobre a cura para uma doença importante, mas que ao mesmo tempo compromete os lucros da indústria farmacêutica. entendi que era hora de vir a público, por meio do meu blog, resolver o enigma.

A verdade é que todo esse mistério foi obra de um processo não desejado. Na primeira versão do romance, eu havia deixado tudo muito claro – e o fui, até nos mínimos detalhes, para que não restasse dúvida alguma.

Havia um capítulo em que Bentinho flagrava Capitu e Escobar na cama, mais um camelo e três anões besuntados. Dois escravos negros assistiam a tudo – um gemia, o outro procurava olhar para o lado. Capitu coordenava a todos, menos o camelo, que se encarregava apenas de beber a água espalhada nos seus seios. Os anões, por sua vez, ocupavam o que havia de disponível em Capitu e Escobar – que parecia ser o mais contente da festinha. Para deixar mais claro que aquela era uma cena de adultério, Capitu gritava: “Isso aqui não é só aaaaaaahh sexo! Isso, isso, isso é amooooor! Eu amoooooo fazer isso! Vamos, Escobar! Não pára, não pára, safadinho!”. Os escravos estavam na cena para alimentar a imaginação dos sociólogos e historiadores. Fui mostrar essas páginas para um amigo que considerava arrojado. Ele me disse que eu estava muito louco, que precisava me acalmar e recomendou-me que tomasse um chá. Então, fundei a Academia de Letras. Outro escritor próximo objetou que não havia camelos no Brasil. Então, mudei para uma anta, o que retirou um pouco do erotismo e criou um significado indesejado. Por tudo isso, acabei por retirar tal capítulo do romance, o que provocou todo esse mistério.

Mas devo dizer que Capitu foi uma personagem que cresceu, tomou vida própria, fugiu-me ao controle. Tanto que, quando vi, ela havia ofertado o seu sexo para o livro inteiro e para toda a sua cadeia produtiva. Capitu não se contentou só com os personagens disponíveis nas páginas. Seguiu sua sanha com o editor, o diagramador, o revisor e até com o pessoal da gráfica, que de tão felizes não param de me mandar calendários promocionais. Ô olharzinho oblíquo e dissimulado poderoso, esse.

A OUTRA FACE (JOHN LENNON)

A Outra  Face 
John  Lennon

Não sei se vocês sabem que o jornal da Santa Sé L’Osservatore Romano informou que a Igreja Católica me perdoou por ter declarado que os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo. O artigo me absolve dizendo que “A declaração de John Lennon, que provocou tanta indignação nos Estados Unidos, depois de todos estes anos soa como uma bravata de um jovem proletário inglês às voltas com um sucesso inesperado”. O texto ainda saúda os 40 anos do álbum branco: “O fato é que 38 anos após o rompimento, as canções de John Lennon e Paul McCartney mostraram uma extraordinária resistência à passagem do tempo, tornando-se uma fonte de inspiração para mais de uma geração de músicos pop”, afirmou o jornal. Primeiro, quero dizer que estou preocupado com a repercussão negativa que isso pode ter sobre as vendas do álbum branco. As conseqüências podem ser piores do que as provocadas pela crise global. Mas o aspecto comercial não é o mais importante. O perdão me comoveu sinceramente. Vi que eu sou um cara de sorte. O Galileu Galilei, por exemplo, com todo o prestígio de um dos maiores cientistas da humanidade, teve que esperar mais de três séculos para ser absolvido pela Igreja Católica. Não imaginava que isso fosse possível – e olhe que eu já imaginei cada coisa difícil de acontecer. Fiz até uma canção sobre isso. Aliás, eu poderia dizer que essa canção é mais famosa que Ave-Maria, mas não vou dar essa declaração. Chega de polêmica. Bom, como ia dizendo, meu coração se encheu de alegria. Por instantes, pensei até que o sonho não tinha acabado. Tive instintos de fazer uma nova canção. Depois, refleti bem e entendi que o melhor era vir aqui e retribuir o gesto. Não sou candidato a santo, apesar de que muitos queiram me ver como tal. Mas creio que minha obrigação é ser ainda mais generoso do que foram comigo. Portanto, perdoarei mais que uma simples declaração. Perdoarei atos e conseqüências. Vamos à lista:
Eu perdôo as cruzadas. A inquisição. Perdôo por terem queimado vivo Giordano Bruno, por terem perseguido Galileu. Levo na boa o genocídio dos índios nas Américas. Perdôo pela omissão sobre os horrores do holocausto na II Guerra, mesmo tendo conhecimento sobre o mesmo.
Quanto ao encobrimento dos abusos dos padres pedófilos, contra a proibição dos casamentos entre homossexuais, contra os métodos contraceptivos (principalmente a camisinha) e suas conseqüências na geração desigualdade, pobreza e doenças e as músicas do Padre Marcelo, eu só me manifestarei quando o L’Osservatore Romano elogiar o Sargent Pepper.

A SELEÇÃO BRASILEIRA SEGUNDO DARWIN

SELEÇÃO NATURAL

Como há muita confusão em torno do meu mais conhecido conceito científico, resolvi vir até aqui explicar de um jeito mais simples como funciona a Seleção Natural. Para muita gente, seria natural que a Seleção fosse formada só pelos os melhores jogadores, que se provaram nos seus respectivos times, durante um período razoável de tempo. O mesmo vale para a escolha do técnico. Seria natural que o treinador fosse escolhido pelo seu histórico na atividade, nos títulos que alcançou, sendo chamado de professor por seus comandados. Da mesma forma, seria mais que natural que as grandes estrelas futebolísticas – já detentoras de grande fortuna material – jogassem pela Seleção com grande alegria, pelo prazer, uma vez que estão com a vida ganha e não contam com a pressão da sobrevivência. Seria natural que eles fizessem grandes exibições que confirmassem os motivos de tão grande fama. Como não é nada disso o que ocorre, as pessoas me abordam indignadas e me perguntam:

– Darwin, e aí? O que está acontecendo com a Seleção?

Quero dizer que os fatos só confirmam a minha teoria. Primeiro, vamos à questão dos jogadores. A Seleção Natural não se dá entre os jogadores, mas sim entre os donos de passes, que estão cada vez mais profissionalizados e com ótimos contatos com a CBF. Contribui muito para isso a alteração do fenótipo da nova geração de jogadores – alteração essa que lhes deixam mais afeitos ao funk, às cachorras, às respostas lugares-comuns e à assinatura precoce de contratos.

Já o treinador é ainda um desses mistérios da natureza. Arrisco-me a dizer que o atual treinador deve ter alguma qualidade, alguma que nem ele saiba. Talvez sua fragilidade resida no fato de que ele foi uma espécie fabricada pela comissão técnica. Espécies inventadas não se dão bem no ambiente seletivo da natureza dos campeonatos.

E, para finalizar, devo comentar sobre o que acontece aos atuais grandes craques. Por que eles não brilham na Seleção? Esses monstros sagrados estão sofrendo de uma doença rara que pouca gente pode contrair. Essa doença é provocada por uma superintoxicação de dinheiro. Não sei se essa enfermidade irá levar a categoria de grandes craques à extinção. Talvez o futebol.

LEONARDO DA VINCI PARA PREFEITO DE SÃO PAULO


CANDIDATURA
"Leonardo da Vinci se lança como candidato a Prefeito de São Paulo"


É com muito atraso – mas não sem entusiasmo e esperança – que lanço minha candidatura a prefeito de São Paulo. Primeiro, deixem-me falar das motivações que me levaram a essa decisão. Os problemas da maior cidade da América Latina são monumentais, quase insolúveis. Resolvê-los não é tarefa para um simples administrador ou político profissional. O mínimo que São Paulo precisa é de um gênio. Além disso, já sou pintor, matemático, escultor, arquiteto, físico, escritor, engenheiro, poeta, cientista, botânico, músico. Ser prefeito é uma linha que falta no meu currículo.
Vou manter o Bilhete Único. Apenas mudarei sua logomarca.

Minhas propostas

EDUCAÇÃO:
No primeiro dia do meu mandato, vou esclarecer de uma vez o mistério do sorriso da Mona Lisa – algo que só minha candidatura pode prometer e cumprir.


SEGURANÇA:
Chamarei o Dan Brown para ser meu secretário municipal de segurança. Ele desvendará todo e qualquer crime a partir da menor pista.


SAÚDE:
Sei lá. Depois eu invento alguma coisa.


ECONOMIA:
Pretendo pintar o teto da prefeitura e, assim, gerar um patrimônio para o município e para a humanidade.


INFRA-ESTRUTURA:
São Paulo precisa de grandes obras. E nesse item não há medida de comparação entre mim e os outros candidatos.


TRÂNSITO:
 
Já tenho alguns esboços de idéias de como poderemos resolver o problema do trânsito de São Paulo sem construir túneis ou viadutos.

CULTURA:
Bolsa Santa Ceia. Pretendo instituir o programa Bolsa Santa Ceia, onde cada cidadão poderá ter sua cópia autenticada.


APOIO:
Por último, e não menos importante, saibam que sou amigo do Presidente Lula desde a renascença.

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