quinta-feira, 1 de março de 2012

Rui Rodrigues - Argentina Kirchner


As coisas não vão muito bem pelo mundo, de modo geral, envolvido que está numa crise econômica que só encontra precedentes na de 1929 – Queda da bolsa de N. York, e nos templos bíblicos quando José teve que emigrar para o Egito.

A bela Cristina Argentina Kirchner ouviu dizer que um barco de guerra inglês tinha entrado nas ilhas Malvinas para operações de treinamento militar. Viu nessa oportunidade o grande momento para esvanecer os problemas internos. Poderia ter feito uma reclamação formal e ficar por isso mesmo, sem nem sequer dar importância para o resultado da reclamação, porque não iria mudar nada no equilíbrio político mundial nem nas Malvinas, nem na Argentina ou na Inglaterra, mas foi mais longe.

Pede boicote aos produtos ingleses. É a teoria do suicídio posta em prática. Critica o boicote americano a Cuba e propõe um boicote à Inglaterra, como se não percebesse como está dividido o poder no mundo e pior, não percebesse o quanto ela mesma se desvia do bom senso. Ademais, a Inglaterra e a União Européia são um dos maiores parceiros comerciais da Argentina... A teoria do suicídio posta em prática não pode ter apoio na sensatez pelo contrário, parece ato tresloucado, ato para por a culpa de tudo o que acontece de mal na Argentina, no mundo exterior e em particular, na Inglaterra.

A bela Cristina Argentina Kirchner passou a fase de deslumbramento no poder e chegou agora à fase de desespero no poder. A partir daqui é só descida em sua vida política, porque a base deste seu desespero está na constatação de que sua economia e os atos de seu governo não levarão a Argentina onde os argentinos pensam que seriam levados. Ela vai para o outro lado.


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Marco Lisboa Uma parte da esquerda brasileira sofre o que eu chamo de carência ideológica aguda. Com o desmoronamento do bloco socialista e a perda de conteúdo ideológico do PT e de vários outros partidos de esquerda, criaram o que eu chamo de Mancha Vermelha. Esta organizada tem coligadas no mundo todo. São vários os critérios para esta coligação. O primeiro é nominal - colocaram Comunista ou mesmo socialista no nome, é dos nossos. O pequeno Kim entra nesta cota. Tempos atrás uma diretora da Mancha caiu de pau na Veja porque chamou o Kimzinho de ditador. Eu perguntei como os milhões que passam fome e os 200.000 norte-coreanos presos em campos de concentração deveriam chamá-lo. Outro critério é o discurso antiamericano. Kadafi, Saddam, El-assad e outros entram nesta cota. Estes fanfarrões massacram o seu povo e usam como desculpa um imperialismo com o qual convivem perfeitamente. Kadafi chegou ao ponto de colaborar intimamente com a CIA, além de financiar as campanhas de Sarkozy e Berlusconi. Mas são dos nossos. Finalmente, qualquer caudilho com um discurso populista é coligado. Chavez é um exemplo clássico. A Kirchner também. O trágico, além da perda de credibilidade, é a perda da independência política. O PSUV de Chavez obrigou a todos os partidos de esquerda que apoiavam Chavez a se integrarem a ele. Não existe outro projeto político oficial além do Chavismo. No Brasil, em nome da governabilidade, tornou-se obrigação da Mancha defender todo corrupto da base aliada pego em flagrante pela grande imprensa. Que foi batizada de PIG. Em vez de repensar a sua política de alianças, a Mancha lançou uma campanha diversionista pedindo um marco regulatório. Eles fazem questão de confundir o tempo todo imprensa com concessões de rádio e televisão e obrigação de ter um conteúdo com valor social com censura política e ideológica. Eu não diria que os conceitos de esquerda e de direita estão ultrapassados. Mas com certeza, boa parte de nossa esquerda está ultrapassada.
Alvaro Luiz Magalhães Marques Esta análise do Marco Lisboa está perfeita e é provavelmente a mais incisiva dentre todas que as já foram feitas aqui, vindo ao encontro de praticamente tudo que penso da esquerda hoje. Faria apenas um acréscimo, que na verdade apenas consubstancia o que já está sugerido na construção do argumento, e que diz respeito às lacunas éticas características de todo discurso autojustificado, ferramenta essencial de que qualquer ditadura lança mão sem hesitar. Voltarei a isto mais tarde, mas acho que todos entendem o significado dessa fragilidade básica.
Já especificamente com relação aos conceitos de esquerda e direita, talvez precisássemos cotejar com mais acerácea nossos pontos de vista, o que, inobstante, não compromete o conjunto da argumentação. A princípio, contudo, vejo-os diluídos e sem muita razão de ser se quisermos falar em democracia, e numa tentativa de defini-la de forma mais ou menos universal. Não me parece possível sustentar, a partir de fundamentações filosóficas ou sócio-econômicas, que ou direita ou esquerda queiram um mal-definido "bem do povo" uma mais do que a outra. Os experimentos concretos de ambos os lados, por sua vez, tampouco me parecem autorizar qualquer distinção conclusiva. A esquerda, especialmente no Brasil, ficou muito associada à luta contra a ditadura militar, mas isto não é suficiente para credenciá-la a ser mais favorável ao povo, mais "progressista", e sua adesão à causa democrática é não só recente como difusa e por vezes ainda meramente utilitária. E aí é que eu não admito ditadura de pseudo-vanguardas "pelo bem do povo" - vai mandar em casa, na mulher e na filharada que já faz muito. Daí é que desponta a idéia de democracia e de participação (cada vez mais direta e menos mediada por ideologias) como algo que, quase por definição, já estabelece o que é bom para o povo sem a presença impertinente atravessadores ideológicos.
Marco Lisboa Uma das grandes cagadas do socialismo real foi a sua pretensão ao totalitarismo: ele reivindicava que o Estado sabia o que era melhor no terreno da arte, da moral, da religião, da opção sexual, etc. Outra cagada, conseqüência da primeira, foi a divisão entre revolução e os inimigos do povo. Se um caminho era melhor do que outro, quem optava pelo caminho errado estava indo na direção da contra-revolução, logo era um inimigo do povo. Como conseqüência, veio a repressão, já que um estado tão onipresente e tão onipotente não podia tolerar a ação do inimigo dentro de seu organismo. Isto pelo lado do estado. Acho que é isto que o Álvaro chama de discurso autojustificado.

Do lado do povo, cresce o oportunismo, a apatia, o carreirismo, já que num estado que está em toda a parte, não há como se esconder. É preciso mostrar com clareza que se é um revolucionário e não um inimigo do povo. Em Cuba, apesar de não terem se produzido os excessos soviéticos, os CDR (comitês de Defesa da Revolução) acabaram por se transformar num instrumento de fiscalização da vida alheia. No fim, todos se vigiam o tempo todo.
Uma outra questão que precisa ser repensada é a questão do partido e da vanguarda. Todo processo revolucionário necessita uma organização revolucionária ( ou uma frente). A primavera árabe não é um contra-exemplo válido, porque a derrubada de Mubarak acabou passando o poder para os militares e o vazio está sendo ocupado pela irmandade muçulmana e seus aliados.
O problema começa com o exercício do poder. Como separar Estado e Partido (ou Frente)? Como evitar que a vanguarda substituía o povo? A questão não é nem um pouco simples, porque um processo revolucionário não é limpinho, perfeito e arrumadinho. É turbulento, com ações violentas interna e externamente. Cuba, por mais que Fidel fizesse um discurso humanista, tinha que bater de frente com os americanos, porque o país vivia praticamente num neo-colonialismo, exportando açúcar para comprar caramelo, com disse o próprio. Com a máquina do estado desmantelada, são precisas ações emergenciais, não dá para submeter tudo a uma assembléia. Sem falar que o novo poder necessita de instrumentos de auto defesa, um exército, uma polícia e um corpo diplomático, que não se prestam a um exercício da democracia direta.
Nesse sentido, o governo cubano errou por demorar mais de 10 anos para se institucionalizar, errou por adotar uma liderança carismática e errou por impor um partido único, ainda por remontado de cima para baixo.
 

Juiz recorre à bíblia para negar indenização por espera em banco

O juiz Rosaldo Elias Pacagnan, do 1º Juizado Especial Cível da Comarca de Cascavel (PR), recorreu à Bíblia e a um personagem de histórias em quadrinhos para rejeitar uma ação movida por um advogado que pretendia ser indenizado pelo banco Bradesco por esperar 38 minutos na fila de atendimento.
"Tudo tem seu tempo determinado", sentenciou o juiz, citando o texto bíblico de Eclesiastes. "Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher o que se plantou". Na sentença, o magistrado emendou: "Há tempo de ficar na fila, conforme-se com isso".
Para Pacagnan, "o dano moral não está posto para ser parametrizado pelos dengosos ou hipersensíveis". Ele afirmou isso porque o autor colocou na petição que qualquer ser humano com capacidade de sentir emoção "conseguirá perceber que não estamos diante de mero dissabor do cotidiano" ao se referir à demora do atendimento.
O magistrado reconheceu que a demora causou estresse, perda de tempo, angústia e até ausência para a realização de necessidades básicas, mas afirmou que desde que ele --o próprio juiz-- se "conhece por gente", se considera bem humano e não tem redoma de vidro para protegê-lo. "Aliás, o único sujeito que conheço que anda com essa tal redoma de vidro é o Astronauta, personagem das histórias em quadrinhos do Maurício de Souza; ele sim, não pega fila, pois vive mais no espaço sideral do que na Terra", diz a sentença.
As filas, segundo o juiz, integram o cotidiano e são indesejáveis, porém, toleráveis. "Nem tudo pode ser na hora, pra já, imediatamente, tampouco em cinco ou dez minutos! Nem aqui, nem na China", escreveu.
Pacagnan disse ainda, na sentença, que o Poder Judiciário está sendo entupido "com a mania de judicializar as pequenas banalidades".
LEGISLAÇÃO
No Paraná, a Lei Estadual 13.400/2001 estabelece um limite máximo de 20 minutos para o atendimento em agências bancárias. Nas vésperas e após feriados, o prazo se estende para 30 minutos. A lei também vale para espera em caixas de supermercados.
As denúncias devem ser feitas no Procon e podem render multas que variam de mil a 10 mil UFIRs (Unidade Fiscal de Referência).
O advogado Éden Osmar da Rocha Junior disse que vai recorrer da sentença.
"Apesar de ser um bom juiz, que dá sentenças bem fundamentadas, desta vez ele não foi feliz", disse.

Errou o juiz em desrespeitar uma lei estadual, errou ao citar um livro religioso na sentença em um país laico.
O Brasil caminha rapidamente para se tornar uma teocracia radical.

A conscientização da humanidade será o fim deste mundo.


A visão de fim de mundo tem tomado corpo nos últimos tempos, fazendo com que as pessoas passem a refletir sobre isto. O fato dá ensejo a inúmeras e mais variadas manifestações, notadamente aquelas de caráter religioso, propiciadas especialmente por fanáticos que vêem em qualquer alteração da natureza os sinais desse final mundial.
            Há aqueles que alardeiam as chamadas Profecias de Nostradamus, o ilustre mago da era medieval que em suas centúrias previu ocorrências ao longo do tempo, dentro do qual muitas delas se confirmaram e outras não. Há os apocalipsistas que se apegam a interpretação literal dos versículos do Livro do Apocalipse, pregando as terríveis catástrofes mundiais e a salvação das igrejas que serão arrebatadas. Sem contar com tantas seitas de menor expressão, cujos líderes fazem soar suas vozes de terrível vingança divina sobre a humanidade.
Dentre tantas uma tem se sobressaído, sendo objeto de diversas análises. Trata-se das Profecias Maias, ou seja, as previsões do antigo povo indígena maia de que o mundo alcançará seu fim em 21 de dezembro de 2012. Anunciam essas profecias que a Terra está submetida a ciclos cósmicos de 26.000 anos, em que tudo deve se ajustar, não somente a natureza como o próprio homem. Será esta data que marcará o ponto central desse período. O sistema solar estando posicionado a 180 graus em relação ao tempo da civilização destruída da Atlântida, o centro da galáxia pulsará e ocorrerão manifestações de fogo, água, terra e ar.
            Não obstante tais vigorosas alterações, as profecias não falam em fim de mundo, senão em momentos de mudanças, de aumento de energia do planeta que produzirá "eventos do destino", ou seja, grandes transformações na humanidade. Elas não falam da vinda de nenhum ser que virá para salvar os homens de boa vontade, mas falam de que os eventos do destino darão a oportunidade de que cada homem venha a mudar seu nível de consciência para transformar-se.
            E isto já está acontecendo. Basta ver a busca crescente pela espiritualidade ao largo da religiosidade, pois as religiões não estão dando mais respostas de felicidade e paz interior às gentes. Por estas profecias o mundo não se acabará, mas se transformará, surgindo um mundo novo na perspectiva de uma nova consciência.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Um brinde a Jaguar


Ídolo de gerações, ‘movido a álcool’ e embalado a humor, cartunista Jaguar é reverenciado por outros artistas e ganha homenagem hoje, dia de seus 80 anos

Rio -  Um de nossos grandes cartunistas e cronistas, Jaguar chega hoje aos 80 anos de idade — ou 20, já que ele nasceu num ano bissexto, no dia 29 de fevereiro, que só ocorre a cada quatro anos. E o melhor: em plena atividade, já que ele publica em O DIA suas charges às segundas e quintas-feiras, um cartum às sextas e uma crônica aos sábados.
Fundador do lendário jornal ‘O Pasquim’, que muito incomodou os militares durante a ditadura (a equipe chegou a ser presa), Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, nome completo de Jaguar, é reverenciado por seus contemporâneos e pelas gerações seguintes.
Artistas fazem homenagem ao cartunista que completa 80 anos
 “Ele é um dos melhores humoristas do Brasil. É um homem à frente e atrás de seu tempo, o primeiro humorista movido a álcool”, brinca Marcelo Madureira, do ‘Casseta & Planeta’.
O cartunista Laerte não poupa elogios. “Acho o Jaguar um gênio da raça. É um dos maiores mestres que eu já tive. É antes e depois do Jaguar. É um cara que ensina muito sobre a vida no Brasil, a nossa cultura”, diz.
Amigo de Jaguar desde os anos 60, o jornalista e escritor Sérgio Cabral recorda a criação do ‘Pasquim’. “Ele deu o nome. Na reunião, eu levei uns 50 títulos para o jornal, mas, depois que ele falou, nem mostrei os meus. Só lamento que nossas vidas caminharam em direções diferentes e hoje quase não nos vemos. E uma das coisas boas da vida é conviver com Jaguar, com seu humor, ler suas crônicas no jornal”, diz Cabral. “Ele só precisa me consultar de vez em quando, porque troca as bolas. Tenho uma memória melhor do que a dele. Mas Jaguar pode tudo!”, brinca.
O cantor e compositor Martinho da Vila é outro amigo do cartunista. “O Jaguar é um grande brasileiro e, além do seu talento como cronista e como cartunista, é mesmo uma pessoa que gosta da vida, do Brasil, e gosta da boemia, do samba. Ele é uma coisa fantástica”, derrete-se.

Caindo nos 80
Começou com Elizabeth Taylor, minha colega etária, 79 anos, que cantou pra subir, seguida pelo nosso vice-presidente e outros menos votados. Ainda bem que pararam um pouco de morrer. A onda agora é comemorar os 80. Afinal, viver é melhor que morrer (há controvérsias). O mais novo octogenário é o chatíssimo e genial João Gilberto, inventor da Bossa Nova e da técnica de seduzir a mídia dando a impressão de que foge dela como o diabo da cruz.
Não temos como escapar da versão baiana da Greta Garbo. Nas rádios, tevês e folhas só dá ele, 24 horas por dia, de paletó e gravata, se escondendo atrás de um banquinho e um violão. A tardinha cai, o barquinho vai: mas volta sempre, como a barca da Cantareira.
Homenagens e especiais continuarão acontecendo seguramente até João Gilberto apagar um bolo de 81 velinhas. Ziraldo, que, como eu, vai fazer 80 no ano que vem, acusou o golpe: “Vocês não perdem por esperar! O pessoal de Caratinga desde já está se mobilizando para o meu ‘octogenário’. Virão oitenta ônibus lotados de lá para os festejos no Rio!” Preparem-se: em setembro de 2012 o Rio vai ficar entupido de caratinguenses.
Quanto a mim, que faço 80 no dia 29 de fevereiro (como sou bissexto, na verdade completo 20 anos), pretendo usar só um ônibus. Meu plano é ir para a rodoviária, ler os letreiros dos guichês e comprar um bilhete para alguma cidade de que nunca ouvi falar. Sempre detestei a ideia de comemorar aniversários. Festejar o quê? Um ano a menos de vida?
A menos que o diretor da Underberg (que é produzida no Brasil desde o ano em que nasci, 1932) aproveite a data para me convidar para conhecer a fábrica na Alemanha, como promete.

Rebelde inventor de piadas não-perecíveis
Não é só como cronista e jornalista que Jaguar mostra seu lado politizado: ele já protagonizou atos de rebeldia. Em 26 de outubro 1999, foi para a frente da Academia Brasileira de Letras protestar contra a posse de Roberto Campos, ex-ministro do Planejamento do governo de Castelo Branco, em plena ditadura militar. Vestido a caráter, com fardão dos imortais, jogou ovos da escadaria do lugar.
“As pessoas vão pisar em ovos ao entrar. Este será o pior dia da Academia, o mais vergonhoso”, disse à época.
No sentido horário: Jaguar com o presidente cubano Fidel Castro; jogando ovos na ABL em protesto contra a eleição de Roberto Campos, ex-ministro da ditadura; com a medalha Pedro Ernesto, que devolveu como protesto; e com Baiano (chapéu) e Moacyr Luz (de laranja) na feira de São Cristóvão | Foto: Agência O Dia / Divulgação
Em 2006, em 22 de junho, voltou a protestar: devolveu a medalha Pedro Ernesto, porque a mesma comenda foi dada ao ex-deputado Roberto Jefferson, cassado por corrupção.
“É um cartunista que quanto mais velho fica, mais ácido e escroto é o humor. Longe de ser um velhinho fofo”, observa o cartunista Allan Sieber, outro fã de Jaguar. “Jaguar é o nosso único humorista não-perecível. É impressionante como ele nunca fica datado, cartuns que ele publicou nos anos 50 ainda não estão com o prazo de validade vencido. Eu rio toda vez”, concorda o cartunista Arnaldo Branco. “Outra coisa: é um dos melhores textos do nosso jornalismo”, elogia.
O poeta Ferreira Gullar já era amigo do cartunista antes da criação do ‘Pasquim’, onde também foi colaborador. “Jaguar tem muito talento, senso de humor, é um dos maiores cartunistas do País. É excelente, criativo, original, não só nas ideias, mas no desenho. O desenho em si já é muito engraçado. Ele se tornou um patrimônio da cidade”, diz.

Dois encontros com Fidel
Outro episódio engraçado na vida de Jaguar é a história de quando conheceu Fidel Castro em Cuba. Há mais de 40 anos, ele foi ao país participar de um salão de humor em Santo Antonio de Los Baños, cidade próxima a Havana. A viagem era proibida pelo regime militar no Brasil, mas Jaguar conseguiu ir pelo Panamá.
“Festejando a façanha, exagerei no rum e acabei subindo num palco onde alegres comunistas tocavam bongô e rebolavam do jeito deles, com os ombros. Tirei meu tamborim da mochila e me esbaldei”, lembrou ele.
Fidel, que assistia, depois parou ao lado do brasileiro para cumprimentar um ‘camarada’. Anos depois, Jaguar voltou a encontrar Fidel em Havana, em evento oficial. 

Via odia.ig

A ANTIGA IDEOLOGIA DE SEGURANÇA NACIONAL E O DESENVOLVIMENTO

Flavio Lyra*
O conceito marxista de ideologia é concebido em torno da idéia de “falsa consciência”, ou seja da noção de que conteúdo das ideologias reflete de forma distorcida a realidade, ocultando seu comprometimento com a defesa dos interesses da classe dominante.
O pensamento científico, no campo das ciências naturais, tem nos princípios da coerência interna, propiciado pelo uso da lógica, e na adequação à realidade, derivada do método experimental, os dois fatores primordiais que asseguram sua efetividade, na medida em que permitem um discurso de aceitação universal e eficácia na explicação e aplicação prática dos conhecimentos. Nas questões sociais ainda não foi possível avançar na mesma direção, dada a natureza imprevisível que o livre arbítrio introduz na conduta dos seres humanos e não seria exagero admitir que nunca seja possível atingir tal resultado. Resta, assim, conviver com as ideologias como substitutas do conhecimento “neutro”, propiciado pela ciência no caso dos fenômenos naturais. Fica, assim, para o pensamento social a tarefa crítica de apontar as incoerências internas e os desvios em relação à realidade de que estão eivadas as ideologias que movem nossas condutas.
Na América Latina e no Brasil ainda prepondera uma ultrapassada ideologia de segurança nacional, muito enfatizada durante os anos da Guerra Fria, que coloca como inimigos potenciais da segurança nacional as organizações da classe trabalhadora e os chamados movimentos sociais. Tal concepção foi exacerbada durante os anos da Guerra-Fria, em função da influência da ideologia comunista nas organizações populares, consideradas a grande ameaça à soberania e à segurança nacionais. Com o desaparecimento do comunismo soviético e da Guerra-Fria, as grandes potências ainda não conseguiram inteiramente colocar em cena um novo inimigo externo. A “guerra ao terror” e a ameaça islâmica, proclamadas e difundidas como justificativa para a adoção de medidas contra a autodeterminação dos países economicamente mais frágeis, especialmente dos que têm a ousadia de tentar caminhos próprios para a exploração de suas riquezas, não têm conseguido granjear o apoio internacional necessário para ocupar o vazio deixado com o término da guerra-fria.
Não obstante, a idéia do “inimigo interno” continua muito viva na cabeça dos ideólogos da segurança nacional que, embora nem sempre o explicitem, continuam achando que as organizações populares são o grande inimigo da segurança nacional.  
Falar de soberania nacional e de desenvolvimento nacional, sem ter em conta o alto grau de convergência existente entre os dois conceitos, é certamente cometer um erro interpretativo injustificável.  O exercício da soberania na tomada de decisões no contexto internacional,  arena da luta competitiva pelos interesses nacionais, é fundamental para dar sustentação ao processo de desenvolvimento nacional.  Por conseguinte, uma ideologia de segurança nacional que delegue a potências estrangeiras, a defesa de sua soberania no plano internacional, constitui um obstáculo de monta ao processo de desenvolvimento.
 Caberia indagar, agora, por que o Brasil perdeu a capacidade de levar adiante seu processo de desenvolvimento, inclusive de formular um projeto com esse propósito, e como isto se relaciona com a antiga ideologia de segurança nacional.
A partir da Revolução de 30, com o Getulismo, o Brasil foi capaz de realizar um intenso processo de desenvolvimento, baseado na industrialização, que prosseguiu no pós-guerra até o final dos anos 70. As transformações econômicas realizadas no governo JK (1956-60), entretanto, estiveram associadas a  grande penetração do capital estrangeiro na estrutura produtiva, além de ser altamente concentrador de seus benefícios nas mãos da elite  latifundiário-empresarial, do capital estrangeiro, e da classe média alta que se formou nos grandes centros urbanos.  Os inimigos comuns destes segmentos, por serem capazes de ameaçar seus privilégios, passaram a ser cada vez mais a classe trabalhadora e os movimentos sociais.
No contexto da Guerra-Fria, a antiga ideologia da segurança nacional, praticamente deixou de lado as preocupações com a segurança no plano externo, delegada aos Estados Unidos, e focalizou-se “no inimigo interno”, as organizações de trabalhadores, os intelectuais de esquerda e os movimentos sociais, os quais constituíam real ameaça aos interesses da elite latifundiário- empresarial, do capital estrangeiro e da classe média urbana. Os militares assumiram o poder em 1964, em estreita aliança com esses grupos sociais, e os políticos que passaram a conformar os quadros da ARENA, o partido político constituído pelos militares para apoiar o governo, eram representantes de tais grupos.
 As Reformas de Base defendidas pelo governo de João Goulart, com forte apoio popular, consideradas fundamentais para impulsionar o processo de desenvolvimento eram vistas pela elite proprietária e pelo capital estrangeiro como uma ameaça fatal a seus interesses. Não sem razão, pois, foram relegadas ao esquecimento depois da chegada dos militares ao poder. 
O processo de desenvolvimento sobreviveu, mesmo que crescentemente dependente do capital estrangeiro, durante a maior parte do tempo dos governos militares, e somente recebeu seu golpe mortal, no início dos anos 80, com a crise de endividamento externo gerada pela mudança na política econômica dos Estados Unidos, que elevou as taxas de juros a níveis desconhecidos na história econômica.
 A antiga ideologia de segurança nacional adotada pelos militares era contraditória com os interesses do desenvolvimento nacional, pois não permitia desenvolver uma atuação soberana no plano internacional.  Essa contradição ficaria inteiramente explícita com as mudanças introduzidas na política econômica dos Estados Unidos, que ao priorizarem seus interesses nacionais deixaram seus aliados fiéis na luta contra o comunismo, entregues à própria sorte. A chamada “década perdida”, 1980-90, em que o Brasil, sufocado pelo serviço da dívida externa, defrontou-se com a estagnação e o descontrole inflacionário, esteve intimamente associada às mudanças internas e no plano internacional realizadas pelos Estados Unidos.
As realizações do II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND- 1975-79) do governo Geisel, voltadas para sustentar o processo de desenvolvimento, tornaram-se na década de 80, um verdadeiro pesadelo, em face das dificuldades derivadas do  alto endividamento externo em que foi preciso incorrer para materializá-las.
Não é de admirar, pois, a conduta ambígua dos militares no poder, sob a influência da antiga ideologia de segurança nacional.  Por um lado, desfecharam uma guerra aberta contra as organizações de trabalhadores, os intelectuais e os movimentos sociais e, por outro, tentaram fortalecer o poder nacional com a execução dos planos nacionais de desenvolvimento. Acontece que seus aliados internos, pertencentes à elite latifundiário-empresarial, o capital estrangeiro, e a classe média, não constituíam uma base social suficientemente coesa, ampla e comprometida com os interesses nacionais, a ponto de poder dar sustentação política ao processo de desenvolvimento.
Diante da crise que impedia o avanço da acumulação interna de capital, os capitalistas nacionais e estrangeiros, sob a orientação do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial (influenciados pelo governo dos Estados Unidos) voltaram-se para privatização das empresas estatais e o desmonte do que restava do estado desenvolvimentista, no que foram muito bem sucedidos, a partir dos anos 90 com o Governo Collor e, em seguida, com os governos de FHC. Como a antiga ideologia da segurança nacional havia permitido destroçar as organizações trabalhistas e os movimentos sociais e contribuído para que a população visse a ação estatal como fator de opressão, a tarefa foi realizada sem maiores resistências.
A realidade mais recente do Brasil é o de uma sociedade que busca, sob a hegemonia da classe trabalhadora e dos movimentos sociais, retomar o processo de desenvolvimento, num contexto de grave crise internacional e de fortes pressões competitivas no plano das relações econômicas e financeiras. Mas, ainda são fortes as resistências ao avanço desse processo, dada a influência da ideologia neoliberal dominante na classe proprietária, nos meios de comunicação, e em importantes segmentos da classe média, bem como do que restou da antiga ideologia de segurança nacional, especialmente entre os militares.
Muitos estrategistas militares continuam professando a ideologia herdada da guerra-fria, que os impede de perceber que os inimigos externos do desenvolvimento do Brasil são as nações centrais e suas corporações, muitas delas aqui instaladas, que através do controle que exercem sobre os mercados internacionais de bens, de tecnologia e de capitais, bloqueiam a projeção internacional de nossa atividade produtiva. Dita ideologia é prejudicial à constituição de uma base social suficientemente ampla, forte e coesa para dar sustentação a uma nova política de desenvolvimento nacional.
As ameaças à segurança nacional a que estamos sujeitos, já há bastante tempo, provêm das grandes potências do mundo, às quais não interessa um novo e poderoso participante no cenário internacional, e não dos fantasmas do passado. A nova base social para o fortalecimento da soberania nacional e a posta em prática de um projeto nacional de desenvolvimento,  reside nos trabalhadores e nos movimentos sociais, cujos interesses são eminentemente nacionais. As ameaças que rondam nosso território e apontam na direção da internacionalização da Amazônia e do aproveitamento das reservas de petróleo e gás do Pre-sal, por exemplo, são nitidamente de origem internacional e não provenientes das organizações populares.
Não cabe, entretanto, desconhecer que os partidos políticos de base popular que elegeram os últimos três governos padecem de insuficiente entendimento da realidade nacional e acusam desvios em suas condutas que os tornam antipáticos à população, dificultando a coesão nacional em favor de um projeto de desenvolvimento. Esses partidos, também sofrem a influência da ideologia dominante no plano internacional, que defende a entrega do destino dos países aos humores do mercado, atrás dos quais se escondem os interesses das grandes corporações privadas que dominam a economia internacional.
Faz-se, assim necessário criticar e denunciar as condutas inaceitáveis, porém não incorrer no erro de jogar fora a água do banho com a criança, pois a recuperação da soberania nacional e da capacidade do país para desenvolver-se reside, em última instância na massa trabalhadora e nos movimentos sociais, e não na classe proprietária desfigurada e descomprometida com os interesses nacionais que domina economicamente o país.
(*) Economista. Cursou doutorado de economia na Unicamp. Ex-técnico do IPEA.

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