segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Casagrande X Hartung


Luciano deve vencer em Vitória e Rodney em Vila Velha

Parlamentares avaliam que no principal embate entre o atual governador e o ex, no segundo turno, o jogo vai ficar 1X1. 
Até pelo resultado das urnas no primeiro turno, em Vitória e Vila Velha - principais cidades do ES - o jogo deve ficar empatado. 

De acordo com avaliação de parlamentare federais, o PPS deve ganhar na capital, e o DEM em Vila Velha, onde o PSB coligado com o PR disputa o segundo turno com o prefeito Neucimar Fraga (foto). 
Em Vitória o deputado Luciano Rezende (PPS) - que em tese teria o apoio do governador Renato Casagrande (PSB) - deve vencer, já que chegou ao segundo turno com mais gás.

Já seu oponente, Luiz Paulo (PSDB) carrega o peso do apoio do ex-governador Paulo Hartung (PMDB), adversário de Casagrande. 
Nesta eleição ficou clara a opção do eleitor pelo novo, aposentando nomes ligados a clãs politicos. Para alguns, é um reflexo da lei da Ficha Limpa. 
Hartung que deixou o Palácio Anchieta "ontem", já pensa em voltar. Por isso andou tanto nestas eleições municipais. 

Casagrande não admite mas é candidato a reeleição, como Hartung foi. Dai o ambate entre ambos, daqui pra frente, deverá ser mais acirrado. 
AGENCIA CONGRESSO - (Foto Marcos Rosetti) 

Brasil deve romper silêncio para garantir liberdade de imprensa na América Latina


O Brasil não pode ficar em silêncio diante de ameaças à liberdade de expressão. O alerta é do diretor para a América da organização Human Rights Watch, José Miguel Vivanco. Ele disse que o país deve permanecer vigilante durante a 68ª Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa.

A assembleia começou no dia 12 e vai até amanhã (16), em São Paulo. Reúne aproximadamente 600 jornalistas e empresários de comunicação de mais de 30 países. Eles debatem os problemas da profissão.

Vivanco ressaltou que o Brasil é um dos países mais influentes da Organização de Estados Americanos (OEA) e que seu silêncio “reforça a intenção de dirigentes de outros países, inimigos da liberdade de expressão”. Na avaliação dele, a América Latina vive um "período crítico e delicado para as liberdades dos povos e os direitos humanos".
"Certos governos da região têm tendências autocráticas claras, não respeitando as garantias democráticas”, destacou Vivanco, referindo-se aos países da Aliança Bolivariana da América (Alba): Venezuela, Cuba, Bolívia, Nicarágua e Equador.

*Com informações da agência pública de notícias de Portugal – Lusa http://www5.lusa.pt/lusaweb/subscriber/showitem?service=107&listid=NewsList1912&listpage=2&docid=15144159

juros do cartão de crédito caem depois de quase três anos


Marli Moreira da Agência Brasil
A taxa de juros cobrada sobre a rolagem da dívida nos cartões de crédito caiu, em média, 2,62% em setembro sobre agosto, passando de 10,69%  para 10,41% ao mês. Foi o primeiro recuo dos últimos 33 meses. Ainda assim, os consumidores que entram no sistema rotativo pagam, em média, ao ano, 228,17% de correção sobre o valor principal do débito.

Os dados são da Pesquisa de Juros da  Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), que também indicou queda na taxa de juros de outras modalidades de crédito. A projeção da entidade são novas reduções nos meses subsequentes. Entre as justificativas da Anefac, estão a melhoria da economia, com um ambiente de maior competição entre as instituições bancárias e redução do nível de inadimplência.

O levantamento indica ainda que, no comércio, os juros foram reduzidos em 7,69%, resultando na menor taxa da série histórica que começou em 1995, recorde que havia sido superado também no mês passado, conforme pesquisa de agosto. Na média, os estabelecimentos estavam cobrando em setembro 4,20% ao mês e 63,84% ao ano, ante 4,55% ao mês e 70,56% ao ano em agosto.

Todas as seis modalidades de crédito a pessoas físicas apresentaram queda, o que significou, na média, a sétima redução seguida com variação de 5,81% e 96,93% ano, ante 6,02% ao mês e 101,68% ao ano.Também foi a mais baixa desde 1995.

No cheque especial, a taxa ficou em 7,95% ao mês ante 8,05%. Ao ano, atingiu 150,4% ante 153,22%. Sobre os financiamentos de automóveis, o percentual passou de 1,7% para 1,54% e, no ano, de 22,42% para 20,13%. Nos bancos, houve recuo de 3,45% para 3,27% ao mês e de 50,23% para 47,13% ao ano.

Também foi constatada diminuição dos juros nas três linhas de crédito disponíveis para as empresas. Na média, a taxa mensal ficou em 3,31% ante 3,44%, e no ano 47,81% ante 50,06%, na menor variação desde 1999.

A Anefac observa que a taxa básica de juros, a Selic, caiu cinco pontos percentuais entre julho e setembro, passando de 12,5% ao ano para 7,5%. No mesmo período, os juros cobrados sobre as pessoas físicas tiveram redução de 24,18 pontos percentuais (de 121,21% ao para 96,93%). No caso das empresas, ocorreu diminuição de 13,22 pontos percentuais (de 61,03% para 47,81%).
Edição: Davi Oliveira

Educadores vencem dificuldades e transformam processo de ensino


Por Thais Leitão da Agência Brasil
Como resultado do projeto, os alunos construíram, com a ajuda dos professores, uma casinha de bonecas usando caixas de leite, além de mesas e cadeiras feitas com madeira de caixotes reaproveitada. As brincadeiras também foram incrementadas com castelos de princesas construídas com latas de leite em pó, flores de rolo de papel higiênico e super-heróis de garrafas PET 


Brasília - De calça vermelha, tênis preto de cadarços também vermelhos e camisa xadrez, o professor Wagner Júnior chama a atenção pelo visual despojado. Ele dava aulas de história geral em escolas públicas do Distrito Federal (DF) e ajudou a mudar a história de seus alunos. Com muitas ideias, conseguiu uma câmera e passou a desenvolver projetos de educação usando ferramentas da comunicação.
Um deles é o Programa Parabólica, que funciona no Centro de Ensino Médio 1 (CEM 1) de Sobradinho, cidade do DF. As produções, que abordam temas ligados à juventude, como educação, drogas, saúde e sistema de cotas em universidades, são exibidas na internet ou transmitidas pela TV Cidade Livre, de Brasília, parceira do projeto. As pautas são discutidas semanalmente por um grupo de alunos e ex-alunos da escola, que se reúne no local onde antes funcionava um depósito da unidade. Hoje, o pequeno cômodo, chamado de QG, sigla de quartel-general, tem porta grafitada, pufes coloridos e o entra e sai de quem está sempre em atividade.
São histórias assim, de educadores que vencem as dificuldades do dia a dia e transformam o processo de ensino em uma experiência democrática, criativa e bem-sucedida que a Agência Brasil conta hoje (15), no Dia do Professor.
Com o entusiasmo típico dos jovens, Wagner Júnior diz que decidiu trocar as salas de aula tradicionais, com mesas, cadeiras e quadro-negro, por ambientes menos formais e mais coloridos após perceber que o conteúdo de suas lições não despertava o interesse dos alunos. A inquietação diante do que via levou o professor a projetar nova prática pedagógica.
“Me angustiava muito ver que os alunos não se interessavam tanto pelo conteúdo das minhas aulas. Por outro lado, percebia que eles queriam estar conectados, estavam muito ligados às redes e mídias digitais. Decidi, então, fazer delas minhas aliadas”.
Ele acredita que o educador precisa renovar o fôlego para superar a falta de estrutura e os salários que “não estão à altura da importância da atividade”. Com mais de 20 anos de profissão, Wagner Júnior diz que a maior recompensa é ver os jovens tomando consciência de quem são e posicionando-se de forma intelectualmente autônoma diante de sua realidade.
“O educador é pouco valorizado pela lógica capitalista, do ponto de vista do rendimento financeiro, mas é muito valorizado pela lógica humana. A escola é lugar de se fazer amigos e é isso que mais ganho aqui”, acrescenta.
Ângelo Palhano, 19 anos, fugia das aulas de história do professor Wagner Júnior. Hoje, mesmo depois de ter concluído o ensino médio, volta ao CEM 1 de Sobradinho, pelo menos uma vez por semana para participar das reuniões de pauta do Parabólica.
“Com ele, aprendemos a nos conscientizar historicamente, a perceber quem somos. Nas aulas tradicionais, muitas vezes, o aluno fica angustiado poque o saber dele é ignorado. Aqui não, a gente pensa, a gente produz”, diz o jovem, aluno de filosofia na Universidade de Brasília e que, em poucos anos, deve seguir a mesma profissão de Júnior.
A paixão pelo ensino e a vontade de mudar a vida dos alunos também são as características mais evidentes na equipe pedagógica da Escola Classe Córrego das Corujas, na zona rural de Ceilândia, outra cidade do DF. Rosemar Barbosa, 48 anos, é uma das três professoras que trabalham na unidade. Para chegar à escola, ela leva, diariamente, 40 minutos e enfrenta 6 quilômetros de estrada de terra, mas diz que não “quer sair dali por nada”.
“Já trabalhei em escolas que ficavam a dez minutos da minha casa, mas sou apaixonada pelo trabalho que a gente faz aqui, com impacto direto não apenas no processo de aprendizagem do aluno, mas também na vida das famílias da comunidade”, diz. Para ela, a estrutura simples e os recursos limitados não desestimulam o trabalho de quem quer fazer a diferença.
“Não temos muitos recursos aqui, mas aproveitamos o que está disponível e provamos que é possível mudar. Ver o crescimento dessas crianças e o sorriso no rosto delas renova o nosso ânimo”, acrescenta.
De acordo com a diretora da escola, Suélia Gomes, foi essa dedicação à arte de ensinar, somada à integração entre as profissionais que levaram a escola a ser reconhecida como exemplo de sustentabilidade. Este ano, o projeto Saber Viver: Uma Escola Sustentável foi premiado durante o Circuito de Ciências de Taguatinga, promovido pela Secretaria de Educação do DF.
“Por meio do projeto, incentivamos os alunos a trazer material reciclável que virava lixo e acabava sujando a própria comunidade. Com isso, construímos vários objetos de lazer aqui na escola e conscientizamos as famílias sobre a importância do descarte responsável e do reaproveitamento de materiais”, explica.
Rakeu Santos, 9 anos, é aluna do terceiro ano do ensino médio e percebe a paixão das professoras pelo que fazem. Com sorriso no rosto, diz que tem orgulho de estudar em uma escola “tão legal”.
“Eu gosto muito de estudar aqui, sempre digo em casa que nunca quero sair desta escola. Aqui a gente aprende muitas coisas, como cuidar da natureza e reciclar”, diz a menina.
Edição: Graça Adjuto

STF adia conclusão do capítulo sobre lavagem de dinheiro


O Supremo Tribunal Federal (STF) retomou hoje (15) o julgamento da Ação Penal 470, o processo do mensalão, deixando para depois a conclusão do Capítulo 7 da denúncia, que trata do crime de lavagem de dinheiro entre petistas e o ex-ministro dos Transportes Anderson Adauto. 

A análise desse capítulo começou na semana passada, com voto de sete ministros. Ainda restam três votos para o encerramento. Os ministros Gilmar Mendes e Celso de Mello ainda não se pronunciaram, porém não haviam chegado ao STF até o início da sessão de hoje, por volta das 14h30. O último voto do capítulo será do presidente do STF, Carlos Ayres Britto.

Para evitar atrasos, a Corte abriu a sessão de hoje com a análise do Capítulo 8, que trata do crime de evasão de divisas e lavagem de dinheiro envolvendo o publicitário Duda Mendonça e sua sócia Zilmar Fernandes, além de réus ligados ao núcleo publicitário e financeiro. O primeiro a votar é o relator da ação, ministro Joaquim Barbosa.

Celso de Mello só chegou ao plenário por volta das 14h50. A assessoria do STF informou que Mendes estará na Corte na segunda metade da sessão desta segunda-feira.
No Capítulo 7, foram registrados sete votos unânimes, que representam a maioria da Corte, pela absolvição do ex-deputado Professor Luizinho (PT-SP) e dos assessores Anita Leocádia e José Luiz Alves. Também há placar de 5 votos a 2 pela absolvição dos ex-deputados federais João Magno (PT-MG), Paulo Rocha (PT-PA) e do ex-ministro Anderson Adauto.

domingo, 14 de outubro de 2012

64, UM GOLPE DE CLASSE?


(Sobre um livro de René Dreifuss)*

MARIA VICTORIA BENEVIDES
O fenômeno não é novo e se expande, diariamente, no espaço de polêmicas muitas vezes marcadas pela ausência do mais elementar senso do ridículo. Se, como registra a imprensa, a recente “guerra das tetas”1foi absorvida, perdura no ar a “santa ira” empresarial contra os impulsos estatizantes dos governos militares. A leitura do livro de René Dreifuss vem a calhar no âmago desta nova perplexidade. Afinal, de que se queixam os empresários? Pois se estão na ordem do dia como estrelas de primeira grandeza... isto é, brilham, na análise de Dreifuss, como os principais artífices das conspirações de 64: “um movimento de classe, e não um mero golpe militar”. Será que se queixam porque consideram traídos os objetivos da revolução ou por não terem compreendido, a tempo, que a “regeneração capitalista” que pleiteavam só se faria em virtude da própria ideologia do desenvolvimento com segurança nacional – dentro de um projeto estatizante a longo prazo, também apoiado no grande capital?

Este livro propõe uma nova abordagem de 64 como a estratégia bem sucedida da “desestabilização” do regime populista de João Goulart pela ação de uma elite orgânica – formada por empresários e tecno-empresários, intelectuais e militares, representantes de interesses financeiros multinacionais e associados – exercendo seu poder de classe. O papel relevante comumente atribuído às Forças Armadas, assim como à “tecnoburocracia”, passa a ser atribuído aos empresários, e banqueiros. O complexo IPES/IBAD teria sido o núcleo ativo desse “golpe de classe”, cujos objetivos seriam, entre outros, restringir a organização das classes trabalhadoras; consolidar o crescimento econômico num modelo de capitalismo tardio, dependente, com alto grau de concentração industrial integrado ao sistema bancário e promover o desenvolvimento de interesses multinacionais e associados na formação de um regime tecnoempresarial, “protegido e apoiado pelas Forças Armadas”. Originalmente apresentado como tese de doutoramento em Ciência Política na Universidade de Glasgow, o trabalho de René Dreifuss reúne as qualidades de competente e ampla pesquisa ao interesse de uma análise política instigante.

* Comentário do livro de René Armand Dreifuss, 1964: A conquista do Estado (Ação política, poder e golpe de classe). Petrópolis, Vozes, 1981.  (Tradução da tese “ State, Class andthe Organic Elite: the Formation of an Entrepeneurial Order in Brazil1961-1965”). O presente texto foi publicado originalmente em Leia Livros, por ocasião do lançamento da obra.
Para além da importância intrínseca desta análise há muito inacessível, ela vem publicada aqui como expressão do respeito pela contribuição ao conhecimento de fase crítica da história brasileira recente que devemos ao recentemente falecido René Dreifuss. (N. R.). 1 (1) Referência ao imbroglio causado pela declaração do Ministro Delfim Netto de que os empresários reclamavam, mas viviam “dependurados nas tetas do governo”. Junho de 1981.

O complexo IPES/IBAD é apresentado, na tese de Dreifuss, como o verdadeiro partido da burguesia – no sentido gramsciano – seu EstadoMaior para a ação ideológica, política e militar. O que isso parece significar senão a descrença –  quando não o desprezo –  que a elite orgânica nutria pelos partidos políticos, comprometidos, em maior ou menor grau, com um Estado populista e tradicional? No entanto, esse desprezo era também relativo, na medida em que se reconhecia a importância do Legislativo como esfera legitimadora – o que fica patente na ação agressiva ao do IBAD nos diversos lobbies nas campanhas eleitorais de 1962 em todo o país. Um dos grandes méritos da pesquisa de Dreifuss consiste, justamente, em revelar a estreita ligação entre o IPES e o IBAD. Lembre-se que, à época em que foi fundado (novembro de 1961, após a renúncia de Jânio e ascensão de Goulart à presidência), o IPES vinha marcado por inegável respeitabilidade. Suas propostas espelhavam o prestígio dos projetos da “Aliança para o Progresso”, a qual só seria desmascarada por Che Guevara em 1962, na Conferência de Punta del Este. Ao IBAD, estigmatizado desde o início, competia o “jogo sujo”, da manipulação de recursos de fontes equívocas para financiar campanhas dos candidatos conservadores e “corrupções” de vários calibres. As evidências apresentadas por Dreifuss conseguem aproximar as duas entidades, o que a CPI do IBAD tentou em 1963, mas não logrou fazer.2 Num de seus artigos do final dos anos setenta, Otto Lara Resende se referia à safra de estudos críticos sobre nossa recente história política dizendo:

“O Brasil se confessa”. E o udenista Afonso Arinos, ilustre representante dos liberais desencantados com os rumos militares e estatizantes pós-64, seria particularmente explícito: “precisamos ir ao confessionário”. Esta postura de “acerto de contas”, ou de mauvaise conscience, talvez contribua para, fazendo eco à repercussão em certos órgãos da imprensa, deformar o real significado do êxito do livro de René Dreifuss. O “quem é quem”, tão ao gosto da curiosidade superficial do nosso crônico provincianismo, deveria ser, é claro, menos relevante do que a discussão das teses do cientista político. Muito mais importante do que “checar” nomes nas listas dos associados do IPES (e vários dos citados tiveram participação meramente acidental), é perceber, no texto, a sólida articulação entre empresários, intelectuais, técnicos e militares em autênticos grupos de pressão, e não em simples conspirações. Quando se entrega um livro ao público nunca se sabe o uso que lhe será dado. É bem possível que aos militares liderados pelo General Golbery tenha agradado o reconhecimento de seu alto grau de eficácia como agentes ativos numa revolução, e não numa quartelada. Aos empresários (incluindo aqueles que têm feito publicar curiosos desmentidos) deve também ter agradado o papel de intelectuais orgânicos desta “revolução burguesa”. Enganam-se, senhores. A tese é clara, e a continuidade do processo na já chamada “década da infâmia” (pós AI-5), provaria que, sob qualquer ângulo que se observe, a elite orgânica se sai mal... Quanto aos empresários, ou já sabiam dos rumos da revolução (a estatização e a repressão) e se tornaram, portanto, cúmplices do arbítrio e do “estatismo selvagem” (na expressão recente de um indignado representante da classe), ou não sabiam e se mostravam incompetentes, sem uma clara visão do processo histórico. Quanto aos militares, muito ainda precisa ser esclarecido, além da hipótese que reduz seu importante papel no movimento de 64.

A idéia autoritária da necessidade de um Estado forte sempre esteve presente nas formulações dos militares, atentos às questões de soberania, do desenvolvimento com segurança nacional. É aqui que a densa exposição de Dreifuss me parece pouco clara. A valorização do papel dos empresários é demonstrada de várias maneiras, sempre convincentes e muito bem documentadas — embora de uma perspectiva mais expositiva do que interpretativa. A crítica aos autores que privilegiam o papel dos militares em 64 me parece menos convincente. Pois a própria discussão do autor sobre o papel da Escola Superior de Guerra tenderia a revelar o contrário. Senão, vejamos:

Instrumento para o estabelecimento de ligações orgânicas entre militares e civis, tanto no aparelho estatal quanto nas empresas privadas (...) os industriais e tecno-empresários ligados à estrutu-ra multinacional transmitiam e recebiam treinamento em administração pública e objetivos empresariais na ESG(...) compartilhando a ideologia da segurança nacional de seus equivalentes, esses empresários viam a disciplina e a hierarquia como componentes essenciais de um sistema industrial (p. 80).

Esta questão remete à discussão sobre a natureza do Estado em construção. O autor não discute o projeto estatizante contido na proposta militar — e que, ao que tudo indica, vinha ganhando adeptos desde a década de quarenta. Em Geopolítica do Brasil (de 1958 e em recente reedição), o General Golbery do Couto e Silva já sugeria que a revolução seria a “revolução do Estado contra a sociedade; para ampliar cada vez mais a esfera e o rigor de seu controle (do Estado), sobre uma sociedade já cansada e desiludida do liberalismo fisiocrático de eras passadas”.3 A impressão que retiro da perspectiva teórica do autor talvez indique a origem dessa ausência. Dreifuss mantém inalterada a clássica visão marxista do Estado – prisioneiro de uma classe, comitê executivo da burguesia? – pouco apropriada para a realidade contemporânea, mas que, em última instância, justifica sua tese sobre o “golpe de classe”. Pela ocupação dos órgãos de formulação da política econômica por membros do IPES, registra Dreifuss, dava-se a privatização das insituições do Estado; logo, abriam-se as áreas institucionais do Estado à exclusiva representação de certos interesses privados organizados. “O Estado prendia-se aos desígnios dos ativistas do IPES, que cuidavam dos problemas de coesão das diretrizes (...) O Estado de 1964 era, de fato, um Estado classista, e, acima de tudo, governado por um bloco de poder liderado pelo IPES” (p.488).

Seria interessante questionar o peso do estatismo e a crescente estatização do novo regime. O IPES proclamava a urgência de se apresentarem reformas de base “antidemagógicas” e “antiestatizantes” para enfrentar o grupo “esquerdista-trabalhista” do governo Goulart. Os empresários que hoje reclamam, e que participaram ativamente da derrocada do regime em 64, teriam sido ingênuos diante do projeto estatizante que logicamente se armava? (Ao que dizem, seus projetos “liberais-conservadores” só teriam sido bem desenvolvidos no governo Castello Branco.) A atuação dos ideólogos do IPES na defesa de interesses multinacionais é tema de dois capítulos de Dreifuss. Se um dos objetivos do IPES era promover a entrada do capital estrangeiro e das multinacionais, em nome, inclusive, de uma oposição ferrenha ao capitalismo de Estado (identificado com os projetos “populistas”), o tiro saiu pela culatra. Aos investidores estrangeiros interessa, acima de tudo, a estabilidade política aliada à eficiência governamental. Porque precisariam do IPES, que se movia contra o capitalismo do Estado? Para as multinacionais interessa, num país em desenvolvimento, que o Estado assuma um papel empresarial forte, o único promotor das grandes obras de infra-estrutura. É nesse sentido que se pode entender a frustração de alguns empresários com “o desvio da rota da Revolução”. Um recente artigo do economista Pedro Malan discute o “fascinante paradoxo” de ter sido exatamente a partir das gestões de Roberto Campos e Octávio Gouvêa de Bulhões (dois ilustres colaboradores do IPES) que se lançaram as bases para a extraordinária expansão do setor público, “apesar de toda a retórica liberal e privatista que marcou o período”.4 A discussão abrange, necessariamente, aspectos por demais amplos e complexos para simples comentários. Trata-se, afinal, da discussão sobre a própria evolução do capitalismo brasileiro. Não parece heresia lembrar que a “razão do Estado” pode surgir como uma questão tipicamente capitalista. Pela necessidade ideológica de se contestar o comunismo (“o totalitário”, “estatizante”, etc.), o capitalismo apresentasse com uma auto-imagem fictícia de portador de um projeto sempre autenticamente liberal e anti-estatizante.

O que não é comprovado pela história da economia brasileira, desde a colonização (as primitivas sociedades por ações não começaram no Estado?), feita sob a égide dos empresários estatais. Lembre-se, igualmente, que a primeira experiência bem sucedida ao capitalismo de Estado ocorreu em Portugal (séc. XVI), o que. tem peso considerável na tradição brasileira, como bem o demonstrou Raymundo Faoro em Os Donos do Poder.

A estatização pós-64 não será, portanto, errática ou inovadora.

Os empresários sempre dependeram do Estado, mas o Estado sempre teve, também, intenções empresariais (e aí, a “guerra das tetas” tem sua dose de verdade...). Desde o início, 64 foi o assalto dos empresários ao poder, embora, lembra Dreifuss, “protegidos e apoiados pelas Forças Armadas”. Ao que parece, reclamam, hoje, quando a intervenção doEstado não se faz em beneficio de seus interesses.5 Nesse sentido, uma tese interessante defendida por Dreifuss se refere à mudança ocorrida com o próprio empresariado. Não se trata, aqui, de uma interpretação global para 64, mas de mostrar como se firmou uma “nova ordem empresarial” com características próprias e distintas do empresário tradicional, aquele que cultivava uma olímpica distância em relação à política e, supostamente, ao poder.

Se é verdade, como aponta Dreifuss, que o bloco empresarial recorreu à intervenção militar apenas para desferir o “golpe final” no Estado populista, não há como abandonar, sem maiores qualificações, a tese – a meu ver ainda válida – de que os empresários acreditavam que os militares agiriam como “restauradores da ordem” e depois desalojariam o poder em seu benefício, nu papel de eficientes “leões de chácara” das grandes finanças. O que, obviamente, não ocorreu. Deve ser nesse sentido que Dreifuss sugere – mas não desenvolve, como seria desejável – que no processo de transposição do poder privado dos interesses multinacionais para o governo público, o bloco econômico dominante teria de vir a ser o Estado autoritário em que efetivamente se transformaria (p.162).

Das 814 páginas deste livro, mais da metade contém transcrições ou fac-similes de documentos. Vale a pena ler. Entre os mais importantes destacam-se aqueles que revelam a vinculação entre o IPES e o IBAD, intermediadas pelo seu braço partidário, a ADP (Ação Democrática Parlamentar, opositora da Frente Parlamentar Nacional, ambas atuantes desde o final do governo Kubitschek). A carta do banqueiro, pagador do IPES, Jorge Oscar de Mello Flores, ao vice-presidente da entidade, Glycon de Paiva, é exemplar. Trata-se de uma minuta com a proposta das “reformas de base” a serem apresentadas pelo IPES (em conjunto com o IBAD, sobretudo quanto à reforma agrária e urbana). Flores aponta as vantagens dessa proposta, com ênfase nos “aspectos técnicos” (contra as propostas “demagógicas” dos “agitadores”) e visando colocar a esquerda na defensiva, ao mesmo tempo em que projetava uma imagem favorável, e “progressista”, do IPES. A última “vantagem”, segundo a carta, seria conseguir, eventualmente, medidas benéficas. ao país e ao regime democrático vigente” (p. 721).

5 A indignação do jornalista Otávio Tirso de Andrade (um defensor convicto da direita mais tradicional) é elucidativa: “O Estado a que chegamos  — como definiria o atual regime o saudoso Barão de Itararé – não é o ambicionado pelos liberais mobilizados contra o advento da República Sindicalista. Não foi para elevar os uéki da vida aos arquiducados do estatismo que a pequena burguesia urbana desfilou ‘nas marchas com Deus’ , conta a anarquia janguista”. Jornal do Brasil, 13/07/1981, p. 11.

No Apêndice destaca-se, também, por outros motivos, os documentos sobre as relações entre Sonia Seganfredo (agitadora de direita, famosa “dedo-duro” da Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro) e o IPES, a respeito da publicação de seu livreto intitulado UNE, Instrumento de Subversão. Em obra tão séria esta correspondência consegue ser hilariante. A carta do então tenente Heitor de Aquino Ferreira em papel nominal timbrado! –  para Seganfredo, propondo cumplicidade e segredos conspiratórios (em relação à entrevista da autora com o General Golbery) mais parece arquivo do Mickey Mouse contra os Irmãos Metralha. E as patéticas cartas da escritora, querendo ser “reconhecida” como militante do IPES (já “estava muito marcada”) mostram,  com humor negro, o triste fim dos delatores.

Esta extensa parte documental, justamente por conferir à tese de Dreifuss um alto valor de seriedade e competência, exigiria uma errata para as próximas (e, certamente, numerosas) edições. No arrolamento de milhares de nomes, é compreensível que se cometam enganos. A grafia incorreta de nomes próprios pode, no entanto, causar equívocos intrigantes, como, por exemplo, confundir o financista carioca do IPES, Afonso Almiro, com o nome do político petebista, ex-Ministro de Trabalho de Goulart, Almino Affonso. O que me parece mais importante nas incorreções das listagens  e, repito, importante exatamente pela seriedade da pesquisa – se refere à agregação de pessoas as mais diversas, com intenções, objetivos e formações extremamente díspares. A maior parte dos ipesianos, militantes ou contribuintes, eram diretores de empresas. O que não significa que todos os membros da diretoria de uma determinada empresa participassem do IPES. Nesse sentido, por exemplo, o que haveria em comum entre o milionário Cândido Guinle de Paula Machado e o intelectual Alceu de Amoroso Lima, apresentados lado a lado, como diretores da Editora Agir?

A ampla massa de informações, no corpo do livro, surge intercalada com a encampação explícita (e, a meu ver, algumas vezes pouco apropriada) de conceitos gramscianos como “sociedade civil”, “hegemonia”, “intelectual orgânico”, etc. A perspectiva teórica abrange, ainda, desde o debate sobre o papel do Estado em Milliband e Poulantzas, até os “anéis burocráticos” de Fernando Henrique Cardoso, passando pela “modernização conservadora” de Barrington Moore. O livro é, pois, de árdua leitura em alguns momentos o acompanhamento de tantos dados com a seqüência do argumento é, literalmente, atordoante – mas será sempre estimulante, quando não surpreendente. Referência obrigatória para todos os que se dedicam ao estudo das malhas do poder no Brasil, a partir do governo Kubitschek, o livro se beneficiaria, para o público mais amplo, de um paciente e generoso trabalho de simplificação metodológica, assim como de maior clareza na interligação dos capítulos e integração das notas.

RESUMOS/ABSTRACTS
1964: UM GOLPE DE CLASSE? (SOBRE UM LIVRO DE RENÉ
DREIFUSS)
MARIA VICTÓRIA de MESQUITA BENEVIDES

Republica-se aqui o comentário feito na época da sua publicação do importante livro o recentemente falecido cientista político René Armand Dreifuss sobre o papel de uma elite orgânica” de orientação empresarial na desestabilização do regime democrático pré-1964, no sentido da criação de uma “ordem empresarial” após o “golpe de classe” de 1964 (1964: a conquista do Estado – ação política, poder e golpe de classe).  Para a autora a noção de “golpe de classe” é insuficiente para dar conta da dinâmica política e econômica da época, assim como se revelaram frustrados os esforços para constituir uma “ordem empresarial”, em vista do impulso estatizante promovido pelo regime militar. Destaca-se, contudo, o valor do livro, que é aqui relembrado, junto com o nome do seu autor.

Palavras-chave: Brasil: empresariado; Brasil: regime militar.

1964: A CLASS PUTSCH? (ABOUT A BOOK BY RENÉ DREIFUSS)

The commentary made at the time of its publication about the important book by the recently deceased political scientist René Armand Dreifuss on the role of an “organ ic elite” in the overthrowing of the pre-1964 Brazilian regime aiming at an “entrepreneurial order” after the “class putsch” of 1964  is here republished. It is argued that the idea of “class putsch” is too narrow to cover the political and economic dynamics of the epoch, and that the efforts to constitute an “entrepreneurial order” were frustrated by the impulse toward a growth of State functions promoted by the military regime. However, the review emphasizes the merits of the book, which is here brought to memory  along with the name of its author.
Keywords: Brazil: entrepreneurs; Brazil: military regime


Sobre o Blog

Bem‑vindo ao Blog Dag Vulpi!

Um espaço democrático e apartidário, onde você encontra literatura, política, cultura, humor, boas histórias e reflexões do cotidiano. Sem depender de visões partidárias — aqui prevalecem ideias, conteúdos e narrativas com profundidade e propósito.

Visite o Blog Dag Vulpi