domingo, 1 de dezembro de 2013

TPs 11170 V 29900 de 16/12/2013


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A repetição da insanidade



A repetição da insanidade
No estágio atual do capitalismo país nenhum cederá grana e posição em troca do futuro da vida no planeta
  • ministério meio ambiente

    Por Rui Daher

    Blog Dag Vulpi - Se você se preocupa com as catástrofes ambientais que irá deixar para as gerações futuras, relaxe. Cientistas, porta-vozes dos governos de países industrializados e de federações empresariais tratam de dar um jeito de absolvê-lo.

    Não somos os responsáveis por essas traquinagens. Para o banco dos réus deverão ir os processos que correm há bilhões de anos neste mundão, explosões solares, ou coisas de Deus, para os criacionistas, e das conjunções astrais, para os astrólogos.

    Penso sobre isso, parado no trânsito junto ao rio Pinheiros, em São Paulo, percebendo odor insuportável. Fico calmo. Afinal, a culpa não é minha nem de quem me circunda. Passo, então, a sorrir simpaticamente a todos, inocentes.

    No dia seguinte, folhas e telas cotidianas voltam a tirar-me a paz. O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), braço científico da ONU, divulga relatório que nos devolve a culpa. Pior: se antes o IPCC jogava o calor apenas nas emissões de gases efeito estufa, seu novo estudo põe a Federação de Corporações Brasil no placar.

    Mudanças no uso da terra contam. Áreas desmatadas de florestas intensificam radiações que contribuem com o aquecimento, mesmo sem emitir os tais gases.

    “Mas nós ainda temos milhões de quilômetros quadrados de florestas; e eles que acabaram com tudo? Só pode ser interesse comercial!”, diz o patriótico defensor do novo Código Florestal.

    Paciente, concordo e sussurro: “Mas, e daí? Se o deles já era vamos repetir a mesma insanidade”?

    A Amazônia tem 5,5 milhões de quilômetros quadrados cobertos por floresta tropical. Para chegar aos 7 milhões, devemos incluir as bacias hidrográficas. Mais de 60% de tudo isso no Brasil.

    Até o início da década de 1970, o desmatamento esteve estabilizado, ligado a atividades extrativistas das populações locais. A partir de 1978, com a abertura da Transamazônica, o processo acelerou. Em dez anos, cresceu à taxa de 1,7% ao ano. De 170 para 377,7 mil km². A grande devastação, no entanto, ocorreu de 1988 a 2003, quando o total atingiu 648,5 mil km².

    A partir de 2004, instituídos aparelhos de controle e identificação e ações punitivas, como suspender a concessão de crédito rural, permitiram um bom alívio. Até 2012, o desmatamento caiu 84%. De agosto de 2012 a julho de 2013, porém, segundo o Ministério do Meio Ambiente, houve um aumento de 28% no corte raso de árvores. Foram desmatados 5.843 km² em um ano. Piscamos os olhos?

    A ministra Izabella Teixeira, diz que nada mudou no nível federal e critica as administrações locais. É pouco. Precisaria reconhecer no desmate novos ares e fins.

    Caem os motivos agropecuários e crescem os especulativos: a valorização de terras próximas às construções de estradas, hidrelétricas e projetos mineratórios. Acrescente-se o afrouxamento trazido pelo novo Código Florestal. Liberação e anistia de áreas antes protegidas. Segundo o MMA, 60% dos desmatamentos ocorreram em áreas menores de 25 hectares e durante o inverno amazônico, quando a detecção por satélite é mais difícil.

    Contar com as sucessivas tentativas mundiais, como agora em Varsóvia, é frustrar-se. No estágio atual do capitalismo país nenhum cederá grana e posição em troca do futuro da vida no planeta. O capitalismo mudou sua face. As transferências, antes preferencialmente coletivas, passaram a individuais.

    Lembro-me do professor Antônio Cândido em entrevista sobre o fracasso do socialismo. Algo assim: “Fracasso? Sucesso! Quantos avanços do capitalismo não vieram pela pressão do socialismo?”.

    Hoje em dia, aparelhos de controle do Estado, mesmo os mais eficientes, não são capazes de se impor ao rentismo arraigado no topo da pirâmide; as iniciativas privadas, além de tópicas, cedem ao primeiro vermelho contábil; os grupos ambientalistas são apontados como meios de interesses comerciais.

    Nos países pobres, a contingência de sobreviver danifica o ambiente rural, e as administrações públicas deixam soltos os setores industriais e de serviços urbanos.

    Convivem na Amazônia 2.500 espécies de árvores e 30 mil de plantas. Seus rios despejam no mar 175 milhões de litros de água por segundo. Povos locais ali fazem a vida e preservam uma biodiversidade que logo valerá mais do que o capital que, dizem, hoje em quase nada agregamos.

    Aumentar o desmatamento na Amazônia, como no último ano, significa fazer o que loucos não fazem. Rasgar dinheiro.
  • Por: Rui Daher

    Fonte: www.cartacapital.com.br

TP 10974 H 29900 16/12/2013


Barbosa e o viés autoritário



Barbosa e o viés autoritário
Quem lida com pesquisa de opinião vê o aumento do número de eleitores que dizem odiar algo ou tudo na política
  • AgenciaBrasil201212_VAC3859.JPG

    Por Marcos Coimbra

    Blog Dag Vulpi - A figura de Joaquim Barbosa faz mal à cultura política brasileira. Muito já se falou a respeito de como o atual presidente do Supremo conduziu o julgamento da Ação Penal 470, a que trata do “mensalão”. Salvo os antipetistas radicais, que ficaram encantados com seu comportamento e o endeusaram, a maioria dos comentaristas o criticou.

    Ao longo do processo, Barbosa nunca foi julgador, mas acusador. Desde a fase inicial, parecia considerar-se imbuído da missão de condenar e castigar os envolvidos a penas “exemplares”, como se estivesse no cumprimento de um desígnio de Deus. Nunca mostrou ter a dúvida necessária à aplicação equilibrada da lei. Ao contrário, revelou-se um homem de certezas inabaláveis, o pior tipo de magistrado.

    Passou dos limites em seu desejo de vingança. Legitimou evidências tênues e admitiu provas amplamente questionáveis contra os acusados, inovou em matéria jurídica para prejudicá-los, foi criativo no estabelecimento de uma processualística que inibisse a defesa, usou as prerrogativas de relator do processo para constranger seus pares, aproveitou-se dos vínculos com grande parte da mídia para acuar quem o confrontasse.

    Agora, depois da prisão dos condenados, foi ao extremo de destituir o juiz responsável pela execução das penas: parece achá-lo leniente. Queria dureza.

    Barbosa é exemplo de algo inaceitável na democracia: o juiz que acha suficientes suas convicções. Que justifica sua ação por pretensa superioridade moral em relação aos outros. E que, ao se comportar dessa forma, autoriza qualquer um a pegar o porrete (desde que se acredite “certo”).

    Sua figura é negativa, também por um segundo motivo.

    Pense em ser candidato a presidente da República ou não, Barbosa é um autêntico expoente de algo que cresceu nos últimos anos que pode se tornar um grave problema em nossa sociedade, o sentimento de ódio na política.

    Quem lida com pesquisas de opinião, particularmente as qualitativas, vê avolumar-se o contingente de eleitores que mostram odiar alguma coisa ou tudo na política. Não a simples desaprovação ou rejeição, o desgostar de alguém ou de um partido. Mas o ódio.

    É fácil constatar a difusão do fenômeno na internet, particularmente nas redes sociais. Nas postagens a respeito do cotidiano da política, por exemplo sobre a prisão dos condenados no “mensalão”, a linguagem de muitos expressa intenso rancor: vontade de matar, destruir, exterminar. E o mais extraordinário é que esses indivíduos não estranham suas emoções, acham normal a violência.

    Não se espantam, pois veem sentimentos iguais na televisão, leem editorialistas e comentaristas que se orgulham da boçalidade. Os odientos na sociedade reproduzem o ódio que consomem.

    Isso não fazia parte relevante de nossa cultura política até outro dia. Certamente houve, mas não foi típico o ódio contra os militares na ditadura. Havia rejeição a José Sarney, mas ninguém queria matá-lo. Fernando Collor subiu e caiu sem ser odiado (talvez, apenas no confisco da poupança). Fernando Henrique Cardoso terminou seu governo reprovado por nove entre dez brasileiros, enfrentou oposição, mas não a cólera de hoje.

    O ódio que um pedaço da oposição sente atualmente nasce de onde? Da aversão (irracional) às mudanças que nossa sociedade experimentou de Lula para cá? Do temor (racional) que Dilma Rousseff vença a eleição de 2014? Da estupidez de acreditar que nasceram agora problemas (como a corrupção) que inexistiam (ou eram “pequenos”)? Da necessidade de macaquear os porta-vozes do conservadorismo (como acontece com qualquer modismo)?

    Barbosa é um dos principais responsáveis por essa onda que só faz crescer. Consolidou-se nesse posto nada honroso ao oferecer ao País o espetáculo do avião com os condenados do “mensalão” rumo a Brasília no dia 15 de novembro. Exibiu-o apenas para alimentar o ódio de alguns.

    A terceira razão é que inventou para si uma imagem nociva à democracia. O papel que encena, de justiceiro implacável e ferrabrás dos corruptos, é profundamente antipedagógico.

    Em um país tão marcado pelo personalismo, Barbosa apresenta-se como “encarnação do bem”, mais um santarrão que vem de fora da política para limpá-la. Serve apenas para confirmar equívocos autoritários e deseducar a respeito da vida democrática.
  • Por: Marcos Coimbra

    Fonte: www.cartacapital.com.br

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