quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Ignorância e Estupidez: quando o conhecimento deixa de proteger contra o erro

Dag Vulpi - 15 de janeiro de 2026

Ignorância e estupidez são frequentemente tratadas como sinônimos no senso comum, mas, sob uma análise mais rigorosa, representam fenômenos distintos — e, em certos contextos, a estupidez pode ser consideravelmente mais grave que a ignorância.

A ignorância é a ausência de conhecimento. Trata-se de uma condição humana natural, transitória e, sobretudo, passível de superação. O ignorante erra porque não sabe; quando exposto à informação correta, tem a possibilidade de rever suas posições. Já a estupidez não decorre da falta de informação, mas da recusa em utilizá-la de forma racional, crítica e honesta. O estúpido não ignora os fatos; ele os distorce, seleciona ou rejeita conforme sua conveniência emocional, ideológica ou identitária.

Esse contraste torna-se particularmente evidente quando analisamos o comportamento de profissionais altamente escolarizados, como médicos, durante o debate público ocorrido na pandemia. Diferentemente do cidadão comum, o médico não parte de uma posição de desconhecimento. Sua formação inclui metodologia científica, leitura crítica de evidências, compreensão de protocolos clínicos e atualização contínua orientada por consensos científicos.

Ainda assim, observou-se que parte desses profissionais, apesar de conhecerem a ausência de evidências robustas para o uso da cloroquina e os critérios rigorosos de aprovação das vacinas, optou por sustentar posições contrárias ao consenso científico, muitas vezes alinhadas a narrativas ideológicas prévias. Tal postura não pode ser adequadamente explicada pela ignorância, uma vez que o conhecimento técnico estava disponível e integrava sua própria formação.

Nesses casos, manifesta-se a estupidez ideológica: não como limitação intelectual, mas como subordinação deliberada do pensamento crítico a crenças identitárias. Quando a ideologia se sobrepõe ao método científico, o saber deixa de cumprir sua função social e passa a ser instrumentalizado para justificar conclusões previamente escolhidas. O debate deixa de ser orientado pela busca da verdade e passa a servir à reafirmação de convicções.

Como já alertava Carlo M. Cipolla, a estupidez é particularmente danosa porque atua com convicção, amplia-se por meio da influência social e produz efeitos coletivos desproporcionais. No contexto analisado, isso se traduziu em desinformação, enfraquecimento da confiança pública nas instituições científicas e riscos concretos à saúde coletiva.

Diante disso, impõe-se reconhecer que o conhecimento técnico confere não apenas autoridade, mas responsabilidade social. Profissionais que exercem influência pública têm o dever ético de subordinar convicções pessoais às evidências disponíveis, de comunicar-se com prudência e de compreender que suas manifestações impactam decisões individuais e coletivas. Errar por desconhecimento é compreensível; persistir no erro quando se sabe melhor — e ainda induzir outros a fazê-lo — constitui falha ética grave. Quanto maior o alcance da voz, maior deve ser o compromisso com o rigor intelectual, a verdade factual e o interesse público.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A Economia da Desinformação Eleitoral

 


Dag Vulpi - 12 de janeiro de 2026

A Economia da Desinformação Eleitoral

Como redes artificiais e investimentos ocultos moldaram o debate político nas últimas eleições

Entre 2014 e, de forma muito mais intensa, nas eleições de 2018 e 2022, o espaço público digital foi progressivamente colonizado por um fenômeno inquietante: a proliferação massiva de contas falsas, redes coordenadas e campanhas sistemáticas de desinformação. Longe de serem fruto do acaso ou de ações isoladas de militantes exaltados, esses movimentos revelam uma lógica estruturada, tecnicamente sofisticada e financeiramente custosa — uma verdadeira economia política da desinformação.

Da espontaneidade à engenharia do consenso

Durante muito tempo, o debate público foi interpretado como resultado orgânico da interação entre cidadãos. Contudo, o crescimento abrupto de perfis falsos em períodos eleitorais indica uma ruptura com essa lógica. O que se observa é a substituição da deliberação espontânea por ambientes artificiais de opinião, cuidadosamente projetados para simular apoio popular, indignação moral ou consenso social.

Essas redes não operam como simples instrumentos de propaganda tradicional. Elas atuam como dispositivos de indução comportamental, capazes de ativar vieses cognitivos, reforçar identidades de grupo e reduzir drasticamente o espaço para reflexão crítica.

Investimento político e infraestrutura da desinformação

Diferentemente da narrativa que atribui esse fenômeno a ações improvisadas, há fortes indícios — amplamente discutidos na literatura acadêmica internacional — de que grupos políticos de orientação extremista passaram a investir cifras vultuosas na construção de verdadeiras infraestruturas digitais de manipulação.

Esses investimentos incluem:

  • Aquisição de servidores e softwares de automação;

  • Desenvolvimento de sistemas de gerenciamento de múltiplas identidades digitais;

  • Contratação de equipes especializadas em análise de dados, engajamento algorítmico e microdirecionamento de conteúdo;

  • Produção industrial de material desinformativo adaptado a públicos específicos.

Não se trata apenas de disseminar informações falsas, mas de criar ecossistemas inteiros de realidade paralela, onde a repetição e a onipresença substituem a verificação e o debate racional.

O papel das plataformas e a lógica do engajamento

As plataformas digitais, ao priorizarem métricas de engajamento, tornaram-se terreno fértil para esse tipo de operação. Conteúdos emocionalmente extremos — ainda que falsos — tendem a gerar mais cliques, comentários e compartilhamentos, sendo automaticamente amplificados pelos algoritmos.

Nesse contexto, redes de contas falsas funcionam como catalisadores artificiais de relevância, enganando os próprios sistemas de recomendação e projetando narrativas marginais ao centro do debate público.

Do pensador coletivo ao efeito manada

Tecnicamente, essas operações não visam apenas informar ou convencer, mas produzir comportamento coletivo. Ao criar a sensação de maioria, urgência ou ameaça iminente, o sistema induz indivíduos a aderirem a posições sem análise crítica — fenômeno conhecido como efeito manada.

O que se pode chamar de pensador coletivo não é a massa que segue, mas o arranjo técnico, narrativo e financeiro que antecede e condiciona essa adesão. A manada reage; o sistema pensa por ela.

Um desafio estrutural à democracia

A expansão dessas práticas coloca em xeque pilares fundamentais da democracia representativa. Quando o debate público é artificialmente manipulado, a escolha política deixa de ser plenamente livre e informada.

Mais do que um problema moral ou jurídico, a desinformação em massa configura um problema estrutural, que exige respostas igualmente estruturadas: transparência algorítmica, regulação adequada, educação midiática e fortalecimento da cultura crítica.

Ignorar essa dinâmica é aceitar que o futuro da política seja decidido não pelo confronto de ideias, mas pela eficiência de máquinas invisíveis de persuasão.

O Pensador Coletivo: Quando Deixamos de Pensar e Passamos a Repetir

 



Dag Vulpi - 12 de janeiro de 2026

Muitas fake news não se espalham porque são convincentes, mas porque parecem familiares. Elas circulam em grupos de família, listas de amigos, comunidades virtuais e rodas de conversa cotidianas. Por trás desse movimento atua o Pensador Coletivo: uma lógica invisível que faz pessoas comuns compartilharem ideias que não analisaram, acreditando estar exercendo opinião própria. 

Platão, no Mito da Caverna, descreve pessoas que passam a vida observando sombras projetadas na parede e acreditam que aquilo é a realidade. Hoje, essas sombras não vêm do fogo atrás da caverna, mas da tela do celular. Um vídeo curto, uma manchete alarmista ou uma imagem fora de contexto bastam para criar uma impressão forte — mesmo que falsa.

Um exemplo simples: alguém recebe, em um grupo de WhatsApp da família, uma mensagem dizendo que determinado alimento “cura” ou “faz mal” de forma milagrosa. A informação não vem acompanhada de fonte confiável, mas confirma algo que a pessoa já desconfiava. Sem checar, ela repassa. Não por maldade, mas por reconhecimento. É exatamente assim que atua o viés de confirmação, conceito explicado pelo psicólogo Daniel Kahneman: tendemos a aceitar com facilidade aquilo que reforça nossas crenças e a rejeitar o que as contraria.

O mesmo ocorre na política, no futebol ou na economia. Uma notícia que elogia “o nosso lado” ou demoniza “o outro” circula rapidamente, mesmo quando é imprecisa ou falsa. Questionar esse conteúdo passa a ser visto como traição ao grupo. Nesse ponto, o Pensador Coletivo já cumpriu sua função: substituiu a análise pelo pertencimento.

As redes sociais potencializam esse mecanismo. Ao curtir, comentar ou compartilhar certos conteúdos, o usuário passa a receber cada vez mais do mesmo tipo. Aos poucos, cria-se a sensação de que “todo mundo pensa assim”. O filósofo Michel Foucault ajuda a compreender esse processo ao mostrar que o poder também se manifesta na repetição do discurso. Aquilo que aparece o tempo todo tende a ser percebido como verdadeiro, simplesmente por estar presente.

Outro exemplo cotidiano é o compartilhamento automático de manchetes sem leitura do conteúdo. Quantas vezes alguém comenta indignado uma notícia que sequer abriu? O filósofo Byung-Chul Han observa que vivemos uma cultura da reação imediata: responder, opinar e compartilhar se tornaram mais importantes do que compreender. O excesso de informação não produz mais reflexão, mas pressa.

Há ainda situações mais sutis. Um áudio “vazado”, um print sem contexto, uma frase atribuída a alguém famoso. Mesmo quando surge a correção, ela circula menos do que o erro original. A filósofa Hannah Arendt chamaria atenção para esse ponto: grandes distorções podem se sustentar não por intenção maliciosa, mas pela falta de pensamento. As pessoas apenas seguem o fluxo, sem parar para avaliar as consequências do que propagam.

O Pensador Coletivo se fortalece justamente nesse cotidiano apressado. Ele não precisa convencer profundamente; basta tornar o conteúdo fácil de repetir. Frases curtas, culpados bem definidos, soluções simples para problemas complexos. Assim como na caverna de Platão, as sombras não apenas enganam — elas confortam.

Romper com esse ciclo não exige erudição, mas atitude. Desconfiar de conteúdos “bons demais para ser verdade”. Perguntar de onde vem a informação. Resistir ao impulso de compartilhar imediatamente. Esses pequenos gestos representam, hoje, uma forma concreta de sair da caverna.

Pensar coletivamente é inevitável. Mas pensar automaticamente é perigoso. Em um mundo saturado de informação, talvez o verdadeiro pensamento crítico comece com uma pergunta simples, feita antes do clique no botão “compartilhar”.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Quando o Saber Humilha e a Inteligência Responde

 


No curso de Medicina, durante uma aula, o professor dirige-se a um aluno e pergunta:

— Quantos rins nós temos?

— Quatro — responde o aluno, com tranquilidade.

— Quatro?! — replica o professor, daqueles que sentem prazer em tripudiar sobre o erro alheio.
— Tragam um feixe de capim! Temos um asno na sala! — ordena ao auxiliar.

— E, para mim, um cafezinho — acrescenta o aluno, dirigindo-se ao mesmo auxiliar.

O professor, tomado pela ira, expulsa o aluno da sala. O estudante era Aparício Torelly (1895–1971), o célebre Barão de Itararé.

Ao sair, ainda teve a audácia de corrigir o mestre enfurecido:

— O senhor perguntou quantos rins nós temos. Nós temos quatro: dois meus e dois seus. Nós é um pronome no plural. Tenha um bom apetite… e delicie-se com o capim.

O professor tinha razão sobre os rins, mas errou no essencial.
Não percebeu que o saber que humilha é menor do que aquele que compreende.
O Barão saiu da sala, mas deixou ali uma lição que muitos doutores jamais aprenderiam: inteligência sem humildade é só barulho bem articulado.

O episódio do Barão de Itararé revela uma verdade incômoda: o conhecimento, quando dissociado da compreensão, perde sua função emancipadora.
Na educação, na política e no pensamento crítico, a arrogância não é força — é fraqueza disfarçada de autoridade.
A verdadeira sabedoria não se impõe; ela dialoga.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

As leis fundamentais da estupidez humana

 

Dag Vulpi - Artigo de opinião - 22 de dezembro de 2025

Um ensaio político-sociológico sobre o irracional no poder

A estupidez humana não é um fenômeno marginal da vida social; ela é parte estrutural das engrenagens que movem sociedades, instituições e regimes políticos. Ignorá-la não é sinal de tolerância, mas de ingenuidade histórica. Em tempos de crise democrática, radicalização discursiva e esvaziamento do debate público, compreender suas dinâmicas deixou de ser curiosidade intelectual e passou a ser um imperativo cívico.

Foi nesse espírito que o historiador Carlo M. Cipolla formulou as chamadas leis fundamentais da estupidez humana. Longe de uma sátira leve, trata-se de um diagnóstico sociológico severo, cuja atualidade é quase desconfortável. Suas leis não descrevem apenas comportamentos individuais, mas padrões coletivos que, quando normalizados, produzem colapsos institucionais.

A primeira lei afirma que sempre subestimamos o número de pessoas estúpidas em circulação. No campo político, esse erro se traduz na crença de que decisões irracionais são exceções, desvios momentâneos ou acidentes de percurso. A realidade demonstra o contrário: a estupidez é constante, recorrente e estatisticamente relevante. Subestimá-la é abrir espaço para que ela organize maiorias.

A segunda lei desmonta uma das ilusões centrais da modernidade: a estupidez é independente de escolaridade, classe social ou posição de poder. Diplomas não garantem discernimento político; cargos não asseguram responsabilidade social. Essa constatação é crucial para entender por que elites políticas, econômicas e tecnocráticas podem agir de modo profundamente danoso sem qualquer constrangimento racional.

A terceira lei define o núcleo do problema: o estúpido é aquele que causa prejuízo a outros sem obter benefício próprio, frequentemente prejudicando a si mesmo. Diferentemente do agente corrupto ou do oportunista clássico, o estúpido não age por cálculo estratégico. Sua ação é socialmente destrutiva porque rompe o elo básico entre interesse, consequência e responsabilidade. Na política, isso se manifesta em decisões que enfraquecem o Estado, corroem direitos e destroem confiança pública sem produzir ganhos duradouros para ninguém.

A quarta lei aponta um erro recorrente das forças racionais da sociedade: subestimar o potencial destrutivo da estupidez. A crença de que o absurdo se desmoraliza sozinho é uma falácia perigosa. A estupidez não se autocorrige; ela se acumula, se retroalimenta e se institucionaliza quando não encontra freios normativos, legais e culturais.

Por fim, a quinta lei estabelece uma conclusão incômoda, porém realista: o estúpido é o tipo mais perigoso de ator social. Mais perigoso que o criminoso racional, que responde a incentivos; mais perigoso que o autoritário clássico, que persegue objetivos claros. O estúpido não responde à lógica do custo, da evidência ou do fracasso. Por isso, pode arrastar coletividades inteiras para o prejuízo comum com absoluta convicção moral.

Do ponto de vista sociológico, o grande equívoco contemporâneo é confundir estupidez com ignorância. Nunca houve tanta informação disponível. O problema não é a ausência de dados, mas a recusa sistemática ao pensamento crítico, à mediação institucional e à responsabilidade pública. A estupidez moderna não nasce do vazio informacional, mas do desprezo pela complexidade social.

Reconhecer as leis da estupidez humana não é elitismo intelectual nem pessimismo antropológico. É realismo político. Sociedades maduras não se organizam supondo virtudes universais, mas criando mecanismos capazes de limitar o dano causado pelo irracional quando ele inevitavelmente emerge.

Quando a estupidez passa a ser celebrada como autenticidade, quando a ignorância se fantasia de opinião e quando o desprezo pela razão vira capital político, o colapso democrático deixa de ser um risco abstrato. Torna-se um processo em curso.

Conclusão

A lucidez, sozinha, não salva sociedades. Mas a ausência deliberada dela as condena. Toda ordem social que permite que o irracional governe não entra em crise por acaso — ela escolhe, conscientemente, caminhar nessa direção.

Confira a íntegra, incluindo mais duas leis da Estupidez

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Disputa Contemporânea em torno das Vacinas e da Autoridade Médica

 


Por Dag Vulpi — 17 de novembro de 2025

Dos medos medievais às controvérsias digitais do século XXI, o debate sobre vacinas jamais foi exclusivamente científico. Ele sempre carregou camadas políticas, religiosas, emocionais, econômicas e simbólicas. Hoje, no Brasil e no mundo, a resistência às campanhas de imunização se reinventa e se projeta em novas arenas: redes sociais, tribunais, algoritmos, marketing personalista, influência digital e, de forma inesperada, um crescente processo de judicialização do discurso médico. Nesse cenário, torna-se urgente discutir não apenas o direito de falar, mas a responsabilidade de influenciar.

1. Breve histórico do movimento antivacina: do século XVIII ao TikTok

O movimento antivacina não é um produto da era digital, embora tenha encontrado na internet o mais fértil dos territórios. Em 1796, quando Edward Jenner apresentou a primeira vacina contra a varíola, as reações foram intensas: charges satirizavam a novidade mostrando humanos transformando-se em vacas, uma metáfora coletiva do temor ao desconhecido que ingressava no corpo.

No Brasil, o episódio mais emblemático ocorreu na Revolta da Vacina (1904), no Rio de Janeiro, marcada não apenas pela resistência ao imunizante, mas principalmente pela forma autoritária, higienista e impositiva com que foi conduzida. Desde então, o problema histórico revela um padrão duplo: medo biológico e resistência sociopolítica.

Com a popularização da internet e do ambiente digital, o discurso antivacina deixou de ser local para tornar-se viral, globalizado e monetizável. O algoritmo transformou medo em engajamento e engajamento em lucro. Se antes boatos se espalhavam nas feiras e praças, hoje se multiplicam em segundos na timeline.

2. Os riscos da juridicização do discurso médico e científico

A possibilidade de intervenção judicial sobre o discurso médico abre um debate delicado e multifacetado. De um lado, existe a necessidade ética e sanitária de proteger a saúde pública, combater a desinformação profissionalizada e responsabilizar agentes que deliberadamente difundem conteúdos falsos com finalidades políticas, ideológicas ou comerciais.

Por outro lado, há o risco de sufocar debates legítimos, investigações científicas emergentes, reflexões éticas e até mesmo a própria liberdade acadêmica, docente e de pesquisa — pilares fundamentais do avanço científico.

Entre os riscos possíveis, destacam-se:

  • Criação de precedente de censura tecnocrática;

  • Politização da ciência, deslocando o confronto metodológico para o ambiente jurídico;

  • Martirização discursiva, que pode fortalecer extremismos;

  • Redução do pensamento crítico a protocolos e normativas;

  • Confusão entre dúvida científica legítima e fraude comunicacional.

A ciência evolui porque é contestada, e não apesar da contestação. Entretanto, contestação sem método se transforma em espetáculo — e espetáculo sem responsabilidade pode resultar em tragédia sanitária.

3. Entre certezas frágeis e dúvidas rentáveis

Vivemos um tempo em que a dúvida se transforma em produto e a convicção se converte em mercadoria emocional. Se antes o conhecimento científico construía verdades provisórias, hoje opiniões pessoais reivindicam o status de verdades absolutas. Nesse contexto, a medicina — pressionada por pacientes, redes sociais, política, mercado e burocracias — caminha sobre um campo minado de interpretações, onde até o silêncio pode ser interpretado como um ato político.

4. Consideração final

Se a ciência é uma ponte construída com tijolos de erros corrigidos, cabe a nós decidir como atravessá-la: com a luz da razão ou com tochas incendiárias. Questionar é necessário; distorcer, não.

A informação é vacina.
A ignorância, quando viral, pode ser letal.

Links para Aprofundamento

  1. A influência da antivacina no recrudescimento do sarampo no Brasil — artigo acadêmico que analisa como o movimento antivacinação tem impacto prático na saúde pública brasileira UniEVANGÉLICA

  2. Como os movimentos antivacina se tornaram um perigo para o planeta — reportagem da Galileu com histórico, perfil de líderes antivacina e consequências sociais Revista Galileu

  3. Por que o movimento antivacina não tem um pingo de sentido — coluna da Veja Saúde sobre como o estudo de Wakefield foi desmascarado e consequência disso Veja Saúde

  4. Por que é tão difícil retomar a cobertura vacinal no Brasil — matéria que analisa os desafios atuais de campanhas de vacinação frente ao crescimento de hesitação Guia do Estudante

  5. Negócios da desinformação: estudo sobre a arquitetura do Facebook e a disseminação de teorias antivacina — artigo acadêmico que avalia como a própria rede social facilita a formação de comunidades antivacina arXiv

  6. Misinformation, Believability, and Vaccine Acceptance Over 40 Countries — pesquisa global sobre desinformação (“infodemia”) e seu impacto na aceitação de vacinas arXiv

  7. COVID-19 Vaccine Hesitancy on Social Media: Building a Public Twitter Dataset — estudo de conjuntos de dados no Twitter sobre posts antivacina e desinformação online arXiv

  8. Vax-Culture: A Dataset for Studying Vaccine Discourse on Twitter — outro trabalho importante para compreender o discurso antivacina nas redes sociais arXiv

Desmascarando o MAV: a máquina silenciosa da opinião política

 

Por Dag Vulpi – texto editado em 17/11/2025 (original 10/10/2015)

Vivemos numa era em que nem todas as vozes que ecoam nas redes sociais são reais — algumas são cuidadosamente orquestradas. Esse fenômeno se chama MAV: Militância em Ambientes Virtuais. Trata-se de organizações estruturadas, criadas para influenciar o debate público com eficiência, não com profundidade. Entender o que é o MAV é fundamental para preservar a autenticidade do diálogo político e proteger a democracia contra a lógica da repetição automática.

Posso afirmar com segurança que o MAV só existe graças à força do Pensador Coletivo. Essa entidade não é movida pela ética do debate ou pela busca genuína de ideias divergentes, mas pela lógica da eficiência: é uma máquina.

Em essência, MAV — ou Militância em Ambientes Virtuais — representa núcleos de militantes, alinhados a pautas partidárias, treinados para atuar nas redes sociais e em espaços de publicação online conforme orientações políticas. A estratégia é simples e poderosa: fabricar correntes volumosas de opinião pública sobre os temas do momento. Um centro de comando define pautas, escolhe os alvos e produz uma série de frases-base. Esses militantes se encarregam de espalhá-las, com mínimas variações, multiplicando vozes por meio de pseudônimos em massa.

O resultado? O Pensador Coletivo parece falar por multidões — em vez de uma conversa genuína, temos um coro orquestrado que repete as mesmas ideias em diferentes lugares. Talvez você nunca tenha ouvido falar de MAV, mas certamente ele conversa com você todos os dias.

O Pensador Coletivo nutre um profundo temor à crítica real. Em regimes pluralistas, a dissonância — a divergência de opiniões — é valiosa, pois revela dilemas ocultos. Mas para ele, a dúvida é um vírus que deve ser imediatamente contido. Seu objetivo nunca é responder com argumentos consistentes: é silenciar ou redirecionar a discordância, convertendo-a em certeza ou rejeição.

Esse modelo nem sequer admite a existência de uma opinião individual. Ele descarta argumentos específicos e se recusa a confrontar críticas com respostas substanciais. Em vez disso, usa generalizações carregadas de adjetivos — “elitista”, “privatizante”, “petralha”, “militonto” — para desacreditar o crítico, não por seu ponto de vista, mas por sua pessoa.

No campo virtual, o debate se torna uma guerra. Segundo eles, “a guerra de guerrilha na internet é a informação e a contrainformação.” No lugar de uma resposta verdadeira à crítica, geralmente encontramos ataques pessoais: “direitista”, “comunista”, “racista”… O manual de ofensas é amplo. Uma tática frequente é acusar o interlocutor de “difundir ódio” ou de “apoiar bandidos”, sem jamais tratar do argumento real.

Essa máquina política não se intimida com exigências de coerência: ela se move com eficiência, não com ética. As estratégias do Pensador Coletivo estão espalhadas pelo lixo informativo do debate público — adotá-las é uma escolha de gosto, não de convicção.

Importante notar: MAVs não pertencem a um único partido. Esta metodologia política foi copiada e adaptada por diferentes correntes ideológicas, cada vez mais presente nas campanhas eleitorais. Na era digital, onde a mobilização se dá em cliques, esse invento se tornou universal.

Se você participa de espaços pluripartidários — como grupos de discussão ou fóruns independentes — saber identificar perfis robóticos ou coordenados deixa de ser apenas um exercício intelectual; torna-se uma urgência cidadã. A percepção de que muitos “militantes” online são, na verdade, vozes replicadas por um sistema direcionado é um jogo que não precisa ser divertido — precisa ser desmontado.

Refletir sobre o MAV nos convoca a uma responsabilidade coletiva: não basta pensar, é preciso pensar bem. A autenticidade no discurso não brota apenas da liberdade de expressão, mas do compromisso com a integridade intelectual. Se permitirmos que as vozes automatizadas prevaleçam, podemos nos ver em um espelho distorcido, confundindo multidão com manipulação. No final das contas, resistir ao Pensador Coletivo é, antes de tudo, um ato de reafirmação da nossa própria humanidade política.

Democracia sem pensamento autêntico vira só barulho organizado.
Desconfie do aplauso unânime — pode ser apenas
copiado e colado.

sábado, 8 de novembro de 2025

O Caminho Onde Crescem as Flores

 


Por Dag Vulpi - novembro de 2025 - Texto editado*: Publicado originalmente em 29 de abril de 2017

Há caminhos que não se desenham nos mapas, mas no coração. Alguns permanecem vivos porque são percorridos; outros desaparecem sob o silêncio das ausências. E quando o mato toma o lugar do chão batido, nem sempre é a trilha que se perde — às vezes é o vínculo.

Certa vez, um bando de jovens pássaros voava despreocupadamente pelo céu, brincando com o vento e descobrindo o mundo lá de cima. No meio daquele voo alegre, um deles começou a notar algo curioso: grandes faixas de terra nua atravessavam a planície, como linhas desenhadas sobre o verde.
Intrigado, perguntou ao mais velho entre eles — um pássaro de plumagem antiga, olhar sereno e memória vasta.

Mestre, por que existem esses caminhos onde a terra fica exposta? Por que ali o mato não cresce?

O velho pássaro sorriu, como quem abre uma porta para uma lembrança muito antiga.

Lá embaixo vivem seres sem asas. Eles constroem suas casas distantes umas das outras. Quando sentem saudade, caminham até seus amigos. Esses passos repetidos pisam a terra, impedindo que o mato brote. Assim nascem os caminhos. E as flores que crescem à beira deles agradecem, porque querem que o amor e a amizade continuem passando por ali.

O jovem pássaro guardou aquelas palavras.
E, pouco tempo depois, sobrevoando um lugar conhecido, viu um menino sentado sobre uma trilha antiga — agora coberta por ervas daninhas e capim alto. O menino chorava baixinho, como quem lamenta algo que não sabe explicar.

Então o pássaro compreendeu.

Aquele caminho, um dia vivo e frequentado, agora estava esquecido. Talvez alguém que antes caminhava até o menino já não caminhasse mais. Talvez a saudade não tivesse força para atravessar o campo.
E quando a saudade deixa de caminhar, o mato cresce depressa.

Aprendeu-se ali uma verdade simples:
Os caminhos que ligam um coração ao outro precisam ser cuidados.
As amizades são trilhas vivas — exigem passo, presença, gesto, tempo.
Se abandonadas, acabam engolidas pela indiferença e pelo silêncio.

Devemos cuidar para que as ervas daninhas não tomem o espaço entre nós.

Porque uma trilha viva é sempre uma promessa de encontro.
E nas bordas dela, ainda nascem flores.

Muitas vezes, a distância que sentimos não está no espaço, mas no hábito. Um único passo pode reacender um caminho inteiro. Se a trilha está coberta, não é tarde: basta começar a caminhar outra vez. O amor, a amizade e o cuidado têm a força de reabrir estradas.

*Inspirado no texto de Eduardo de Paulo Barreto - Pescado no Facebook em 29 de abril de 2017

Entre o Humano e o Abismo: A Dissonância Cognitiva como Ferramenta Política

 


Por Dag Vulpi novembro de 2025

Quando a dor de admitir que fomos enganados se torna maior do que o próprio engano, a mente constrói muralhas. É dentro dessas muralhas que a extrema direita encontrou seu terreno mais fértil.

Há um ponto sensível na condição humana: a necessidade de coerência entre o que acreditamos e o que vemos. Quando a realidade contraria a crença, nasce a dissonância cognitiva. Esse conflito não é um erro moral, mas um mecanismo psicológico que tenta preservar o equilíbrio interno. O que muda é o uso que se faz dele.

A política contemporânea, sobretudo em sua vertente extremista, aprendeu a manipular essa fragilidade. Em vez de oferecer caminhos para uma consciência mais ampla e empática, ela reforça uma espécie de clausura mental. A pessoa é levada para dentro de uma bolha onde toda narrativa externa é inimiga e toda contradição pode ser justificada com um novo discurso — mesmo que esse discurso seja irracional, violento ou flagrantemente falso.

A dissonância cognitiva se transforma, então, em trincheira.
Não se defende uma ideia: defende-se o próprio ego.
Não se debate um fato: debate-se um pertencimento.

A extrema direita entendeu algo simples: quando um indivíduo passa a se sentir parte de um grupo que promete identidade, força e sentido, ele faz o que for preciso para permanecer ali — ainda que isso implique negar evidências, reescrever memórias e rejeitar a própria experiência vivida. Não por maldade, mas por medo de ruir por dentro.

O que o Humanismo Político propõe é o oposto dessa lógica.
Não é sobre destruir identidades, mas reconhecer que elas são vivas e permeáveis.
Não é sobre vencer o outro, mas sobre sustentarmos juntos a dignidade humana como horizonte comum.
É afirmar que o ser humano vale mais que uma narrativa, que o diálogo vale mais que o slogan, que a verdade pode ser difícil, mas é libertadora.

Num tempo em que as bolhas se fecham como muralhas, o Humanismo Político é uma mão estendida.
Não para puxar alguém à força, mas para lembrar que há mundo além da trincheira, que há respiração fora da guerra imaginária.

Reconhecer que fomos enganados não é fraqueza — é coragem.
Retornar à realidade não é derrota — é retorno ao próprio humano.

Reflexão

Talvez a tarefa mais urgente de nosso tempo seja reaprender a olhar o outro sem ódio, e a olhar para nós mesmos sem medo. Dissonância cognitiva não é sentença. É apenas um nó — e todo nó pode ser desfeito quando há paciência, verdade e cuidado.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

O Fio de Ariadne: Caminhos para Sair do Labirinto Moderno

 

Por Dag Vulpi novembro de 2025

Vivemos entre muros que não vemos. As paredes não são de pedra, mas de crenças, medos e rotinas que se repetem como corredores infinitos. A grande questão é simples: ainda sabemos reconhecer o fio que nos guia para fora?

Dizem que Ariadne ofereceu a Teseu um fio para que ele pudesse enfrentar o labirinto sem se perder. Uma corda simples, mas indispensável. Não era uma arma. Não era um mapa. Era apenas um caminho possível para voltar a si.

Na vida contemporânea, todos nós estamos dentro de um labirinto. Ele não é construído por reis ou arquitetos mitológicos, mas por sistemas econômicos, redes sociais, opiniões coletivas, discursos automáticos e desejos fabricados. Cada corredor é uma escolha que parece livre, mas já foi planejada antes que pensássemos nela.

O Minotauro que habita no centro não é um monstro com chifres e fúria. Hoje, o Minotauro se apresenta como um espelho. Uma imagem feita de tudo que acumulamos: pressões, expectativas, fracassos não aceitos, identidades que nos ensinaram a defender. O monstro é o peso de sermos aquilo que os outros acreditam que somos.

O caminho para o centro é fácil. Basta seguir a multidão. O difícil é voltar.

Há quem se orgulhe de não seguir ninguém. Entretanto, até a rebeldia virou produto. Vende-se identidade “autêntica” empacotada em slogans e estilos. Até o ato de dizer não já foi capturado pela lógica do consumo. De repente, é possível estar no labirinto acreditando estar fora.

Então, o que é o fio?

O fio é tudo aquilo que nos devolve a nós mesmos:

  • Uma memória que não se apaga.

  • Uma palavra que faz sentido.

  • Uma pergunta que não se cala.

  • Uma pausa para pensar antes de reagir.

  • Um olhar que enxerga o outro como humano, não como inimigo.

Esse fio é pequeno, frágil, às vezes imperceptível. Mas é real.

O Fio de Ariadne: A Dignidade Humana como Bússola na Polis Moderna



Por Dag Vulpi novembro de 2025

A política pode ser mais do que um jogo de poder? O humanismo político sugere que sim, oferecendo uma filosofia que coloca a dignidade humana no coração da organização social. Descubra como essa visão antiga pode ser a chave para reinventar a nossa polis moderna.

A política, em sua essência mais pura, não deveria ser um labirinto de poder e estratégia, mas um jardim onde a flor da dignidade humana floresce soberana. O humanismo político, longe de ser uma relíquia histórica, emerge como o fio de Ariadne necessário para navegar a complexidade da polis moderna. Ele nos lembra que, antes de ideologias e estruturas, existem rostos, aspirações e a inalienável busca pelo bem-estar.

A cada instante em que a política se distancia do homem real, do cidadão de carne e osso, ela perde sua alma, tornando-se uma máquina fria e indiferente. O humanismo político propõe uma revolução copernicana, onde o ser humano retoma seu lugar no centro do cosmos social. Trata-se de reconhecer que as leis, as instituições e os governos são meros instrumentos a serviço da vida, e não o contrário. A liberdade, a razão e a ética não são abstrações teóricas, mas o solo fértil onde a convivência democrática se sustenta.

Navegar a política com essa bússola humanista é um ato de coragem e esperança. É a aposta na capacidade de construirmos juntos, através do diálogo e da participação, um mundo onde a justiça não seja uma quimera distante, mas uma realidade tangível para todos.

A política pode ser mais do que um jogo de poder? O humanismo político sugere que sim, oferecendo uma filosofia que coloca a dignidade humana no coração da organização social. Descubra como essa visão antiga pode ser a chave para reinventar a nossa polis moderna.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Comparativos econômicos entre os governos Bolsonaro (2019–2022) e Lula (2023–2025): o que mudaram os números?

Por Dag Vulpi

Atualizado em: Novembro de 2025

Entre 2019 e 2025 o Brasil registrou recuperação dos indicadores macroeconômicos, mas enfrentou pressões fiscais e monetárias que mantêm incertezas sobre sustentabilidade do crescimento. O salário mínimo passou de R$ 998 em 2019 para R$ 1.518 em 2025, enquanto o país voltou a crescer após a pandemia — +2,9% em 2023 e +3,4% em 2024 — e a taxa média de desemprego caiu para 6,6% em 2024.

  1. Salário mínimo e poder de compra
    O salário mínimo teve reajustes sucessivos entre 2022 e 2025. Considerando a inflação acumulada entre 2019 e 2022 (≈24,7%), o ganho real do poder de compra depende do índice base escolhido: houve perda relativa em alguns anos e recuperação em outros — portanto, para afirmar “ganho real” é preciso comparar exatamente os índices (INPC/IPCA) usados e o período considerado. Recomenda-se incluir cálculo (ex.: variação real = (reajuste nominal – INPC no período)).

  2. Inflação e política monetária
    O IPCA anual apresentou picos em 2021 e recuos posteriores; a trajetória definida pela autoridade monetária (BC) e as altas de juros recentes explicam desacelerações observadas em 2024–2025. Detalhe mensal/anuais do IBGE devem ser citados quando comparar períodos.

  3. Crescimento econômico
    A retomada do crescimento está presente em 2023–2024, mas há desacelerações trimestrais aparentes no fim de 2024. Explique causas: safra agrícola robusta, consumo interno, e também efeitos de políticas fiscais. Cite IBGE e análises de agências.

  4. Emprego e indicadores sociais
    A queda da taxa média de desemprego para 6,6% em 2024 é um dado-chave — porém convém analisar qualidade do emprego, formalização e rendimento médio real para avaliar impacto social. Use Pnad Contínua do IBGE para detalhes regionais.

  5. Dívida pública e espaço fiscal
    A trajetória da dívida pública preocupa: medidas e projeções mostram que a relação dívida/PIB se manteve elevada (próxima de 
    76% em 2024, dependendo da metodologia). Explique diferença entre dívida bruta do governo geral (DBGG), dívida pública federal (DPF) e dívida líquida. Isso muda a leitura fiscal e os riscos de aumento de juros.

Conclusão:
Os números mostram melhora em emprego e atividade econômica entre 2023 e 2024, mas persistem desafios fiscais e a necessidade de crescimento sustentável com produtividade. Em suma: recuperação macroeconômica em curso, porém com frágil margem fiscal — um alerta para políticas que combinem estímulo ao investimento com ajuste estrutural das contas públicas.

Comparativos Econômicos entre 2019 e 2025

Salário Mínimo (R$)

Ano

Salário (R$)

2019

R$998

2020

R$1.045

2021

R$1.100

2022

R$1.212

2023

R$1.302

2024

R$1.412

2025

R$1.518

Crescimento do PIB (%)

Ano

PIB (%)

2019

1.2

2020

-3.9

2021

5.0

2022

2.9

2023

2.9

2024

3.4

Taxa Média de Desemprego (%)

Ano

Desemprego (%)

2019

11.9

2020

13.5

2021

13.2

2022

9.3

2023

7.8

2024

6.6

Análise do Salário Mínimo

O crescimento do salário mínimo acompanha períodos de maior e menor pressão inflacionária. Entre 2019 e 2021, o aumento nominal foi parcialmente absorvido pela inflação. A partir de 2023, com a recuperação do ritmo de reajustes acima do INPC, observa-se ganho real no poder de compra, embora ainda concentrado em faixas de consumo básico.

Análise do PIB

A queda acentuada do PIB em 2020 reflete os efeitos da pandemia, seguida de recuperação forte em 2021 e estabilização em patamares moderadamente positivos entre 2022 e 2024. O desempenho recente indica retomada baseada no agronegócio, serviços e consumo popular, embora a produtividade e o investimento industrial permaneçam desafios estruturais.

Análise do Desemprego

A redução contínua da taxa média de desemprego entre 2021 e 2024 mostra recuperação da atividade econômica e reabsorção da força de trabalho. Entretanto, ainda persistem questões sobre a qualidade dos empregos gerados, especialmente quanto à formalização, salários e estabilidade. A queda é consistente, mas não necessariamente sinônimo de melhora plena na renda média real.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Humanismo Político: o ponto de encontro entre o lucro e a igualdade

 

Por Dag Vulpi - outubro de 2025

Entre extremos, o caminho mais difícil é sempre o mais sensato: aquele que busca compreender antes de julgar, e unir antes de dividir.

Vivemos em uma era de contradições gritantes. De um lado, o lucro, força motriz do progresso econômico e tecnológico. De outro, a igualdade, ideal humano que clama por justiça social e dignidade. Entre ambos, surge o Humanismo Político, como uma ponte de consciência, um convite ao equilíbrio entre o ter e o ser, o poder e o cuidado, o indivíduo e a coletividade.[/cor]

O erro mais comum das ideologias é esquecer que o mundo não cabe em absolutos. O capitalismo, quando se distancia do humano, converte a liberdade em egoísmo. O socialismo, quando perde o sentido prático, transforma a solidariedade em imposição. O Humanismo Político surge justamente para lembrar que a verdadeira convergência nasce do reconhecimento mútuo — não da negação.

Compreender cada lado é mais que um exercício intelectual: é um gesto de empatia civilizatória. É entender que o empresário que busca o lucro pode, ao mesmo tempo, promover o bem comum; e que o idealista que sonha com igualdade pode, ao mesmo tempo, compreender as engrenagens da economia. Quando há escuta, surge harmonia. Quando há harmonia, floresce justiça.

O Humanismo Político não busca um novo sistema, mas uma nova consciência.

Uma consciência capaz de olhar para o lucro sem culpa e para a igualdade sem utopia, reconhecendo que ambas são faces de uma mesma moeda — e que somente ao compreender cada uma delas é possível alcançar o brilho do todo.

Pois o equilíbrio não nasce do meio-termo, mas da compreensão profunda dos extremos.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O Novo Almagesto e o Heliocentrismo da Verdade

 

Por Dag Vulpi — 17/04/2017


Talvez a mais importante noção a ser aprendida com a demonstração da percepção esteja na área de mudança de paradigma — aquilo que poderíamos chamar de experiência do tipo Ah-ah!, onde uma pessoa finalmente “vê” o desenho inteiro de outro modo.

Quanto mais alguém se liga à percepção inicial, mais poderosa é a experiência do Ah-ah!. É como se uma luz interna se acendesse subitamente.

O termo mudança no paradigma foi introduzido por Thomas Kuhn em seu memorável livro The Structure of Scientific Revolutions, que influenciou muitos autores. Kuhn mostra como praticamente todas as revoluções no campo da pesquisa científica começaram em rupturas com a tradição, com o modo antigo de pensar e com velhos paradigmas.

Para Ptolomeu, o grande astrônomo egípcio, a Terra era o centro do universo e essa “verdade” arrastou-se por séculos, até que 1.340 anos depois, apesar da imensa resistência e perseguição, Copérnico criou uma mudança naquele paradigma ao colocar o Sol no centro. E foi a partir daquela mudança de percepção que tudo o que antes se acreditava ser a verdade absoluta passou a ser interpretado de modo bem diferente.

O modelo de Newton para a Física era um paradigma preciso, e ainda constitui a base da engenharia moderna. No entanto, era parcial e incompleto. O mundo científico foi revolucionado pelo paradigma de Einstein, a Teoria da Relatividade, possuidor de um valor muito maior para a explicação e previsão dos fenômenos.

Enquanto a teoria dos germes não foi elaborada, um alto número de mulheres e crianças morreram durante o parto, sem que ninguém soubesse por quê. Durante as batalhas, morriam mais soldados por pequenos ferimentos e doenças do que na linha de frente, em combate. Mas assim que a teoria dos germes foi aperfeiçoada, um paradigma totalmente novo, uma forma melhor de entender o que acontecia, tornou possível um avanço significativo e dramático na medicina.

O Brasil de hoje é o fruto de uma mudança de paradigma. O conceito tradicional de governo, por séculos, foi a monarquia, baseada no direito divino dos reis. Com o tempo, um paradigma diferente foi criado — o governo do povo, pelo povo e para o povo. A democracia constitucional nasceu, libertando a energia e capacidade do homem, criando padrão de vida, influência, esperança e liberdade inigualados.

Nem todas as mudanças de paradigma ocorrem para o bem. A mudança da Ética do Caráter para a Ética da Personalidade nos afastou das raízes que realmente nutrem a felicidade e o sucesso verdadeiros.

Contudo, quer nos levem a direções positivas ou negativas, quer sejam instantâneas ou fruto de longo processo, as mudanças de paradigma nos conduzem de uma visão de mundo a outra, promovendo transformações significativas.

Nossos paradigmas, corretos ou incorretos, são a fonte dos comportamentos e atitudes e, portanto, do nosso relacionamento com os outros.


Recordo-me de uma mudança de paradigma em uma manhã de domingo, no metrô de São Paulo. As pessoas estavam calmamente sentadas, lendo jornais, divagando, descansando. Subitamente, um homem entrou no vagão com os filhos, que faziam algazarra e perturbavam os demais. O homem sentou-se a meu lado e fechou os olhos, aparentemente ignorando a situação.

Minha irritação aumentava, e decidi falar:

  • Senhor, seus filhos estão perturbando muitas pessoas. Será que não poderia dar um jeito neles?

O homem olhou para mim e disse calmamente:

  • Sim, creio que o senhor tem razão. Acho que deveria fazer alguma coisa. Acabamos de sair do hospital, onde a mãe deles morreu há uma hora. Não sei o que pensar, e parece que eles também não conseguem lidar com isso.

De repente, tudo mudou em minha percepção. Meu paradigma mudou, meu coração se abriu ao sofrimento alheio, e sentimentos de compaixão e solidariedade fluíram livremente.

Muita gente passa por experiências similares quando enfrenta crises sérias ou assume novos papéis, como pai, mãe, líder ou avô. Poderíamos gastar anos tentando alterar comportamentos usando apenas a Ética da Personalidade, sem sequer nos aproximarmos da mudança real, que ocorre quando vemos as coisas sob nova óptica.

Como disse Thoreau:
“Para cada mil homens dedicados a cortar as folhas do mal, há apenas um atacando as raízes.”

Um salto qualitativo somente pode ser realizado em nossas vidas quando deixamos de cortar folhas e passamos a trabalhar nas raízes, nos paradigmas que determinam nossa conduta.


Nota Reflexiva:
Mudar de paradigma é um ato de humildade — reconhecer que a verdade pode estar além daquilo que aprendemos a chamar de “verdade”. É o instante em que o Sol, antes orbitado, se revela o centro, e o universo se reorganiza dentro de nós.

domingo, 2 de novembro de 2025

O Banco do Tempo

 


Por Dag Vulpi

Entre o Sol que gira e o silêncio que fica.

Caminhava devagar pelo bosque, quando avistei um garoto sentado num banco.
Era o único banco livre — largo o bastante para dois, mas ocupado por um pequeno viajante do tempo.

Aproximei-me e perguntei se poderia fazer-lhe companhia.
Ele sorriu, e com a gentileza natural dos jovens, respondeu que seria um prazer.

Sentei-me. O vento trazia o cheiro úmido das folhas, e o sol filtrava-se por entre as copas, em tons de ouro velho.
Conversamos um pouco — sobre o dia, os pássaros, o silêncio.
Até que ele disse algo que me deteve o pensamento:

Meu pai o conhece. Disse que o senhor foi professor dele na universidade.
E que, certa vez, escreveu um pequeno texto durante uma aula de filosofia.
Talvez nem todos tenham anotado, mas ele guardou o seu texto na capa de um livro.
Lembro que ele o leu pra mim quando eu era pequeno…
Era sobre o Sol, as flores e os pássaros... o senhor ainda se recorda?”

Sorri, surpreso e comovido.
Disse-lhe que me lembrava — talvez não palavra por palavra, mas o suficiente para reviver a essência.
Ele pediu então que eu o recitasse, para que pudesse gravar e mostrar ao pai.

O bosque ficou mais silencioso. Apenas uns bentevis se faziam ouvir ao longe.
Fechei os olhos e, em voz baixa, disse o que me veio da alma:


O Silêncio do Giro

Observo o giro do Sol.
As flores ainda o seguem — fiéis à claridade, como se nada houvesse mudado.
Os insetos cumprem o mesmo rito,
e os pássaros cruzam o céu com a pressa antiga de quem acredita no destino.

Tudo permanece em movimento.
Só eu pareço ter desacelerado.
Vejo o mundo girar, mas já não sinto o impulso de acompanhá-lo.

Há muito, compreendi: o universo não espera.
Ele gira, e nesse giro leva o esplendor e o esquecimento,
a promessa e a ruína.
Tudo o que nasce dança um pouco — e depois silencia.

O Sol atravessa o tempo com a dignidade de quem já incendiou eras.
As flores se inclinam, belas mesmo quando murcham.
Os insetos persistem em sua breve eternidade.
E os pássaros — esses, sim — ainda traçam no ar o desenho da liberdade.

Mas em mim, o movimento é outro.
Já não é o giro da vida — é o giro da lembrança.
Um rodar manso, quase imóvel,
feito de ecos, de ausências, de um sossego que só o cansaço concede.

Descubro, então, que o tempo não é linha — é espiral.
E cada volta nos traz mais perto do centro,
onde tudo se recolhe,
onde o som do mundo se torna murmúrio,
onde o olhar, em vez de buscar, apenas aceita.

O Sol ainda gira, e as flores o seguem.
Giram os insetos, os pássaros, o vento.
E eu — ainda giro, mas por dentro.
Devagar.
Profundamente.
Como quem já entendeu que o sentido da vida
não está no movimento,
mas no instante em que paramos para escutá-lo.

Quando terminei, o menino me olhava em silêncio.
Pediu que eu repetisse, para gravar.
Ele ajeitou o celular e, enquanto eu recitava novamente, um vento leve fez balançar os girassóis ao redor.
Então senti uma mão em meu ombro.

Era o pai — meu antigo aluno.
Ele sorria, emocionado.

“O senhor lembra de mim?” — perguntou.
“Claro”, respondi. “Seu filho acabou de me contar sobre o texto.”
“Então o senhor tem mais dois minutos?”, disse ele. “Quero lhe mostrar uma coisa.”

Foi até o carro e voltou com um livro, já gasto.
Abriu a capa e me mostrou o que estava escrito ali.
“Nem preciso ler — sei de cor”, disse, antes de recitar, com firmeza e ternura, o texto que escrevera há tantos anos:

O Giro da Vida

Eu observo o giro do Sol.
E as flores que o seguem em harmonia...
Os insetos que as acompanham...
E o voo sincrônico dos pássaros seguindo os insetos...
Gira o sol e as flores,
giram os insetos e os pássaros,
giro eu, giramos todos nós.

Desde que a memória se fez em mim, um espetáculo silente e eterno se repete: o universo é uma espiral de movimento onde cada ser encontra o seu compasso.
Há uma beleza nostálgica em testemunhar essa coreografia diária, um lembrete de que tudo — e todos — estamos interligados num vasto e vigoroso giro.

Eu contemplo e sinto... O sol em seu trânsito solene, levando a luz de outrora...
E as flores que o aclamam, na rítmica harmonia da perda e do renascer...
Os insetos, rápidos e gentis, que as cortejam...
E o voo sincrônico e audacioso dos pássaros, na esteira do tempo já voado...

Gira, e se incendeia o sol e as flores em sua órbita.
Giram, e trovejam os insetos e os pássaros no ar.
Giro eu, pleno dessa força e carregando o tempo, e num eco profundo, giramos todos nós.


Ficamos em silêncio.
O pai, o filho e eu — três giros de uma mesma espiral.
Depois, trocamos um abraço breve e seguimos nossos caminhos, cada um levando consigo um fragmento do outro.


Reflexão final

O tempo é um mestre paciente.
Ensina-nos que a vida não é feita de repetições, mas de retornos —
e que cada retorno carrega uma nova tonalidade.
O texto que um dia celebrei com vigor, hoje repito com doçura e resignação.
Talvez esse seja o verdadeiro giro:
o que nos transforma, sem deixar de ser o mesmo.

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