segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O Novo Almagesto e o Heliocentrismo da Verdade

 

Por Dag Vulpi — 17/04/2017


Talvez a mais importante noção a ser aprendida com a demonstração da percepção esteja na área de mudança de paradigma — aquilo que poderíamos chamar de experiência do tipo Ah-ah!, onde uma pessoa finalmente “vê” o desenho inteiro de outro modo.

Quanto mais alguém se liga à percepção inicial, mais poderosa é a experiência do Ah-ah!. É como se uma luz interna se acendesse subitamente.

O termo mudança no paradigma foi introduzido por Thomas Kuhn em seu memorável livro The Structure of Scientific Revolutions, que influenciou muitos autores. Kuhn mostra como praticamente todas as revoluções no campo da pesquisa científica começaram em rupturas com a tradição, com o modo antigo de pensar e com velhos paradigmas.

Para Ptolomeu, o grande astrônomo egípcio, a Terra era o centro do universo e essa “verdade” arrastou-se por séculos, até que 1.340 anos depois, apesar da imensa resistência e perseguição, Copérnico criou uma mudança naquele paradigma ao colocar o Sol no centro. E foi a partir daquela mudança de percepção que tudo o que antes se acreditava ser a verdade absoluta passou a ser interpretado de modo bem diferente.

O modelo de Newton para a Física era um paradigma preciso, e ainda constitui a base da engenharia moderna. No entanto, era parcial e incompleto. O mundo científico foi revolucionado pelo paradigma de Einstein, a Teoria da Relatividade, possuidor de um valor muito maior para a explicação e previsão dos fenômenos.

Enquanto a teoria dos germes não foi elaborada, um alto número de mulheres e crianças morreram durante o parto, sem que ninguém soubesse por quê. Durante as batalhas, morriam mais soldados por pequenos ferimentos e doenças do que na linha de frente, em combate. Mas assim que a teoria dos germes foi aperfeiçoada, um paradigma totalmente novo, uma forma melhor de entender o que acontecia, tornou possível um avanço significativo e dramático na medicina.

O Brasil de hoje é o fruto de uma mudança de paradigma. O conceito tradicional de governo, por séculos, foi a monarquia, baseada no direito divino dos reis. Com o tempo, um paradigma diferente foi criado — o governo do povo, pelo povo e para o povo. A democracia constitucional nasceu, libertando a energia e capacidade do homem, criando padrão de vida, influência, esperança e liberdade inigualados.

Nem todas as mudanças de paradigma ocorrem para o bem. A mudança da Ética do Caráter para a Ética da Personalidade nos afastou das raízes que realmente nutrem a felicidade e o sucesso verdadeiros.

Contudo, quer nos levem a direções positivas ou negativas, quer sejam instantâneas ou fruto de longo processo, as mudanças de paradigma nos conduzem de uma visão de mundo a outra, promovendo transformações significativas.

Nossos paradigmas, corretos ou incorretos, são a fonte dos comportamentos e atitudes e, portanto, do nosso relacionamento com os outros.


Recordo-me de uma mudança de paradigma em uma manhã de domingo, no metrô de São Paulo. As pessoas estavam calmamente sentadas, lendo jornais, divagando, descansando. Subitamente, um homem entrou no vagão com os filhos, que faziam algazarra e perturbavam os demais. O homem sentou-se a meu lado e fechou os olhos, aparentemente ignorando a situação.

Minha irritação aumentava, e decidi falar:

  • Senhor, seus filhos estão perturbando muitas pessoas. Será que não poderia dar um jeito neles?

O homem olhou para mim e disse calmamente:

  • Sim, creio que o senhor tem razão. Acho que deveria fazer alguma coisa. Acabamos de sair do hospital, onde a mãe deles morreu há uma hora. Não sei o que pensar, e parece que eles também não conseguem lidar com isso.

De repente, tudo mudou em minha percepção. Meu paradigma mudou, meu coração se abriu ao sofrimento alheio, e sentimentos de compaixão e solidariedade fluíram livremente.

Muita gente passa por experiências similares quando enfrenta crises sérias ou assume novos papéis, como pai, mãe, líder ou avô. Poderíamos gastar anos tentando alterar comportamentos usando apenas a Ética da Personalidade, sem sequer nos aproximarmos da mudança real, que ocorre quando vemos as coisas sob nova óptica.

Como disse Thoreau:
“Para cada mil homens dedicados a cortar as folhas do mal, há apenas um atacando as raízes.”

Um salto qualitativo somente pode ser realizado em nossas vidas quando deixamos de cortar folhas e passamos a trabalhar nas raízes, nos paradigmas que determinam nossa conduta.


Nota Reflexiva:
Mudar de paradigma é um ato de humildade — reconhecer que a verdade pode estar além daquilo que aprendemos a chamar de “verdade”. É o instante em que o Sol, antes orbitado, se revela o centro, e o universo se reorganiza dentro de nós.

domingo, 2 de novembro de 2025

O Banco do Tempo

 


Por Dag Vulpi

Entre o Sol que gira e o silêncio que fica.

Caminhava devagar pelo bosque, quando avistei um garoto sentado num banco.
Era o único banco livre — largo o bastante para dois, mas ocupado por um pequeno viajante do tempo.

Aproximei-me e perguntei se poderia fazer-lhe companhia.
Ele sorriu, e com a gentileza natural dos jovens, respondeu que seria um prazer.

Sentei-me. O vento trazia o cheiro úmido das folhas, e o sol filtrava-se por entre as copas, em tons de ouro velho.
Conversamos um pouco — sobre o dia, os pássaros, o silêncio.
Até que ele disse algo que me deteve o pensamento:

Meu pai o conhece. Disse que o senhor foi professor dele na universidade.
E que, certa vez, escreveu um pequeno texto durante uma aula de filosofia.
Talvez nem todos tenham anotado, mas ele guardou o seu texto na capa de um livro.
Lembro que ele o leu pra mim quando eu era pequeno…
Era sobre o Sol, as flores e os pássaros... o senhor ainda se recorda?”

Sorri, surpreso e comovido.
Disse-lhe que me lembrava — talvez não palavra por palavra, mas o suficiente para reviver a essência.
Ele pediu então que eu o recitasse, para que pudesse gravar e mostrar ao pai.

O bosque ficou mais silencioso. Apenas uns bentevis se faziam ouvir ao longe.
Fechei os olhos e, em voz baixa, disse o que me veio da alma:


O Silêncio do Giro

Observo o giro do Sol.
As flores ainda o seguem — fiéis à claridade, como se nada houvesse mudado.
Os insetos cumprem o mesmo rito,
e os pássaros cruzam o céu com a pressa antiga de quem acredita no destino.

Tudo permanece em movimento.
Só eu pareço ter desacelerado.
Vejo o mundo girar, mas já não sinto o impulso de acompanhá-lo.

Há muito, compreendi: o universo não espera.
Ele gira, e nesse giro leva o esplendor e o esquecimento,
a promessa e a ruína.
Tudo o que nasce dança um pouco — e depois silencia.

O Sol atravessa o tempo com a dignidade de quem já incendiou eras.
As flores se inclinam, belas mesmo quando murcham.
Os insetos persistem em sua breve eternidade.
E os pássaros — esses, sim — ainda traçam no ar o desenho da liberdade.

Mas em mim, o movimento é outro.
Já não é o giro da vida — é o giro da lembrança.
Um rodar manso, quase imóvel,
feito de ecos, de ausências, de um sossego que só o cansaço concede.

Descubro, então, que o tempo não é linha — é espiral.
E cada volta nos traz mais perto do centro,
onde tudo se recolhe,
onde o som do mundo se torna murmúrio,
onde o olhar, em vez de buscar, apenas aceita.

O Sol ainda gira, e as flores o seguem.
Giram os insetos, os pássaros, o vento.
E eu — ainda giro, mas por dentro.
Devagar.
Profundamente.
Como quem já entendeu que o sentido da vida
não está no movimento,
mas no instante em que paramos para escutá-lo.

Quando terminei, o menino me olhava em silêncio.
Pediu que eu repetisse, para gravar.
Ele ajeitou o celular e, enquanto eu recitava novamente, um vento leve fez balançar os girassóis ao redor.
Então senti uma mão em meu ombro.

Era o pai — meu antigo aluno.
Ele sorria, emocionado.

“O senhor lembra de mim?” — perguntou.
“Claro”, respondi. “Seu filho acabou de me contar sobre o texto.”
“Então o senhor tem mais dois minutos?”, disse ele. “Quero lhe mostrar uma coisa.”

Foi até o carro e voltou com um livro, já gasto.
Abriu a capa e me mostrou o que estava escrito ali.
“Nem preciso ler — sei de cor”, disse, antes de recitar, com firmeza e ternura, o texto que escrevera há tantos anos:

O Giro da Vida

Eu observo o giro do Sol.
E as flores que o seguem em harmonia...
Os insetos que as acompanham...
E o voo sincrônico dos pássaros seguindo os insetos...
Gira o sol e as flores,
giram os insetos e os pássaros,
giro eu, giramos todos nós.

Desde que a memória se fez em mim, um espetáculo silente e eterno se repete: o universo é uma espiral de movimento onde cada ser encontra o seu compasso.
Há uma beleza nostálgica em testemunhar essa coreografia diária, um lembrete de que tudo — e todos — estamos interligados num vasto e vigoroso giro.

Eu contemplo e sinto... O sol em seu trânsito solene, levando a luz de outrora...
E as flores que o aclamam, na rítmica harmonia da perda e do renascer...
Os insetos, rápidos e gentis, que as cortejam...
E o voo sincrônico e audacioso dos pássaros, na esteira do tempo já voado...

Gira, e se incendeia o sol e as flores em sua órbita.
Giram, e trovejam os insetos e os pássaros no ar.
Giro eu, pleno dessa força e carregando o tempo, e num eco profundo, giramos todos nós.


Ficamos em silêncio.
O pai, o filho e eu — três giros de uma mesma espiral.
Depois, trocamos um abraço breve e seguimos nossos caminhos, cada um levando consigo um fragmento do outro.


Reflexão final

O tempo é um mestre paciente.
Ensina-nos que a vida não é feita de repetições, mas de retornos —
e que cada retorno carrega uma nova tonalidade.
O texto que um dia celebrei com vigor, hoje repito com doçura e resignação.
Talvez esse seja o verdadeiro giro:
o que nos transforma, sem deixar de ser o mesmo.

sábado, 1 de novembro de 2025

Humanismo Político: Entre o Lucro e a Igualdade



Por Dag Vulpi

Socialismo e capitalismo são expressões distintas de uma mesma busca humana: a tentativa de construir um mundo mais justo. O desafio não é escolher entre eles, mas reencontrar o centro — o ponto em que a economia e a política voltam a servir à vida. Esse ponto chama-se humanismo político.

Ao longo da história, o homem tem se dividido entre dois grandes impulsos: o de criar e o de repartir.
Do primeiro nasce o 
capitalismo, que celebra a liberdade, o mérito e o poder transformador do esforço individual.
Do segundo, surge o 
socialismo, que valoriza a solidariedade, a partilha e a ideia de que o bem coletivo é o verdadeiro avanço civilizatório.

Ambos nascem de virtudes humanas legítimas, mas se corrompem quando se esquecem de seu propósito original: a dignidade do ser humano.

O capitalismo, quando perde o senso de limite, transforma o mérito em desculpa para a desigualdade e o lucro em valor supremo. O socialismo, quando ignora a liberdade, sufoca a criatividade e a individualidade — motores essenciais da evolução humana.
Entre esses dois extremos, há um campo fértil que a humanidade ainda não aprendeu a cultivar: o campo do 
humanismo político.

humanismo político não é um novo sistema, mas uma consciência.
É a ideia de que todas as estruturas — sejam econômicas, sociais ou estatais — devem se submeter à primazia da vida, da ética e da convivência.
Ele reconhece no socialismo o valor da solidariedade e, no capitalismo, o poder da liberdade; mas entende que ambos só ganham sentido quando colocados a serviço do ser humano, e não o contrário.

Ser humanista politicamente é recusar o fanatismo ideológico e entender que nenhuma bandeira é mais importante que a mão que a sustenta.
É perceber que os índices econômicos valem menos que a esperança de quem acorda cedo para trabalhar.
É admitir que o progresso material não redime a injustiça, e que a igualdade imposta não produz harmonia.

O humanismo político é a terceira margem do rio:
nem a corrente do lucro desmedido, nem a maré da uniformidade forçada.
É o lugar do diálogo, da ponderação e da responsabilidade coletiva.
Seu propósito não é unir extremos, mas 
recolocar o homem no centro da política, devolvendo-lhe o protagonismo que as ideologias tomaram de assalto.

Quando o socialismo aprende a valorizar o indivíduo, e o capitalismo descobre o valor do coletivo, ambos se curvam diante do mesmo ideal: o de uma sociedade justa, livre e humana.
E é exatamente aí — nesse ponto de encontro — que o 
humanismo político floresce.


O futuro não pertence às ideologias, mas às consciências que as transcendem.
A humanidade só reencontrará seu equilíbrio quando o poder servir ao homem — e não o homem ao poder.
Esse é o desafio e o chamado do 
humanismo político: fazer da política uma ponte entre a justiça e a compaixão, entre a razão e a alma.

Quando o Sagrado e o Poder se Misturam


Por Dag Vulpi

A fronteira entre religião e política sempre foi tênue, mas indispensável. Quando um ultrapassa o território do outro, o resultado é confusão moral e enfraquecimento de ambos. O que nasce da fé se contamina pelo cálculo do poder, e o que deveria servir à coletividade se converte em instrumento de dogma.

Quando a religião é levada para dentro das casas legislativas, as leis dos homens entram inevitavelmente em conflito com as leis de Deus. E quando a política se instala nos altares, as palavras da Sagrada Escritura passam a disputar espaço com interesses humanos — muitas vezes disfarçados de virtude.

A fé perde sua pureza quando se torna bandeira partidária. A política, por sua vez, perde sua legitimidade quando se converte em púlpito. Ambas, quando misturadas, deixam de cumprir seus propósitos originais: uma deixa de iluminar, a outra deixa de governar com justiça.

O azeiteiro é o local apropriado para armazenar o azeite; já no decanter, repousa o vinho. Ambos possuem natureza distinta, recipientes próprios, ritos e finalidades diferentes. A tentativa de inverter ou misturar esses compostos conduz a um único desfecho: tanto o vinho quanto o azeite perdem seus aromas e sabores característicos — e, com eles, sua essência.

Assim também ocorre com a religião e a política: quando deixamos que uma se infiltre na função da outra, ambas perdem o sentido e corrompem o que há de mais precioso em cada uma — a fé que eleva e a justiça que liberta.


A crítica contemporânea à fusão entre fé e poder

As críticas à chamada bancada evangélica concentram-se justamente nesse ponto sensível: o uso da fé como instrumento de poder político. Analistas e observadores apontam que, ao buscar influência legislativa e executiva, parte dessa representação acaba promovendo um discurso que mistura dogmas religiosos com decisões públicas, comprometendo o princípio do Estado laico.

Entre as principais críticas estão:

  • Conservadorismo e direitos humanos: A bancada é frequentemente criticada por sua oposição a pautas relacionadas à diversidade, como aborto, eutanásia, casamento entre pessoas do mesmo sexo e igualdade de gênero. Tais posições, embora legitimadas pela liberdade religiosa, são vistas por muitos como obstáculos à ampliação dos direitos humanos e à convivência plural.

  • Politização da fé: Para críticos e estudiosos — inclusive em análises amplamente debatidas em plataformas como o YouTube —, a atuação da bancada se distancia dos ensinamentos de Cristo, que rejeitava a disputa pelo poder e pregava o amor e a compaixão. A associação direta entre fé e política, nesse sentido, é vista como um afastamento do espiritual em favor do eleitoral.

  • Influência excessiva e disputas políticas: Outro ponto recorrente é o uso do poder religioso para intervir em decisões de governo, pressionar o Congresso e garantir a aprovação de projetos de interesse de grupos específicos. Essa prática é interpretada como uma sobreposição de crenças particulares sobre o interesse coletivo.

  • Controvérsias em projetos de lei: Em redes como o Instagram e nos meios acadêmicos, levantam-se críticas à condução de projetos que tratam com superficialidade temas sensíveis como estupro, abuso e violência contra a mulher. Há preocupação de que interpretações moralistas possam fragilizar políticas públicas de proteção social.

  • Apropriação e polarização ideológica: Por fim, a bancada é frequentemente associada à manutenção de pautas conservadoras e à aproximação com lideranças políticas de viés ideológico, como o ex-presidente Jair Bolsonaro. Esse alinhamento, segundo críticos, reforça a polarização e enfraquece o diálogo democrático dentro das instituições.

Essas críticas não pretendem negar o papel social e espiritual das igrejas, mas alertam para os riscos que surgem quando a fé, em vez de guiar consciências, passa a comandar votos e legislações.


Reflexão:

A harmonia entre o sagrado e o profano não se encontra na fusão, mas no respeito aos limites que os separam. Fé e política só coexistem em paz quando cada uma permanece no espaço que lhe cabe — servindo, cada qual à sua maneira, ao bem comum. Quando o altar se torna palanque, o verbo se torna discurso, e a espiritualidade perde sua luz para o brilho fugaz do poder.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

O caso do tio do irmão do filho do pai do outro


Por Dag Vulpi

O crime do próprio avô

(ou: O caso do tio do irmão do filho do pai do outro)

Na pacata região de Caldeirão, interior de Santa Teresa — onde até o vento cochicha as fofocas antes que cheguem ao bar —, uma família conseguiu o impossível: confundir até o cartório. O pai viúvo casou-se com a filha da viúva. O filho do viúvo casou-se com a própria viúva — e o resto, como se diz, foi um nó de parentesco que nem Santo Antônio desatava.

Tudo corria bem até que um deles apareceu morto — e um bilhete deixado pela vítima prometia mais confusão que o próprio casamento da turma.


Diz a sabedoria popular que certas histórias não precisam nascer, apenas renascem de tempos em tempos em novas bocas.

Esta que se conta aqui é uma interpretação literária de um causo antigo, conhecido em várias versões pelo interior do Brasil — e que, no Espírito Santo, ganhou sotaque serrano e endereço certo: Tabócas, em Santa Teresa.


Tudo começou com dois viúvos e dois corações solitários.

O pai, homem vivido, achou consolo na mocidade da filha da viúva. Já o filho, impressionado com a experiência da viúva, casou-se com ela.

E assim, de repente:

  • o pai virou genro do filho;

  • o filho virou sogro do pai;

  • a moça tornou-se madrasta do marido da mãe;

  • a mãe virou nora da própria filha.


Deu-se então que nasceram filhos dos dois casais — e, com eles, a genealogia entrou oficialmente em colapso.

O menino do casal mais velho era, simultaneamente, irmão e tio do menino do casal mais novo.

E como o filho havia se casado com a mãe da esposa do pai, acabou sendo também avô do próprio irmão — ou, como resumiu o padre da paróquia:

“Nessa família, é mais fácil achar o Espírito Santo do que entender o parentesco.”


Até que, numa manhã de domingo, o riso se calou.

Um dos membros da família foi encontrado desfeito de vida no quintal dos fundos, ao lado de um bilhete escrito com tremor e tinta borrada:

“Quem me matou foi o tio do meu irmão.”

A frase caiu como um trovão na vila. Porque ali, todo mundo era tio de alguém e irmão de quase todo mundo.


Chamaram então o doutor Ambrósio Carlini, advogado do distrito — homem de fala enrolada, chapéu gasto e faro apurado para intrigas de herança e galinha sumida.

Ao chegar, examinou o bilhete, coçou o queixo e perguntou:
— E quem é o tio do irmão do defunto?

O silêncio foi geral.

Depois de duas horas de conversa, três cadernos de anotações e vários cafezinhos, o doutor concluiu que o “tio do irmão” podia ser, ao mesmo tempo:

  • o pai,

  • o avô,

  • o genro,

  • o sogro,

  • ou ele próprio, dependendo de quem estivesse contando.

E foi então que Ambrósio decretou:

“Esse caso só se resolve com árvore genealógica, compasso e bênção de padre. Porque aqui o morto é vítima, suspeito e parente dele mesmo.”

Desde aquele dia, o caso ficou conhecido como “O crime do próprio avô”, e até hoje, quando alguém de Caldeirão se casa com parente distante, o povo comenta:

“Cuidado, que depois dá morte e bilhete!”


Reflexão:

No interior, onde o tempo anda devagar e as famílias se multiplicam por afinidade e conveniência, os laços de sangue às vezes viram nós de novela.

E se a lógica não explica, o riso explica por ela.

Afinal, como dizia o velho doutor Ambrósio:

Família é coisa séria, mas quando o avô é o próprio neto, o melhor é rir pra não enlouquecer.”

O Buchada, o Borrado e a Magrela

Por Dag Vulpi

Contos do Soteco: memórias vivas dos anos 2000 — quando a bondade e a esperteza andavam de bicicleta lado a lado, e a fé às vezes vinha embrulhada em artimanha. Uma história verdadeira sobre empréstimos, confiança e as reviravoltas que a rua sabe dar.


O “buchada”, o borrado e a magrela. Quem apronta uma primeira vez, pode aprontar de novo…

Pois bem: seguindo minha proposta de trazer contos vividos no bairro Soteco — depois dos contos dos anos 70, hoje trago um dos primórdios dos anos 2000. É a estória do Niltinho Buchada e do seu mui amigo Borrado. Recupero mais um conto verídico que vivenciei lá pelos anos 2000 e que teve como protagonistas meu sogro — Seu Bino (in memória) — meu cunhado Nílton e o serelepe Borrado (deste último nunca soube — e talvez nunca saberei — o nome verdadeiro; por isso o chamarei Borrado, como era conhecido).

Borrado era menino levado, órfão de pai, criado pelo destino e pela mãe, que além dele criava mais quatro. Foi educado pela vida. Na escola de primeiro grau Cândido Marinho era mestre na arte de matar aulas e, às duras penas, concluiu o primeiro ano primário — aprendeu o básico e nada mais. Desenhava muito mal o nome e acabou abandonando os estudos para dedicar-se à arte do fazer nada.

Mas Borrado era moleque esperto e, apesar de quase nada escrever e mal ler, era bom de matemática: aprendeu perdendo. Nas divisões de bolinhas de gude, nas balas do dia de São Cosme e Damião, tornou-se ótimo na arte de dividir — pelo menos ótimo para ele. Aprendeu que, para dividir onze balas entre dois, bastava colocar uma no bolso; o restante dava cinco para cada um.

Tornou-se figurinha fácil no álbum da estória do Soteco. Conhecia todo mundo e tinha um bocado de amigos. Meu cunhado Nílton — conhecido na época por “Niltinho Buchada” — figurava nesse seleto grupo. A partir daqui chamarei Niltinho simplesmente de Buchada.

Quando Buchada era mais novo, era miúdo, magricela e dono de uma proeminente saliência peitoral, o famoso “peito de pombo”. Era o queridinho do pai, que, quando rapazote, lhe deu uma bicicleta de presente. Não era nova, mas era o objeto de desejo da molecada. Atrás daquele peito de pombo havia um enorme coração — e, ainda que os ossos lhe saltassem e o tempo lhe cobrisse de uma grossa camada de gordura, o coração do Buchada (que hoje atende por “Biquinho”) continuava enorme.

Já o Borrado padecia do mal do bicho carpinteiro: não sossegava. Apesar de nunca ter possuído uma bicicleta própria, nunca andava a pé — sempre havia um amigo que lhe emprestava. O campeão em empréstimos para o Borrado era o Buchada; vira e mexe o Borrado dava os rolês com a bike do Buchada. Buchada emprestou tantas vezes que muitos já não sabiam se a bicicleta pertencia a um ou a outro; lembro que houve ocasiões em que era o Buchada quem pedia a magrela emprestada ao Borrado.

E como era de se esperar, pela índole moldada pela vida, não deu outra: numa dessas o Borrado aprontou para cima do próprio amigo Buchada. Era manhã de domingo; Borrado, alegando motivo de vida ou morte, pediu mais uma vez a bicicleta, comprometendo-se a devolvê-la em no máximo dez minutos. Buchada emprestou sem preocupações, mas deu um recado: “não se esqueça, preciso dela amanhã logo cedo para ir trabalhar”. E assim o Borrado tomou a magrela emprestada pela última vez e seguiu rumo ao seu destino.

Passaram-se os dez minutos prometidos — e nada do Borrado. Trinta. Uma hora. Foi ficando tarde e mais tarde, e nada do Borrado com a magrela. Lá de casa eu podia ouvir os “conselhos” que o Seu Bino dava a Buchada: “Tá vendo, eu não te falei, seu bobo? Eu sabia! E agora, como vai trabalhar amanhã? Até que demorou para isso acontecer!”. Mas o Buchada, certo de que um imprevisto ocorrera, argumentou que outras vezes o Borrado atrasara e sempre devolvera a bicicleta. Ainda resmungando, Seu Bino foi deitar-se; Buchada deu mais um tempo na varanda, esperançoso de não ter de ir trabalhar a pé no dia seguinte.

A cada som característico de bicicletas passando na rua, o pobre Buchada enchia-se de esperanças: “agora é ele, tem que ser ele”, pensava. Qual nada — passaram mais de vinte bicicletas, mas o Borrado, que seria o bom, nada. Já era mais de dez horas da noite quando Buchada, enfim, perdeu as esperanças e foi deitar-se. Dormir, porém, que é bom, não conseguiu: não parava de pensar no que poderia ter acontecido com o amigo e, principalmente, com sua bicicleta.

Amanheceu e nada. Mais uma vez lá de casa ouvi Seu Bino: “hoje você vai trabalhar com a minha bicicleta, mas depois eu vou lá no morro — sei bem onde ele mora — e terei uma conversa com a mãe daquele traste”. Aquele dia Seu Bino não foi; preferiu esperar mais uns dias, talvez a situação se resolvesse sem levar mais desgosto à pobre lavadeira, mãe do Borrado. A semana passou e nada do Borrado. No sábado, Seu Bino não se conteve: subiu o morro até a casa da lavadeira.

“Bom dia, dona Maria, cadê o Borrado?” perguntou ele, tendo como resposta um olhar choroso e um: “Prenderam meu menino injustamente, Seu Bino. Ele saiu de bicicleta domingo pra ir à igreja e depois soube que ele foi preso porque andava com más companhias. Estou desesperada — o transferiram para aquele lugar onde ficam os malandros que mexem com coisa errada — mas ele é direito, nunca mexeu com coisa errada, e o senhor sabe disso.” Seu Bino já não cabia em si; adiantou o propósito da visita: “Dona Maria, o Borrado passou aqui domingo e pegou a bicicleta do Nílton emprestada e não apareceu mais. Quero saber quem vai pagar o prejuízo.” Dona Maria, vendo que Seu Bino não estava para brincadeiras, tentou acalmá-lo e comprometeu-se a pagar cem reais, em dez parcelas de dez reais — era esse o máximo mensal que podia pagar.

Estando tudo combinado, Seu Bino foi para casa. Lá chegando, logo disse: “Comigo é assim: ninguém me faz de besta, não. Mas tou vendo — se fosse o Nílton ela teria enrolado e ficaria o dito pelo não dito; e claro, seria ele que ficaria com o prejuízo. Mas comigo o buraco é mais embaixo.” Durante aquela semana foi esse o assunto do Seu Bino: a todos que encontrava, a quem ia encomendar gaiolas, contava tim-tim por tim-tim a história de como recuperaria o dinheiro da bicicleta que o Borrado teria “roubado” do seu filho.

Coincidentemente, eu e o Seu Bino estávamos em frente à sua casa quando, de repente, o Borrado chegou e nos cumprimentou cheio de cordialidades e bendizeres. Irreconhecível: roupa social, cabelo estilo “vaca-lambeu”, e debaixo do braço uma velha Bíblia. Antes que Seu Bino dissesse qualquer coisa, ele ajoelhou-se e começou a expor seu arrependimento por haver se misturado a más companhias; assegurou que a semana atrás das grades lhe mostrara o verdadeiro caminho — que agora era servo de Deus.

“Minha mãe contou a vergonha que passou ao ser cobrada pelo senhor, Seu Bino, e eu estou aqui pra resolver esse mal-entendido. Agora sou servo de Deus.”

E ali, diante dos meus perplexos olhos, o Borrado olhou para meu sogro: “Seu Bino, eu errei. Não tinha o direito de aprontar com o Buchada nem com o senhor. Se o senhor me der um voto de confiança e me ouvir, eu resolvo tudo agora. O que aconteceu foi o seguinte: naquele dia, quando eu voltava pra devolver a bicicleta, meu primo Cleitim pediu ela emprestada dizendo que voltaria em cinco minutinhos, mas acabou me sacaneando. Deixou a magrela como garantia lá na boca de fumo. Vim de lá agora; tentei convencer o chefe a devolver a bicicleta, mas só entrega se eu pagar os dez paus de fiança que meu primo ficou devendo. Aí eu pensei: eu vou, explico tudo pro senhor, e se o senhor me emprestar os dez reais da fiança, eu recupero a bike; minha mãe paga o senhor e todo mundo sai no lucro — afinal, ela pagaria cem reais; vai gastar só dez. O senhor teria que esperar dez meses pra receber tudo, mas se eu for lá e voltar em vinte minutos, resolve-se tudo. Fazer assim é melhor pra todo mundo. O que o senhor acha?”

“Tá bom, Borrado, vou te dar esse último voto de confiança — vai lá e busca aquela bendita bicicleta que fica tudo certo e sua mãe não vai ter que se sacrificar ainda mais”, falou Seu Bino.

E o Borrado respondeu: “Antes só mais um favor do senhor, e tenho certeza de que o senhor vai entender minha situação.”

“O que você tá tramando dessa vez, Borrado? Fala de uma vez.” perguntou meu sogro.

“Sabe o que é — eu tô com uma fome danada, e sei que o senhor sempre tem um cafezinho fresco e aquele pão doce guardado no armário. Tem como o senhor me arranjar um copo de café e um pão com manteiga?”

Meu sogro olhou para o alto e respondeu: “Tá certo, Borrado. Deixe-me ver se tenho o dinheiro aqui.” Olhei pro Borrado e ele deu um sorrisinho maroto. Em seguida, meu sogro sacou uma nota de dez reais e falou: “Toma, Borrado, vai lá e busca a bicicleta.” O Borrado pegou a nota e perguntou: “O senhor não tem duas notas de cinco não?” Recebeu um não como resposta e continuou ali parado; foi quando Seu Bino falou: “Vai logo, Borrado, vai buscar a bicicleta de uma vez.” Ele respondeu: “Ué, Seu Bino, e o copo de café e o pão com manteiga que o senhor prometeu? Se eu sair andando a pé, com a falta de costume que tenho, e com essa fome, não consigo subir o morro — eu vô é cair pela rua afora.” Seu Bino entrou e voltou com um copo descartável cheio de café e um pão doce. O Borrado guardou os dez reais no bolso da calça, pegou o café e o pão e disse: “Seu Bino, o senhor nunca vai se arrepender por ter me dado esta chance; a partir de hoje eu sou outra pessoa.”

Saiu rua afora comendo o pão e tomando o café enquanto prendia a Bíblia debaixo do sovaco.

Despedi-me do meu sogro e fui pra casa, de onde pude observar a angústia dele enquanto esperava. Passaram-se os vinte minutos combinados — e nada. Mais trinta. O meu sogro ainda aguardava na calçada. Então fui até o portão: “E aí, Seu Bino, nada dele ainda?”

— “Nada!” respondeu ele, já nitidamente muito chateado.

Assim prosseguiu até a tarde: entrava, tomava um café, acendia um cigarro e voltava para a calçada. Já anoitecia quando ouvi os gritos vindo da sua casa: “Eu vou matar aquele ladrão sem vergonha!”, enquanto o Buchada satirizava: “Ué, não é o senhor que é o cara, que não deixa por menos, que com o senhor o buraco é mais embaixo? Ta vendo — agora, além da minha bicicleta, o danado do Borrado levou mais dez mangos do senhor.

“Aquele desinfeliz ainda foi embora tomando o meu café e comendo meu pão doce — se eu pego eu mato!” esbravejou.

Quem trouxe a má notícia foi um amigo do meu sogro, também passarinheiro e vizinho da dona Maria, mãe do Borrado. Veio bater um papo com Seu Bino e, ao ouvir que ele havia feito um acordo com o Borrado, contou que viu o Borrado subindo na carroceria do caminhão que levava a mudança da dona Maria lavadeira — destino: interior de Minas.

E foi assim que o sacana do Borrado, travestido de evangélico e com uma Bíblia debaixo do sovaco, aplicou aquele que seria o seu último golpe por estas bandas dos sotequenses.


Reflexão:
As ruas do Soteco são professoras implacáveis: nelas aprendemos sobre generosidade, conta-se a história de quem dá e de quem tira proveito. O gesto de emprestar — tão simples, tão humano — pode ser lei de socorro ou armadilha. Fica a lição: a bondade é sempre válida, mesmo quando nos deixa no prejuízo; e a desonra de um só não apaga o valor da confiança que muitos ainda oferecem. E, se há nostalgia, que seja por aqueles corações grandes que continuam se abrindo — mesmo sabendo que, vez ou outra, alguma “magrela” não volta.

Sobre o Blog

Bem‑vindo ao Blog Dag Vulpi!

Um espaço democrático e apartidário, onde você encontra literatura, política, cultura, humor, boas histórias e reflexões do cotidiano. Sem depender de visões partidárias — aqui prevalecem ideias, conteúdos e narrativas com profundidade e propósito.

Visite o Blog Dag Vulpi