Por
Dag Vulpi
Contos do Soteco: memórias vivas dos anos 2000 —
quando a bondade e a esperteza andavam de bicicleta lado a lado, e a
fé às vezes vinha embrulhada em artimanha. Uma história verdadeira
sobre empréstimos, confiança e as reviravoltas que a rua sabe dar.
O “buchada”, o borrado e a magrela. Quem apronta uma primeira
vez, pode aprontar de novo…
Pois bem: seguindo minha proposta de trazer contos vividos no
bairro Soteco — depois dos contos dos anos 70, hoje trago um dos
primórdios dos anos 2000. É a estória do Niltinho Buchada e do seu
mui amigo Borrado. Recupero mais um conto verídico que vivenciei lá
pelos anos 2000 e que teve como protagonistas meu sogro — Seu Bino
(in memória) — meu cunhado Nílton e o serelepe Borrado (deste
último nunca soube — e talvez nunca saberei — o nome verdadeiro;
por isso o chamarei Borrado, como era conhecido).
Borrado era menino levado, órfão de pai, criado pelo destino e
pela mãe, que além dele criava mais quatro. Foi educado pela vida.
Na escola de primeiro grau Cândido Marinho era mestre na arte de
matar aulas e, às duras penas, concluiu o primeiro ano primário —
aprendeu o básico e nada mais. Desenhava muito mal o nome e acabou
abandonando os estudos para dedicar-se à arte do fazer nada.
Mas Borrado era moleque esperto e, apesar de quase nada escrever e
mal ler, era bom de matemática: aprendeu perdendo. Nas divisões de
bolinhas de gude, nas balas do dia de São Cosme e Damião, tornou-se
ótimo na arte de dividir — pelo menos ótimo para ele. Aprendeu
que, para dividir onze balas entre dois, bastava colocar uma no
bolso; o restante dava cinco para cada um.
Tornou-se figurinha fácil no álbum da estória do Soteco.
Conhecia todo mundo e tinha um bocado de amigos. Meu cunhado Nílton
— conhecido na época por “Niltinho Buchada” — figurava nesse
seleto grupo. A partir daqui chamarei Niltinho simplesmente de
Buchada.
Quando Buchada era mais novo, era miúdo, magricela e dono de uma
proeminente saliência peitoral, o famoso “peito de pombo”. Era o
queridinho do pai, que, quando rapazote, lhe deu uma bicicleta de
presente. Não era nova, mas era o objeto de desejo da molecada.
Atrás daquele peito de pombo havia um enorme coração — e, ainda
que os ossos lhe saltassem e o tempo lhe cobrisse de uma grossa
camada de gordura, o coração do Buchada (que hoje atende por
“Biquinho”) continuava enorme.
Já o Borrado padecia do mal do bicho carpinteiro: não sossegava.
Apesar de nunca ter possuído uma bicicleta própria, nunca andava a
pé — sempre havia um amigo que lhe emprestava. O campeão em
empréstimos para o Borrado era o Buchada; vira e mexe o Borrado dava
os rolês com a bike do Buchada. Buchada emprestou tantas vezes que
muitos já não sabiam se a bicicleta pertencia a um ou a outro;
lembro que houve ocasiões em que era o Buchada quem pedia a magrela
emprestada ao Borrado.
E como era de se esperar, pela índole moldada pela vida, não deu
outra: numa dessas o Borrado aprontou para cima do próprio amigo
Buchada. Era manhã de domingo; Borrado, alegando motivo de vida ou
morte, pediu mais uma vez a bicicleta, comprometendo-se a devolvê-la
em no máximo dez minutos. Buchada emprestou sem preocupações, mas
deu um recado: “não se esqueça, preciso dela amanhã logo cedo
para ir trabalhar”. E assim o Borrado tomou a magrela emprestada
pela última vez e seguiu rumo ao seu destino.
Passaram-se os dez minutos prometidos — e nada do Borrado.
Trinta. Uma hora. Foi ficando tarde e mais tarde, e nada do Borrado
com a magrela. Lá de casa eu podia ouvir os “conselhos” que o
Seu Bino dava a Buchada: “Tá vendo, eu não te falei, seu bobo? Eu
sabia! E agora, como vai trabalhar amanhã? Até que demorou para
isso acontecer!”. Mas o Buchada, certo de que um imprevisto
ocorrera, argumentou que outras vezes o Borrado atrasara e sempre
devolvera a bicicleta. Ainda resmungando, Seu Bino foi deitar-se;
Buchada deu mais um tempo na varanda, esperançoso de não ter de ir
trabalhar a pé no dia seguinte.
A cada som característico de bicicletas passando na rua, o pobre
Buchada enchia-se de esperanças: “agora é ele, tem que ser ele”,
pensava. Qual nada — passaram mais de vinte bicicletas, mas o
Borrado, que seria o bom, nada. Já era mais de dez horas da noite
quando Buchada, enfim, perdeu as esperanças e foi deitar-se. Dormir,
porém, que é bom, não conseguiu: não parava de pensar no que
poderia ter acontecido com o amigo e, principalmente, com sua
bicicleta.
Amanheceu e nada. Mais uma vez lá de casa ouvi Seu Bino: “hoje
você vai trabalhar com a minha bicicleta, mas depois eu vou lá no
morro — sei bem onde ele mora — e terei uma conversa com a mãe
daquele traste”. Aquele dia Seu Bino não foi; preferiu esperar
mais uns dias, talvez a situação se resolvesse sem levar mais
desgosto à pobre lavadeira, mãe do Borrado. A semana passou e nada
do Borrado. No sábado, Seu Bino não se conteve: subiu o morro até
a casa da lavadeira.
“Bom dia, dona Maria, cadê o Borrado?” perguntou ele, tendo
como resposta um olhar choroso e um: “Prenderam meu menino
injustamente, Seu Bino. Ele saiu de bicicleta domingo pra ir à
igreja e depois soube que ele foi preso porque andava com más
companhias. Estou desesperada — o transferiram para aquele lugar
onde ficam os malandros que mexem com coisa errada — mas ele é
direito, nunca mexeu com coisa errada, e o senhor sabe disso.” Seu
Bino já não cabia em si; adiantou o propósito da visita: “Dona
Maria, o Borrado passou aqui domingo e pegou a bicicleta do Nílton
emprestada e não apareceu mais. Quero saber quem vai pagar o
prejuízo.” Dona Maria, vendo que Seu Bino não estava para
brincadeiras, tentou acalmá-lo e comprometeu-se a pagar cem reais,
em dez parcelas de dez reais — era esse o máximo mensal que podia
pagar.
Estando tudo combinado, Seu Bino foi para casa. Lá chegando, logo
disse: “Comigo é assim: ninguém me faz de besta, não. Mas tou
vendo — se fosse o Nílton ela teria enrolado e ficaria o dito pelo
não dito; e claro, seria ele que ficaria com o prejuízo. Mas comigo
o buraco é mais embaixo.” Durante aquela semana foi esse o assunto
do Seu Bino: a todos que encontrava, a quem ia encomendar gaiolas,
contava tim-tim por tim-tim a história de como recuperaria o
dinheiro da bicicleta que o Borrado teria “roubado” do seu filho.
Coincidentemente, eu e o Seu Bino estávamos em frente à sua casa
quando, de repente, o Borrado chegou e nos cumprimentou cheio de
cordialidades e bendizeres. Irreconhecível: roupa social, cabelo
estilo “vaca-lambeu”, e debaixo do braço uma velha Bíblia.
Antes que Seu Bino dissesse qualquer coisa, ele ajoelhou-se e começou
a expor seu arrependimento por haver se misturado a más companhias;
assegurou que a semana atrás das grades lhe mostrara o verdadeiro
caminho — que agora era servo de Deus.
“Minha mãe contou a vergonha que passou ao ser cobrada pelo
senhor, Seu Bino, e eu estou aqui pra resolver esse mal-entendido.
Agora sou servo de Deus.”
E ali, diante dos meus perplexos olhos, o Borrado olhou para meu
sogro: “Seu Bino, eu errei. Não tinha o direito de aprontar com o
Buchada nem com o senhor. Se o senhor me der um voto de confiança e
me ouvir, eu resolvo tudo agora. O que aconteceu foi o seguinte:
naquele dia, quando eu voltava pra devolver a bicicleta, meu primo
Cleitim pediu ela emprestada dizendo que voltaria em cinco
minutinhos, mas acabou me sacaneando. Deixou a magrela como garantia
lá na boca de fumo. Vim de lá agora; tentei convencer o chefe a
devolver a bicicleta, mas só entrega se eu pagar os dez paus de
fiança que meu primo ficou devendo. Aí eu pensei: eu vou, explico
tudo pro senhor, e se o senhor me emprestar os dez reais da fiança,
eu recupero a bike; minha mãe paga o senhor e todo mundo sai no
lucro — afinal, ela pagaria cem reais; vai gastar só dez. O senhor
teria que esperar dez meses pra receber tudo, mas se eu for lá e
voltar em vinte minutos, resolve-se tudo. Fazer assim é melhor pra
todo mundo. O que o senhor acha?”
“Tá bom, Borrado, vou te dar esse último voto de confiança —
vai lá e busca aquela bendita bicicleta que fica tudo certo e sua
mãe não vai ter que se sacrificar ainda mais”, falou Seu Bino.
E o Borrado respondeu: “Antes só mais um favor do senhor, e
tenho certeza de que o senhor vai entender minha situação.”
“O que você tá tramando dessa vez, Borrado? Fala de uma vez.”
perguntou meu sogro.
“Sabe o que é — eu tô com uma fome danada, e sei que o
senhor sempre tem um cafezinho fresco e aquele pão doce guardado no
armário. Tem como o senhor me arranjar um copo de café e um pão
com manteiga?”
Meu sogro olhou para o alto e respondeu: “Tá certo, Borrado.
Deixe-me ver se tenho o dinheiro aqui.” Olhei pro Borrado e ele deu
um sorrisinho maroto. Em seguida, meu sogro sacou uma nota de dez
reais e falou: “Toma, Borrado, vai lá e busca a bicicleta.” O
Borrado pegou a nota e perguntou: “O senhor não tem duas notas de
cinco não?” Recebeu um não como resposta e continuou ali parado;
foi quando Seu Bino falou: “Vai logo, Borrado, vai buscar a
bicicleta de uma vez.” Ele respondeu: “Ué, Seu Bino, e o copo de
café e o pão com manteiga que o senhor prometeu? Se eu sair andando
a pé, com a falta de costume que tenho, e com essa fome, não
consigo subir o morro — eu vô é cair pela rua afora.” Seu Bino
entrou e voltou com um copo descartável cheio de café e um pão
doce. O Borrado guardou os dez reais no bolso da calça, pegou o café
e o pão e disse: “Seu Bino, o senhor nunca vai se arrepender por
ter me dado esta chance; a partir de hoje eu sou outra pessoa.”
Saiu rua afora comendo o pão e tomando o café enquanto prendia a
Bíblia debaixo do sovaco.
Despedi-me do meu sogro e fui pra casa, de onde pude observar a
angústia dele enquanto esperava. Passaram-se os vinte minutos
combinados — e nada. Mais trinta. O meu sogro ainda aguardava na
calçada. Então fui até o portão: “E aí, Seu Bino, nada dele
ainda?”
— “Nada!” respondeu ele, já nitidamente muito chateado.
Assim prosseguiu até a tarde: entrava, tomava um café, acendia
um cigarro e voltava para a calçada. Já anoitecia quando ouvi os
gritos vindo da sua casa: “Eu vou matar aquele ladrão sem
vergonha!”, enquanto o Buchada satirizava: “Ué, não é o senhor
que é o cara, que não deixa por menos, que com o senhor o buraco é
mais embaixo? Ta vendo — agora, além da minha bicicleta, o danado
do Borrado levou mais dez mangos do senhor.
“Aquele desinfeliz ainda foi embora tomando o meu café e
comendo meu pão doce — se eu pego eu mato!” esbravejou.
Quem trouxe a má notícia foi um amigo do meu sogro, também
passarinheiro e vizinho da dona Maria, mãe do Borrado. Veio bater um
papo com Seu Bino e, ao ouvir que ele havia feito um acordo com o
Borrado, contou que viu o Borrado subindo na carroceria do caminhão
que levava a mudança da dona Maria lavadeira — destino: interior
de Minas.
E foi assim que o sacana do Borrado, travestido de evangélico e
com uma Bíblia debaixo do sovaco, aplicou aquele que seria o seu
último golpe por estas bandas dos sotequenses.
Reflexão:
As
ruas do Soteco são professoras implacáveis: nelas aprendemos sobre
generosidade, conta-se a história de quem dá e de quem tira
proveito. O gesto de emprestar — tão simples, tão humano — pode
ser lei de socorro ou armadilha. Fica a lição: a bondade é sempre
válida, mesmo quando nos deixa no prejuízo; e a desonra de um só
não apaga o valor da confiança que muitos ainda oferecem. E, se há
nostalgia, que seja por aqueles corações grandes que continuam se
abrindo — mesmo sabendo que, vez ou outra, alguma “magrela” não
volta.