sábado, 1 de novembro de 2025

Humanismo Político: Entre o Lucro e a Igualdade



Por Dag Vulpi

Socialismo e capitalismo são expressões distintas de uma mesma busca humana: a tentativa de construir um mundo mais justo. O desafio não é escolher entre eles, mas reencontrar o centro — o ponto em que a economia e a política voltam a servir à vida. Esse ponto chama-se humanismo político.

Ao longo da história, o homem tem se dividido entre dois grandes impulsos: o de criar e o de repartir.
Do primeiro nasce o 
capitalismo, que celebra a liberdade, o mérito e o poder transformador do esforço individual.
Do segundo, surge o 
socialismo, que valoriza a solidariedade, a partilha e a ideia de que o bem coletivo é o verdadeiro avanço civilizatório.

Ambos nascem de virtudes humanas legítimas, mas se corrompem quando se esquecem de seu propósito original: a dignidade do ser humano.

O capitalismo, quando perde o senso de limite, transforma o mérito em desculpa para a desigualdade e o lucro em valor supremo. O socialismo, quando ignora a liberdade, sufoca a criatividade e a individualidade — motores essenciais da evolução humana.
Entre esses dois extremos, há um campo fértil que a humanidade ainda não aprendeu a cultivar: o campo do 
humanismo político.

humanismo político não é um novo sistema, mas uma consciência.
É a ideia de que todas as estruturas — sejam econômicas, sociais ou estatais — devem se submeter à primazia da vida, da ética e da convivência.
Ele reconhece no socialismo o valor da solidariedade e, no capitalismo, o poder da liberdade; mas entende que ambos só ganham sentido quando colocados a serviço do ser humano, e não o contrário.

Ser humanista politicamente é recusar o fanatismo ideológico e entender que nenhuma bandeira é mais importante que a mão que a sustenta.
É perceber que os índices econômicos valem menos que a esperança de quem acorda cedo para trabalhar.
É admitir que o progresso material não redime a injustiça, e que a igualdade imposta não produz harmonia.

O humanismo político é a terceira margem do rio:
nem a corrente do lucro desmedido, nem a maré da uniformidade forçada.
É o lugar do diálogo, da ponderação e da responsabilidade coletiva.
Seu propósito não é unir extremos, mas 
recolocar o homem no centro da política, devolvendo-lhe o protagonismo que as ideologias tomaram de assalto.

Quando o socialismo aprende a valorizar o indivíduo, e o capitalismo descobre o valor do coletivo, ambos se curvam diante do mesmo ideal: o de uma sociedade justa, livre e humana.
E é exatamente aí — nesse ponto de encontro — que o 
humanismo político floresce.


O futuro não pertence às ideologias, mas às consciências que as transcendem.
A humanidade só reencontrará seu equilíbrio quando o poder servir ao homem — e não o homem ao poder.
Esse é o desafio e o chamado do 
humanismo político: fazer da política uma ponte entre a justiça e a compaixão, entre a razão e a alma.

Quando o Sagrado e o Poder se Misturam


Por Dag Vulpi

A fronteira entre religião e política sempre foi tênue, mas indispensável. Quando um ultrapassa o território do outro, o resultado é confusão moral e enfraquecimento de ambos. O que nasce da fé se contamina pelo cálculo do poder, e o que deveria servir à coletividade se converte em instrumento de dogma.

Quando a religião é levada para dentro das casas legislativas, as leis dos homens entram inevitavelmente em conflito com as leis de Deus. E quando a política se instala nos altares, as palavras da Sagrada Escritura passam a disputar espaço com interesses humanos — muitas vezes disfarçados de virtude.

A fé perde sua pureza quando se torna bandeira partidária. A política, por sua vez, perde sua legitimidade quando se converte em púlpito. Ambas, quando misturadas, deixam de cumprir seus propósitos originais: uma deixa de iluminar, a outra deixa de governar com justiça.

O azeiteiro é o local apropriado para armazenar o azeite; já no decanter, repousa o vinho. Ambos possuem natureza distinta, recipientes próprios, ritos e finalidades diferentes. A tentativa de inverter ou misturar esses compostos conduz a um único desfecho: tanto o vinho quanto o azeite perdem seus aromas e sabores característicos — e, com eles, sua essência.

Assim também ocorre com a religião e a política: quando deixamos que uma se infiltre na função da outra, ambas perdem o sentido e corrompem o que há de mais precioso em cada uma — a fé que eleva e a justiça que liberta.


A crítica contemporânea à fusão entre fé e poder

As críticas à chamada bancada evangélica concentram-se justamente nesse ponto sensível: o uso da fé como instrumento de poder político. Analistas e observadores apontam que, ao buscar influência legislativa e executiva, parte dessa representação acaba promovendo um discurso que mistura dogmas religiosos com decisões públicas, comprometendo o princípio do Estado laico.

Entre as principais críticas estão:

  • Conservadorismo e direitos humanos: A bancada é frequentemente criticada por sua oposição a pautas relacionadas à diversidade, como aborto, eutanásia, casamento entre pessoas do mesmo sexo e igualdade de gênero. Tais posições, embora legitimadas pela liberdade religiosa, são vistas por muitos como obstáculos à ampliação dos direitos humanos e à convivência plural.

  • Politização da fé: Para críticos e estudiosos — inclusive em análises amplamente debatidas em plataformas como o YouTube —, a atuação da bancada se distancia dos ensinamentos de Cristo, que rejeitava a disputa pelo poder e pregava o amor e a compaixão. A associação direta entre fé e política, nesse sentido, é vista como um afastamento do espiritual em favor do eleitoral.

  • Influência excessiva e disputas políticas: Outro ponto recorrente é o uso do poder religioso para intervir em decisões de governo, pressionar o Congresso e garantir a aprovação de projetos de interesse de grupos específicos. Essa prática é interpretada como uma sobreposição de crenças particulares sobre o interesse coletivo.

  • Controvérsias em projetos de lei: Em redes como o Instagram e nos meios acadêmicos, levantam-se críticas à condução de projetos que tratam com superficialidade temas sensíveis como estupro, abuso e violência contra a mulher. Há preocupação de que interpretações moralistas possam fragilizar políticas públicas de proteção social.

  • Apropriação e polarização ideológica: Por fim, a bancada é frequentemente associada à manutenção de pautas conservadoras e à aproximação com lideranças políticas de viés ideológico, como o ex-presidente Jair Bolsonaro. Esse alinhamento, segundo críticos, reforça a polarização e enfraquece o diálogo democrático dentro das instituições.

Essas críticas não pretendem negar o papel social e espiritual das igrejas, mas alertam para os riscos que surgem quando a fé, em vez de guiar consciências, passa a comandar votos e legislações.


Reflexão:

A harmonia entre o sagrado e o profano não se encontra na fusão, mas no respeito aos limites que os separam. Fé e política só coexistem em paz quando cada uma permanece no espaço que lhe cabe — servindo, cada qual à sua maneira, ao bem comum. Quando o altar se torna palanque, o verbo se torna discurso, e a espiritualidade perde sua luz para o brilho fugaz do poder.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

O caso do tio do irmão do filho do pai do outro


Por Dag Vulpi

O crime do próprio avô

(ou: O caso do tio do irmão do filho do pai do outro)

Na pacata região de Caldeirão, interior de Santa Teresa — onde até o vento cochicha as fofocas antes que cheguem ao bar —, uma família conseguiu o impossível: confundir até o cartório. O pai viúvo casou-se com a filha da viúva. O filho do viúvo casou-se com a própria viúva — e o resto, como se diz, foi um nó de parentesco que nem Santo Antônio desatava.

Tudo corria bem até que um deles apareceu morto — e um bilhete deixado pela vítima prometia mais confusão que o próprio casamento da turma.


Diz a sabedoria popular que certas histórias não precisam nascer, apenas renascem de tempos em tempos em novas bocas.

Esta que se conta aqui é uma interpretação literária de um causo antigo, conhecido em várias versões pelo interior do Brasil — e que, no Espírito Santo, ganhou sotaque serrano e endereço certo: Tabócas, em Santa Teresa.


Tudo começou com dois viúvos e dois corações solitários.

O pai, homem vivido, achou consolo na mocidade da filha da viúva. Já o filho, impressionado com a experiência da viúva, casou-se com ela.

E assim, de repente:

  • o pai virou genro do filho;

  • o filho virou sogro do pai;

  • a moça tornou-se madrasta do marido da mãe;

  • a mãe virou nora da própria filha.


Deu-se então que nasceram filhos dos dois casais — e, com eles, a genealogia entrou oficialmente em colapso.

O menino do casal mais velho era, simultaneamente, irmão e tio do menino do casal mais novo.

E como o filho havia se casado com a mãe da esposa do pai, acabou sendo também avô do próprio irmão — ou, como resumiu o padre da paróquia:

“Nessa família, é mais fácil achar o Espírito Santo do que entender o parentesco.”


Até que, numa manhã de domingo, o riso se calou.

Um dos membros da família foi encontrado desfeito de vida no quintal dos fundos, ao lado de um bilhete escrito com tremor e tinta borrada:

“Quem me matou foi o tio do meu irmão.”

A frase caiu como um trovão na vila. Porque ali, todo mundo era tio de alguém e irmão de quase todo mundo.


Chamaram então o doutor Ambrósio Carlini, advogado do distrito — homem de fala enrolada, chapéu gasto e faro apurado para intrigas de herança e galinha sumida.

Ao chegar, examinou o bilhete, coçou o queixo e perguntou:
— E quem é o tio do irmão do defunto?

O silêncio foi geral.

Depois de duas horas de conversa, três cadernos de anotações e vários cafezinhos, o doutor concluiu que o “tio do irmão” podia ser, ao mesmo tempo:

  • o pai,

  • o avô,

  • o genro,

  • o sogro,

  • ou ele próprio, dependendo de quem estivesse contando.

E foi então que Ambrósio decretou:

“Esse caso só se resolve com árvore genealógica, compasso e bênção de padre. Porque aqui o morto é vítima, suspeito e parente dele mesmo.”

Desde aquele dia, o caso ficou conhecido como “O crime do próprio avô”, e até hoje, quando alguém de Caldeirão se casa com parente distante, o povo comenta:

“Cuidado, que depois dá morte e bilhete!”


Reflexão:

No interior, onde o tempo anda devagar e as famílias se multiplicam por afinidade e conveniência, os laços de sangue às vezes viram nós de novela.

E se a lógica não explica, o riso explica por ela.

Afinal, como dizia o velho doutor Ambrósio:

Família é coisa séria, mas quando o avô é o próprio neto, o melhor é rir pra não enlouquecer.”

O Buchada, o Borrado e a Magrela

Por Dag Vulpi

Contos do Soteco: memórias vivas dos anos 2000 — quando a bondade e a esperteza andavam de bicicleta lado a lado, e a fé às vezes vinha embrulhada em artimanha. Uma história verdadeira sobre empréstimos, confiança e as reviravoltas que a rua sabe dar.


O “buchada”, o borrado e a magrela. Quem apronta uma primeira vez, pode aprontar de novo…

Pois bem: seguindo minha proposta de trazer contos vividos no bairro Soteco — depois dos contos dos anos 70, hoje trago um dos primórdios dos anos 2000. É a estória do Niltinho Buchada e do seu mui amigo Borrado. Recupero mais um conto verídico que vivenciei lá pelos anos 2000 e que teve como protagonistas meu sogro — Seu Bino (in memória) — meu cunhado Nílton e o serelepe Borrado (deste último nunca soube — e talvez nunca saberei — o nome verdadeiro; por isso o chamarei Borrado, como era conhecido).

Borrado era menino levado, órfão de pai, criado pelo destino e pela mãe, que além dele criava mais quatro. Foi educado pela vida. Na escola de primeiro grau Cândido Marinho era mestre na arte de matar aulas e, às duras penas, concluiu o primeiro ano primário — aprendeu o básico e nada mais. Desenhava muito mal o nome e acabou abandonando os estudos para dedicar-se à arte do fazer nada.

Mas Borrado era moleque esperto e, apesar de quase nada escrever e mal ler, era bom de matemática: aprendeu perdendo. Nas divisões de bolinhas de gude, nas balas do dia de São Cosme e Damião, tornou-se ótimo na arte de dividir — pelo menos ótimo para ele. Aprendeu que, para dividir onze balas entre dois, bastava colocar uma no bolso; o restante dava cinco para cada um.

Tornou-se figurinha fácil no álbum da estória do Soteco. Conhecia todo mundo e tinha um bocado de amigos. Meu cunhado Nílton — conhecido na época por “Niltinho Buchada” — figurava nesse seleto grupo. A partir daqui chamarei Niltinho simplesmente de Buchada.

Quando Buchada era mais novo, era miúdo, magricela e dono de uma proeminente saliência peitoral, o famoso “peito de pombo”. Era o queridinho do pai, que, quando rapazote, lhe deu uma bicicleta de presente. Não era nova, mas era o objeto de desejo da molecada. Atrás daquele peito de pombo havia um enorme coração — e, ainda que os ossos lhe saltassem e o tempo lhe cobrisse de uma grossa camada de gordura, o coração do Buchada (que hoje atende por “Biquinho”) continuava enorme.

Já o Borrado padecia do mal do bicho carpinteiro: não sossegava. Apesar de nunca ter possuído uma bicicleta própria, nunca andava a pé — sempre havia um amigo que lhe emprestava. O campeão em empréstimos para o Borrado era o Buchada; vira e mexe o Borrado dava os rolês com a bike do Buchada. Buchada emprestou tantas vezes que muitos já não sabiam se a bicicleta pertencia a um ou a outro; lembro que houve ocasiões em que era o Buchada quem pedia a magrela emprestada ao Borrado.

E como era de se esperar, pela índole moldada pela vida, não deu outra: numa dessas o Borrado aprontou para cima do próprio amigo Buchada. Era manhã de domingo; Borrado, alegando motivo de vida ou morte, pediu mais uma vez a bicicleta, comprometendo-se a devolvê-la em no máximo dez minutos. Buchada emprestou sem preocupações, mas deu um recado: “não se esqueça, preciso dela amanhã logo cedo para ir trabalhar”. E assim o Borrado tomou a magrela emprestada pela última vez e seguiu rumo ao seu destino.

Passaram-se os dez minutos prometidos — e nada do Borrado. Trinta. Uma hora. Foi ficando tarde e mais tarde, e nada do Borrado com a magrela. Lá de casa eu podia ouvir os “conselhos” que o Seu Bino dava a Buchada: “Tá vendo, eu não te falei, seu bobo? Eu sabia! E agora, como vai trabalhar amanhã? Até que demorou para isso acontecer!”. Mas o Buchada, certo de que um imprevisto ocorrera, argumentou que outras vezes o Borrado atrasara e sempre devolvera a bicicleta. Ainda resmungando, Seu Bino foi deitar-se; Buchada deu mais um tempo na varanda, esperançoso de não ter de ir trabalhar a pé no dia seguinte.

A cada som característico de bicicletas passando na rua, o pobre Buchada enchia-se de esperanças: “agora é ele, tem que ser ele”, pensava. Qual nada — passaram mais de vinte bicicletas, mas o Borrado, que seria o bom, nada. Já era mais de dez horas da noite quando Buchada, enfim, perdeu as esperanças e foi deitar-se. Dormir, porém, que é bom, não conseguiu: não parava de pensar no que poderia ter acontecido com o amigo e, principalmente, com sua bicicleta.

Amanheceu e nada. Mais uma vez lá de casa ouvi Seu Bino: “hoje você vai trabalhar com a minha bicicleta, mas depois eu vou lá no morro — sei bem onde ele mora — e terei uma conversa com a mãe daquele traste”. Aquele dia Seu Bino não foi; preferiu esperar mais uns dias, talvez a situação se resolvesse sem levar mais desgosto à pobre lavadeira, mãe do Borrado. A semana passou e nada do Borrado. No sábado, Seu Bino não se conteve: subiu o morro até a casa da lavadeira.

“Bom dia, dona Maria, cadê o Borrado?” perguntou ele, tendo como resposta um olhar choroso e um: “Prenderam meu menino injustamente, Seu Bino. Ele saiu de bicicleta domingo pra ir à igreja e depois soube que ele foi preso porque andava com más companhias. Estou desesperada — o transferiram para aquele lugar onde ficam os malandros que mexem com coisa errada — mas ele é direito, nunca mexeu com coisa errada, e o senhor sabe disso.” Seu Bino já não cabia em si; adiantou o propósito da visita: “Dona Maria, o Borrado passou aqui domingo e pegou a bicicleta do Nílton emprestada e não apareceu mais. Quero saber quem vai pagar o prejuízo.” Dona Maria, vendo que Seu Bino não estava para brincadeiras, tentou acalmá-lo e comprometeu-se a pagar cem reais, em dez parcelas de dez reais — era esse o máximo mensal que podia pagar.

Estando tudo combinado, Seu Bino foi para casa. Lá chegando, logo disse: “Comigo é assim: ninguém me faz de besta, não. Mas tou vendo — se fosse o Nílton ela teria enrolado e ficaria o dito pelo não dito; e claro, seria ele que ficaria com o prejuízo. Mas comigo o buraco é mais embaixo.” Durante aquela semana foi esse o assunto do Seu Bino: a todos que encontrava, a quem ia encomendar gaiolas, contava tim-tim por tim-tim a história de como recuperaria o dinheiro da bicicleta que o Borrado teria “roubado” do seu filho.

Coincidentemente, eu e o Seu Bino estávamos em frente à sua casa quando, de repente, o Borrado chegou e nos cumprimentou cheio de cordialidades e bendizeres. Irreconhecível: roupa social, cabelo estilo “vaca-lambeu”, e debaixo do braço uma velha Bíblia. Antes que Seu Bino dissesse qualquer coisa, ele ajoelhou-se e começou a expor seu arrependimento por haver se misturado a más companhias; assegurou que a semana atrás das grades lhe mostrara o verdadeiro caminho — que agora era servo de Deus.

“Minha mãe contou a vergonha que passou ao ser cobrada pelo senhor, Seu Bino, e eu estou aqui pra resolver esse mal-entendido. Agora sou servo de Deus.”

E ali, diante dos meus perplexos olhos, o Borrado olhou para meu sogro: “Seu Bino, eu errei. Não tinha o direito de aprontar com o Buchada nem com o senhor. Se o senhor me der um voto de confiança e me ouvir, eu resolvo tudo agora. O que aconteceu foi o seguinte: naquele dia, quando eu voltava pra devolver a bicicleta, meu primo Cleitim pediu ela emprestada dizendo que voltaria em cinco minutinhos, mas acabou me sacaneando. Deixou a magrela como garantia lá na boca de fumo. Vim de lá agora; tentei convencer o chefe a devolver a bicicleta, mas só entrega se eu pagar os dez paus de fiança que meu primo ficou devendo. Aí eu pensei: eu vou, explico tudo pro senhor, e se o senhor me emprestar os dez reais da fiança, eu recupero a bike; minha mãe paga o senhor e todo mundo sai no lucro — afinal, ela pagaria cem reais; vai gastar só dez. O senhor teria que esperar dez meses pra receber tudo, mas se eu for lá e voltar em vinte minutos, resolve-se tudo. Fazer assim é melhor pra todo mundo. O que o senhor acha?”

“Tá bom, Borrado, vou te dar esse último voto de confiança — vai lá e busca aquela bendita bicicleta que fica tudo certo e sua mãe não vai ter que se sacrificar ainda mais”, falou Seu Bino.

E o Borrado respondeu: “Antes só mais um favor do senhor, e tenho certeza de que o senhor vai entender minha situação.”

“O que você tá tramando dessa vez, Borrado? Fala de uma vez.” perguntou meu sogro.

“Sabe o que é — eu tô com uma fome danada, e sei que o senhor sempre tem um cafezinho fresco e aquele pão doce guardado no armário. Tem como o senhor me arranjar um copo de café e um pão com manteiga?”

Meu sogro olhou para o alto e respondeu: “Tá certo, Borrado. Deixe-me ver se tenho o dinheiro aqui.” Olhei pro Borrado e ele deu um sorrisinho maroto. Em seguida, meu sogro sacou uma nota de dez reais e falou: “Toma, Borrado, vai lá e busca a bicicleta.” O Borrado pegou a nota e perguntou: “O senhor não tem duas notas de cinco não?” Recebeu um não como resposta e continuou ali parado; foi quando Seu Bino falou: “Vai logo, Borrado, vai buscar a bicicleta de uma vez.” Ele respondeu: “Ué, Seu Bino, e o copo de café e o pão com manteiga que o senhor prometeu? Se eu sair andando a pé, com a falta de costume que tenho, e com essa fome, não consigo subir o morro — eu vô é cair pela rua afora.” Seu Bino entrou e voltou com um copo descartável cheio de café e um pão doce. O Borrado guardou os dez reais no bolso da calça, pegou o café e o pão e disse: “Seu Bino, o senhor nunca vai se arrepender por ter me dado esta chance; a partir de hoje eu sou outra pessoa.”

Saiu rua afora comendo o pão e tomando o café enquanto prendia a Bíblia debaixo do sovaco.

Despedi-me do meu sogro e fui pra casa, de onde pude observar a angústia dele enquanto esperava. Passaram-se os vinte minutos combinados — e nada. Mais trinta. O meu sogro ainda aguardava na calçada. Então fui até o portão: “E aí, Seu Bino, nada dele ainda?”

— “Nada!” respondeu ele, já nitidamente muito chateado.

Assim prosseguiu até a tarde: entrava, tomava um café, acendia um cigarro e voltava para a calçada. Já anoitecia quando ouvi os gritos vindo da sua casa: “Eu vou matar aquele ladrão sem vergonha!”, enquanto o Buchada satirizava: “Ué, não é o senhor que é o cara, que não deixa por menos, que com o senhor o buraco é mais embaixo? Ta vendo — agora, além da minha bicicleta, o danado do Borrado levou mais dez mangos do senhor.

“Aquele desinfeliz ainda foi embora tomando o meu café e comendo meu pão doce — se eu pego eu mato!” esbravejou.

Quem trouxe a má notícia foi um amigo do meu sogro, também passarinheiro e vizinho da dona Maria, mãe do Borrado. Veio bater um papo com Seu Bino e, ao ouvir que ele havia feito um acordo com o Borrado, contou que viu o Borrado subindo na carroceria do caminhão que levava a mudança da dona Maria lavadeira — destino: interior de Minas.

E foi assim que o sacana do Borrado, travestido de evangélico e com uma Bíblia debaixo do sovaco, aplicou aquele que seria o seu último golpe por estas bandas dos sotequenses.


Reflexão:
As ruas do Soteco são professoras implacáveis: nelas aprendemos sobre generosidade, conta-se a história de quem dá e de quem tira proveito. O gesto de emprestar — tão simples, tão humano — pode ser lei de socorro ou armadilha. Fica a lição: a bondade é sempre válida, mesmo quando nos deixa no prejuízo; e a desonra de um só não apaga o valor da confiança que muitos ainda oferecem. E, se há nostalgia, que seja por aqueles corações grandes que continuam se abrindo — mesmo sabendo que, vez ou outra, alguma “magrela” não volta.

O Dia em que Beija-Flor Perdeu o Gás

 


Por Dag Vulpi

Há dias em que manter a serenidade é um exercício de sobrevivência. Quando tudo conspira contra e a paciência ameaça pedir demissão, é aí que se revela o verdadeiro caráter do sujeito.
E foi num desses dias, lá pelos idos da década de 1990, que o extrovertido, falante e sempre de bem com a vida Beija-Flor, morador do bairro da Glória, em Vila Velha (ES), se viu em apuros — e sem café.

Beija-Flor era figura conhecida na Glória. Homem de boa índole, funcionário da prefeitura há mais de trinta anos, desses que já tinham visto prefeitos, secretários e chefes passarem como as marés da Prainha da Glória
Ele ficou. E sua longevidade no serviço público lhe rendeu certas regalias — as costumeiras do tempo em que o relógio de ponto ainda era de papel e amizade valia mais que protocolo.

Boêmio, bom de conversa, amigo de todos e dono de pequenos vícios — inofensivos e, de certa forma, humanos. Seu maior prazer era criar pássaros: curiós, coleirinhas e trinca-ferros que, segundo ele, cantavam mais bonito que o próprio vento.
Nas rodas de disputa — os famosos “rachas” de sábado — seus pássaros eram imbatíveis. Ou, pelo menos, era assim que ele garantia.
E ai de quem ousasse discordar.

Seu xodó maior atendia por Pepê, um coleirinha valente que, nas manhãs de sol, era motivo de orgulho e briga.
Na mesma rua morava Carlinho Pereá, criador de pássaros e rival de longa data. Os dois se bicavam desde os tempos de juventude — e como em toda boa rivalidade de bairro, ninguém sabia mais quem começou.

Mas o caso de hoje não é sobre o Pepê nem sobre os rachas. É sobre o dia em que Beija-Flor acordou cedo demais e confiou de menos.

Era madrugada. O relógio marcava quatro da manhã quando ele levantou, como sempre, pra preparar o café. Ligou o rádio AM — daqueles com chiado e voz de locutor de interior — e foi direto à cozinha.
De repente, ouviu um barulho no quintal. Espiou pela janela e avistou um sujeito carregando uma botija de gás. O homem, percebendo o flagrante, se apressou em dizer:
— Ô cumpadi, não quer comprar essa botija, não? Tá cheia. Tô vendendo pra comprar remédio pro meu menino.

Beija-Flor desconfiou. “Vai que é roubada”, pensou. E recusou:
— Melhor não, parceiro. Pode seguir teu caminho.

O homem agradeceu, pediu desculpas e sumiu na escuridão.
Beija-Flor voltou satisfeito à cozinha, sentindo-se prudente. Colocou a chaleira, riscou o fósforo — e nada.
O gás havia acabado.

Olhou o relógio e lamentou a ironia:
— Se eu soubesse, tinha comprado a botija daquele infeliz...

Resignado, foi soltar a válvula da botija vazia, mas, ao acender a luz da área, só viu a mangueira solta.
A botija já tinha sido levada.

Beija-Flor jogou o boné no chão e xingou o destino em alto e bom som.
Mas pior que o prejuízo foi o vexame. Bastou comentar o caso com o dono da quitanda — o Suíno — para que, antes das nove da manhã, o bairro inteiro já soubesse do “roubo do gás do Beija-Flor”.
E, como se sabe, fofoca naquela época corria mais rápido que ligação a cobrar.

Virou motivo de riso, o gozador virou gozado, e o rei das piadas foi coroado bobo da vez.
Sem saída, Beija-Flor tirou férias — as primeiras da vida — e se mandou pro interior, pra casa do irmão, esperando o tempo apagar o constrangimento.

O tempo passou. O caso virou história de esquina, lembrança de bar e, hoje, memória de um tempo em que os risos eram mais leves e os vexames, mais humanos.

Ouvi essa história pessoalmente, contada num fim de tarde entre risadas, café coado e cheiro de serragem, durante uma conversa entre o próprio Beija-Flor e o meu falecido sogro, seu Bino — também amante dos pássaros e exímio fabricante de gaiolas caseiras.
Homem de fala mansa, riso fácil e alma simples, seu Bino, aliás, terá em breve suas próprias histórias recordadas neste mesmo espaço.

E eu, que testemunhei aquele diálogo, deixo aqui o registro do dia em que Beija-Flor perdeu o gás — e parte da pose.


Reflexão

As histórias que ouvimos dos antigos têm um perfume que o tempo não apaga.
São pequenas memórias que, contadas ao pé da conversa, mantêm viva a essência dos dias simples — quando bastava um rádio chiando na cozinha e uma boa risada no quintal pra vida parecer mais leve.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Reforma Administrativa: eficiência ou retrocesso disfarçado de modernização?


Por Dag Vulpi

Em meio a um cenário de cortes orçamentários e discursos sobre “eficiência estatal”, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Reforma Administrativa volta ao centro das discussões no Congresso Nacional. Defendida como um passo necessário rumo à modernização e ao combate a privilégios, a proposta divide opiniões entre especialistas, servidores e parlamentares.
Por trás do discurso de racionalização da máquina pública, há quem enxergue uma tentativa velada de reduzir direitos adquiridos, fragilizar carreiras e enfraquecer o próprio Estado — abrindo brechas para a privatização indireta de funções essenciais.

O que propõe a PEC

Apresentada sob o argumento de “tornar o Estado mais ágil e eficiente”, a PEC da Reforma Administrativa pretende alterar dispositivos constitucionais relacionados ao funcionalismo público. Entre as principais mudanças propostas estão:

  • Fim da estabilidade automática para futuros servidores, restringindo-a a carreiras consideradas típicas de Estado.

  • Criação de novos tipos de vínculos empregatícios, com contratos temporários e mais flexíveis.

  • Redução de benefícios e progressões automáticas, visando “premiar o mérito”.

  • Autorização para que o governo adote práticas de gestão digital, ampliando a terceirização e o uso de tecnologias privadas.

  • Limitação de privilégios e distorções salariais, especialmente nos altos escalões do serviço público.

O texto, segundo os parlamentares, busca “valorizar o bom servidor” e eliminar distorções que geram desigualdade entre carreiras. Já seus críticos afirmam que o projeto abre caminho para a precarização e politização da administração pública, com risco de comprometer a impessoalidade e a continuidade das políticas de Estado.

Deputados Federais do Espírito Santo e a Reforma Administrativa

Assinaram a PEC:

  • Evair Vieira de Melo (PP-ES) — Vice-líder do governo na Câmara, defende a reforma como instrumento de modernização e digitalização dos serviços públicos.

  • Amaro Neto (Republicanos-ES) — Apoia a PEC, afirmando que ela “aumentará a transparência e a produtividade” na gestão pública.

Não assinaram ou se posicionaram contrários (até o momento):

  • Helder Salomão (PT-ES) — Considera a PEC um retrocesso que ameaça direitos e a estabilidade do funcionalismo.

  • Jack Rocha (PT-ES) — Defende uma modernização sem precarizar o trabalho público.

  • Gilson Daniel (Podemos-ES) — Declara ser preciso debater com mais profundidade os impactos da reforma.

  • Lauriete (PL-ES) — Não assinou e não se manifestou publicamente sobre a proposta.

  • Da Vitória (PP-ES) — Apesar de seu partido apoiar o texto, não figura entre os signatários iniciais.

  • Norma Ayub (PP-ES) — Também não assinou o texto e mantém posição discreta sobre o tema.

“A participação dos representantes capixabas nesta PEC merece ser observada com atenção. Afinal, é o tipo de proposta que, sob o pretexto de modernizar, pode redefinir o futuro de milhares de servidores e a própria estrutura de funcionamento do Estado.”

Análise Crítica – Entre o discurso e a prática

A Reforma Administrativa surge como promessa de um Estado mais leve e eficiente, mas carrega implicações profundas e controversas.
De um lado, reconhece-se a necessidade de atualização do modelo burocrático brasileiro, que muitas vezes se mostra lento, caro e ineficiente. A digitalização dos serviços e a avaliação por desempenho podem, de fato, trazer ganhos de qualidade e transparência.

Por outro lado, há o risco de transformar a administração pública em um laboratório de experiências neoliberais, onde a meritocracia serve de justificativa para cortes e substituições de servidores estáveis por contratos temporários.
A fragilização da estabilidade funcional — pilar da impessoalidade no serviço público — pode abrir espaço para interferências políticas, perseguições e troca de cargos por favores, desfigurando o princípio republicano.

Além disso, a redução de direitos e garantias trabalhistas pode afastar profissionais qualificados, impactando diretamente áreas sensíveis como saúde, educação e segurança pública.

Em resumo, a proposta carrega tanto o mérito de atualizar estruturas obsoletas quanto o perigo de comprometer a essência do serviço público: servir à sociedade, e não a governos.

Conclusão

A PEC da Reforma Administrativa, se aprovada, representará uma das maiores mudanças no setor público desde a Constituição de 1988.
Porém, o debate precisa ser transparente, técnico e democrático.
Antes de se falar em cortar privilégios, é fundamental proteger o que ainda garante a integridade do Estado brasileiro — sua capacidade de funcionar com independência, continuidade e foco no interesse público.

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