terça-feira, 28 de outubro de 2025

Meu Último Duelo com Django

Por Dag Vulpi

Naquele tempo, o medo tinha nome, rosto e chapéu de abas largas. Crescer nos anos 70, em um bairro recém-nascido e cheio de personagens improváveis, era viver entre a inocência das brincadeiras e o susto dos monstros reais — aqueles que não saíam da televisão, mas dobravam a esquina.

O maior terror da meninada daqueles dias não vinha dos filmes de faroeste nem das histórias de assombração.
Nossos vilões eram de carne e osso, moradores das mesmas ruas, frequentadores das mesmas esquinas.
E havia muitos deles.

Vivíamos em plena década de 1970 — tempo de ditadura, êxodo e esperanças empacotadas em carrocerias de caminhão.

Gente de todo canto do Brasil partia rumo às cidades grandes em busca de um futuro mais promissor.
Cada mudança que chegava trazia não apenas móveis e sonhos, mas também um novo personagem para o nosso catálogo de curiosidades humanas.

Minha família estava entre as que decidiram mudar o rumo da própria história.
Viemos do interior do Espírito Santo, de uma grande fazenda de café que pertencia ao meu avô materno.
Mas ser neto do dono não significava fartura: meus pais eram meeiros, e o pouco que se colhia dividia-se em partes iguais.

Essa, porém, é outra história — prometo contá-la em postagem futura.
Hoje, quero falar de alguns personagens do Soteco dos anos 70.

O bairro já fervilhava de figuras “diferentes” — aos nossos olhos infantis, qualquer detalhe bastava para distinguir alguém: um penteado, um jeito de falar, um andar desajeitado.
Bastava uma frase fora de lugar para que o recém-chegado ganhasse um apelido e fosse eternizado como personagem.

Naquela época, ainda não existia o “politicamente correto” nem a palavra bullying.
Éramos apenas crianças rindo de nossas próprias crueldades ingênuas.

Tínhamos um elenco invejável: Patronzinho, Maria Sujinha, Gabiroba, Maria Taroira, Galerão, Índio, Paulinho Caveirinha... e o mais temido de todos: Django.

Django era um homem alto, forte, calado e sempre de chapéu preto.
Passava os dias vagando pelo bairro em silêncio, e a molecada não lhe dava trégua.
Aos poucos, ele passou a nos odiar com razão — e nós, a temê-lo com o mesmo fervor.

Por algum motivo, Django começou a aparecer nos arredores do Colégio Cândido Marinho — o único da região, portanto, o centro nervoso da infância sotequense.
Ele surgia nos horários exatos das entradas, recreios e saídas.
Parecia ter decidido enfrentar a criançada, e isso causava pânico em pais, alunos e até em Dona Glórinha, a temida diretora.

Mas nós, os “veteranos” de oito a dez anos, não recuávamos.
Armados de nossas pistolas de madeira enfiadas no cós do short, transformávamos cada esquina num cenário de faroeste.
O som de nossas bocas imitava os tiros, e Django corria atrás de nós, desengonçado, espumando de raiva.
Era o terror em forma humana — e, de certo modo, também parte do espetáculo.

Até que um dia, o inevitável aconteceu.

Um de nós teve de sair sozinho.
A mãe mandou o menino à mercearia Sipolatti, e ele tentou argumentar, mas não teve apelo.
A rua estava deserta.
Chamou pelo amigo da casa em frente — silêncio.

Sem opção, foi.
E foi de fininho, colado nas cercas, coração disparado.
Chegou são e salvo.
Comprou o que precisava, o Tio Severino anotou na caderneta, e lá foi ele de volta.

Mas a sorte havia ficado na mercearia.
Na primeira esquina, lá estava Django, à espreita, como se esperasse aquele momento há anos.

O menino — eu — paralisou.
Senti o calor de um líquido escorrendo pelas pernas.
Sim, aquele medo tinha cheiro e temperatura.

Pela primeira vez, olhei fundo nos olhos vermelhos do homem que assombrava meus dias.
E, surpreendentemente, ele sorriu.

Um sorriso amarelo, vacilante, mas humano.
Moveu-se para o lado e me deixou passar.

Não disse palavra.
Nem eu.
Apenas corri — e corri como nunca.

Aquele foi o meu último duelo com Django.
E, como nos faroestes do cinema, o verdadeiro artista da história era ele.

Reflexão:

O tempo transforma os monstros em memórias e os medos em metáforas.
Talvez Django nunca tenha sido o vilão que imaginávamos, mas apenas mais um errante tentando encontrar seu lugar no mundo — assim como nós, crianças armadas de inocência e coragem de faz-de-conta.

Nota do autor

Muitos amigos de Soteco me lembraram, com carinho, que o personagem chamado D’Jango nesta crônica era, na verdade, o nosso conhecido Ringo — figura marcante daqueles tempos e dono de muitas histórias que atravessaram gerações.

Mantive o nome D’Jango como surgiu na lembrança, porque a memória também tem dessas liberdades: às vezes mistura o que foi real com o que ficou simbólico. O importante é que o espírito da recordação permanece o mesmo — a saudade de um tempo em que até os “vilões” do bairro tinham seu lugar nas aventuras da infância.

Fica aqui o meu agradecimento a todos que ajudaram a corrigir e a completar essa lembrança coletiva. No fundo, cada um de nós carrega um pedaço dessas histórias — e é bonito quando elas voltam a se encontrar.

O Asno, o Cabrito e o Espelho da Fazenda


Por Dag Vulpi

No mesmo dia em que nasci, nascia também o regime militar no Brasil. Uma coincidência que, com o tempo, passou a me soar como ironia do destino. Décadas depois, entre o assado e o vinho do meu aniversário, acabei sonhando uma história que parecia explicar muito mais sobre o país do que qualquer análise política: a fábula de um asno, um cabrito e as fake news que adoecem mentes e corações.

No último domingo, 31 de março, coincidiu a data do meu aniversário com a implantação do regime militar no Brasil. Isso mesmo — nasci no mesmo dia, mês e ano daquele infame sistema.
Na infância, no primário, essa data era tratada como “o dia da revolução”, e eu, sem compreender bem o contexto, sentia certo orgulho com as festividades militares na escola. Isso basta de história — agora, o que interessa.

Decidi fazer um churrasco para celebrar. Afinal, deixei de ser um simples senhor de meia-idade e passei oficialmente à categoria dos sexagenários. Entre os convidados, como quase sempre ocorre nas famílias brasileiras, havia um bolsonarista de carteirinha.
Depois de algum tempo e algumas cervejas, resolvi me sentar ao lado dele. A princípio, minha intenção não era falar de política — mas isso, hoje em dia, parece impossível.
Basta um bolsonarista saber que você é de esquerda para o assunto se impor sozinho.
“Você viu o que aquele cachaceiro fez agora?”, perguntou ele.
Fingindo não entender, respondi: “O que dizem que eu fiz desta vez?”.
“Não você”, replicou, “o cachaceiro ao qual me refiro é o Lula.”
Ah, ainda bem, pensei — seria desrespeitoso alguém falar mal de mim justamente no meu aniversário, bebendo e comendo às minhas custas… de um velho comunista.

Dei um largo sorriso, o abracei, agradeci sua presença e fui para outra mesa — cutucar minha cunhada, lulista de fé. Sim, praticamente toda família brasileira tem um de cada lado do muro.

Fim de churrasco. Todos se foram. Tomei um banho demorado, servi-me de um bom vinho que ganhara de presente e me acomodei no sofá. Pensei até em acender um charuto, mas desisti — minha esposa ficaria irritada com as cinzas no tapete. Um gole de Cabernet Sauvignon chileno de 2014 bastava.
Apoiei a taça vazia sobre a mesa e virei a cabeça para o lado. Adormeci.

E foi aí que começou o sonho.

O cenário era uma fazenda. Os protagonistas: eu, um jovem cabrito chamado Goat, e um velho asno chamado Jair, que coexistiam em harmonia.
Goat vivia num pequeno cercado próximo à casa, alimentando-se das folhas secas que caíam de uma grande árvore. Como não eram suficientes, eu precisava diariamente cortar feixes de capim no pasto do asno para sustentar o cabrito.

O ideal seria que dividissem o mesmo espaço, mas o temperamento ríspido do velho Jair me fazia adiar essa conversa.
Passei a visitá-lo com frequência, levando-lhe uma espiga de milho, seu agrado favorito.
Nossos “diálogos” eram breves e pouco amistosos — mas, afinal, tratava-se de um asno.
Certo dia, levei o Goat comigo para apresentá-los e conversar sobre a partilha do pasto. Jair relutou em se aproximar, ignorou até a espiga, mas acabou cedendo.
Com desdém, comentou:
“Talvez você não saiba, mas esse aí é neto do velho Trotsky — aquele bode arruaceiro que nunca trabalhou, só vivia pregando essas bobagens comunistas. Queria que todos dividissem o pouco que tinham. Um lunático! Até um sobrinho meu caiu nessas ideias e estragou a cabeça. E esse aí”, apontou para Goat, “certamente é da mesma laia.”
Virou as costas e foi embora.

Goat ficou perplexo. “Afinal, é um ancião. E dos anciões se espera sabedoria”, disse-me.
Mas parecia saber mais do que dizia. Ao chegarmos em casa, confidenciou: “Senhor, acho que o velho Jair anda recebendo fake news pelo celular. Vi o filho de um vizinho comentar que o avô dele troca mensagens com o asno pelo WhatsApp.”
Fiquei alarmado — dentro da minha própria fazenda, sem saber, as mentiras já estavam se alastrando.

“Você tem razão, Goat”, respondi. “São essas fake news, trocadas entre os mais velhos e menos instruídos, que estão corroendo a democracia e transformando o bom senso em ressentimento.”

Naquela noite, as palavras do asno ecoaram na minha mente.
Acordei decidido a enfrentá-lo.
Sem espiga, sem agrados.
“Jair”, chamei, “precisamos conversar.”
Ele ergueu as orelhas, relutante.
Fui direto ao ponto: questionei sua crença em mentiras, sua hostilidade gratuita e sua recusa em dividir o pasto.
Com altivez, respondeu:
“Não dividirei espaço com o neto de um comunista. E o que converso pelo celular é da minha conta. Afinal, vivemos numa democracia.”

Contive o ímpeto e respondi:
“Você tem razão sobre o direito à privacidade. Mas democracia não é viver isolado em sua própria bolha de mentiras. É conviver, aprender e reconhecer que o outro existe.”

Decidi, então, instituir um revezamento: meses pares, o asno no cercado; meses ímpares, o cabrito.
Era abril — mês par.
Jair desceria.

O Goat, surpreso, tentou dissuadir-me: “Senhor, prefiro ficar onde estou, não quero causar-lhe constrangimento.”
Mas fui firme: “Não é castigo, é oportunidade.”

E assim foi.
Nos primeiros dias, o velho Jair manteve-se de costas para a cerca, resmungando.
Já o Goat florescia no pasto, fez amigos, corria, lia, vivia.
Pouco a pouco, percebi o asno navegando na internet. Entrou no Facebook — inclusive no grupo que administro, “Consciência Política Razão Social” — usando um perfil falso de Campinas.
Mas, curiosamente, começou a pesquisar também em sites de checagem de fake news.

Chegou o primeiro de maio. Dia de troca.
Ao reencontrarem-se, Goat perguntou o que ele achara do cercado.
“Maravilhoso”, respondeu Jair. “Foi lá que aprendi o que é limite. Li coisas novas, pensei, refleti. Descobri que nem tudo o que me contaram era verdade. Que fui manipulado por anos, transformado em instrumento dos que mandam neste país. Quero mudar. Quero dividir este espaço com você, se o nosso dono — que, na verdade, é nosso amigo — permitir.”

Goat olhou para mim e pediu: “Diga que sim.”
Sorri.
E ali, naquele abraço triplo, percebi que talvez a democracia não esteja perdida — apenas dormindo dentro de cada asno à espera de um cabrito disposto a dialogar.

Nota:

Fábula moderna sobre polarização política, intolerância e o poder corrosivo das fake news. Um conto simbólico sobre a necessidade do diálogo, da escuta e da reeducação do olhar — onde até um velho asno pode aprender novamente o valor da convivência.

A intolerância travestida de virtude

 

por Dag Vulpi 

Não é democrático — nem moral — boicotar, excluir ou hostilizar alguém por suas convicções políticas. A liberdade de expressão não pode ser um privilégio seletivo, restrito a quem pensa igual.

Vivemos tempos em que a liberdade virou uma palavra de uso restrito — reivindicada com fervor por uns, mas negada com o mesmo fervor a outros.
Não é honesto, seja da direita, da esquerda ou de qualquer espectro intermediário, sugerir, incentivar ou disseminar boicotes a pessoas pelo simples fato de se declararem apoiadoras de político A ou B.

A democracia, quando madura, tolera o dissenso. Quando frágil, teme a diferença.
O problema é que, em meio à polarização que tomou conta do Brasil, a intolerância política passou a vestir roupagem de virtude. Alguns se sentem no direito de “cancelar” o outro em nome de uma suposta moral política, esquecendo-se de que a essência da democracia é justamente a convivência entre contrários.

Mais grave ainda é observar empresários que se vangloriam por não empregar pessoas “de esquerda”, como se o voto ou a opinião fossem critérios de competência. Ou comerciantes que colam em suas vitrines o aviso de que “esquerdistas não são bem-vindos” — um gesto pequeno, mas carregado de um simbolismo gigantesco: o de que a diferença é uma ameaça, não uma riqueza.

É esse tipo de mentalidade sectária, alimentada pelo fanatismo e reforçada pela ignorância, que transformou divergências em trincheiras.
Foi ela que ergueu muros entre amigos, familiares e colegas de trabalho, dividindo o país entre “nós” e “eles” — como se o Brasil coubesse apenas dentro de uma ideologia.

A política, quando reduzida a paixões cegas, perde seu propósito de servir ao coletivo. Passa a ser uma disputa de ego travestida de causa, onde o adversário se torna inimigo e o diálogo vira ofensa. É nesse terreno árido que florescem os discursos de ódio, as fake news e a cultura do cancelamento — que nada têm de libertários. São apenas instrumentos de coerção disfarçados de engajamento.

O que muitos esquecem é que a pluralidade de ideias é o que mantém viva a chama da democracia. Nenhum país se constrói sob o silêncio imposto à metade de sua população. O que realmente engrandece uma nação é a capacidade de escutar — mesmo aquilo que nos desconforta — e de reconhecer que ninguém é dono absoluto da verdade. Quando o debate cede lugar ao ataque, a democracia adoece.

A democracia não é um clube exclusivo; é uma praça aberta, onde todos podem falar, ainda que discordem.
A liberdade de expressão não pode ser condicionada à cor do partido, ao candidato de estimação ou à narrativa do momento.

Porque no instante em que passamos a negar ao outro o direito de pensar diferente, deixamos de ser democratas — e nos tornamos aquilo que mais criticamos.

Nota:

Reflexão sobre o risco crescente da intolerância política no Brasil contemporâneo. O texto questiona os comportamentos de boicote e discriminação motivados por ideologia, e propõe um resgate dos valores fundamentais da convivência democrática e da liberdade de expressão.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Fumando cigarro de palha, pescando com peneira e aprendendo valores

Por Dag Vulpi - Postagem original feita em 20 de junho de 2015

São muitas as histórias inusitadas que giram em torno dessa “laranja” chamada vida. Eu mesmo conheço um bocado delas — algumas presenciei, outras me contaram, e esta que narrarei, tive o privilégio de vivê-la.

Foi lá pelos idos dos anos 80, numa Mutum ainda pacata, quase parada no tempo, quando fui passar uns dias de férias com dois amigos: o Augusto, o “Gutim”, funcionário da antiga CESAN, e o José Rubner, o “Zérrubi”, meu colega do extinto Banco Nacional e filho daquela terra mineira.

A cidade respirava sossego. As aventuras eram simples, mas intensas — cavalgar pelos arredores, assistir aos domadores enfrentando burros chucros, observar a natureza em seu ritmo rude e encantador. Tivemos até que aprender a enrolar cigarros de palha, pois por lá, maço industrializado era artigo de luxo. À noite, o boteco era o centro do universo: cartas, gargalhadas e o desfile das mineirinhas, vaidosas ao saber que havia forasteiros na cidade. Nós, três jovens em plena solteirice, tínhamos mais olhos do que sorte — os rapazes locais não viam com bons olhos nossa presença, e as moças tampouco se arriscavam a contrariá-los.

Mas o melhor da história veio num sábado, quando Zérrubi sugeriu uma pescaria. Topei de imediato. Gutin também. O Zé conhecia o riacho e o homem certo para nos guiar: o lendário Genésio.

Genésio era baixote, de pele curtida pelo sol, e dono daquela sabedoria que não se aprende em livro algum. Um tipo raro, desses que transformam o trivial em anedota. Sabíamos que dali sairia mais história do que peixe — e não erramos.

De fala mansa e quase sussurrada, Genésio logo decretou a regra: sendo sábado, a pescaria seria de peneira. Argumentei que a pesca com anzol seria mais emocionante, mas bastou ele me olhar e murmurar algo entre os dentes — “Cêjá pescoqui gumavez?” — que mudei de ideia na hora. Aquele homem tinha uma autoridade serena, irresistível.

Começamos. As instruções vinham em mineirês cerrado, e só o Zérrubi, nosso tradutor oficial, entendia cada sílaba. Entramos todos no riacho, a água gelada cortando as pernas. Foi quando Genésio, entre um sorriso desdentado e um gracejo, comentou algo que o Zé traduziu entre risadas:
— “Água fria, né? É assim mesmo: uns mijam, outros riem.”

A pescaria seguiu com mais fumaça que peixe. Genésio mantinha preso ao pescoço um saco plástico com palha de milho, fumo desfiado e um isqueiro de pavio — seus tesouros de sobrevivência. Fosse dentro ou fora d’água, ele nunca deixava de enrolar seu “picão de paia”.

Depois de um longo trecho sem sucesso, finalmente pegamos dois peixes num ponto mais fundo. Genésio anunciou que era o único lugar do riacho onde peixe se deixava pegar por peneira — o resto, segundo ele, fora só treinamento. E ali, já fora d’água, ele preparava seu quarto cigarro com a destreza de um alquimista.

Mas a verdadeira surpresa ainda estava por vir.

Quando voltamos à água, animados com a boa maré, a pescaria enfim rendeu. Os peixes vinham aos montes, e nossa alegria não cabia no peito. Até que notamos algo estranho: uma peneira boiando sozinha, descendo o rio. E logo adiante, apenas uma mão, como um último pedido de socorro.

Pulamos. Puxamos o corpo de Genésio quase sem vida, já inchado de tanta água que engolira. A cena nos gelou a espinha. Deitamos o velho matuto na margem, viramos seu corpo, e dele escorria um rio inteiro — talvez com alguns peixinhos junto. Foi então que, quando tudo parecia perdido, ele abriu um olho, mexeu a mão e sorriu.

Na palma, o motivo de tamanha teimosia: o isqueiro. Encharcado, mas intacto.

Quando conseguiu respirar, contou, com ajuda do Zérrubi, que sabia nadar melhor que qualquer homem do Vale. Já atravessara o Rio Doce levando numa mão uma jaca, noutra uma melancia. Mas jamais deixaria para trás o que mais amava. Disse que não se tratava da palha nem do fumo, mas do isqueiro — presente de seu pai, o único bem que ainda o ligava a uma vida que se esfarelava no tempo.

E para provar o ponto, enrolou outro cigarro.
Lentamente.
Com devoção.

Passou a língua na palha, acendeu o pavio com os dedos trêmulos e, olhando para o céu, tragou fundo, como se inalasse a própria existência. Depois, com um meio sorriso e o olhar marejado, disse — ou melhor, Zé traduziu:

“Se existir algo, qualquer coisa, que faça vocês felizes... lutem pra não perder. Eu já perdi muita coisa nesta vida. E hoje quase perdi a vida pra salvar o único presente que o velho me deixou.”

Ficamos ali, em silêncio.
O rio correndo, os peixes quietos, a fumaça subindo.
E eu entendendo, sem palavras, que às vezes o que parece pequeno — um isqueiro, um cigarro, uma lembrança — é o que nos ancora à própria vida.

Reflexão:

Algumas histórias valem menos pelo enredo e mais pelo eco que deixam em nós. O “cigarro de Genésio” não era só um gesto teimoso, mas um símbolo de fidelidade àquilo que nos dá sentido. Em tempos em que tudo é descartável, há sabedoria profunda em quem ainda sabe o valor do que permanece — mesmo que seja apenas um velho isqueiro, acendendo, teimosamente, a última chama de um tempo que já se apagava.

O Fascismo: a máscara moderna da intolerância

 

Dag Vulpi - 27 de outubro de 2025

Em diferentes épocas e lugares, o fascismo ressurge como um espectro político travestido de patriotismo, ordem e moralidade. A sua essência, porém, permanece a mesma: o medo da liberdade, a idolatria do líder e a negação da diversidade. Entender suas nuances é compreender como sociedades inteiras podem ser seduzidas por discursos que prometem salvação, mas entregam autoritarismo.

O fascismo em perspectiva histórica

O termo fascismo tem origem na Itália de Benito Mussolini, na década de 1920. Inspirado na ideia romana do fasces — um feixe de varas simbolizando força pela união sob um comando —, o regime pregava nacionalismo extremo, culto ao líder, militarização da política e repressão a opositores.
Logo, o fascismo ultrapassou fronteiras: na Alemanha, Hitler levou a ideologia a níveis brutais, transformando o nacionalismo em fanatismo racial; na Espanha, Franco impôs uma ditadura clerical-nacionalista; em Portugal, Salazar promoveu um regime autoritário sustentado por moralismo e censura.

Mas o fascismo não se resume a um momento histórico. Ele é, sobretudo, um método político — uma forma de organizar o poder baseada em:

  • Culto ao líder e à figura “salvadora”;

  • Desprezo pelas instituições democráticas;

  • Manipulação das massas por medo, ódio e desinformação;

  • Supressão da crítica e da pluralidade;

  • Reescrita da verdade através da propaganda.

Fascismo contemporâneo: novas roupagens, velhas ideias

Hoje, o fascismo não veste uniforme militar nem precisa de marchas em praça pública. Ele se infiltra nos discursos populistas, nas redes sociais e nos púlpitos digitais, promovendo a desumanização do “inimigo” — seja ele o imigrante, o artista, o jornalista, o professor ou o próprio pensamento crítico.

Exemplos recentes:

  • Na Hungria, Viktor Orbán promove um regime iliberal que restringe a imprensa e concentra poder sob o pretexto de defender “valores cristãos”.

  • Nos EUA, grupos supremacistas brancos se reorganizam sob retórica patriótica e religiosa, ecoando o velho mito do “nós contra eles”.

  • No Brasil, vimos ecos desse fenômeno em discursos que misturam nacionalismo messiânico, negacionismo científico e culto a líderes carismáticos que se colocam acima das instituições.

Em todos os casos, o fascismo contemporâneo opera pela emoção, não pela razão. Ele substitui o diálogo pela gritaria, o pensamento crítico pela obediência, e o senso coletivo por uma fé cega na autoridade.

As sutilezas psicológicas e sociais

O fascismo se alimenta de crises — econômicas, morais ou identitárias. Quando as pessoas se sentem inseguras, o discurso autoritário oferece respostas simples para problemas complexos. Ele promete ordem, segurança e identidade em troca da liberdade.
É a política do medo, que transforma cidadãos em torcedores e opiniões em trincheiras.
Por isso, é tão importante reconhecer suas formas sutis: o riso cúmplice diante da violência, o silêncio diante do ódio, o aplauso ao autoritarismo “em nome da moral”.

Por que compreender o fascismo é um dever contemporâneo

A história mostra que o fascismo não começa com tanques nas ruas, mas com palavras manipuladas e sentimentos inflamados. Começa quando o diferente é tratado como inimigo; quando a dúvida é tida como fraqueza; quando a obediência se disfarça de patriotismo.
Reconhecer suas sementes é o primeiro passo para impedir que floresça novamente. A defesa da democracia, da ciência e do pensamento crítico é o antídoto mais eficaz contra essa velha doença social.

Nota:

Este artigo propõe uma leitura ampla do fascismo, ultrapassando o sentido histórico para alcançar sua dimensão simbólica e psicológica. Ao identificar os traços fascistas em contextos contemporâneos, reforça-se a importância da vigilância cívica e da educação política. O fascismo não é apenas um regime do passado — é uma sombra recorrente da humanidade, que se adapta às linguagens e aos medos de cada geração. Combater suas manifestações exige consciência, empatia e coragem intelectual.

Leia também: A Cadela do Fascismo e o 8 de Janeiro: Quando o Ódio Late nas Sombras da Democracia

Reforma Tributária: um avanço histórico que ainda pede justiça fiscal

 


Dag Vulpi - 27 de outubro

O Brasil dá um passo decisivo em direção à simplificação e à modernização do sistema tributário com a EC 132/2023 e a LC 214/2025: ao substituir cinco tributos de consumo por dois novos (além de um imposto seletivo) e estabelecer princípios como neutralidade e não-cumulatividade, espera-se mais transparência, menor carga sobre investimentos e mais competitividade. Contudo, a complexidade da implementação e a falta de avanços no tributar os super-ricos colocam em risco ganhos potenciais para a economia e a justiça fiscal.

A reforma tributária em questão altera de forma substancial o sistema de impostos sobre consumo do país. Até então, o Brasil operava com tributos como ICMS, ISS, PIS, COFINS e IPI — muitos acusados de gerar cumulação de tributos, elevada burocracia e insegurança jurídica. tributarie.com.br+3Migalhas+3Modelo Inicial+3

Com a EC 132/2023, foi incluído no texto constitucional o artigo 156-A, que prevê a instituição de um imposto sobre bens e serviços de competência compartilhada entre estados, DF e municípios, com princípios como neutralidade (isto é: o tributo não pode distorcer decisões econômicas de consumo ou organização) e não-cumulatividade. Palácio do Planalto+2tributarie.com.br+2

Já a LC 214/2025 regulamenta como tudo isso vai funcionar na prática. Ela institui:

Entre os principais impactos e vantagens esperadas estão:

  • Redução da sobreposição de tributos e da “guerra fiscal”, já que o local da incidência passa a ser, como regra, o destino da operação (onde está o consumidor final). Tax Group+2tributarie.com.br+2

  • Maior previsibilidade e transparência para empresas: menos obrigações acessórias, menos disputas entre entes federados. Tendências Consultoria Econômica+1

  • Potencial para melhora de ambiente de negócios, atração de investimentos, melhor competitividade internacional. Contadores+1

  • Defesa de princípios de justiça tributária: o sistema deixa de privilegiar determinadas etapas da cadeia de consumo e busca neutralidade. Pilli & Fanucchi+1

Mas não se trata de uma mudança simples:

  • A transição será gradual, com coexistência entre regimes antigos e novos, implicando adaptações corporativas e governamentais. Tax Group+1

  • A definição das alíquotas, regimes específicos, exceções e créditos tributários ainda dependerá de leis complementares e evolução normativa. Migalhas+1

  • Há riscos de carga tributária maior do que o esperado se as alíquotas de referência ou teto não forem bem calibrados. tributarie.com.br

Em termos econômicos diretos, a simplificação e a neutralidade devem contribuir para:

  • Menos distorções entre consumo, produção e investimento — favorecendo que empresas se estabeleçam ou se expandam no país.

  • Melhor integração da cadeia produtiva nacional, com menor custo tributário embutido e menos “cascata” de impostos.

  • Maior eficiência para exportadores e importadores, uma vez que o sistema atual encarava rígidos entraves. Tendências Consultoria Econômica

  • Em tese, estímulo ao crescimento econômico, geração de emprego e melhora dos recursos públicos (via maior arrecadação potencial, menor evasão ou elisão fiscal).

A reforma apresentou uma clara oportunidade para avançar também na justiça fiscal — ou seja: tributar com maior rigor os super-ricos e grandes fortunas, de modo a obter recursos adicionais para investimento público, infraestrutura, educação, saúde, etc. A não aprovação pela oposição parlamentar de medidas para aumentar impostos sobre os super-ricos revela uma escolha política que prejudica a economia brasileira como um todo:

  • Sem tributar adequadamente os que possuem capacidade contributiva elevada, a sociedade transfere o ônus para classes médias e para o consumo, justamente o que a reforma busca mitigar.

  • Falta de ação nesse sentido diminui a margem de manobra do Estado para investir em infraestrutura, o que reduz o impacto positivo da própria reforma.

  • Oportunidades de equidade e distribuição de renda ficam comprometidas — e isso tem efeitos sobre o consumo, sobre a demanda agregada e sobre crescimento econômico sustentável.

  • Em resumo: a reforma poderia trazer ganhos mais robustos para a economia, se houvesse paralelo um esforço de maior justiça fiscal; a resistência da oposição cria um “freio” à expansão plena desses benefícios.

Relevância para a economia brasileira

A reforma tem potencial para marcar um divisor de águas para o Brasil: um sistema tributário mais racional pode reduzir custos para empresas, aumentar a produtividade, atrair investimentos domésticos e estrangeiros, ampliar a competitividade internacional e permitir que os recursos públicos sejam aplicados de modo mais eficiente.

Se bem implementada, pode ajudar a destravar gargalos de infraestrutura tributária, reduzir brechas de legalidade, incentivar inovação e formalização, e oferecer maior previsibilidade para o ambiente de negócios.

Também traz ganhos sociais, ao permitir que o sistema tributário seja menos oneroso para os que mais sofrem com a cumulatividade e a complexidade, e ao abrir espaço para políticas públicas melhores financiadas.

Entretanto, o êxito dependerá da execução: da forma como os entes federados irão adotar as alíquotas, da capacidade de adaptação das empresas, da clareza regulatória, da governança do novo Comitê Gestor, e — essencialmente — da coragem política de tributar aqueles que hoje pagam menos — o que exige uma oposição que colabore, e não bloqueie avanços.

A reforma tributária representada pela EC 132/2023 e pela LC 214/2025 é uma das iniciativas mais ambiciosas dos últimos anos no Brasil em termos de modernização fiscal. Seu mérito está no reconhecimento de que o sistema atual era insustentável: demasiadamente fragmentado, cumulativo, difícil de administrar e caro para empresas e governo. Por isso, ela merece elogios por abrir caminho à simplificação, à uniformização e à neutralidade.

Por outro lado, o projeto apresenta desafios significativos: a dependência de regulamentações posteriores, o risco de que alíquotas mal ajustadas elevem em vez de reduzir a carga tributária, a complexidade da transição e de adaptação — o que gera custos para empresas e pode criar distorções temporárias. Além disso, a reforma perde força quando não é acompanhada por medidas paralelas de justiça fiscal — em particular, de tributação dos super-ricos e grandes fortunas. A resistência da oposição a essas medidas demonstra uma falha estratégica que mina o pleno potencial dessa reforma. Em suma: o desenho é promissor, mas a implementação e o contexto político-fiscal serão decisivos para que os benefícios de fato se traduzam em crescimento, investimento e equidade no Brasil.

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