sexta-feira, 31 de outubro de 2025

O Dia em que Beija-Flor Perdeu o Gás

 


Por Dag Vulpi

Há dias em que manter a serenidade é um exercício de sobrevivência. Quando tudo conspira contra e a paciência ameaça pedir demissão, é aí que se revela o verdadeiro caráter do sujeito.
E foi num desses dias, lá pelos idos da década de 1990, que o extrovertido, falante e sempre de bem com a vida Beija-Flor, morador do bairro da Glória, em Vila Velha (ES), se viu em apuros — e sem café.

Beija-Flor era figura conhecida na Glória. Homem de boa índole, funcionário da prefeitura há mais de trinta anos, desses que já tinham visto prefeitos, secretários e chefes passarem como as marés da Prainha da Glória
Ele ficou. E sua longevidade no serviço público lhe rendeu certas regalias — as costumeiras do tempo em que o relógio de ponto ainda era de papel e amizade valia mais que protocolo.

Boêmio, bom de conversa, amigo de todos e dono de pequenos vícios — inofensivos e, de certa forma, humanos. Seu maior prazer era criar pássaros: curiós, coleirinhas e trinca-ferros que, segundo ele, cantavam mais bonito que o próprio vento.
Nas rodas de disputa — os famosos “rachas” de sábado — seus pássaros eram imbatíveis. Ou, pelo menos, era assim que ele garantia.
E ai de quem ousasse discordar.

Seu xodó maior atendia por Pepê, um coleirinha valente que, nas manhãs de sol, era motivo de orgulho e briga.
Na mesma rua morava Carlinho Pereá, criador de pássaros e rival de longa data. Os dois se bicavam desde os tempos de juventude — e como em toda boa rivalidade de bairro, ninguém sabia mais quem começou.

Mas o caso de hoje não é sobre o Pepê nem sobre os rachas. É sobre o dia em que Beija-Flor acordou cedo demais e confiou de menos.

Era madrugada. O relógio marcava quatro da manhã quando ele levantou, como sempre, pra preparar o café. Ligou o rádio AM — daqueles com chiado e voz de locutor de interior — e foi direto à cozinha.
De repente, ouviu um barulho no quintal. Espiou pela janela e avistou um sujeito carregando uma botija de gás. O homem, percebendo o flagrante, se apressou em dizer:
— Ô cumpadi, não quer comprar essa botija, não? Tá cheia. Tô vendendo pra comprar remédio pro meu menino.

Beija-Flor desconfiou. “Vai que é roubada”, pensou. E recusou:
— Melhor não, parceiro. Pode seguir teu caminho.

O homem agradeceu, pediu desculpas e sumiu na escuridão.
Beija-Flor voltou satisfeito à cozinha, sentindo-se prudente. Colocou a chaleira, riscou o fósforo — e nada.
O gás havia acabado.

Olhou o relógio e lamentou a ironia:
— Se eu soubesse, tinha comprado a botija daquele infeliz...

Resignado, foi soltar a válvula da botija vazia, mas, ao acender a luz da área, só viu a mangueira solta.
A botija já tinha sido levada.

Beija-Flor jogou o boné no chão e xingou o destino em alto e bom som.
Mas pior que o prejuízo foi o vexame. Bastou comentar o caso com o dono da quitanda — o Suíno — para que, antes das nove da manhã, o bairro inteiro já soubesse do “roubo do gás do Beija-Flor”.
E, como se sabe, fofoca naquela época corria mais rápido que ligação a cobrar.

Virou motivo de riso, o gozador virou gozado, e o rei das piadas foi coroado bobo da vez.
Sem saída, Beija-Flor tirou férias — as primeiras da vida — e se mandou pro interior, pra casa do irmão, esperando o tempo apagar o constrangimento.

O tempo passou. O caso virou história de esquina, lembrança de bar e, hoje, memória de um tempo em que os risos eram mais leves e os vexames, mais humanos.

Ouvi essa história pessoalmente, contada num fim de tarde entre risadas, café coado e cheiro de serragem, durante uma conversa entre o próprio Beija-Flor e o meu falecido sogro, seu Bino — também amante dos pássaros e exímio fabricante de gaiolas caseiras.
Homem de fala mansa, riso fácil e alma simples, seu Bino, aliás, terá em breve suas próprias histórias recordadas neste mesmo espaço.

E eu, que testemunhei aquele diálogo, deixo aqui o registro do dia em que Beija-Flor perdeu o gás — e parte da pose.


Reflexão

As histórias que ouvimos dos antigos têm um perfume que o tempo não apaga.
São pequenas memórias que, contadas ao pé da conversa, mantêm viva a essência dos dias simples — quando bastava um rádio chiando na cozinha e uma boa risada no quintal pra vida parecer mais leve.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Reforma Administrativa: eficiência ou retrocesso disfarçado de modernização?


Por Dag Vulpi

Em meio a um cenário de cortes orçamentários e discursos sobre “eficiência estatal”, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Reforma Administrativa volta ao centro das discussões no Congresso Nacional. Defendida como um passo necessário rumo à modernização e ao combate a privilégios, a proposta divide opiniões entre especialistas, servidores e parlamentares.
Por trás do discurso de racionalização da máquina pública, há quem enxergue uma tentativa velada de reduzir direitos adquiridos, fragilizar carreiras e enfraquecer o próprio Estado — abrindo brechas para a privatização indireta de funções essenciais.

O que propõe a PEC

Apresentada sob o argumento de “tornar o Estado mais ágil e eficiente”, a PEC da Reforma Administrativa pretende alterar dispositivos constitucionais relacionados ao funcionalismo público. Entre as principais mudanças propostas estão:

  • Fim da estabilidade automática para futuros servidores, restringindo-a a carreiras consideradas típicas de Estado.

  • Criação de novos tipos de vínculos empregatícios, com contratos temporários e mais flexíveis.

  • Redução de benefícios e progressões automáticas, visando “premiar o mérito”.

  • Autorização para que o governo adote práticas de gestão digital, ampliando a terceirização e o uso de tecnologias privadas.

  • Limitação de privilégios e distorções salariais, especialmente nos altos escalões do serviço público.

O texto, segundo os parlamentares, busca “valorizar o bom servidor” e eliminar distorções que geram desigualdade entre carreiras. Já seus críticos afirmam que o projeto abre caminho para a precarização e politização da administração pública, com risco de comprometer a impessoalidade e a continuidade das políticas de Estado.

Deputados Federais do Espírito Santo e a Reforma Administrativa

Assinaram a PEC:

  • Evair Vieira de Melo (PP-ES) — Vice-líder do governo na Câmara, defende a reforma como instrumento de modernização e digitalização dos serviços públicos.

  • Amaro Neto (Republicanos-ES) — Apoia a PEC, afirmando que ela “aumentará a transparência e a produtividade” na gestão pública.

Não assinaram ou se posicionaram contrários (até o momento):

  • Helder Salomão (PT-ES) — Considera a PEC um retrocesso que ameaça direitos e a estabilidade do funcionalismo.

  • Jack Rocha (PT-ES) — Defende uma modernização sem precarizar o trabalho público.

  • Gilson Daniel (Podemos-ES) — Declara ser preciso debater com mais profundidade os impactos da reforma.

  • Lauriete (PL-ES) — Não assinou e não se manifestou publicamente sobre a proposta.

  • Da Vitória (PP-ES) — Apesar de seu partido apoiar o texto, não figura entre os signatários iniciais.

  • Norma Ayub (PP-ES) — Também não assinou o texto e mantém posição discreta sobre o tema.

“A participação dos representantes capixabas nesta PEC merece ser observada com atenção. Afinal, é o tipo de proposta que, sob o pretexto de modernizar, pode redefinir o futuro de milhares de servidores e a própria estrutura de funcionamento do Estado.”

Análise Crítica – Entre o discurso e a prática

A Reforma Administrativa surge como promessa de um Estado mais leve e eficiente, mas carrega implicações profundas e controversas.
De um lado, reconhece-se a necessidade de atualização do modelo burocrático brasileiro, que muitas vezes se mostra lento, caro e ineficiente. A digitalização dos serviços e a avaliação por desempenho podem, de fato, trazer ganhos de qualidade e transparência.

Por outro lado, há o risco de transformar a administração pública em um laboratório de experiências neoliberais, onde a meritocracia serve de justificativa para cortes e substituições de servidores estáveis por contratos temporários.
A fragilização da estabilidade funcional — pilar da impessoalidade no serviço público — pode abrir espaço para interferências políticas, perseguições e troca de cargos por favores, desfigurando o princípio republicano.

Além disso, a redução de direitos e garantias trabalhistas pode afastar profissionais qualificados, impactando diretamente áreas sensíveis como saúde, educação e segurança pública.

Em resumo, a proposta carrega tanto o mérito de atualizar estruturas obsoletas quanto o perigo de comprometer a essência do serviço público: servir à sociedade, e não a governos.

Conclusão

A PEC da Reforma Administrativa, se aprovada, representará uma das maiores mudanças no setor público desde a Constituição de 1988.
Porém, o debate precisa ser transparente, técnico e democrático.
Antes de se falar em cortar privilégios, é fundamental proteger o que ainda garante a integridade do Estado brasileiro — sua capacidade de funcionar com independência, continuidade e foco no interesse público.

Quando a razão se curva diante da crença

 

Por Dag Vulpi

É natural ao ser humano priorizar as informações que confirmam suas próprias crenças, ainda que elas não sejam verdadeiras. Esse impulso instintivo nos faz colher evidências de forma seletiva, buscar lembranças convenientes e interpretar os fatos de maneira, muitas vezes, enviesada. E quanto mais o assunto desperta emoção ou toca em convicções arraigadas, mais forte é esse efeito — conhecido como viés deconfirmação.

Meu propósito inicial ao escrever este texto era simples: esclarecer, de uma vez por todas, a celeuma que ronda as urnas eletrônicas — e as desconfianças de fraude que ressurjem a cada nova eleição, sempre que o resultado não agrada a uma parcela dos eleitores. É curioso perceber que muitos dos que hoje as atacam, outrora as exaltavam, quando o resultado lhes era favorável.

Enquanto escrevo, percebo o paradoxo: mesmo antes de concluir a introdução, sei que alguns leitores já estarão em desacordo com o que afirmo. Essa desarmonia, no entanto, não é culpa da razão, mas das crenças que a antecedem. Ainda assim, proponho-me a seguir, na esperança de que ao menos alguns leiam até o fim — e talvez, com alguma sorte, reflitam.

Lembro-me, então, de duas situações que ilustram bem esse comportamento humano.

A primeira vem das missas de domingo. Na entrada da igreja, aquelas senhorinhas dedicadas distribuem, com todo o esmero, os livretos de cânticos. Imagino-as reunidas dias antes, revisando cada página, certificando-se de que tudo sairá nos conformes. No entanto, quando o celebrante anuncia: “Abram o livro de cânticos na página tal”, ocorre algo curioso. A maioria das pessoas, por conhecer de cor os louvores, abre o livreto — mas nem sequer o lê. Já os que não sabem a letra (e me incluo entre eles), seguem as palavras impressas, mas nem sempre conseguem acompanhar o ritmo da melodia. O resultado é uma espécie de coro dissonante, em que o esforço e o carinho daquelas senhoras acabam, de certo modo, em vão.

A segunda lembrança vem do início da minha carreira profissional, no antigo Banco Nacional, do saudoso José de Magalhães Pinto. Eu tinha apenas 19 anos e trabalhava como escriturário. Jovem e cheio de ideias, comecei a observar algumas deficiências na rotina da agência — falhas pequenas, mas que se repetiam por hábito.

Como ainda não havia me acomodado à rotina e trazia fresca na mente a teoria aprendida na faculdade de Administração, resolvi propor melhorias. Certa manhã, pedi ao gerente de serviços, o senhor Lourival Lourenço, que me ouvisse por alguns minutos. Ele foi receptivo, pediu dois cafezinhos e me convidou a expor minhas ideias. Falou-me com entusiasmo, elogiou minha iniciativa e disse que eu tinha futuro na instituição. Animado, garantiu que, se não todas, pelo menos 90% das propostas seriam adotadas em várias agências do país.

Naquela mesma noite, movido por um entusiasmo juvenil, sentei-me à minha velha Olivetti e redigi seis páginas detalhando cada uma das melhorias. Entreguei-as no dia seguinte, dentro de um envelope endereçado ao gerente. No fim do expediente, ele me chamou e disse, com um ar sereno, que seria melhor se eu fizesse um resumo.

Voltei para casa tarde da noite, depois da faculdade, e resumi as seis páginas em três. Entreguei novamente o material. Algumas horas depois, o senhor Lourival me chamou outra vez. Pediu, com gentileza, que fizesse um novo resumo, “mas apenas daquilo que conversamos no primeiro dia.”

Naquele momento compreendi: não importava o quanto eu me esforçasse para aperfeiçoar o que já estava cristalizado. Minhas ideias, por mais fundamentadas que fossem, não encontrariam eco em quem já havia decidido não mudar.

E é exatamente assim que ocorre quando se discute as urnas eletrônicas. Pouco adianta apresentar fatos, dados e auditorias — para muitos, não há argumento que suplante a crença de que houve fraude. E, curiosamente, essa convicção persiste mesmo quando a realidade insiste em prová-la infundada.

Nosso cérebro é mestre em proteger aquilo em que queremos acreditar. Descartamos o que não combina com nossas certezas e nos agarramos aos sinais que as confirmam. Afinal, entre a verdade incômoda e a ilusão confortável, quase sempre preferimos o consolo da crença ao desconforto da razão.


Nota do autor

Este texto não pretende persuadir, mas convidar à reflexão. Antes de desacreditar uma urna, talvez devamos recontar os votos que damos às nossas próprias convicções.

Por Dag Vulpi

A Conferência de Bretton Woods: Um Marco na Economia Global

 


Por Dag Vulpi

Em meio às ruínas da Segunda Guerra Mundial, líderes e economistas de 44 países reuniram-se para reconstruir não apenas economias, mas também a confiança entre as nações. Nascia ali o sistema de Bretton Woods, um ambicioso projeto que buscava criar um novo alicerce para a economia global. O que começou como um pacto de estabilidade e cooperação acabaria por moldar — e mais tarde desafiar — a ordem financeira mundial até os dias de hoje.

O Encontro que Mudou o Mundo

A Conferência de Bretton Woods, realizada em julho de 1944, em New Hampshire (EUA), foi um marco na reorganização da economia mundial após o conflito. Seu principal objetivo era estabelecer um novo sistema monetário internacional, capaz de promover estabilidade financeira e desenvolvimento econômico, evitando as crises e desvalorizações competitivas que marcaram o período entre guerras.

Naquele contexto, os Estados Unidos emergiam como a maior potência econômica, com reservas de ouro abundantes e o dólar consolidando-se como a moeda mais forte e confiável do planeta.

As Ideias em Confronto

Durante a conferência, duas propostas principais disputaram o futuro da economia mundial:

  • John Maynard Keynes, economista britânico, defendia a criação de uma moeda internacional — o Bancor — que seria administrada por uma câmara de compensação global, com o objetivo de limitar déficits e superávits comerciais e garantir maior equilíbrio entre as nações.

  • Harry Dexter White, representante do Tesouro dos EUA, propôs um sistema baseado no padrão dólar-ouro, em que o dólar seria convertido em ouro a uma taxa fixa de US$ 35 por onça, e as demais moedas teriam câmbio fixo, porém ajustável, em relação ao dólar.

A proposta de White prevaleceu, consolidando o dólar americano como eixo da economia mundial.

Os Resultados de Bretton Woods

Da conferência nasceram duas instituições fundamentais para a economia global:

  • Fundo Monetário Internacional (FMI) — com a missão de promover a cooperação monetária e a estabilidade cambial;

  • Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) — hoje parte do Grupo Banco Mundial, voltado para o financiamento da reconstrução e do desenvolvimento econômico.

Sob o espírito de Bretton Woods, também surgiria o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), embrião da atual Organização Mundial do Comércio (OMC), com o propósito de facilitar e regular o comércio internacional.

O Declínio do Sistema Dólar-Ouro

O sistema funcionou por quase três décadas, mas as bases começaram a ruir nos anos 1960, quando os EUA passaram a acumular déficits na balança de pagamentos. A emissão excessiva de dólares e a queda nas reservas de ouro minaram a confiança mundial.

Em agosto de 1971, o presidente Richard Nixon suspendeu unilateralmente a conversibilidade do dólar em ouro, decretando o fim do sistema de Bretton Woods. Desde então, as principais moedas passaram a flutuar livremente, inaugurando a era dos câmbios flexíveis.

O Surgimento do DES — Uma Nova Tentativa de Equilíbrio

Antes mesmo do colapso do sistema, em 1969, o FMI criara o Direito Especial de Saque (DES) — uma unidade de conta baseada em uma cesta de moedas internacionais (dólar, euro, iene, libra esterlina e yuan).
O DES não é uma moeda, mas sim um ativo de reserva internacional suplementar, destinado a dar liquidez e estabilidade ao sistema financeiro global.

Análise Crítica e Reflexão Final

Embora a Conferência de Bretton Woods tenha representado um avanço histórico na cooperação econômica internacional, seu legado é ambíguo e limitado diante dos desafios contemporâneos. O sistema que moldou o pós-guerra tornou-se, com o tempo, instrumento de desigualdade e hegemonia.

Principais contradições e limitações:

🔹 Instituições desequilibradas e pouco representativas:
O FMI e o Banco Mundial mantêm uma estrutura de poder desproporcional, com decisões concentradas em países desenvolvidos — especialmente os EUA. Essa configuração reflete o mundo de 1944, não o do século XXI, e enfraquece a legitimidade das instituições diante de potências emergentes como o grupo BRICS.

🔹 Aprofundamento das desigualdades globais:
As políticas de ajuste fiscal e as condicionalidades impostas pelo FMI e pelo Banco Mundial frequentemente agravam as desigualdades e limitam o crescimento sustentável dos países em desenvolvimento.

🔹 Fragilidade do sistema monetário centrado no dólar:
Com o fim do padrão ouro, o dólar tornou-se simultaneamente o pilar e o ponto fraco do sistema financeiro global — origem de sucessivas crises monetárias e inflacionárias.

🔹 Incapacidade de lidar com crises modernas:
A estrutura rígida de Bretton Woods mostrou-se insuficiente para enfrentar crises globais como a de 2008 e a da COVID-19, expondo a necessidade urgente de reformas e descentralização nas instituições econômicas internacionais.

🔹 Hegemonia americana em detrimento da cooperação multilateral:
A predominância dos EUA transformou a promessa de cooperação em um sistema assimétrico, no qual interesses nacionais frequentemente se sobrepõem aos objetivos coletivos.

Conclusão

A Conferência de Bretton Woods foi, sem dúvida, um marco da reconstrução mundial e da confiança entre nações. Mas, ao mesmo tempo, legou um sistema que envelheceu mal diante da nova geopolítica global.
Repensar Bretton Woods, hoje, é mais do que um exercício histórico — é um chamado à reinvenção da cooperação internacional, onde o equilíbrio de forças, a equidade e a solidariedade global sejam mais do que ideais — sejam práticas possíveis.

Fonte e referências recomendadas:

  • Fundo Monetário Internacional (FMI) – Documentos históricos sobre a Conferência de Bretton Woods

  • Banco Mundial – Arquivos sobre a reconstrução econômica pós-1945

  • Keynes, J.M. – Proposals for an International Clearing Union (1943)

  • Eichengreen, Barry – Globalizing Capital: A History of the International Monetary System

Nota de Retratação — Postagem de 22/11/2016

Em 2016, publiquei neste blog o texto “A preocupação de Hitler com ocomunismo”. À época, reproduzi um conteúdo que me foi enviado por um conhecido, sem checar devidamente as fontes.
Hoje, após uma revisão detalhada e à luz de pesquisas históricas reconhecidas, constatei que o texto continha erros graves de interpretaçãouso de fontes não confiáveis generalizações étnico-religiosas incorretas, associando falsamente o comunismo ao povo judeu.
Rejeito veementemente qualquer forma de preconceito ou desinformação.
Em respeito aos leitores e à verdade histórica, decidi corrigir e substituir a postagem por esta nota de retratação. Reconheço que, mesmo sem intenção, a antiga versão poderia contribuir para perpetuar desinformação e estigmas injustos.
O propósito deste espaço sempre foi refletir, e não propagar inverdades.
Agradeço a quem me alertou sobre o equívoco e reafirmo meu compromisso com o pensamento crítico e o respeito à memória histórica.
Dag Vulpi

ANÁLISE DETALHADA

Contexto introdutório: “A preocupação de Hitler com o comunismo”

1 - O texto parte da ideia de que Hitler temia o comunismo porque ele seria uma criação judaica.

Veredito: ❌ Falso / ideologicamente enviesado
Hitler realmente considerava o comunismo seu inimigo, mas associá-lo a uma “conspiração judaica” é parte central da 
propaganda antissemita nazista, sem base factual. A tese de “Judeo-bolchevismo” foi usada pelo nazismo para justificar perseguições e o Holocausto.
Fontes: Richard J. Evans – The Coming of the Third Reich (2003); Raul Hilberg – The Destruction of the European Jews (1985).


2️ - “O assassinato do Czar Nicolau II e sua família pelos bolcheviques”

Veredito: ✅ Verdadeiro, com nuances
O assassinato ocorreu em 16–17 de julho de 1918 por ordem do Soviete de Ecaterimburgo, chefiado por Yakov Yurovsky. Há indícios de comunicação com Moscou (Sverdlov, Lenin), mas não provas documentais diretas de ordem explícita.
Fontes: Edvard Radzinsky – The Last Tsar (1992); Oxford Reference – “Execution of the Romanovs”.


3️ - “Os bolcheviques eram, em sua maioria, judeus”

Veredito: ❌ Falso / distorção numérica
Em 1917, cerca de 
5% dos membros do Partido Bolchevique eram judeus. A liderança incluía alguns judeus notórios (Trotsky, Zinoviev, Kamenev), mas eram minoria. A frase “a maioria era judia” é propaganda antissemita criada na Europa dos anos 1920.
Fontes: Orlando Figes – A People’s Tragedy (1996); Jonathan Frankel – Prophecy and Politics (1984).


4️ - “O avô materno de Lenin era judeu, logo ele era um quarto judeu”

Veredito: ⚠️ Parcialmente verdadeiro, mas irrelevante
Há evidência de que o avô materno de Lenin, Alexander Blank, era de origem judaica convertida ao cristianismo. Isso 
não teve relação alguma com as ideias políticas de Lenin, nem faz do bolchevismo um “movimento judaico”.
Fonte: Yohanan Petrovsky-Shtern – Lenin’s Jewish Question (Yale University Press, 2010).


5️ - “A Cheka (polícia secreta) era dominada por judeus”

Veredito: ❌ Enganoso
Havia oficiais de origem judaica, mas a Cheka incluía pessoas de várias etnias. A porcentagem total de judeus 
não passou de 5 a 6%, conforme arquivos soviéticos pós-1919. A alegação de “80%” em regiões específicas não tem base documental.
Fontes: George Leggett – The Cheka: Lenin’s Political Police (1981).


6️ - “Citações de Churchill, Trotsky, embaixadores e diplomatas dizendo que o comunismo era judeu”

Veredito: ⚠️ Parcialmente verdadeiro, mas fora de contexto
Alguns líderes (como Churchill em 1920) escreveram textos expressando medo de influência judaica — refletindo preconceitos da época, não fatos. Trotsky nunca atribuiu caráter “judaico” ao comunismo.
Fontes: Martin Gilbert – Churchill: A Life (1991); Isaac Deutscher – The Prophet Armed (1954).


7️ - “Mark Weber, do Institute for Historical Review (IHR), prova esses fatos”

Veredito: ❌ Fonte não confiável
O IHR é identificado por instituições de pesquisa e memória (como o Museu do Holocausto dos EUA e o Memorial de Auschwitz) como 
grupo revisionista negacionista, não uma instituição acadêmica. Mark Weber é conhecido por defender teses revisionistas e antissemitas.
Fontes: United States Holocaust Memorial Museum (ushmm.org); Auschwitz.org – “Holocaust Denial”.


8 - “O comunismo foi uma invenção judaica usada para destruir a civilização cristã”

Veredito: ❌ Falso / teoria conspiratória
O comunismo surge do pensamento socialista europeu do século XIX (Marx, Engels, e outros), com raízes em debates sobre industrialização e desigualdade, não em identidade religiosa. Reduzir o movimento à “ação judaica” é manipulação ideológica.
Fontes: Eric Hobsbawm – How to Change the World (2011); Isaiah Berlin – Karl Marx (1939).


9 - “Os bolcheviques eram ateus por natureza judaica”

Veredito: ❌ Falso / preconceituoso
O ateísmo bolchevique foi político, não étnico. Judeus religiosos também foram perseguidos na URSS. A confusão entre etnia e ideologia é característica de discursos de ódio.
Fontes: Geoffrey Hosking – The Russian Revolution (1985).


10️ - Conclusão do texto: “Hitler reagia a uma ameaça judaico-comunista real”

Veredito: ❌ Falso e ideologicamente perigoso
Não existia nenhuma conspiração judaico-comunista. Essa foi 
a principal narrativa antissemita do regime nazista para justificar o genocídio. Reproduzi-la, mesmo sem intenção, legitima um mito que custou milhões de vidas.
Fontes: Saul Friedländer – Nazi Germany and the Jews (1997); Richard Evans – The Third Reich in Power (2005).


CONCLUSÃO GERAL

O texto original contém mistura de fatos verdadeiros e interpretações falsas, derivadas principalmente de fontes ideológicas antissemitas e revisionistas.
Mesmo que tenha sido publicado de boa-fé, 
ele dissemina ideias desmentidas há décadas pela historiografia séria e que foram usadas como propaganda de ódio.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Soteco dos Anos 70: Taruira a Eremita do Morro


Por Dag Vulpi

Recordar é revisitar os fantasmas e as travessuras da própria infância. Entre medos e brincadeiras, ganhamos coragem, enfrentamos figuras temíveis e descobrimos que, mesmo nas travessuras mais ousadas, existem lições que o tempo transforma em memória. Maria Taruira, com sua rabugice lendária, continua viva em nossas lembranças, lembrando-nos da complexidade do humano e do prazer inesperado das pequenas aventuras.

Na crônica anterior, contei minha saga de ter disputado o último duelo com D’Jango (confira aqui) e, ao fazê-lo, revivi a profusão de personagens estranhos e fascinantes que povoavam aquele recém-criado bairro de Vila Velha, nos anos 70. Hoje, continuo minha arqueologia afetiva e trago à tona mais uma figura: a nada sociável Maria Taruira.

Taruira era uma senhora solitária e esquisitona, moradora de um barraco diminuto, escondido entre o matagal do morro do bairro Soteco. Magra, descabelada, sempre com a roupa suja, alimentava-se e vestia-se do pouco que, de vez em quando, alguém deixava à sua porta, movido pela piedade. Gratidão, contudo, não fazia parte do seu dicionário. As bem-intencionadas senhoras precisavam agir com cautela: deixar os donativos e sumir antes que a infeliz pudesse retribuir com sua arma mais temida — uma lata de urina, projetada com precisão cirúrgica.

Era uma senhora antissocial ao extremo. Quem se aventurasse por perto recebia, primeiro, a saraivada da lata e, logo em seguida, uma enxurrada de palavrões e maldições. Seu talento para desestabilizar o semelhante era incomparável. Não poucas vezes, senhoras regressavam a casa, chorosas, assombradas pelo encontro com a desgraça ambulante que era Taruira.

Parte de sua rabugice era injustificada; outra parte, bem merecida. A molecada da redondeza a atormentava constantemente. A maioria de nós a temia, mas, quando reunidos em pequenos bandos, éramos nós que sentíamos o peso do seu temperamento.

Lembro-me com nitidez das tardes que antecediam nossas expedições. Cada um trazia estilingue e embornal cheio de pelotas, recolhidas junto aos trilhos da estrada férrea de São Torquato — por onde vagões carregados de minério chegavam de Minas Gerais rumo ao porto de Tubarão, inaugurado pela Vale do Rio Doce em 1962, projeto pioneiro de Eliezer Batista.

Nos sábados de nossa infância, minha casa era o quartel-general. Mais de quinze garotos se reuniam ali, e subíamos o morro com a desculpa de “caçar passarinho” — matar rolinhas com estilingue era prática comum e, na época, ainda não nos importávamos com o politicamente correto. Escondíamo-nos nas moitas, calculando ângulos, aguardando o momento certo. Nosso alvo não era a pobre Taruira, mas seu barraco: madeira com telhado e lateral de zinco, que amplificavam o impacto das pelotas a um volume ensurdecedor. Imagine dezenas delas atingindo o metal ao mesmo tempo!

O ataque era meticuloso: disparávamos, nos escondíamos, recarregávamos e disparávamos novamente. A senhora emergia do barraco, olhos arregalados, cabelo em desalinho, vocabulário em chamas, e nós, em êxtase, corríamos morro abaixo, sentindo o sabor agridoce da revanche. Só parávamos quando cada um de nós estava seguro em casa.

Hoje, essas lembranças chegam temperadas de arrependimento — mas, na época, eram prazeres absolutos. Depois das “batalhas”, reuníamo-nos para comentar a audácia de cada um, o prazer secreto de enfrentar a temível Taruira.

Anos depois, a senhora foi hospitalizada, acometida por grave tuberculose. Nunca mais ouvi falar dela. E, ainda assim, ao fechar os olhos, consigo vê-la: pequena, magra, rabugenta, mas viva, impávida e indomável, no coração daquele morro que guardava nossas travessuras.

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