segunda-feira, 2 de abril de 2012

O último dos neandertais parte I

A vida e o fim dos neandertais

Uma mulher neandertal em uma inédita reconstrução baseada na anatomia de fósseis e na recuperação de dados genéticos
Em março de 1994, um grupo que explorava um sistema de cavernas no norte da Espanha voltou suas lanternas para uma pequena galeria lateral e notou duas mandíbulas humanas se projetando do solo arenoso. Esse conjunto de grutas, El Sidrón, fica no centro de uma remota floresta de altitude na província de Astúrias, logo ao sul da baía de Biscaia. Temerosos de que aqueles maxilares pudessem ser da época da guerra civil, quando guerrilheiros republicanos usaram El Sidrófipara se refugiar das tropas de Franco, os exploradores avisaram a Guarda Civil. Na galeria, as autoridades toparam com resquícios de uma tragédia bem maior – e, como se veria, muitíssimo mais antiga que o conflito que dividiu os espanhóis em meados do século 20.
Em poucos dias, foram exumados cerca de 140 ossos, os quais foram enviados, por ordem de um juiz local, ao Instituto Nacional de Medicina Legal, em Madri. Quase seis anos depois, quando afinal os peritos concluíram seu trabalho, a Espanha viu-se diante de seu mais antigo enigma policial. Estava confirmado que os ossos achados em El Sidrófinão eram de combatentes republicanos, e sim de um bando de neandertais, que talvez tenham morrido de forma violenta, 43 mil anos antes. O local em que estavam os ossos põe esse grupo em uma das mais importantes interseções geográficas da pré-história, e a data o situa no âmago de um dos mais persistentes mistérios de toda a evolução humana.
Os neandertais, os nossos parentes pré-históricos mais próximos, dominaram a Eurásia por cerca de 200 mil anos. Durante esse tempo, eles meteram seu nariz protuberante em todos os cantos da Europa, e mais além – ao sul, na orla do Mediterrâneo, do estreito de Gibraltar até a Grécia e o Iraque; ao norte, até a Rússia; a oeste, até a Inglaterra; e, a leste, quase até a Mongólia. Mesmo no auge de sua ocupação da Europa ocidental, o número total de neanderdais jamais passou de 15 mil. Ainda assim conseguiram sobreviver, mesmo quando o resfriamento do clima transformou parte de seu território em uma paisagem parecida com a do atual norte da Escandinávia – uma tundra gélida e estéril, cujo horizonte sombrio é rompido por poucas árvores macilentas e uma quantia de líquefi suficiente apenas para manter vivas as renas.
Na época da tragédia de El Sidrón, todavia, os neandertais estavam lutando para sobreviver. Con! nados à península Ibérica, a bolsões na Europa central e ao litoral do Mediterrâneo, estavam oprimidos por condições climáticas cada vez piores. Também perdiam terreno pelo avanço dos seres humanos anatomicamente modernos, que eram originários da África e migraram primeiro para o Oriente Médio e depois para toda a Eurásia. Por volta de 15 mil anos depois, os neandertais haviam desaparecido para sempre, deixando apenas ossadas e dúvidas. Formavam eles uma linhagem de sobreviventes inteligentes e perseverantes, parecida com a nossa, ou não passavam de um beco sem saída em termos cognitivos? O que houve entre 45 mil e 30 mil anos atrás, quando os neandertais partilharam algumas regiões do território eurasiático com os homens modernos? Por que um tipo de ser humano sobreviveu e o outro se extinguiu?
Em uma manhã nevoenta de setembro de 2007, eu estou na gruta El Sidróficom Antonio Rosas, do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madri, coordenador dessa investigação paleoantropológica. Após dez minutos na caverna, cheguei à Galería del Osario. Desde 2000, cerca de 1,5 mil fragmentos de ossos foram retirados dali, constituindo os restos mortais de pelo menos nove neandertais. Rosas recolhe o fragmento de um crânio recém-exumado e outro pedaço de um osso comprido do braço, ambos com as bordas recortadas de maneira irregular.
“Essas fraturas – clack! – foram feitas por seres humanos”, diz Rosas, imitando o ruído do impacto de um instrumento de pedra. “Isso significa que estavam em busca do cérebro, no interior do crânio, e do tutano, presente nos ossos longos.” Além das fraturas, marcas de cortes nos ossos indicam que os indivíduos foram objeto de canibalismo. Logo após a morte dos nove, o solo sob eles cedeu de repente, impedindo que hienas e outros animais dispersassem as ossadas.
Uma maçaroca de ossos, sedimentos e pedras despencou 20 metros em uma câmara de calcário oca. Ali, protegidas por areia e argila, preservadas pela temperatura constante da caverna e incrustadas no osso mineralizado, sobreviveram preciosas moléculas do código genético dos neandertais, aguardando a época no futuro em que poderiam ser examinadas, de modo a revelar pistas de como viviam essas pessoas.
O primeiro indício de que o nosso tipo de ser humano não foi o primeiro a habitar a Europa surgiu há um século e meio, em um local 13 quilômetros a leste da cidade alemã de Düsseldorf. Em agosto de 1856, operários que trabalhavam em uma mina de calcário no vale do rio Neander escavaram um crânio com testa proeminente e ossos grossos nas pernas. Desde o início, os neandertais carregaram a pecha de um persistente estereótipo cultural, sendo vistos como abrutalhados moradores das cavernas. O tamanho e a forma dos fósseis sugerem que eram baixos e robustos (os homens tinham em média 1,60 metro de altura e pesavam cerca de 84 quilos), com músculos que protegeriam pulmões de grande capacidade. O paleoantropólogo Steven E. Churchill calculou que, para manter essa massa corporal em um clima frio, um neandertal adulto do sexo masculino teria de ingerir 5 mil calorias por dia. Contudo, por trás da fronte projetada, o crânio achatado de um neandertal abrigava um cérebro com volume algo superior ao da nossa própria média atual. E, ainda que suas ferramentas e armas fossem mais primitivas que as dos seres humanos modernos que os suplantaram na Europa, elas não eram menos elaboradas que os implementos produzidos pelos seres humanos da época na África e no Oriente Médio.


Por Stephen S. Hall Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Resgate da terra

Minas terrestres mutilaram o Camboja devastado pela guerra. Hoje o país é um modelo na recuperação desse flagelo

Chhin Boreak, 19 anos, perdeu o braço direito para uma mina terrestre aos 10 anos. Um entre 12 irmãos, ele foi viver no centro de auxílio no noroeste do Camboja fundado pelo especialista em remoção de minhas Aki Ra para crianças e jovens cuja família não tem condições de cuidar deles. “A minha ambição é ser guia turístico, para poder ensinar a história do meu país aos visitantes”, diz Boreak. “O que eu mais gosto são os entalhes nos templos e as histórias que eles contam.”
 
Delicadamente, Aki Ra remove a terra com os dedos e revela uma mina terrestre verde-escura enterrada a cinco centímetros da superfície de uma estrada de terra tomada pelo mato. Do tamanho de uma lata de leite, a mina foi instalada pelo Khmer Rouge há uns 15 anos nesse caminho de bois no noroeste do Camboja – a região mais densamente minada de um dos países mais densamente minados do mundo.
“É uma mina antipessoal do tipo ‘Bouncing Betty’ 69, feita na China”, diz Aki Ra, embaçando com a respiração o visor blindado de seu capacete. “Bouncing Betty” (Betty Saltitante) é o apelido americano para uma mina terrestre que pula e se fragmenta. Quando pressionada por um pé, ela salta do chão, explode e lança estilhaços para todo lado. É capaz de retalhar as pernas de um esquadrão inteiro.
Afável e rechonchudo como um querubim, Aki Ra conhece o funcionamento da Bouncing Betty e de praticamente qualquer outra variedade de mina. Em meados dos anos 1970, quando ele tinha cinco anos, o Khmer Rouge separou-o de seus pais e o levou para a selva com outros órfãos. Naquela época, Pol Pot, o comandante do Khmer Rouge, lançara o país no caos: fechara escolas, hospitais, fábricas, bancos e mosteiros, executara professores e empresários e mandara milhões de habitantes das cidades para um gulag de campos de trabalho e fazendas. As mãozinhas de crianças como Aki Ra eram ferramentas inestimáveis. Ele foi treinado para instalar minas terrestres, desarmar e desmontar minas inimigas e reutilizar a dinamite em dispositivos hoje chamados de artefatos explosivos improvisados (AEI).
Alguns anos depois, quando os vietnamitas invadiram o Camboja, alistaram Aki Ra compulsoriamente em seu exército, e ele foi obrigado a lutar contra seus ex-captores. Quando as forças de paz da ONU finalmente chegaram em 1992, ele tinha passado quinze anos na selva. Foi trabalhar com a ONU desarmando minas. Quando as forças de paz partiram, dois anos depois, boa parte das melhores terras agrícolas – hortas, pastagens, arrozais – continuavam minadas. Agricultores que tentavam voltar a cultivar seus campos eram feitos em pedaços. Por uma década e meia, usando apenas uma faca e um graveto, Aki Ra trabalhou voluntariamente como sapador, desarmando minas terrestres em vez de detoná-las e limpando seu país um metro quadrado por vez. Pelas suas contas, ele já desarmou uns 50.000 artefatos: minas explosivas (blast), minas antitanque, minas de salto e outros explosivos.
“Achei uma porção de minas que eu mesmo instalei”, ele conta com um misto de orgulho e vergonha.
Hoje ele tem certificado para atuar como desativador de minas e trabalha com sua própria equipe, a ONG Iniciativa Limpa-Minas do Camboja (Cambodian Self-Help Demining), parcialmente financiada pelos Estados Unidos. Usam detectores de metal especiais para procurar explosivos, e foi assim que encontraram a “Bouncing Betty”.
O suor escorre pelo rosto de Aki Ra enquanto ele põe uma pequena carga de explosivo ao lado da mina terrestre, liga fios e estende um cabo fino por cem metros. Como toda organização limpa-minas oficial, a equipe de Aki Ra agora não desarma as minas – detona-as no local. Agachado atrás de uma árvore, ele aperta o botão vermelho. A explosão é medonha. Com um meio sorriso, Aki Ra pondera “uma mina a menos, uma criança sem perna a menos”.
Na guerra que assolou o Camboja de 1970 a 1998, todos os lados usaram minas terrestres. Existem mais de 30 tipos. Os moradores da região têm nomes prosaicos para elas, baseados na aparência: rã, tambor, folha de betel, sabugo de milho. A maioria foi feita na China, Rússia ou Vietnã, e algumas nos Estados Unidos. Dizem que Pol Pot, cujo regime foi responsável pela morte de aproximadamente 1,7 milhão de cambojanos entre 1975 e 1971, chamava as minas de seus “soldados perfeitos”: elas nunca dormiam e esperavam com paciência infinita. Embora sejam armas de guerra, as minas terrestres diferem das balas e bombas em dois aspectos. Primeiro, destinam-se a mutilar e não a matar, pois um soldado ferido requer a ajuda de outros dois ou três, reduzindo as forças inimigas. Segundo, e mais sinistro, quando uma guerra termina, minas terrestres permanecem no solo, prontas para explodir. Apenas 25 por cento das vítimas de minas terrestres no mundo são soldados. As demais são civis: meninos pegando lenha, mães semeando arroz, meninas pastoreando cabras.

O caminho da evolução

A região do Médio Awash, na Etiópia, é o lugar habitado mais antigo do planeta. Agora seus ossos estão emergindo do solo

No deserto etíope de Afar, a morte chega de muitas maneiras. Há doenças, é claro, mas se pode morrer ainda pelo ataque de um bicho selvagem, caindo em um penhasco ou no fogo cruzado entre um dos clãs afares e o povo issa ao longo do rio Awash, mais a leste.
A vida é precária em toda a África. O mais surpreendente aqui é como os restos mortais perduram. A depressão do Afar está situada sobre uma falha cada vez mais larga da crosta terrestre. Com a passagem do tempo, vulcões, terremotos e a lenta acumulação de sedimentos conspiraram para enterrar as ossadas e, bem mais tarde, para trazê-las de volta à superfície sob a forma de fósseis. Esse é um processo que continua até hoje. Em agosto de 2008, um menino foi capturado por um crocodilo no lago Yardi, em uma área do Afar conhecida como Médio Awash. Protegidos pelos sedimentos no fundo, os ossos do menino algum dia também se tornarão fósseis. "Há milhões de anos tem gente morrendo por aqui", diz o paleoantropólogo Tim White, da Universidade da Califórnia em Berkeley, que três meses depois da morte do menino estava na margem do lago. "Às vezes, temos sorte e topamos com o que restou."
Em outubro do ano passado, o Middle Awash, um projeto dirigido por White com os colegas etíopes Berhane Asfaw e Giday WoldeGabriel, anunciou sua maior descoberta até agora: a exumação, 15 anos antes, do esqueleto de uma criatura que havia morrido 4,4 milhões de anos atrás em Aramis, um local cerca de 30 quilômetros ao norte do atual lago Yardi. Pertencente à espécie Ardipithecus ramidus, a fêmea adulta - apelidada de "Ardi" - é mais de 1 milhão de anos mais velha que a famosa ossada conhecida como "Lucy", e também bem mais informativa sobre um dos enigmas cruciais da evolução humana: as características do ancestral comum que compartilhamos com os chimpanzés.
Por mais sensacional que seja, contudo, o Ar. ramidus é apenas um instante em nosso trajeto evolutivo - de um obscuro primata até nossa espécie. Para tentar entender como ocorreu essa transformação, não há lugar mais propício na Terra que o Médio Awash. Além de Aramis, ali são encontradas camadas sedimentares associadas a 14 outros períodos que nos proporcionaram fósseis de hominídeos - os membros de nossa linhagem exclusiva -, desde formas ainda mais antigas e primitivas que o Ar. ramidus até as primeiras encarnações do Homo sapiens.
De acordo com White, várias dessas "janelas de tempo" encontram-se numa área tão restrita que seria possível, literalmente, caminhar de uma a outra em apenas alguns dias. Para provar isso, ele convidou-me a acompanhar sua equipe até a área de pesquisa. O plano era partir da época atual no lago Yardi e andar de volta ao passado, eliminando uma camada após outra daquilo que nos torna seres humanos - característica por característica, espécie por espécie.
Herto: o parente ancestral
Seguimos para a área de pesquisa em um grupo de duas dezenas de cientistas e estudantes, sob a proteção de seis guardas armados. Nossa caravana de 11 veículos leva equipamentos e suprimentos suficientes para seis semanas. Enquanto avançamos pelo planalto, as plantações de sorgo e cereais vão ficando para trás e dando lugar a florestas com neblina. O trajeto está coalhado de destroços da história mais recente - ainda é possível ler uma gasta inscrição com o nome mussolini, entalhada no lintel sobre um túnel, um legado da ocupação italiana do país na década de 1930.
Depois de alcançar o topo da escarpa, descemos em ziguezague por uma imensa encosta que se formou quando a placa continental da Arábia se afastou da África, um processo iniciado cerca de 30 milhões a 25 milhões de anos atrás, fazendo com que a depressão de Afar afundasse ainda mais na zona da sombra de chuva do planalto. No horizonte a sudeste, além da fita azul do rio Awash, as terras altas parecem se fundir ao cone do jovem vulcão Ayelu. E, aos pés do Ayelo, brilha uma lasca prateada: o lago Yardi.
Dois dias depois, estamos andando pela margem do lago - White, Asfaw e WoldeGabriel, além de dois veteranos do projeto, o geólogo Bill Hart e Ahamed Elema, o líder dos Bouri-Modaitu, um dos clãs afares. O lugar é o cenário perfeito para a produção de fósseis, tanto hoje como no passado. Afinal, é ali que se concentram os animais para comer, beber, matar e ser mortos. E seus ossos acabam sob a terra, protegidos da decomposição. Ao longo das eras, a água vai impregnando-os de minerais e eliminando os restos orgânicos. White, de 58 anos, revira com uma machadinha criaturas que morreram há pouco: um esqueleto de bagre, a cabeça de uma vaca. "Para quem quiser virar fóssil", comenta ele, "não há nada melhor que isso aqui."

Por Jamie Shreeve Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

A saga dos mamíferos

Quando os dinossauros sucumbiram da Terra, os mamíferos ganharam uma grande oportunidade de evolução, que resultou na espécie humana

Maternidade em carne e pedra. Uma mulher grávida embala um resquício do passado, a fossilizada Eomaia scansoria, ou “mãe da aurora”. Com cerca de 125 milhões de anos, este recém-exumado mamífero estava na linha evolutiva para a reprodução placentária e é 50 milhões de anos mais antigo do que previam os cientistas. Fósseis continuam a proporcionar indícios sobre o modo como os mamíferos surgiram, mas, além dos estudos dos ossos, recentes tecnologias genéticas fornecem respostas novas a questões antigas sobre nosso caminho evolutivo.
Do alto de uma duna conhecida como Areias Movediças, na planície africana do Serengeti, é possível contemplar milhares de mamíferos em movimento. Gnus, zebras, gazelas. Esta é a temporada de reprodução dos gnus, e muitos espécimes desse antílope gigante estão acompanhados de seus filhotes. De longe, parece ser uma marcha tranqüila rumo ao sudeste, onde chuvas recentes tornaram mais verdes os campos. Um exame mais atento, porém, revela ocorrências dramáticas.
Por entre os grupos de gnus, de repente uma jovem gazela-de-grant dispara, seguida de perto por sua mãe. No encalço delas, uma hiena. A mãe reduz a velocidade e faz movimentos evasivos para distrair o predador. Em pânico, o filhote inexperiente faz uma volta infeliz – e em segundos cai, vítima das mandíbulas da hiena. A poucos metros, com as orelhas trêmulas, a mãe observa sem nada poder fazer. Em seguida, como se para aliviar a raiva, ela investe contra dois chacais que estavam por perto.
“Ela deve ter sido dominada pela emoção, mas não há como provar isso”, comenta a bióloga Patricia Moehlman. “Ela tem instinto maternal. Seu cérebro talvez não funcione como o nosso, mas acho que ela sente dor. E medo. E fica estressada. Nós nos sentimos próximos dela porque também somos mamíferos”, prossegue Patricia.
As mulheres da tribo masai consideram a duna como um local sagrado associado à fertilidade. Na verdade, sobretudo durante a grande migração anual dos gnus, nenhum outro ponto da Terra apresenta uma abundância tão espetacular de nossos parentes, de todos esses animais dotados de pêlos e que amamentam seus filhotes. Uma miríade de espécies de mamíferos pasta, galopa, ronda e chafurda por toda essa região da África.
Na vizinha cratera de Ngorongoro, em uma lagoa lamacenta, a fêmea de hipopótamo acaricia com o focinho seu rosado filhote, enquanto um leão e uma leoa se acasalam sem pressa à beira do caminho. No bosque de acácias, um bando de girafas – membros de uma família de mamíferos que, até 20 milhões de anos atrás, eram pequenos habitantes da floresta – mordisca os ramos mais altos das árvores. A poucos quilômetros, elefantes tomam o banho do meio-dia em um regato reforçado pelas chuvas. Macacos guenon-etíopes descem das árvores a fim de roubar comida pela porta aberta de uma van de turismo. E um dos raros rinocerontes-pretos remanescentes vagueia camuflado pela relva alta.
São tantos os mamíferos – com formas e comportamentos tão variados – a ocupar essa terra que é difícil crer que quaisquer deles poderiam ser descendentes do mesmo ancestral. Apesar disso, o hipopótamo anfíbio, com sua substanciosa dieta de até 45 quilos de gramíneas por noite, tem uma linhagem em comum com o rato-toupeira-pelado, que mede 8 centímetros – uma salsicha com dentes que vive tal como os cupins, sob a terra, alimentando-se de tubérculos.
Os mamíferos são todos aparentados entre si. Os mais antigos conhecidos são os morganucodontídeos, criaturas do tamanho dos pequenos musaranhos que, há 210 milhões de anos, viviam à sombra dos dinossauros. Eles constituíam uma das várias linhagens diferentes de mamíferos que surgiram naquela época. Todos os atuais mamíferos, entre os quais nós, os seres humanos, descendem da única linhagem sobrevivente. Nos 145 milhões de anos de evolução que se seguiram, o predomínio dos dinossauros impediu que os nossos remotos ancestrais mamíferos se tornassem maiores que um gato doméstico. Quando uma catástrofe provocada por um asteróide ou um cometa extinguiram os dinossauros, há 65 milhões de anos, os mamíferos, no entanto, viram-se diante da mais importante oportunidade evolutiva que lhes foi oferecida. Sem os dinossauros, eles agora poderiam explorar todos os recursos do planeta. E, no prazo de poucos milhões de anos após o cataclismo, o registro fóssil revela uma explosiva diversificação entre os mamíferos.

Quarta Cúpula dos BRICS - Parceria dos BRICS para a Estabilidade, Segurança e Prosperidade

Quarta Cúpula dos BRICS - Nova Delhi, 29 de março de 2012 Parceria dos BRICS para a Estabilidade, Segurança e Prosperidade - Declaração de Nova Delhi

29/03/2012 -

1. Nós, os líderes da República Federativa do Brasil, da Federação da Rússia, da República da Índia, da República Popular da China e da República da África do Sul, reunimo-nos em Nova Delhi, na Índia, em 29 de março de 2012, para a quarta Cúpula do BRICS. Nossas discussões, sob o tema "BRICS Parceria para a Estabilidade Global, Segurança e Prosperidade", foram conduzidas em atmosfera calorosa e de cordialidade, e inspiradas pela vontade comum de reforçar nossa parceria para o desenvolvimento comum e de desenvolver nossa cooperação, na base da abertura, solidariedade, compreensão e confiança mútuas.
2. Nós nos reunimos sob o pano de fundo de desenvolvimentos e mudanças de grande importância global e regional - uma recuperação vacilante da economia global tornada mais complexa devido à situação na zona do euro; preocupações quanto ao desenvolvimento sustentável e à mudança do clima, que assumem maior relevância à medida que nos aproximamos da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio +20) e da Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica, que serão sediados no Brasil e na Índia, respectivamente, ao longo deste ano; a próxma Cúpula do G-20 no México e a recém realizada 8ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra; e o cenário político em curso no Oriente Médio e no Norte da África, que vemos com preocupação crescente. Nossas deliberações de hoje refletem nosso consenso no sentido de mantermos nosso engajamento com a comunidade mundial no momento em que fazemos face, de forma responsável e construtiva, a esses desafios ao bem-estar e à estabilidade globais.
3. O BRICS é uma plataforma para o diálogo e a cooperação entre países que representam 43% da população do mundo, para a promoção da paz, segurança e desenvolvimento em um mundo multipolar, interdependente e cada vez mais complexo e globalizado. Por sermos provenientes de Ásia, África, Europa e América Latina, a dimensão transcontinental de nossa interação ganha em valor e significado.
4. Nós vislumbramos um futuro marcado pela paz mundial, progresso econômico e social e de atitude realista e esclarecida. Estamos prontos a trabalhar em conjunto com outros países desenvolvidos e em desenvolvimento, com base em normas universalmente reconhecidas do direito internacional e decisões multilaterais, para lidar com os desafios e as oportunidades do mundo atual. A representação ampliada de países emergentes e em desenvolvimento nas instituições de governança global aumentará a sua eficácia na consecução desse objetivo.
5. Estamos preocupados com a atual situação econômica internacional. Enquanto os BRICS se recuperaram da crise internacional de modo relativamente rápido, as perspectivas de crescimento em todo o mundo têm sido afetadas pela instabilidade dos mercados, especialmente na zona do euro. A acumulação de dívidas soberanas e preocupações quanto ao ajuste fiscal de médio e longo prazos em economias avançadas estão criando um ambiente de incertezas quanto ao crescimento global. Ademais, a excessiva liquidez decorrente de agressivas políticas adotadas por bancos centrais para estabilizar suas economias têm se espraiado para as economias emergentes, provocando excessiva volatilidade nos fluxos de capital e nos preços de commodities. A prioridade imediata é restaurar a confiança dos mercados e retomar o crescimento econômico. Trabalharemos com a comunidade internacional para assegurar a coordenação ampla de políticas com vistas a manter estabilidade macroeconômica visando à recuperação saudável da economia.
6. Nós acreditamos ser crucial para as economias avançadas adotar políticas macoreconômicas e fiscais responsáveis, que evitem acumulação excessiva de liquidez internacional e que empreendam reformas estruturais para estimular o cresccimento que gera empregos. Chamamos a atenção para o risco de volumosos e voláteis fluxos transfronteiriços de capital que enfretam economias emergentes. Instamos por mais ampla reforma com maior supervisão financeira internacional, com o fortalecimento de políticas de coordenação e regulação e de cooperação, bem como a promoção de sólidos desenvolvimentos dos mercados financeiros globais e sistemas bancários.
7. Nesse contexto, acreditamos que o papel central do G-20 como principal foro para a cooperação econômica internacional é de facilitar a ampla coordenação de políticas macroeconômicas, de forma a permitir a recuperação econômica internacional e assegurar a estabilidade financeira, inclusive por intermédio de uma arquitetura monetária e financeira internacional mais aperfeiçoada. Aproximamo-nos da próxima Cúpula do G-20 no México com o compromisso de trabalhar juntamente com a Presidência do Grupo, com todos os seus membros e com a comunidade internacional para alcançar resultados positivos e consistentes com o arcabouço de políticas nacionais, para assegurar o crescimento forte, sustentável e equilibrado.
8. Reconhemos a importância da arquitetura financeira global para a manutenção da estabilidade e da integridade do sistema monetário e financeiro internacional. Em consequência, demandamos uma arquitetura financeira mais representativa, com a ampliação da voz e da representação de países em desenvolvimento e o estabelecimento de um sistema monetário internacional justo e aprimorado, que possa atender o interesse de todos os países e apoiar o desenvolvimento de economias emergentes e em desenvolvimento. Essas economias têm apresentado um expressivo crescimento, contribuindo de forma significativa para a recuperação da economia global.
9. Preocupa-nos, contudo, o ritmo lento das reformas das cotas e da governança do FMI. Torna-se urgente a necessidade de implementar, antes da Reunião Anual do FMI/Banco Mundial de 2012, a Reforma de Governança e de Cota acordada em 2010, assim como uma revisão abrangente da fórmula de cota de forma a melhor reflitir os pesos econômicos e amplie a voz e a representação dos mercados emergentes e países em desenvolvimento até janeiro de 2013, seguida de finalização da próxima revisão geral de cotas até janeiro de 2014. Esse processo dinâmico de reforma é necessário para assegurar a legitimidade e eficácia do Fundo. Enfatizamos que os esforço em andamento para aumentar a capacidade de empréstimo do FMI somente serão exitosos se houver confiança de que todos os membros da instituição estão verdadeiramente empenhados em fielmente implementar a Reforma de 2010. Trabalharemos junto com a comunidade internacional para garantir que suficientes recursos poderão ser mobilizados para o FMI em tempo hábil, enquanto o Fundo continua sua transição para aperfeiçoar sua governança e sua legitimidade. Reiteramos nosso apoio a medidas voltadas para a proteção de voz e representatividade dos países mais pobres do FMI.
10. Conclamamos o FMI a tornar sua estrutura de supervisão mais integrada e equilibrada, observando que as propostas do FMI para uma nova decisão integrada sobre supervisão sejam consideradas antes da reunião do FMI em abril.
11. No presente ambiente econômico internacional, nós reconhecemos que há uma necessidade premente de se ampliar a disponibilidade de recursos para financiamento do desenvolvimento de economias emergentes e em desenvolvimento. Conclamamos, portanto, o Banco Mundial a atribuir crescente prioridade à mobilização de recursos e ao atendimento das necessidades de financiamento ao desenvolvimento, bem como à redução de custos de empréstimos e à adoção de mecanismos inovadores de empréstimo.

12. Acolhemos positivamente as candidaturas do mundo em desenvolvimento para o cargo de Presidente do Banco Mundial. Reiteramos que as Direções do FMI e do Banco Mundial devem ser escolhidas com base em um processo aberto e baseado no mérito. Adicionalmente, a nova liderança do Banco Mundial deve se comprometer a transformar o Banco em uma instituição multilateral que verdadeiramente reflita a visão de todos seus membros, incluindo a estrutura da governança de forma a reflitir a atual realidade política e econômica. Ademais, a natureza do Banco deve evoluir de uma instituição que atua essencialmente como intermediária da cooperação Norte-Sul para uma instituição que promova parcerias igualitárias com todos os países, como forma a incorporar a temática do desenvolvimento e superar a ultrapassada dicotomia entre doadores-receptores.
13. Consideramos a possibilidade de estabelecimento de um novo Banco de Desenvolvimento voltado para a mobilização de recursos para projetos de infra-estrutura e de desenvolvimento sustentável em países do BRICS e em outras economias emergentes e países em desenvolvimento, com vistas a suplementar os esforços correntes de insituições financeiras multilaterais e regionais de promoção do crescimento e do desenvolvimento internacionais. Instruímos nossos Ministros de Finanças a examinar a viabilidade e possibilidade de implementação dessa iniciativa e a estabelecer um grupo de trabalho conjunto para realizar os estudos necessários e reportá-los na próxma Cúpula.
14. Brasil, Índia, China e África do Sul aguardam com expectativa a Presidência russa do G-20 em 2013 e oferecem sua cooperação.
15. Brasil, Índia, China e África do Sul congratulam a Federação da Rússia por sua acessão à OMC. Esse fato torna a OMC mais representativa e fortalece o sistema multilateral de comércio baseado em regras. Nós nos comprometemos a trabalhar juntos para proteger esse sistema, e conclamamos outros países a resistir a todas as formas de protecionismo comercial e restrições disfarçadas ao comércio.
16. Continuaremos nossos esforços para uma conclusão bem sucedida da Rodada Doha, com base no progresso já alcançado e mantendo seu mandato original. Para tanto, exploraremos resultados em áreas específicas onde progressos sejam possíveis, preservando, ao mesmo tempo, a centralidade do desenvolvimento e mantendo o arcabouço geral do empreendimento único (“single undertaking”). Não apoiamos iniciativas plurilaterais contrariam os princípios fundamentais da transparência, inclusão e multilateralismo. Acreditamos que tais iniciativas não apenas desviam os membros da busca de um resultado coletivo, mas também deixam de resolver o déficit de desenvolvimento herdado de rodadas anteriores. Uma vez concluído o processo de ratificação, a Rússia tenciona participar de forma ativa e construtiva da Rodada Doha visando um resultado equilibrado da Rodada que auxiliará no fortalecimento e desenvolvimento do sistema multilateral de comércio.
17. Considerando que a UNCTAD é o ponto focal do sistema das Nações Unidas para o tratamento dos temas de comércio e desenvolvimento, tencionamos investir no aprimoramento de suas atividades tradicionais de construção de consensos, cooperação técnica e pesquisa em temas de desenvolvimento econômico e comércio. Reiteramos nosso desejo de constribuir ativamente para o sucesso da UNCTAD XIII, em abril de 2012.
18. Concordamos em mobilizar nossas sinergias e em trabalhar juntos para intensificar os fluxos de comércio e investimento entre nossos países, de modo a fazer avançar nossos respectivos objetivos de desenvolvimento industrial e de geração de emprego. Acolhemos positivamente os resultados da segunda reunião de Ministros do Comércio dos países do BRICS realizada em Nova Delhi, em 28 de março de 2012. Apoiamos a realização de consultas regulares entre nossos Ministros de Comércio e examinamos a adoção de medidas adequadas para facilitar a progressiva consolidação de nossos laços comerciais e econômicos. Também com satisfação, acolhemos a conclusão, entre nossos bancos de desenvolvimento/eximbanks, do Acordo-Quadro para Extensão de Facilitação de Crédito em Moeda Local no âmbito do Mecanismo Interbancário de Cooperação do BRICS e do Acordo para Facilitação de Confirmação de Cartas Multilaterais de Crédito. Estamos certos de que esses acordos servirão como instrumentos úteis para estimular o comércio intra-BRICS nos próximos anos.
19. Reconhecemos a importância vital que a estabilidade, a paz e a segurança do Oriente Médio e do Norte da África têm para todos nós, para a comunidade internacional e, acima de tudo, para esses próprios países e seus cidadãos, cujas vidas têm sido afetadas pela turbulência que eclodiu na região. Desejamos ver esses países vivendo em paz, recuperando a estabilidade e prosperidade, como respeitáveis membros da comunidade internacional.
20. Concordamos que esse período de transformação em curso no Oriente Médio e do Norte da África não deve ser usado como pretexto para o adiamento de resoluções de conflitos duradouros, mas sim que sirva como incentivo para solucioná-los, em particular o conflito árabe-israelense. A resolução desse e de outros temas regionais de longa duração melhoraria, de forma geral, a situação no Oriente Médio e no Norte da África. Assim, reiteramos nosso compromisso de uma solução abrangente, justa e duradoura para o conflito árabe-israelense que esteja baseada no arcabouço legal internacionalmente reconhecido, incluindo as resoluções relevantes das Nações Unidas, os princípios de Madri e a Inicitiva Árabe para a Paz. Encorajamos o Quarteto a intensificar seus esforços, e requeremos maior envolvimento do Conselho de Segurança das Nações Unidas na busca da resolução desse conflito. Também sublinhamos a importância de negociações diretas entre as partes para se alcançar soluções definitivas. Conclamamos palestinos e israelenses a adotar medidas construtivas, restabelecer a confiança mútua e criar as condições favoráveis à retomada das negociações, evitando medidas unilaterais, em particular atividades de assentamento nos Territórios Palestinos Ocupados.
21. Manifestamos nossa profunda preocupação com a atual situação na Síria e apelamos pelo fim imediato de toda violência e violações de direitos humanos naquele país. O interesse de todos seria melhor atendido mediante o tratamento da crise por meios pacíficos que encorajem amplos diálogos nacionais refletindo as legítimas aspirações de todos os setores da sociedade síria e o respeito à independência, integridade territorial e soberania da Síria. Nosso objetivo é facilitar um processo político inclusivo conduzido pelos sírios, e acolhemos positivamente os esforços das Nações Unidas e da Liga Árabe nesse sentido. Incentivamos o governo sírio e todos os setores da sociedade síria a demonstrar disposição política para iniciar tal processo, o único capaz de criar um novo ambiente para a paz. Acolhemos positivamente a nomeação do Sr Kofi Anan como Enviado Especial para a crise da Síria, bem como o progresso em curso na busca de uma solução política para a crise.
22. A situação relativa ao Irã não pode permitir escalada rumo ao conflito, com consequências desastrosas que não interessam a ninguém. O Irã tem um papel crucial a desempenhar no desenvolvimento pacífico e na prosperidade de sua região, de grande relevância política e econômica, e esperamos que faça sua parte como membro responsável da comunidade internacional. Preocupa-nos a situação que envolve a questão nuclear iraniana. Reconhecemos o direito do Irã ao uso pacífico da energia nuclear, consistente com suas obrigações internacionais, e apoiamos a resolução das questões envolvidas mediante diálogo e meios políticos e diplomáticos entre as partes, inclusive entre a AIEA e o Irã, e de acordo com as resoluções relevantes do Conselho de Segurança.
23. O Afeganistão necessita de tempo, assistência ao desenvolvimento e cooperação, acesso preferencial a mercados internacionais, investimentos estrangeiros e clara estratégia nacional com vistas à obtenção da paz duradoura e estabilidade. Apoiamos o compromisso da comunidade internacional com o Afeganistão, anunciado na Conferência Internacional de Bonn, em dezembro de 2011, no sentido de manter o engajamento durante a década de transformação de 2015 a 2024. Afirmamos nosso compromisso em apoiar a emergência do Afeganistão como um Estado pacífico, estável e democrático, livre do terrorismo e do extremismo, e sublinhamos a necessidade de cooperação regional e internacional mais eficaz para a estabilização do Afeganistão, inclusive no que diz respeito ao combate ao terrorismo.
24. Estendemos nosso apoio aos esforços no sentido de combater o tráfico ilícito de ópio originário do Afeganistão no âmbito do Pacto de Paris.
25. Reiteramos não existir justificativa de qualquer ordem para atos de terrorismo em qualquer forma de manifestação. Reafirmamos nossa determinação de reforçar a cooperação no enfrentamento dessa ameaça, e acreditamos que as Nações Unidas desempenham papel central na coordenação de ações internacionais contra o terrorismo, no marco da Carta das Nações Unidas e em consonância com os princípios e normas do direito internacional. Sublinhamos a necessidade de uma próxima conclusão do projeto da Convenção Abrangente sobre Terrorismo Internacional durante a Assembléia Geral das Nações Unidas, e sua adoção por todos os estados-membros de forma a propiciar uma abrangente estrutura legal para enfrentar esse flagelo internacional.
26. Manifestamos nosso forte compromisso com a diplomacia multilateral, com a Organização das Nações Unidas desempenhando papel central no tratamento dos desafios e ameaças globais. Nesse sentido, reafirmamos a necessidade de uma reforma abrangente das Nações Unidas, incluindo seu Conselho de Segurança, para assegurar maior eficácia, eficiência e representatividade, de modo a que possa melhor enfrentar os desafios globais da atualidade. China e Rússia reiteram a importância que atribuem a Brasil, Índia e África do Sul nos assuntos internacionais e apóiam sua aspiração de desempenhar papel mais protagônico nas Nações Unidas.
27. Recordamos nossa coordenação no Conselho de Segurança durante o ano de 2011 e sublinhamos nosso compromisso de atuar conjuntamente nas Nações Unidas, de continuar nossa cooperação e de reforçar o tratamento multilateral de temas relativos à paz e à segurança internacionais nos próximos anos.
28. A aceleração do crescimento e desenvolvimento sustentável, em conjunto com segurança alimentar e energética, encontram-se entre os desafios mais importantes da atualidade e são centrais para o tratamento do desenvolvimento econômico, erradicação da pobreza, combate à fome e desnutrição em muitos países em desenvolvimento. Faz-se premente a criação de empregos necessários à melhoria dos níveis de vida. O desenvolvimento sustentável é também um elemento-chave de nossa agenda para a recuperação global e investimentos para estimular o crescimento futuro. Temos essa responsabilidade para com nossas futuras gerações.
29. Congratulamos a África do Sul pelo êxito como sede da 17ª Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e da 7ª Conferência das Partes na qualidade de reunião das Partes do Protocolo de Quioto (COP17/CMP17), em dezembro de 2011. Acolhemos positivamente os significativos resultados da Conferência e estamos dispostos a trabalhar com a comunidade internacional para a implementação dessas decisões, de acordo com os princípios de equidade e responsabilidades comuns porém diferenciadas e respectivas capacidades.
30. Estamos inteiramente comprometidos a fazer nossa parte na luta internacional para enfrentamento das questões de mudança do clima e contribuiremos para os esforços internacionais no tratamento da temática de mudança do clima por meio de crescimento sustentável e inclusivo e não limitativo ao desenvolvimento. Sublinhamos que os países desenvolvidos que são Parte da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima devem prover ampliado apoio financeiro, tecnológico e capacitação para a preparação e implementação, por parte dos países em desenvolvimento, de ações nacionalmente apropriadas de mitigação.
31. Estamos certos de que a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentátel (Ri0+20) oferece oportunidade única para que a comunidade internacional renove seu compromisso político de alto nível de apoiar a ampla estrutura de desenvolvimento sustentável, abrangendo crescimento e desenvolvimento econômico sustentável, progresso social e proteção ambiental, de acordo com os princípios e provisões da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, incluindo o princípio de responsabilidades comuns porém diferenciadas, Agenda 21 e o Plano de Implementação de Joanesburgo.
32. Consideramos que o desenvolvimento sustentável deve ser o principal paradigma em questões ambientais, assim como para estratégias econômicas e sociais. Reconhecemos a relevância e foco dos principais temas da Conferência, especialmente a Economia Verde no contexto do Desenvolvimento Sustentável e da Erradicação da Pobreza assim como a Estrutura Institucional para o Desenvolvimento Sustentável.
33. A China, a Rússia, a Índia e a África do Sul esperam trabalhar com o Brasil, sede dessa importante Conferência, em junho, para um resultado exitoso e prático do encontro. O Brasil, a Rússia, a China e a África do Sul também empenham seu apoio à Índia, que sediará a 11ª reunião da Conferência entre as Partes para a Convenção sobre Diversidade Biológica, em outubro de 2012, e esperam um resultado positivo. Continuaremos nossos esforços para a implementação da Convenção e seus Protocolos, com especial atenção ao Protocolo de Nagoia sobre o Acesso a Recursos Genéticos e Repartição Justa e Equitativa de Benefícios Derivados de sua Utilização, ao Plano Estratégico para a Bioversidade 2011-2020 e à Estratégia para a Mobilização de Recursos.
34. Afirmamos que o conceito de “economia verde”, ainda a ser definido na Rio+20, deve ser entendido no contexto mais abrangente de desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza como um meio para se alcançar essas prioridades de maior hierarquia e não um fim em si mesmo. Deve-se dar às autoridades nacionais flexibilidade e espaço político para que façam suas próprias escolhas com amplo leque de opções e definam caminhos rumo ao desenvolvimento sustentável, baseado no estágio de desenvolvimento do país, estratégias nacionais, circunstâncias e prioridades. Resistimos à introdução de barreiras de comércio e investimento, independentemente de seu formato, vinculada ao desenvolvimento da economia verde.
35. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) permanecem um marco fundamental na agenda de desenvolvimento. De forma a capacitar os países em desenvolvimento a obter os máximos resultados no alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio no prazo acordado de 2015, devemos assegurar que o crescimento desses países não será afetado. Qualquer desaceleração aportará sérias consequências para a economia mundial. Alcançar os ODMs é fundamental para assegurar o crescimento inclusivo, equitativo e sustentável, e requererá continuado foco nesses objetivos mesmo depois de 2015, requerendo ampliados esforços de financiamento.
36. Atribuímos a mais alta importância ao crescimento econômico que apoie o desenvolvimento e a estabilidade na África, dado que muitos desses países ainda não realizaram completamente seu potencial econômico. Levaremos adiante nossa cooperação em apoio aos esforços de aceleração da diversificação e modernização de suas economias. Isso se fará por meio do desenvolvimento de infraestrutura, intercâmbio de conhecimento e apoio à ampliação do acesso a tecnologia, aumento da capacitação com investimento em capital humano, inclusive no contexto da Nova Parceria para o Desenvolvimento da África (NEPAD).
37. Expressamos nosso compromisso com o alívio da crise humanitária que ainda afeta milhões de pessoas no Chifre da África e apoiamos os esforços internacionais nesse sentido.
38. A excessiva volatilidade nos preços dos produtos de base, particularmente de alimentos e energia, coloca riscos adicionais para a recuperação da economia mundial. A regulamentação aprimorada dos mercados derivados de produtos de base é essencial para evitar impactos desestabilizadores sobre o suprimento de alimentos e energia. Consideramos que a capacidade ampliada de produção de energia e o fortalecimento do diálogo produtor-consumidor são importantes iniciativas que contribuirão para diminuir essa volatilidade de preços.
39 A energia baseada em combustíveis fósseis continuará a dominar as matrizes energéticas em futuro previsível. Expandiremos as fontes de energia limpa e renovável e o uso de tecnologias alternativas eficientes para atender à demanda crescente de nossas economias e nossos povos, e também para responder às preocupações relativas ao clima. Nesse contexto, enfatizamos que a cooperação internacional no desenvolvimento de energia nuclear segura para fins pacíficos deve continuar sob condições de estreita observância dos padrões relevantes de segurança e requisitos relativos a desenho, construção e operação de plantas de energia nuclear. Sublinhamos o papel essencial da AIEA nos esforços conjuntos da comunidade internacional no sentido de ampliar os padrões de segurança nuclear, com o objetivo de aumentar a confiança pública na energia nuclear como uma fonte de energia limpa, economicamente acessível e segura, vital para atender à demanda mundial de energia.
40. Tomamos nota dos substantivos esforços realizados para aprofundar a cooperação intra-BRICS em inúmeros setores. Estamos convencidos de que há um grande estoque de conhecimento, know-how, capacidades e “boas práticas” disponível em nossos países que podemos compartilhar e a partir do qual podemos construir uma significativa cooperação para o benefício de nossos povos. Com esse objetivo, endossamos o Plano de Ação para o próximo ano.
41. Apreciamos os resultados do Segundo Encontro dos Ministros de Agricultura e de Desenvolvimento Agrário do BRICS, realizado em Chengdu, China, em outubro de 2011. Instruímos nossos Ministros a levar esse processo adiante com foco particular no potencial de cooperação entre os BRICS para contribuir efetivamente para a segurança alimentar e a nutrição mundiais por meio da produção agrícola aprimorada e da produtividade, transparência em mercados, reduzindo a excessiva volatilidade nos preços dos produtos de base, de forma a elevar a qualidade de vida dos povos, particularmente do mundo em desenvolvimento.

42. A maioria dos países do BRICS faz face a numerosos desafios similares no campo da saúde pública, incluindo o acesso universal aos serviços de saúde, o acesso a tecnologias de saúde, inclusive medicamentos, os custos crescentes e o aumento nos gastos com doenças transmissíveis e não transmissíveis. Recomendamos que os encontros de Ministros de Saúde do BRICS, cujo primeiro se realizou em Pequim, em julho de 2011, sejam de agora em diante institucionalizados de forma a enfrentar esses desafios comuns da maneira mais eficaz em termos de custos, mais equitativa e sustentável.
43. Tomamos nota do encontro de Altos Funcionários em Ciência e Tecnologia em Dalian, China, em setembro de 2011, e, em particular, da crescente capacidade de pesquisa e desenvolvimento e inovação em nossos países. Incentivamos esse processo tanto em áreas prioritárias como alimentos, produtos farmacêuticos, saúde e energia, quanto em pesquisa básica nos campos interdisciplinares emergentes de nanotecnologia, biotecnologia, ciência de materiais avançados etc. Incentivamos o fluxo de conhecimentos entre nossas instituições por meio de projetos conjuntos, seminários e intercâmbio de jovens cientistas.
44. Os desafios da rápida urbanização, enfrentados por todas as sociedades em desenvolvimento, inclusive as nossas próprias, são de natureza multidimensional e cobrem uma diversidade de temas interligados. Instruímos nossas respectivas autoridades a coordenar esforços e aprender com as “melhores práticas” e tecnologias disponíveis, de modo a trazer benefícios para nossas sociedades. Constatamos, com satisfação, a realização do primeiro encontro de Cidades Irmãs no âmbito do BRICS, em Sanya, em dezembro de 2011, e levaremos adiante esse processo com a realização de um Fórum de Urbanização e Infraestrutura Urbana conjuntamente com a realização do Segundo Encontro de Cidades Irmãs no âmbito do BRICS e do Fórum de Cooperação de Governos Locais.
45. Dadas nossas crescentes necessidades de fontes de energia renovável e de energia eficiente e de tecnologias favoráveis ao meio ambiente, assim como nossas potencialidades complementares nessas áreas, concordamos em intercambiar conhecimento, know-how, tecnologia e “melhores práticas” nesses setores.
46. Temos satisfação em lançar o primeiro Relatório do BRICS, coordenado pela Índia, com foco especial nas sinergias e complementaridades de nossas economias. Acolhemos com satisfação os resultados da cooperação entre os Institutos Nacionais de Estatística do BRICS e tomamos nota que a edição atualizada da Publicação Estatística do BRICS, lançada hoje, serve como uma útil referência sobre os países do BRICS.
47. Expressamos nossa satisfação com a realização do III Fórum Empresarial do BRICS e do II Fórum Financeiro e reconhecemos seu papel para estimular relações comerciais entre nossos países. Nesse contexto, acolhemos com satisfação o estabelecimento da “BRICS Exchange Alliance”, uma iniciativa de bolsas de valores relacionadas com o BRICS.
48. Incentivamos os canais de comunicação, troca e contatos diretos entre as pessoas, inclusive nas áreas de juventude, educação, cultura, turismo e esporte.
49. O Brasil, a Rússia, a China e a África do Sul estendem seu caloroso apreço e seus sinceros agradecimentos ao Governo e ao povo da Índia por sediar a IV Cúpula do BRICS em Nova Delhi.
50. O Brasil, a Rússia, a Índia e a China agradecem a África do Sul pelo oferecimento de sediar a V Cúpula do BRICS em 2013 e oferecem seu pleno apoio.

Plano de Ação de Nova Delhi
1- Encontros de Ministros de Relações Exteriores à margem da AGNU.
2 - Encontros de Ministros de Finanças e Governadores de Bancos Centrais à margem das reuniões do G20/outras reuniões multilaterais (FMI/BIRD).
3 – Encontros de autoridades financeiras e fiscais à margem de eventos multilaterais ou, quando requeridos, encontros específicos.
4 – Encontros de Ministros de Comércio à margem de eventos multilaterais, ou, quando requeridos, encontros específicos.
5- Terceiro Encontro de Ministros de Agricultura do BRICS, precedido de reunião preparatória de especialistas em produtos agrícolas e segurança alimentar e do segundo encontro do Grupo de Trabalho de Especialistas em Agricultura.
6 – Encontro de Altos Representantes responsáveis por segurança nacional.
7 – Segundo Encontro do BRICS de Altos Funcionários em C&T.
8 – Primeiro Encontro do Forum de Urbanização do BRICS e o segundo encontro de Cidades Irmãs no âmbito do BRICS e o Forum de Cooperação de Governos Locais em 2012 na Índia.
9 – Segundo Encontro dos Ministros de Saúde do BRICS.
10 – Encontro intermediário de Sous-Sherpas e Sherpas.
11 - Encontro intermediário do GCTEC (Grupo de Contato em Temas Econômicos e Comerciais).
12 – Terceiro Encontro de Autoridades de Concorrência do BRICS em 2013.
13 – Encontro de Especialistas sobre o novo Banco de Desenvolvimento.
14 – Encontro de autoridades financeiras para acompanhamento dos resultados do Relatório do BRICS.
15 – Consultas entre as Missões Permanentes dos países do BRICS em Nova York, Viena e Genebra, quando requeridas.
16 – Encontros de consultas entre Altos Funcionários do BRICS à margem dos foros internacionais relevantes relacionados a meio ambiente e mudança do clima, quando requeridos.
17 – Novas áreas de cooperação a serem exploradas:
(i) Cooperação multilateral em energia no âmbito do BRICS.
(ii) Avaliação acadêmica geral sobre a futura estratégia de longo termo para o BRICS.
(iii) Diálogo do BRICS sobre Políticas para a Juventude.
(iv) Cooperação sobre temas relacionados à Populaçã

domingo, 1 de abril de 2012

Manual: Como reconhecer um direitista enrustido?

Inspirado pelo texto do jornalista Leandro Fortes (Clique aqui para ler), resolvi fazer uma listinha básica com dicas para quem quer aprender a identificar um direitista enrustido. Porque, como bem sabemos, ninguém tem coragem de admitir que é de direita no Brasil, mas prestando atenção aos discursos e atitudes das pessoas fica fácil identifica-los.

Vamos lá:

1) Como bem apontou Fortes, o direitista enrustido costuma bradar que odeia política e políticos em geral e que “não existe esse negócio de direita e esquerda”. Mas, na prática, é diferente. O cara vota no Maluf, em alguém do PFL, do PSDB ou em qualquer um que for o anti-petista ou anti-esquerdista da vez. Se Adolf Hitler em pessoa ressuscitar e chegar ao segundo turno contra Marta Suplicy, por exemplo, adivinhem só em quem ele vai votar?

2) Eles adoram xingar os abusos da Telefônica, da CPFL e os pedágios caríssimos das estradas. Enquanto você concorda, são só sorrisos. Porém, na hora que você lembra que a culpa de tudo isso recai sobre as privatizações lesa-pátria ocorridas nos oito anos de governo FHC, ele fecha a cara e começa a defendê-las, alegando que “antes a gente tinha que esperar anos pra conseguir um telefone” e que a culpa é das “agências reguladoras” (que também foram criadas pelo FHC). Aí você explica que não é contra parcerias público-privadas, desde que elas sejam feitas em favor da população e não de um grupelho de “amigos do rei”. E então faz aquela fatídica constatação: “Realmente, hoje você consegue uma linha rapidinho, só que paga as tarifas mais caras do mundo, recebe em troca um serviço horrível e não tem ninguém para reclamar”. Se depois disso a pessoa se enfurecer e começar a falar mal do Lula, do PT ou de Cuba, pode ter certeza que você está diante de um direitista.

3) Toda pessoa de direita acredita piamente que as pessoas são pobres porque querem. “O problema do Brasil é que pobre não gosta de trabalhar”, costumam repetir. De tanto ler a Veja e ver o Jornal Nacional, eles passam a crer que o sujeito mora numa favela e só consegue trabalhar de lixeiro porque “não quis estudar” ou “não se esforçou o suficiente para subir na vida”. Quando você lembra que essas pessoas não têm condições nem para comer, são obrigadas a trabalhar desde cedo largando os estudos e, devido a tudo isso, só conseguem arrumar subempregos, o direitista novamente vai fechar a cara e começar a resmungar coisas sem nexo do tipo: “Pode ser, mas se um vagabundo desses entrar na minha casa eu meto tiro!”.

4) Ainda em relação aos excluídos, o direitista vive dizendo que a solução para os problemas sociais do país é “investir em educação”. Claro que, como bom esquerdista, você vai concordar com ele. Mas você será obrigado a explicar que a direita, que governou o país desde que o Cabral invadiu essas terras, nunca investiu em cultura e em educação. Pelo contrário. E foi durante a ditadura militar de direita que o sistema público de ensino sofreu seu golpe mais duro, ficando totalmente sucateado. Então vai lembrar ao direitista que se todo mundo tivesse estudo e condições iguais para “subir na vida”, ele (ou ela) seria obrigado(a) a fazer faxina na própria casa ou a recolher o lixo da rua, já que ninguém mais precisaria se sujeitar a trabalhar nesses subempregos, exceto de forma voluntária para ajudar a comunidade - igual acontece em Cuba – ou no mínimo ganharia um salário igual ao de um médico. Pronto. Depois dessa é melhor você correr para um abrigo!

5) Pessoas de direita tendem a ser extremamente incoerentes. Via de regra, elas falam mal de tudo (política e políticos, programas na TV, filmes, jornalistas, sexualidade, música) e repetem que “o mundo está perdido”, “nada mais presta” ou “na minha época não tinha nada disso”. E geralmente terminam suas reclamações dizendo que a única solução para tudo isso é “jogar uma bomba atômica e começar tudo de novo”. Aí, logo depois, eles afirmar que são “conservadores”...

6) Conheço uma dúzia de caras, por exemplo, que adoram o Pink Floyd (até tocam suas músicas em bandas cover) enquanto repetem jargões que deixariam até um nazista envergonhado. “Vai dizer que o Roger Waters é petista agora??” costumam vociferar quando você aponta essa incongruência a eles. Obviamente, os direitistas confundem ser “de esquerda” com “ser petista” ou “ser comunista”. Quando eles cantam “Imagine”, do Lennon, com certeza não se tocam que aquela é uma música que contesta o sistema vigente que eles defendem, ou seja, é de esquerda. E aí, voltamos à lógica esquizofrênica exposta acima: o direitista enrustido é contra tudo, acha que o mundo está perdido, que o ser humano não presta e que político é tudo FDP, mas na hora das eleições, dá seu voto aos sujeitos mais conservadores, reacionários e corruptos que existem. Justamente aqueles que, além de não mudar nada, vão deixar tudo ainda pior. Aqueles que, como diz Mino Carta, “querem deixar as coisas como estão para ver como é que ficam”.

7) Uma forma fácil de identificar um(a) direitista enrustido(a) é começar a falar sobre Cuba. Disfarçado no discurso “a favor da democracia e da liberdade”, você vai poder identificar todos os clichês mais obtusos que a mídia de direita usa para doutrinar os incautos. Não adianta você dizer que antes do Fidel, Cuba era uma ditadura de direita na qual a maioria esmagadora da população passava fome e não tinha direitos. Nem que, depois do Fidel, ninguém mais passa fome e todos têm acesso gratuito à educação, à saúde, à alimentação e ao transporte. Também é inútil explicar que, em Cuba, não existem crianças na rua pedindo esmola e que a maioria da população tem curso superior adquirido gratuitamente. Pois o direitista vai jogar na sua cara que em Cuba não existem carros zero km, nem telefone celular, nem shopping centers, nem DVD, nem liberdade de imprensa. Sim, trata-se da mesma pessoa que acabou de vociferar que “o mundo está perdido”, “na televisão só tem porcaria”, “jornalista é tudo safado e a imprensa é uma merda”, “hoje em dia essa molecada só quer gastar dinheiro com lixo” e “o problema do Brasil é a falta de educação e cultura”. Eu disse que coerência não é o forte deles, não disse?

8) Direitista enrustido que se preze é a favor do neoliberalismo. Não, ele não tem idéia do que é isso nem quem inventou esse negócio, mas como ouviu o Arnaldo Jabor e o Django Mainardi dizendo que era a solução para os problemas do mundo, ele acreditou. E passou a repetir tudo como um bom papagaio: são contra o Estado e as Estatais (mas não reclamam quando dinheiro público é usado para salvar bancos privados da falência), a favor das privatizações (sim, as mesmas que o fazem espumar de ódio contra a Telefônica) e pregam a “redução dos impostos” (ao mesmo tempo em que choram de raiva por terem que pagar fortunas para ter plano de saúde privado). Como são manipulados pela mídia de direita, adoram meter o pau no governo Lula, não reconhecem nenhum mérito nele e acreditam (mesmo!) que tudo de bom que acontece hoje no país é resultado do governo FHC (embora eles odeiem política e todos os políticos, inclusive os do PSDB, lembram?).

9) Outra característica marcante da turma da direita é a certeza absoluta que são donos da verdade. Quando eles falam sobre qualquer assunto, não estão emitindo uma opinião, mas sim uma verdade única e incontestável. A melhor forma de fazer um tipinho desses sair do armário e mostrar sua verdadeira face é simplesmente contestá-lo com argumentos sólidos e muita calma. Eles até vão tentar rebater, mas quando perceberem que o que estão dizendo é APENAS uma opinião e que, por mais que tentem te ridicularizar ou denegrir, você não vai mudar a sua opinião, o direitista enrustido vai então partir para ataques chulos e de cunho pessoal, como que tentando convencer os outros que o que você diz não tem valor, afinal trata-se de uma pessoa má, feia, fedida, chata ou qualquer outra coisa. Em última instância, o direitista enrustido vai perder todas as estribeiras e acabará apelando para o último recurso usado na tentativa de calar o interlocutor: ameaçar processá-lo!

E então? Você conhece um não conhece um monte de gente assim por aí? Vai ver você é uma delas. Mas não se desespere, pois sempre é hora para mudar.

E, como diz John Lennon, eu espero que um dia você possa se juntar a nós para que o mundo possa ser um só... - por André Lux, jornalista e crítico-spam (de esquerda)| Via - Tudo em cima |.

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