quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Quando a razão se curva diante da crença

 

Por Dag Vulpi

É natural ao ser humano priorizar as informações que confirmam suas próprias crenças, ainda que elas não sejam verdadeiras. Esse impulso instintivo nos faz colher evidências de forma seletiva, buscar lembranças convenientes e interpretar os fatos de maneira, muitas vezes, enviesada. E quanto mais o assunto desperta emoção ou toca em convicções arraigadas, mais forte é esse efeito — conhecido como viés deconfirmação.

Meu propósito inicial ao escrever este texto era simples: esclarecer, de uma vez por todas, a celeuma que ronda as urnas eletrônicas — e as desconfianças de fraude que ressurjem a cada nova eleição, sempre que o resultado não agrada a uma parcela dos eleitores. É curioso perceber que muitos dos que hoje as atacam, outrora as exaltavam, quando o resultado lhes era favorável.

Enquanto escrevo, percebo o paradoxo: mesmo antes de concluir a introdução, sei que alguns leitores já estarão em desacordo com o que afirmo. Essa desarmonia, no entanto, não é culpa da razão, mas das crenças que a antecedem. Ainda assim, proponho-me a seguir, na esperança de que ao menos alguns leiam até o fim — e talvez, com alguma sorte, reflitam.

Lembro-me, então, de duas situações que ilustram bem esse comportamento humano.

A primeira vem das missas de domingo. Na entrada da igreja, aquelas senhorinhas dedicadas distribuem, com todo o esmero, os livretos de cânticos. Imagino-as reunidas dias antes, revisando cada página, certificando-se de que tudo sairá nos conformes. No entanto, quando o celebrante anuncia: “Abram o livro de cânticos na página tal”, ocorre algo curioso. A maioria das pessoas, por conhecer de cor os louvores, abre o livreto — mas nem sequer o lê. Já os que não sabem a letra (e me incluo entre eles), seguem as palavras impressas, mas nem sempre conseguem acompanhar o ritmo da melodia. O resultado é uma espécie de coro dissonante, em que o esforço e o carinho daquelas senhoras acabam, de certo modo, em vão.

A segunda lembrança vem do início da minha carreira profissional, no antigo Banco Nacional, do saudoso José de Magalhães Pinto. Eu tinha apenas 19 anos e trabalhava como escriturário. Jovem e cheio de ideias, comecei a observar algumas deficiências na rotina da agência — falhas pequenas, mas que se repetiam por hábito.

Como ainda não havia me acomodado à rotina e trazia fresca na mente a teoria aprendida na faculdade de Administração, resolvi propor melhorias. Certa manhã, pedi ao gerente de serviços, o senhor Lourival Lourenço, que me ouvisse por alguns minutos. Ele foi receptivo, pediu dois cafezinhos e me convidou a expor minhas ideias. Falou-me com entusiasmo, elogiou minha iniciativa e disse que eu tinha futuro na instituição. Animado, garantiu que, se não todas, pelo menos 90% das propostas seriam adotadas em várias agências do país.

Naquela mesma noite, movido por um entusiasmo juvenil, sentei-me à minha velha Olivetti e redigi seis páginas detalhando cada uma das melhorias. Entreguei-as no dia seguinte, dentro de um envelope endereçado ao gerente. No fim do expediente, ele me chamou e disse, com um ar sereno, que seria melhor se eu fizesse um resumo.

Voltei para casa tarde da noite, depois da faculdade, e resumi as seis páginas em três. Entreguei novamente o material. Algumas horas depois, o senhor Lourival me chamou outra vez. Pediu, com gentileza, que fizesse um novo resumo, “mas apenas daquilo que conversamos no primeiro dia.”

Naquele momento compreendi: não importava o quanto eu me esforçasse para aperfeiçoar o que já estava cristalizado. Minhas ideias, por mais fundamentadas que fossem, não encontrariam eco em quem já havia decidido não mudar.

E é exatamente assim que ocorre quando se discute as urnas eletrônicas. Pouco adianta apresentar fatos, dados e auditorias — para muitos, não há argumento que suplante a crença de que houve fraude. E, curiosamente, essa convicção persiste mesmo quando a realidade insiste em prová-la infundada.

Nosso cérebro é mestre em proteger aquilo em que queremos acreditar. Descartamos o que não combina com nossas certezas e nos agarramos aos sinais que as confirmam. Afinal, entre a verdade incômoda e a ilusão confortável, quase sempre preferimos o consolo da crença ao desconforto da razão.


Nota do autor

Este texto não pretende persuadir, mas convidar à reflexão. Antes de desacreditar uma urna, talvez devamos recontar os votos que damos às nossas próprias convicções.

Por Dag Vulpi

A Conferência de Bretton Woods: Um Marco na Economia Global

 


Por Dag Vulpi

Em meio às ruínas da Segunda Guerra Mundial, líderes e economistas de 44 países reuniram-se para reconstruir não apenas economias, mas também a confiança entre as nações. Nascia ali o sistema de Bretton Woods, um ambicioso projeto que buscava criar um novo alicerce para a economia global. O que começou como um pacto de estabilidade e cooperação acabaria por moldar — e mais tarde desafiar — a ordem financeira mundial até os dias de hoje.

O Encontro que Mudou o Mundo

A Conferência de Bretton Woods, realizada em julho de 1944, em New Hampshire (EUA), foi um marco na reorganização da economia mundial após o conflito. Seu principal objetivo era estabelecer um novo sistema monetário internacional, capaz de promover estabilidade financeira e desenvolvimento econômico, evitando as crises e desvalorizações competitivas que marcaram o período entre guerras.

Naquele contexto, os Estados Unidos emergiam como a maior potência econômica, com reservas de ouro abundantes e o dólar consolidando-se como a moeda mais forte e confiável do planeta.

As Ideias em Confronto

Durante a conferência, duas propostas principais disputaram o futuro da economia mundial:

  • John Maynard Keynes, economista britânico, defendia a criação de uma moeda internacional — o Bancor — que seria administrada por uma câmara de compensação global, com o objetivo de limitar déficits e superávits comerciais e garantir maior equilíbrio entre as nações.

  • Harry Dexter White, representante do Tesouro dos EUA, propôs um sistema baseado no padrão dólar-ouro, em que o dólar seria convertido em ouro a uma taxa fixa de US$ 35 por onça, e as demais moedas teriam câmbio fixo, porém ajustável, em relação ao dólar.

A proposta de White prevaleceu, consolidando o dólar americano como eixo da economia mundial.

Os Resultados de Bretton Woods

Da conferência nasceram duas instituições fundamentais para a economia global:

  • Fundo Monetário Internacional (FMI) — com a missão de promover a cooperação monetária e a estabilidade cambial;

  • Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) — hoje parte do Grupo Banco Mundial, voltado para o financiamento da reconstrução e do desenvolvimento econômico.

Sob o espírito de Bretton Woods, também surgiria o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), embrião da atual Organização Mundial do Comércio (OMC), com o propósito de facilitar e regular o comércio internacional.

O Declínio do Sistema Dólar-Ouro

O sistema funcionou por quase três décadas, mas as bases começaram a ruir nos anos 1960, quando os EUA passaram a acumular déficits na balança de pagamentos. A emissão excessiva de dólares e a queda nas reservas de ouro minaram a confiança mundial.

Em agosto de 1971, o presidente Richard Nixon suspendeu unilateralmente a conversibilidade do dólar em ouro, decretando o fim do sistema de Bretton Woods. Desde então, as principais moedas passaram a flutuar livremente, inaugurando a era dos câmbios flexíveis.

O Surgimento do DES — Uma Nova Tentativa de Equilíbrio

Antes mesmo do colapso do sistema, em 1969, o FMI criara o Direito Especial de Saque (DES) — uma unidade de conta baseada em uma cesta de moedas internacionais (dólar, euro, iene, libra esterlina e yuan).
O DES não é uma moeda, mas sim um ativo de reserva internacional suplementar, destinado a dar liquidez e estabilidade ao sistema financeiro global.

Análise Crítica e Reflexão Final

Embora a Conferência de Bretton Woods tenha representado um avanço histórico na cooperação econômica internacional, seu legado é ambíguo e limitado diante dos desafios contemporâneos. O sistema que moldou o pós-guerra tornou-se, com o tempo, instrumento de desigualdade e hegemonia.

Principais contradições e limitações:

🔹 Instituições desequilibradas e pouco representativas:
O FMI e o Banco Mundial mantêm uma estrutura de poder desproporcional, com decisões concentradas em países desenvolvidos — especialmente os EUA. Essa configuração reflete o mundo de 1944, não o do século XXI, e enfraquece a legitimidade das instituições diante de potências emergentes como o grupo BRICS.

🔹 Aprofundamento das desigualdades globais:
As políticas de ajuste fiscal e as condicionalidades impostas pelo FMI e pelo Banco Mundial frequentemente agravam as desigualdades e limitam o crescimento sustentável dos países em desenvolvimento.

🔹 Fragilidade do sistema monetário centrado no dólar:
Com o fim do padrão ouro, o dólar tornou-se simultaneamente o pilar e o ponto fraco do sistema financeiro global — origem de sucessivas crises monetárias e inflacionárias.

🔹 Incapacidade de lidar com crises modernas:
A estrutura rígida de Bretton Woods mostrou-se insuficiente para enfrentar crises globais como a de 2008 e a da COVID-19, expondo a necessidade urgente de reformas e descentralização nas instituições econômicas internacionais.

🔹 Hegemonia americana em detrimento da cooperação multilateral:
A predominância dos EUA transformou a promessa de cooperação em um sistema assimétrico, no qual interesses nacionais frequentemente se sobrepõem aos objetivos coletivos.

Conclusão

A Conferência de Bretton Woods foi, sem dúvida, um marco da reconstrução mundial e da confiança entre nações. Mas, ao mesmo tempo, legou um sistema que envelheceu mal diante da nova geopolítica global.
Repensar Bretton Woods, hoje, é mais do que um exercício histórico — é um chamado à reinvenção da cooperação internacional, onde o equilíbrio de forças, a equidade e a solidariedade global sejam mais do que ideais — sejam práticas possíveis.

Fonte e referências recomendadas:

  • Fundo Monetário Internacional (FMI) – Documentos históricos sobre a Conferência de Bretton Woods

  • Banco Mundial – Arquivos sobre a reconstrução econômica pós-1945

  • Keynes, J.M. – Proposals for an International Clearing Union (1943)

  • Eichengreen, Barry – Globalizing Capital: A History of the International Monetary System

Nota de Retratação — Postagem de 22/11/2016

Em 2016, publiquei neste blog o texto “A preocupação de Hitler com ocomunismo”. À época, reproduzi um conteúdo que me foi enviado por um conhecido, sem checar devidamente as fontes.
Hoje, após uma revisão detalhada e à luz de pesquisas históricas reconhecidas, constatei que o texto continha erros graves de interpretaçãouso de fontes não confiáveis generalizações étnico-religiosas incorretas, associando falsamente o comunismo ao povo judeu.
Rejeito veementemente qualquer forma de preconceito ou desinformação.
Em respeito aos leitores e à verdade histórica, decidi corrigir e substituir a postagem por esta nota de retratação. Reconheço que, mesmo sem intenção, a antiga versão poderia contribuir para perpetuar desinformação e estigmas injustos.
O propósito deste espaço sempre foi refletir, e não propagar inverdades.
Agradeço a quem me alertou sobre o equívoco e reafirmo meu compromisso com o pensamento crítico e o respeito à memória histórica.
Dag Vulpi

ANÁLISE DETALHADA

Contexto introdutório: “A preocupação de Hitler com o comunismo”

1 - O texto parte da ideia de que Hitler temia o comunismo porque ele seria uma criação judaica.

Veredito: ❌ Falso / ideologicamente enviesado
Hitler realmente considerava o comunismo seu inimigo, mas associá-lo a uma “conspiração judaica” é parte central da 
propaganda antissemita nazista, sem base factual. A tese de “Judeo-bolchevismo” foi usada pelo nazismo para justificar perseguições e o Holocausto.
Fontes: Richard J. Evans – The Coming of the Third Reich (2003); Raul Hilberg – The Destruction of the European Jews (1985).


2️ - “O assassinato do Czar Nicolau II e sua família pelos bolcheviques”

Veredito: ✅ Verdadeiro, com nuances
O assassinato ocorreu em 16–17 de julho de 1918 por ordem do Soviete de Ecaterimburgo, chefiado por Yakov Yurovsky. Há indícios de comunicação com Moscou (Sverdlov, Lenin), mas não provas documentais diretas de ordem explícita.
Fontes: Edvard Radzinsky – The Last Tsar (1992); Oxford Reference – “Execution of the Romanovs”.


3️ - “Os bolcheviques eram, em sua maioria, judeus”

Veredito: ❌ Falso / distorção numérica
Em 1917, cerca de 
5% dos membros do Partido Bolchevique eram judeus. A liderança incluía alguns judeus notórios (Trotsky, Zinoviev, Kamenev), mas eram minoria. A frase “a maioria era judia” é propaganda antissemita criada na Europa dos anos 1920.
Fontes: Orlando Figes – A People’s Tragedy (1996); Jonathan Frankel – Prophecy and Politics (1984).


4️ - “O avô materno de Lenin era judeu, logo ele era um quarto judeu”

Veredito: ⚠️ Parcialmente verdadeiro, mas irrelevante
Há evidência de que o avô materno de Lenin, Alexander Blank, era de origem judaica convertida ao cristianismo. Isso 
não teve relação alguma com as ideias políticas de Lenin, nem faz do bolchevismo um “movimento judaico”.
Fonte: Yohanan Petrovsky-Shtern – Lenin’s Jewish Question (Yale University Press, 2010).


5️ - “A Cheka (polícia secreta) era dominada por judeus”

Veredito: ❌ Enganoso
Havia oficiais de origem judaica, mas a Cheka incluía pessoas de várias etnias. A porcentagem total de judeus 
não passou de 5 a 6%, conforme arquivos soviéticos pós-1919. A alegação de “80%” em regiões específicas não tem base documental.
Fontes: George Leggett – The Cheka: Lenin’s Political Police (1981).


6️ - “Citações de Churchill, Trotsky, embaixadores e diplomatas dizendo que o comunismo era judeu”

Veredito: ⚠️ Parcialmente verdadeiro, mas fora de contexto
Alguns líderes (como Churchill em 1920) escreveram textos expressando medo de influência judaica — refletindo preconceitos da época, não fatos. Trotsky nunca atribuiu caráter “judaico” ao comunismo.
Fontes: Martin Gilbert – Churchill: A Life (1991); Isaac Deutscher – The Prophet Armed (1954).


7️ - “Mark Weber, do Institute for Historical Review (IHR), prova esses fatos”

Veredito: ❌ Fonte não confiável
O IHR é identificado por instituições de pesquisa e memória (como o Museu do Holocausto dos EUA e o Memorial de Auschwitz) como 
grupo revisionista negacionista, não uma instituição acadêmica. Mark Weber é conhecido por defender teses revisionistas e antissemitas.
Fontes: United States Holocaust Memorial Museum (ushmm.org); Auschwitz.org – “Holocaust Denial”.


8 - “O comunismo foi uma invenção judaica usada para destruir a civilização cristã”

Veredito: ❌ Falso / teoria conspiratória
O comunismo surge do pensamento socialista europeu do século XIX (Marx, Engels, e outros), com raízes em debates sobre industrialização e desigualdade, não em identidade religiosa. Reduzir o movimento à “ação judaica” é manipulação ideológica.
Fontes: Eric Hobsbawm – How to Change the World (2011); Isaiah Berlin – Karl Marx (1939).


9 - “Os bolcheviques eram ateus por natureza judaica”

Veredito: ❌ Falso / preconceituoso
O ateísmo bolchevique foi político, não étnico. Judeus religiosos também foram perseguidos na URSS. A confusão entre etnia e ideologia é característica de discursos de ódio.
Fontes: Geoffrey Hosking – The Russian Revolution (1985).


10️ - Conclusão do texto: “Hitler reagia a uma ameaça judaico-comunista real”

Veredito: ❌ Falso e ideologicamente perigoso
Não existia nenhuma conspiração judaico-comunista. Essa foi 
a principal narrativa antissemita do regime nazista para justificar o genocídio. Reproduzi-la, mesmo sem intenção, legitima um mito que custou milhões de vidas.
Fontes: Saul Friedländer – Nazi Germany and the Jews (1997); Richard Evans – The Third Reich in Power (2005).


CONCLUSÃO GERAL

O texto original contém mistura de fatos verdadeiros e interpretações falsas, derivadas principalmente de fontes ideológicas antissemitas e revisionistas.
Mesmo que tenha sido publicado de boa-fé, 
ele dissemina ideias desmentidas há décadas pela historiografia séria e que foram usadas como propaganda de ódio.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Soteco dos Anos 70: Taruira a Eremita do Morro


Por Dag Vulpi

Recordar é revisitar os fantasmas e as travessuras da própria infância. Entre medos e brincadeiras, ganhamos coragem, enfrentamos figuras temíveis e descobrimos que, mesmo nas travessuras mais ousadas, existem lições que o tempo transforma em memória. Maria Taruira, com sua rabugice lendária, continua viva em nossas lembranças, lembrando-nos da complexidade do humano e do prazer inesperado das pequenas aventuras.

Na crônica anterior, contei minha saga de ter disputado o último duelo com D’Jango (confira aqui) e, ao fazê-lo, revivi a profusão de personagens estranhos e fascinantes que povoavam aquele recém-criado bairro de Vila Velha, nos anos 70. Hoje, continuo minha arqueologia afetiva e trago à tona mais uma figura: a nada sociável Maria Taruira.

Taruira era uma senhora solitária e esquisitona, moradora de um barraco diminuto, escondido entre o matagal do morro do bairro Soteco. Magra, descabelada, sempre com a roupa suja, alimentava-se e vestia-se do pouco que, de vez em quando, alguém deixava à sua porta, movido pela piedade. Gratidão, contudo, não fazia parte do seu dicionário. As bem-intencionadas senhoras precisavam agir com cautela: deixar os donativos e sumir antes que a infeliz pudesse retribuir com sua arma mais temida — uma lata de urina, projetada com precisão cirúrgica.

Era uma senhora antissocial ao extremo. Quem se aventurasse por perto recebia, primeiro, a saraivada da lata e, logo em seguida, uma enxurrada de palavrões e maldições. Seu talento para desestabilizar o semelhante era incomparável. Não poucas vezes, senhoras regressavam a casa, chorosas, assombradas pelo encontro com a desgraça ambulante que era Taruira.

Parte de sua rabugice era injustificada; outra parte, bem merecida. A molecada da redondeza a atormentava constantemente. A maioria de nós a temia, mas, quando reunidos em pequenos bandos, éramos nós que sentíamos o peso do seu temperamento.

Lembro-me com nitidez das tardes que antecediam nossas expedições. Cada um trazia estilingue e embornal cheio de pelotas, recolhidas junto aos trilhos da estrada férrea de São Torquato — por onde vagões carregados de minério chegavam de Minas Gerais rumo ao porto de Tubarão, inaugurado pela Vale do Rio Doce em 1962, projeto pioneiro de Eliezer Batista.

Nos sábados de nossa infância, minha casa era o quartel-general. Mais de quinze garotos se reuniam ali, e subíamos o morro com a desculpa de “caçar passarinho” — matar rolinhas com estilingue era prática comum e, na época, ainda não nos importávamos com o politicamente correto. Escondíamo-nos nas moitas, calculando ângulos, aguardando o momento certo. Nosso alvo não era a pobre Taruira, mas seu barraco: madeira com telhado e lateral de zinco, que amplificavam o impacto das pelotas a um volume ensurdecedor. Imagine dezenas delas atingindo o metal ao mesmo tempo!

O ataque era meticuloso: disparávamos, nos escondíamos, recarregávamos e disparávamos novamente. A senhora emergia do barraco, olhos arregalados, cabelo em desalinho, vocabulário em chamas, e nós, em êxtase, corríamos morro abaixo, sentindo o sabor agridoce da revanche. Só parávamos quando cada um de nós estava seguro em casa.

Hoje, essas lembranças chegam temperadas de arrependimento — mas, na época, eram prazeres absolutos. Depois das “batalhas”, reuníamo-nos para comentar a audácia de cada um, o prazer secreto de enfrentar a temível Taruira.

Anos depois, a senhora foi hospitalizada, acometida por grave tuberculose. Nunca mais ouvi falar dela. E, ainda assim, ao fechar os olhos, consigo vê-la: pequena, magra, rabugenta, mas viva, impávida e indomável, no coração daquele morro que guardava nossas travessuras.

Meu Último Duelo com Django

Por Dag Vulpi

Naquele tempo, o medo tinha nome, rosto e chapéu de abas largas. Crescer nos anos 70, em um bairro recém-nascido e cheio de personagens improváveis, era viver entre a inocência das brincadeiras e o susto dos monstros reais — aqueles que não saíam da televisão, mas dobravam a esquina.

O maior terror da meninada daqueles dias não vinha dos filmes de faroeste nem das histórias de assombração.
Nossos vilões eram de carne e osso, moradores das mesmas ruas, frequentadores das mesmas esquinas.
E havia muitos deles.

Vivíamos em plena década de 1970 — tempo de ditadura, êxodo e esperanças empacotadas em carrocerias de caminhão.

Gente de todo canto do Brasil partia rumo às cidades grandes em busca de um futuro mais promissor.
Cada mudança que chegava trazia não apenas móveis e sonhos, mas também um novo personagem para o nosso catálogo de curiosidades humanas.

Minha família estava entre as que decidiram mudar o rumo da própria história.
Viemos do interior do Espírito Santo, de uma grande fazenda de café que pertencia ao meu avô materno.
Mas ser neto do dono não significava fartura: meus pais eram meeiros, e o pouco que se colhia dividia-se em partes iguais.

Essa, porém, é outra história — prometo contá-la em postagem futura.
Hoje, quero falar de alguns personagens do Soteco dos anos 70.

O bairro já fervilhava de figuras “diferentes” — aos nossos olhos infantis, qualquer detalhe bastava para distinguir alguém: um penteado, um jeito de falar, um andar desajeitado.
Bastava uma frase fora de lugar para que o recém-chegado ganhasse um apelido e fosse eternizado como personagem.

Naquela época, ainda não existia o “politicamente correto” nem a palavra bullying.
Éramos apenas crianças rindo de nossas próprias crueldades ingênuas.

Tínhamos um elenco invejável: Patronzinho, Maria Sujinha, Gabiroba, Maria Taroira, Galerão, Índio, Paulinho Caveirinha... e o mais temido de todos: Django.

Django era um homem alto, forte, calado e sempre de chapéu preto.
Passava os dias vagando pelo bairro em silêncio, e a molecada não lhe dava trégua.
Aos poucos, ele passou a nos odiar com razão — e nós, a temê-lo com o mesmo fervor.

Por algum motivo, Django começou a aparecer nos arredores do Colégio Cândido Marinho — o único da região, portanto, o centro nervoso da infância sotequense.
Ele surgia nos horários exatos das entradas, recreios e saídas.
Parecia ter decidido enfrentar a criançada, e isso causava pânico em pais, alunos e até em Dona Glórinha, a temida diretora.

Mas nós, os “veteranos” de oito a dez anos, não recuávamos.
Armados de nossas pistolas de madeira enfiadas no cós do short, transformávamos cada esquina num cenário de faroeste.
O som de nossas bocas imitava os tiros, e Django corria atrás de nós, desengonçado, espumando de raiva.
Era o terror em forma humana — e, de certo modo, também parte do espetáculo.

Até que um dia, o inevitável aconteceu.

Um de nós teve de sair sozinho.
A mãe mandou o menino à mercearia Sipolatti, e ele tentou argumentar, mas não teve apelo.
A rua estava deserta.
Chamou pelo amigo da casa em frente — silêncio.

Sem opção, foi.
E foi de fininho, colado nas cercas, coração disparado.
Chegou são e salvo.
Comprou o que precisava, o Tio Severino anotou na caderneta, e lá foi ele de volta.

Mas a sorte havia ficado na mercearia.
Na primeira esquina, lá estava Django, à espreita, como se esperasse aquele momento há anos.

O menino — eu — paralisou.
Senti o calor de um líquido escorrendo pelas pernas.
Sim, aquele medo tinha cheiro e temperatura.

Pela primeira vez, olhei fundo nos olhos vermelhos do homem que assombrava meus dias.
E, surpreendentemente, ele sorriu.

Um sorriso amarelo, vacilante, mas humano.
Moveu-se para o lado e me deixou passar.

Não disse palavra.
Nem eu.
Apenas corri — e corri como nunca.

Aquele foi o meu último duelo com Django.
E, como nos faroestes do cinema, o verdadeiro artista da história era ele.

Reflexão:

O tempo transforma os monstros em memórias e os medos em metáforas.
Talvez Django nunca tenha sido o vilão que imaginávamos, mas apenas mais um errante tentando encontrar seu lugar no mundo — assim como nós, crianças armadas de inocência e coragem de faz-de-conta.

Nota do autor

Muitos amigos de Soteco me lembraram, com carinho, que o personagem chamado D’Jango nesta crônica era, na verdade, o nosso conhecido Ringo — figura marcante daqueles tempos e dono de muitas histórias que atravessaram gerações.

Mantive o nome D’Jango como surgiu na lembrança, porque a memória também tem dessas liberdades: às vezes mistura o que foi real com o que ficou simbólico. O importante é que o espírito da recordação permanece o mesmo — a saudade de um tempo em que até os “vilões” do bairro tinham seu lugar nas aventuras da infância.

Fica aqui o meu agradecimento a todos que ajudaram a corrigir e a completar essa lembrança coletiva. No fundo, cada um de nós carrega um pedaço dessas histórias — e é bonito quando elas voltam a se encontrar.

O Asno, o Cabrito e o Espelho da Fazenda


Por Dag Vulpi

No mesmo dia em que nasci, nascia também o regime militar no Brasil. Uma coincidência que, com o tempo, passou a me soar como ironia do destino. Décadas depois, entre o assado e o vinho do meu aniversário, acabei sonhando uma história que parecia explicar muito mais sobre o país do que qualquer análise política: a fábula de um asno, um cabrito e as fake news que adoecem mentes e corações.

No último domingo, 31 de março, coincidiu a data do meu aniversário com a implantação do regime militar no Brasil. Isso mesmo — nasci no mesmo dia, mês e ano daquele infame sistema.
Na infância, no primário, essa data era tratada como “o dia da revolução”, e eu, sem compreender bem o contexto, sentia certo orgulho com as festividades militares na escola. Isso basta de história — agora, o que interessa.

Decidi fazer um churrasco para celebrar. Afinal, deixei de ser um simples senhor de meia-idade e passei oficialmente à categoria dos sexagenários. Entre os convidados, como quase sempre ocorre nas famílias brasileiras, havia um bolsonarista de carteirinha.
Depois de algum tempo e algumas cervejas, resolvi me sentar ao lado dele. A princípio, minha intenção não era falar de política — mas isso, hoje em dia, parece impossível.
Basta um bolsonarista saber que você é de esquerda para o assunto se impor sozinho.
“Você viu o que aquele cachaceiro fez agora?”, perguntou ele.
Fingindo não entender, respondi: “O que dizem que eu fiz desta vez?”.
“Não você”, replicou, “o cachaceiro ao qual me refiro é o Lula.”
Ah, ainda bem, pensei — seria desrespeitoso alguém falar mal de mim justamente no meu aniversário, bebendo e comendo às minhas custas… de um velho comunista.

Dei um largo sorriso, o abracei, agradeci sua presença e fui para outra mesa — cutucar minha cunhada, lulista de fé. Sim, praticamente toda família brasileira tem um de cada lado do muro.

Fim de churrasco. Todos se foram. Tomei um banho demorado, servi-me de um bom vinho que ganhara de presente e me acomodei no sofá. Pensei até em acender um charuto, mas desisti — minha esposa ficaria irritada com as cinzas no tapete. Um gole de Cabernet Sauvignon chileno de 2014 bastava.
Apoiei a taça vazia sobre a mesa e virei a cabeça para o lado. Adormeci.

E foi aí que começou o sonho.

O cenário era uma fazenda. Os protagonistas: eu, um jovem cabrito chamado Goat, e um velho asno chamado Jair, que coexistiam em harmonia.
Goat vivia num pequeno cercado próximo à casa, alimentando-se das folhas secas que caíam de uma grande árvore. Como não eram suficientes, eu precisava diariamente cortar feixes de capim no pasto do asno para sustentar o cabrito.

O ideal seria que dividissem o mesmo espaço, mas o temperamento ríspido do velho Jair me fazia adiar essa conversa.
Passei a visitá-lo com frequência, levando-lhe uma espiga de milho, seu agrado favorito.
Nossos “diálogos” eram breves e pouco amistosos — mas, afinal, tratava-se de um asno.
Certo dia, levei o Goat comigo para apresentá-los e conversar sobre a partilha do pasto. Jair relutou em se aproximar, ignorou até a espiga, mas acabou cedendo.
Com desdém, comentou:
“Talvez você não saiba, mas esse aí é neto do velho Trotsky — aquele bode arruaceiro que nunca trabalhou, só vivia pregando essas bobagens comunistas. Queria que todos dividissem o pouco que tinham. Um lunático! Até um sobrinho meu caiu nessas ideias e estragou a cabeça. E esse aí”, apontou para Goat, “certamente é da mesma laia.”
Virou as costas e foi embora.

Goat ficou perplexo. “Afinal, é um ancião. E dos anciões se espera sabedoria”, disse-me.
Mas parecia saber mais do que dizia. Ao chegarmos em casa, confidenciou: “Senhor, acho que o velho Jair anda recebendo fake news pelo celular. Vi o filho de um vizinho comentar que o avô dele troca mensagens com o asno pelo WhatsApp.”
Fiquei alarmado — dentro da minha própria fazenda, sem saber, as mentiras já estavam se alastrando.

“Você tem razão, Goat”, respondi. “São essas fake news, trocadas entre os mais velhos e menos instruídos, que estão corroendo a democracia e transformando o bom senso em ressentimento.”

Naquela noite, as palavras do asno ecoaram na minha mente.
Acordei decidido a enfrentá-lo.
Sem espiga, sem agrados.
“Jair”, chamei, “precisamos conversar.”
Ele ergueu as orelhas, relutante.
Fui direto ao ponto: questionei sua crença em mentiras, sua hostilidade gratuita e sua recusa em dividir o pasto.
Com altivez, respondeu:
“Não dividirei espaço com o neto de um comunista. E o que converso pelo celular é da minha conta. Afinal, vivemos numa democracia.”

Contive o ímpeto e respondi:
“Você tem razão sobre o direito à privacidade. Mas democracia não é viver isolado em sua própria bolha de mentiras. É conviver, aprender e reconhecer que o outro existe.”

Decidi, então, instituir um revezamento: meses pares, o asno no cercado; meses ímpares, o cabrito.
Era abril — mês par.
Jair desceria.

O Goat, surpreso, tentou dissuadir-me: “Senhor, prefiro ficar onde estou, não quero causar-lhe constrangimento.”
Mas fui firme: “Não é castigo, é oportunidade.”

E assim foi.
Nos primeiros dias, o velho Jair manteve-se de costas para a cerca, resmungando.
Já o Goat florescia no pasto, fez amigos, corria, lia, vivia.
Pouco a pouco, percebi o asno navegando na internet. Entrou no Facebook — inclusive no grupo que administro, “Consciência Política Razão Social” — usando um perfil falso de Campinas.
Mas, curiosamente, começou a pesquisar também em sites de checagem de fake news.

Chegou o primeiro de maio. Dia de troca.
Ao reencontrarem-se, Goat perguntou o que ele achara do cercado.
“Maravilhoso”, respondeu Jair. “Foi lá que aprendi o que é limite. Li coisas novas, pensei, refleti. Descobri que nem tudo o que me contaram era verdade. Que fui manipulado por anos, transformado em instrumento dos que mandam neste país. Quero mudar. Quero dividir este espaço com você, se o nosso dono — que, na verdade, é nosso amigo — permitir.”

Goat olhou para mim e pediu: “Diga que sim.”
Sorri.
E ali, naquele abraço triplo, percebi que talvez a democracia não esteja perdida — apenas dormindo dentro de cada asno à espera de um cabrito disposto a dialogar.

Nota:

Fábula moderna sobre polarização política, intolerância e o poder corrosivo das fake news. Um conto simbólico sobre a necessidade do diálogo, da escuta e da reeducação do olhar — onde até um velho asno pode aprender novamente o valor da convivência.

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