segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Viés de Confirmação: Uma Jornada pela Influência do Inconsciente



Dag Vulpi

No artigo de hoje, mergulhamos nas águas do viés de confirmação, um fenômeno traiçoeiro explorado no livro "Manual de Melhoria". O que é esse viés? Para muitos, é um desconhecido que molda silenciosamente nossas decisões diárias. Descubra como nosso cérebro, em busca de validação, seleciona seletivamente informações que confirmam nossas crenças, gerando decisões enviesadas.

À medida que exploramos o complexo mundo do viés de confirmação, revelamos a tendência humana de priorizar informações que alinham-se com nossas convicções. O impacto é significativo, principalmente em decisões emocionais e em contextos nos quais confrontamos opiniões profundamente enraizadas. Este fenômeno, comprovado por um estudo da Universidade de Ohio, destaca como as pessoas dedicam 36% mais tempo a leituras alinhadas com suas visões, revelando a influência subconsciente desse viés em nossas vidas. Não deixe de conferir o vídeo ao final, uma adição valiosa para aprofundar sua compreensão.

É inerente à natureza humana favorecer informações alinhadas com nossas crenças, seja ao absorver um livro, assistir a notícias ou interagir em conversas. Nas redes sociais, onde encontramos uma ampla concordância, esse viés é amplificado. Subconscientemente, selecionamos dados que reforçam nossas convicções, ignorando evidências contrárias, desafiando até mesmo o senso comum. A interpretação seletiva da realidade, moldada por desejos e crenças, é um comportamento comum, manifestando-se em diferentes graus.

O vício em confirmação está enraizado nas emoções; a validação gera triunfo, enquanto a negação provoca frustração ou ofensa. Reconhecer esse viés é apenas o ponto de partida, crucial em uma sociedade marcada por emoções intensas e opiniões polarizadas em temas como esportes, moral, religião e, especialmente, política.

Além dos conceitos mencionados, nossa percepção é moldada por impressões, simpatias e julgamentos infundados. Observamos alguém e imediatamente tiramos conclusões, talvez motivadas por razões subjetivas desconhecidas.

Em grande parte, consumimos informações que reforçam nossas crenças preexistentes. Nossa afinidade ou aversão por uma pessoa determina concordância ou discordância com suas ideias. Convencer alguém torna-se mais fácil ao utilizar argumentos alinhados com suas crenças, evitando a necessidade de uma revolução de pensamento.

O viés de confirmação é fascinante, mas há diversas instâncias que ilustram como mentiras podem ser vendidas devido a associações sem fundamentos. Tendemos a acreditar, por exemplo, que toda pessoa rica é inteligente (o que não é verdade), todo famoso é correto (o que nem sempre ocorre), todo político é corrupto (em alguns casos não se confirma), e toda pessoa bonita é boazinha (uma conexão inexistente).

Em diversas situações, deparamo-nos com a presença do viés de confirmação. Dois exemplos ilustrativos incluem apaixonados torcedores de um time de futebol que rejeitam qualquer informação contrária ao seu clube e entusiastas políticos que selecionam apenas dados positivos sobre sua causa, ignorando escândalos evidentes.

A distinção crucial entre "conhecimento" e "crença" revela-se na razão versus emoção. O conhecimento surge da análise criteriosa das evidências, enquanto a crença é moldada por desejos pessoais, resistindo a contradições. O conhecimento busca a verdade, adaptando-se com base em provas, enquanto a crença se apega ao conveniente, ignorando discordâncias.

A verdade, por vezes contraintuitiva, encontra sua defensora na natureza, o supremo árbitro das disputas do conhecimento. Para evitar os efeitos prejudiciais do viés de confirmação, recorrer à ciência e aos especialistas é uma abordagem segura. Embora a ciência não seja infalível, sua capacidade de revisão e autocorreção a protege contra os malefícios do viés.

Este texto não pretende provar certeza em minhas opiniões, mas sim promover a compreensão de que, mesmo nas convicções mais sólidas, existe espaço para múltiplas possibilidades.



sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

As fake news e suas implicações na responsabilidade e ética da sociedade contemporânea



Dag Vulpi

Pilatos disse: "Então, tu és rei?" Jesus respondeu:" Tu dizes que eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz". Pilatos lhe disse: "Que é a verdade?" (Jo 18,37-38)

"A melhor época para o plantio do milho, dependendo da região, vai de setembro a outubro. Um fazendeiro estava fazendo contas e chegou à conclusão de que ele precisava plantar em junho, ou no máximo julho. Percorreu fazendas, conversou com uns e com outros. No geral todos lhe diziam o que ele já sabia, que a época boa é setembro e outubro. Começou a pensar em algumas possibilidades, 'e se planto no vale, e se planto na encosta...?' Mas as respostas não o satisfaziam: "setembro ou outubro!" Uma tarde, já meio resignado, tomando café com um velho conhecido, voltou à carga:' preciso plantar, colher e vender logo, mas se plantar em setembro o dinheiro vai chegar tarde'. Talvez por pena ou por cansaço o velho conhecido lhe disse: "ora, julho não é a época, mas às vezes pode dar sorte com as chuvas e, vai ver, dá certo!".

Em um mundo inundado por informações e perspectivas diversas, o dilema do fazendeiro que deseja plantar milho fora da estação ecoa um questionamento mais amplo sobre a busca da verdade. Da mesma forma como Pilatos questionou Jesus sobre o que é a verdade, hoje enfrentamos desafios em discernir entre fatos objetivos e narrativas emocionais. Esta reflexão explora a era da pós-verdade, fake news e suas implicações, destacando a importância de responsabilidade e ética na sociedade contemporânea.

No contexto atual, a busca pela verdade é mais complexa do que nunca. Enquanto o fazendeiro fictício contemplava a plantação de milho fora de temporada, nossa sociedade lida com um dilema semelhante, onde informações conflitantes e narrativas emocionais muitas vezes obscurecem a verdade objetiva e é neste momento que o viés de confirmação de cada indivíduo sobressai. A pós-verdade e a disseminação de notícias falsas desafiam nossa capacidade de discernir o que é real, levando a consequências profundas em nossas vidas e, consequentemente, na sociedade.

No cenário complexo da sociedade contemporânea, as fake news emergem como uma força poderosa, moldando de maneira sutil, porém significativa, a percepção coletiva da realidade. À medida que informações distorcidas proliferam, a confiança na veracidade dos dados disponíveis é abalada, contribuindo para um ambiente onde a verdade muitas vezes se encontra obscurecida.

A disseminação rápida e viral das fake news é alimentada pelas plataformas digitais, amplificando seu impacto e desafiando a capacidade das instituições e indivíduos para discernir entre o factual e o fabricado. Esse fenômeno mina não apenas a confiança nas fontes de informação, mas também compromete a base sobre a qual as decisões individuais e coletivas são tomadas.

A sociedade, ao confrontar constantemente narrativas contraditórias, enfrenta o desafio de manter uma compreensão sólida da realidade. A polarização exacerbada por informações falsas perpetua divisões e impede o diálogo construtivo. A falsidade se infiltra nos debates públicos, distorcendo a percepção do que é prioritário e essencial.

Diante desse panorama, é imperativo fortalecer a alfabetização midiática e promover a educação crítica. Ao capacitarmos os indivíduos a discernir entre fontes confiáveis e enganosas, podemos construir uma sociedade mais resistente à manipulação da realidade. O combate às fake news não é apenas uma responsabilidade das plataformas digitais, mas sim uma tarefa coletiva que exige a participação ativa de cidadãos conscientes.

A batalha contra as fake news é uma busca pela preservação da integridade da verdade e da confiança mútua na sociedade contemporânea. Somente ao reconhecer e enfrentar esse desafio de frente, podemos esperar forjar um caminho para uma compreensão mais clara e fundamentada da realidade que todos compartilhamos.

Neste cenário, a responsabilidade e a ética tornam-se elementos cruciais para preservar a busca pela verdade, enquanto enfrentamos a atemporal pergunta: "Que é a verdade?"

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

A Evolução dos Direitos Trabalhistas: Reflexões Sobre 'O Capital' de Marx e Engels

                                      

Dag Vulpi


A obra 'O Capital', escrita por Karl Marx e Friedrich Engels no século XIX, continua a ecoar suas preocupações sobre desigualdade e exploração. Neste texto, explorarei como as reivindicações apresentadas por esses pensadores influenciaram a evolução dos direitos trabalhistas ao longo do tempo, revelando os progressos significativos, mas também os desafios persistentes na busca por justiça social e igualdade.


A obra é um tratado fundamental que aborda questões cruciais do sistema econômico e social da época. Nela, os autores apresentam uma análise minuciosa das contradições do capitalismo e fazem reivindicações contundentes que visam à transformação da sociedade.


Marx e Engels apresentam diversas reivindicações que refletem sua crítica ao sistema capitalista. Uma das principais demandas é pela eliminação da exploração do trabalho, propondo a criação de uma sociedade sem classes, na qual o trabalho seja realizado de acordo com a capacidade de cada indivíduo e os recursos sejam distribuídos com base nas necessidades.


Além disso, os autores enfatizam a importância da socialização dos meios de produção e do planejamento centralizado da economia, a fim de eliminar crises cíclicas e garantir a satisfação das necessidades da população. A luta por direitos trabalhistas, melhores condições de trabalho e a abolição do trabalho infantil são pontos destacados em suas reivindicações.


Marx e Engels acreditavam que a revolução proletária era o caminho para alcançar essas mudanças e criar uma sociedade mais justa e igualitária. Suas ideias em 'O Capital' continuam a influenciar o pensamento político e econômico, servindo como base para movimentos sociais e políticos em todo o mundo.


Karl Marx e Friedrich Engels, no século XIX, escreveram "O Capital", uma obra fundamental que delineava suas preocupações com as condições de trabalho e a exploração capitalista da época. Suas reclamações se concentravam na desigualdade, exploração e falta de direitos dos trabalhadores. Hoje, no entanto, podemos observar um contraste entre essas preocupações e a realidade dos direitos trabalhistas atuais.


Desde o século XIX, houve avanços significativos na proteção dos direitos dos trabalhadores. A maioria dos países desenvolvidos estabeleceu leis trabalhistas que garantem salários mínimos, limitam a jornada de trabalho, fornecem segurança no local de trabalho e estabelecem direitos sindicais. Isso representa um avanço notável em relação à época em que Marx e Engels escreveram "O Capital".


Além disso, os sistemas de seguridade social foram implementados em muitos países, oferecendo benefícios como assistência médica, aposentadoria e seguro-desemprego. Esses programas visam aliviar as pressões econômicas sobre os trabalhadores e proporcionar uma rede de segurança.


No entanto, apesar desses avanços, ainda existem desafios significativos. A desigualdade econômica persiste, e os direitos dos trabalhadores não são uniformemente aplicados em todo o mundo. Em muitas regiões, as condições de trabalho são precárias, com salários baixos, longas horas e falta de segurança no emprego. Além disso, a globalização e as mudanças tecnológicas têm levantado questões sobre a estabilidade do emprego e a capacidade dos trabalhadores de negociar em pé de igualdade com os empregadores.


Portanto, embora tenha havido progressos notáveis na proteção dos direitos trabalhistas desde os dias de Marx e Engels, as questões de desigualdade e exploração ainda são relevantes hoje. A luta contínua pela justiça social e pelos direitos dos trabalhadores demonstra que as preocupações levantadas por esses filósofos ainda têm um papel importante na moldagem das políticas e da sociedade contemporânea.


Considerando o que foi apresentado, é justificável afirmar que a visão utópica de Karl Marx e Friedrich Engels, delineada em sua obra seminal, progressivamente já alcançou muitos de seus objetivos ao longo do tempo.


O sonho, aos poucos e com muito suor e lágrimas, torna-se realidade.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

A Criação do Estado de Israel e o Conflito com os Palestinos

 

Dag Vulpi - 07 de novembro de 2023


A responsabilidade pela correção do ônus deve ser exclusiva daqueles que o provocaram, arcando, sem transferências, com a totalidade das suas consequências.


O Holocausto foi a perseguição sistemática e o assassinato de 6 milhões de judeus europeus pelo regime nazista alemão, seus aliados e colaboradores. O Holocausto foi um processo contínuo que ocorreu por toda a Europa entre os anos de 1933 a 1945


O antissemitismo foi a base do Holocausto. O antissemitismo, o ódio ou preconceito contra os judeus, era um princípio básico da ideologia nazista. Esse preconceito, que já era disseminado, piorou em toda a Europa.


O sionismo, por sua vez, foi um movimento que defendia a criação de um Estado judeu na Palestina como solução ao antissemitismo na Europa.


Após o Holocausto e o lobby de campanhas imigratórias promovidas pelos defensores do sionismo. Foi criado o Estado de Israel no dia 14 de maio de 1948, por intermédio da Organização das Nações Unidas. Dividindo a Palestina. Essa decisão resolveu um problema na Europa, mas desencadeou um conflito duradouro entre judeus e palestinos,


Essa decisão histórica resolveu um problema iminente na Europa, fornecendo um refúgio para os judeus europeus. No entanto, criou um problema igualmente significativo entre os judeus recém-chegados e a população árabe palestina, que habitava a região há gerações. O choque de interesses territoriais e culturais deu origem a um conflito complexo que persiste até hoje.


Uma das consequências diretas dessa divisão foi o controle da Faixa de Gaza, que inicialmente era parte da Palestina. O Hamas, um grupo islâmico palestino, emergiu como um ator importante no conflito. O grupo se opõe a Israel e defende a criação de um Estado palestino independente, usando métodos frequentemente violentos para buscar seus objetivos.


O conflito entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza tornou-se uma das questões mais intratáveis no cenário internacional, com sérias implicações humanitárias e políticas. A criação do Estado de Israel em 1948 resolveu um problema urgente, mas gerou um conflito duradouro que continua a moldar a geopolítica da região e desafia a busca por uma solução pacífica.


Thomas Mann: o relato bíblico do massacre de Siquém pelos “filhos de Jacó-Israel”

 


Thomas Mann: o relato bíblico do massacre de Siquém pelos “filhos de Jacó-Israel”.


por Carlos Russo Jr no: ELMP


Todo relato bíblico é história e mito. Em “José e seus irmãos”, Thomas Mann confere a cor e o calor literário a um massacre realizado pelo “povo eleito” para conquista da dita “terra prometida”.


Como é próprio da essência do mito o retorno, a atemporalidade e a onipresença, hoje nos deparamos com o massacre dos palestinos pelo mesmo povo que se autodenomina “O eleito do Senhor de Abraão”.


A cidade de Siquém situava-se no centro da Palestina ocidental, próximo à bacia que separa as águas que correm para o Jordão daquelas que descem para o Mediterrâneo, a 65 quilômetros ao norte de Jerusalém, região limite entre Cisjordânia e Jordânia.


Mas vamos a um breve resumo comentado da imortal descrição do mestre Mann.


Em conformidade com a Bíblia, Jacob já ostentava o título de Israel- o guerreiro de Deus- pelo qual a posteridade conheceria seus descendentes como a raça escolhida pelo Senhor de Abraão, quando conduzia todos os seus bens através dos caminhos perigosos que demandavam a Canaã.


Desde que empreenderam a fuga dos domínios de seu sogro Labão, que fora por ele totalmente espoliado, Israel era um homem rico que buscava um lugar seguro onde pudesse implantar as suas tendas, apascentar o gado e cultivar a terra. Seus bens incluíam suas duas mulheres, Lia e Raquel que, conjuntamente com as servas Bala e Zelpa (todas “herdadas “de Labão) haviam-lhe gerado doze filhos (Benjamin ainda estava por nascer); dezenas de escravos e escravas, pastores e vaqueiros; mais de cinco mil cabeças de ovinos, burros, camelos e montaria.


Após longo caminhar, o séquito deixara para trás vales perigosos, até chegar a uma região relativamente calma, um pouco montanhosa, onde as flores, frutas e a cevada cresciam sem cultivo. E, ao fundo, guarnecendo o planalto, estava a cidade dupla de Siquém mais que centenária, com seus quinhentos habitantes, cercada por fortes muralhas.


Pode-se bem imaginar os sentimentos desencontrados com que o povo da cidade viu se aproximar a comitiva dos nômades de Israel. Quais seriam as suas intenções?


A população de Siquém não era belicosa, mas pacífica, dedicada ao comércio e amante do conforto. Seu rei, Hemor, um velho artrítico e rabugento que nada negava ao seu filho, um fidalgote mimado, chamado, tal qual a cidade, Siquém. A guarnição da cidade era composta por vinte egípcios, acostumados à boa vida e confiantes no poder das grossas muralhas, assim como no distante poder do Faraó, a quem a cidade prestava suserania.


De qualquer maneira, após Jacó-Israel protestar votos de amizade eterna ao rei Hemor e ao povo de Siquém, obtendo a concordância dos mesmos, estabeleceu seu acampamento ao lado da cidade. Em sinal de consideração, enviou por intermédio de dois de seus filhos um cesto com pombos, pão feito com frutas espremidas, lâmpadas, jarros e outros agrados ao castelo. No retorno, os mensageiros chegaram maravilhados com as riquezas vistas na cidade, o que provocou certo alvoroço dentre os filhos mais velhos de Israel.


Ruben tinha por volta de dezoito anos; na sequência etária vinham Simeão e Levi (denominados “os gêmeos”) e, logo após, Judá, Dan e Neftali, com quatorze anos de idade. Destes partiu a ideia de uma conspiração que, por entendido, não envolveu os filhos mais novos de Israel.


Os rudes nômades do deserto propuseram ao pai que, mediante ardil, tomassem a desprevenida Siquém e saqueassem suas riquezas. Fosse como fosse, Jacob, a quem o plano foi apresentado, se opôs de forma majestática e determinante:


“Afastai-vos de mim filhos de Bala e de Lia, devíeis envergonhar-vos! Somos, por ventura, ladrões do deserto que caem como gafanhotos em cima da terra, como uma praga de Deus e devoram a colheita do agricultor? Somos uma ralé, ou filhos de ninguém para roubar o que não nos pertence? E sabei agora que me vou preparar para transpor a porta da cidade e falar em paz com Hermon. Faremos aliança com eles, legalmente e por escrito teremos a terra que a eles pertence e negociaremos com o lucro que obtivermos”.


E assim foi feito. O dinheiro em pagamento da terra arável e das pastagens foi pesado, declarado legal e sacrossanto o contrato e maldito aquele que rompesse o vínculo.


A gente de Israel ganhou foros de cidadania iguais aos dos habitantes de Siquém, podendo transitar à vontade pelas ruas da cidade e comerciar nelas. Os filhos de Siquém poderiam tomar como esposas as moças da tribo e vice-versa. Trocaram beijos e lisonjas.


E dessa maneira Israel se domiciliou na terra de Canaã ao lado da cidade de Siquém. Passaram-se quatro anos e os israelitas plantaram seu trigo e cevada nos campos, colheram os frutos de suas oliveiras, apascentaram o gado, e no lugar onde haviam se fixado, cavaram um poço de quatorze varas de profundidade, que se tornou conhecido para a posteridade como o poço de Jacob em terras de Canaã, tornando-se independentes da água de Siquém.


Quatro vezes o trigo e a cevada verdejaram, oito vezes a gente de Jacob procedera à tosquia. O pacto de fraternidade estabelecida cumpria-se e os habitantes da cidade haviam deixado de temer os homens que haviam chegado do deserto; a guarnição da cidade já os considerava seus camaradas. Então se celebrou a festa da vindima após a fermentação do vinho. Por toda parte gritos de alegria, procissões e oferendas das colheitas, quer na cidade, quer no vale. Durante sete dias banqueteavam-se e bebiam do vinho.


Lá pelo terceiro dia tocavam música e todos dançavam frente à cidade, dentro dela e em frente ao castelo.


Então o velho Hemor e seu filho, acompanhados pelo séquito, fizeram questão de confraternizar-se com Jacob e seus filhos. Foi então, que o irrequieto príncipe Siquém viu pela primeira vez a jovem e interessante Dina, menina ainda nos seus treze anos, mas já feita mulher pela natureza. Os desejosos olhos do jovem a fixaram e a paixão que a moça lhe provocou não mais o deixaria. Pensou imediatamente no casamento e na noite de núpcias, embora o costume lhe proibisse namorá-la, a não ser com os olhos.


Uma nota importante que aqui nos compete frisar: Fala-se muito dos doze filhos de Jacob-Israel, que seriam o tronco das doze tribos, mas omite-se, muitas vezes propositalmente, o fato de que Jacob teve de Lia uma filha mulher, precisamente Dina, com a qual ninguém se importara até então.


Coube ao velho Hemor pedir a mão da moça a Jacob, oferecendo copiosa compensação em prata e ouro. Jacob ficou surpreso e perplexo. Materialmente lhe conviria ter um parentesco real na região, mas ela era sua única filha, exclusivo instrumento de troca. Chamou, então, os filhos a conselho. Os filhos mais velhos de Israel pensavam na melhor transação possível que pudessem arrancar ao velho, exceto Simeão e Levi que tinham outras ideias, ainda um tanto vagas. É que eles jamais haviam abandonado o antigo plano de saquear a cidade que os acolhera. De todos os modos foi pedido ao rei três Dias para a deliberação familiar.


Ao final do terceiro dia, Siquém veio pessoalmente, a conselho do pai, saber a resposta disposto a qualquer concessão desde que sua paixão pela donzelinha pudesse se consumar.


O plano dos saqueadores e assassinos.

Disseram-lhe os de Israel que o primeiro passo que deveria dar para ter Dina seria circuncidar-se, pois seria um escândalo o casamento de uma israelita com um incircunciso, símbolo do pacto com o Deus de Abraão, Isaac e Jacob.


Ora, Siquém concordou de imediato. Afinal, nem ele e nenhuma de suas amiguinhas da Casa das Delícias do castelo sentiriam a falta de um pequeno pedaço de pele.


Uma semana após, retornou o jovem embora ainda mal curado e sentindo o incômodo que lhe causara o sacrifício, mas cheio de confiança.


Jacob, tendo percebido onde tudo iria desembocar, fugira, preferindo assumir o papel do “demônio Labão”, “in absentia”.


Os filhos de Israel objetaram que a circuncisão feita com uma faca de metal fugira à regra. O correto seria uma faca de pedra. E que, ademais, o filho do rei já possuía uma favorita, Reúma, a única esposa verdadeira e Dina, a filha de Israel, príncipe de Deus, não poderia ser uma simples concubina.


Siquém desesperou-se e ao partir amaldiçoou todos os irmãos, que haviam quebrado um pacto e uma promessa. Mas ele não fora educado para renunciar com facilidade a um desejo sensual.


Quatro dias após, Dina foi por quem desejara desde o princípio desposá-la, raptada e conduzida à Casa das Delícias, onde se viu cercada por todo o gênero de comodidades urbanas que desconhecia, assim como desfrutou do carinho das outras favoritas do príncipe. É fato conhecido que tão pouco ofereceu qualquer tipo de resistência quando da celebração de tão desejada boda.


Os filhos de Israel, principalmente Simeão e Levi, ao saberem do rapto pareciam não ter limites em sua fúria. Quebraram enfeites, rasgaram as roupas, arrancaram cabelos e barbas. Clamavam pela desonra e queriam assalto, morte, sangue.


Jacob sabia que, na verdade, os seus filhos haviam encontrado uma oportunidade para empreenderem aquilo que sempre haviam desejado, e chegou a ponderar que não haveria grande vantagem em arrebatar Dina do castelo à força, pois isso nada remediaria a situação e suscitaria uma nova questão: o que fazer com a menina, raptada e ultrajada.


Alguns dias após a revolta eis que, vindo da cidade, chega um mensageiro com uma carta do moço Siquém dirigida a Israel, pedindo que a situação se arrumasse e oferecendo um enorme dote por Dina, assim como um convite para as bodas reais.


Jacob ouviu seus filhos e não se indispôs com os mesmos. Esses impuseram a Siquém uma única condição para que a situação se regularizasse:


Que toda a cidade, inclusive sua guarnição, fosse submetida à circuncisão! Uma cláusula aparentemente pia pelo amor ao Senhor e ao pacto de Abraão para com o “povo escolhido”.


Jacob recordou-se do sonho em que o Senhor Deus, em Betel, havia-lhe gritado que ele haveria de possuir portas, e, mesmo, as portas de seus inimigos.


Não significaria isso que, apesar de todo o seu pretenso amor pessoal à paz, estava escrito nas estrelas que a vida de Israel estaria ligada a conquistas, guerras, assassinatos e pilhagens?


O rei e o príncipe de Siquém aceitaram a proposta e, num mesmo dia, todos os homens adultos, mesmo os velhos e a guarda egípcia foram submetidos à circuncisão.


Chegado o terceiro dia, quando piores são as dores e maiores os calafrios da infecção, cinquenta homens, entre servos e escravos, comandados pelos filhos de Israel, apresentaram-se disfarçados na cidade para a comemoração das bodas.


Uma vez dentro das muralhas retiraram seus disfarces e aos gritos de Dina, Dina, atacaram todos os habitantes, incapazes de reação, com a fúria dos leões.


Simeão e Levi, os instigadores do conluio, praticaram os crimes mais hediondos. Os hebreus tudo assolaram literalmente a ferro e a fogo. O sangue corria pelas ruas e calçadas, enquanto do castelo, das casas e dos templos subiam labaredas aos céus.


Somente homens, os fisicamente fortes, e duas meninas que atraíram o apetite sexual dos dois irmãos foram feitos escravos, sendo todos os demais, inclusive mulheres e crianças trucidados sem piedade.


Siquém, o noivo, horrendamente desfigurado, teve a cabeça enterrada no esgoto da latrina de seu quarto. Dina, a insignificante causa inocente, foi restituída à família.


Se a matança e a destruição não duraram mais que duas horas, o saque continuou por muito tempo.


Às mãos de Israel passou toda a fortuna muitas vezes secular da cidade e dez vezes maior que os peregrinos do deserto possuíam. Ouro em abundância, sacos cheios de anéis, belíssimos instrumentos domésticos de prata, âmbar e faiança, alabastro e muito marfim, sem falar das enormes provisões de linho, vinho, farinha e azeite.


Jacob inicialmente negou-se a aceitar o feito de seus filhos. No entanto, quando viu que além de toda a fortuna acima descrita ainda estavam sendo trazidos os rebanhos, tomou-se de raiva “santa” tão somente contra Simeão e Levi e os amaldiçoou, pela violência de sua raiva. Esses apenas murmuravam: “Deveríamos consentir que nossa irmã fosse tratada como rameira? ”


Pobre Dina, se encolhia no chão, aniquilada. Estava grávida. E Israel definiu: “A criança não viverá”. E dito e feito: criança nasceu e foi deixada para morrer no deserto, provavelmente comida por algum animal!


Durante a noite Israel sonhou que o Senhor lhe ordenava que partisse de Canaã em direção a Betel. Na manhã seguinte chamou todos os seus filhos e ordenou que se pusessem em marcha, pois não era conveniente permanecerem no lugar daquela abominação.


 Deveriam carregar consigo todos os seus bens, inclusive aquilo de que se haviam apossado “por causa de Dina”. Afinal, os povos vizinhos e o Egito, do qual o rei de Siquém era suserano, poderiam querer-se vingar.


Mas a boa sorte voltava a sorrir para Jacob, pois o Faraó do Egito, envolto em novas guerras, não tomou conhecimento do que acontecera em Canaã e os povos vizinhos estavam suficientemente aterrorizados pelas barbaridades praticadas por Israel que não se atreveram a opor-lhes resistência.


Como já frisamos, todo relato bíblico é história e mito. Thomas Mann lhe confere cor e calor literário, mas, sendo próprio da essência do mito o retorno, a atemporalidade e a onipresença, há mais de 50 anos Israel usa e abusa de seu direito de ser como Estado. Sua fome por terras não tem limites. Hoje, pouca importa que toda a faixa de Gaza e a própria Cisjordânia sejam uma Siquém bíblica rediviva!


domingo, 3 de dezembro de 2023

Capitalismo: A desigualdade social, o individualismo e a competição são traços distintivos desse sistema econômico



Apesar das suas transformações durante os séculos, (tratarei dessas mudanças noutra postagem), o capitalismo mantém inalterada sua principal característica: 'o lucro às custas da desigualdade e da exploração'.

Dag Vulpi - 07 de abril de 2023

O capitalismo é um sistema econômico que se desenvolveu ao longo dos séculos e passou por diversas transformações. Desde a sua origem na Europa medieval até os dias de hoje, o capitalismo se tornou mais complexo e sofisticado, com novas tecnologias, mudanças políticas e culturais, e uma globalização crescente.

Apesar de todas essas mudanças, a principal característica do capitalismo permanece inalterada: a busca pelo lucro. O lucro é a razão de ser do capitalismo e é o que motiva os empresários e investidores a investirem seu dinheiro e recursos em novos empreendimentos e projetos.

Esse desejo de lucro tem uma série de consequências, algumas positivas e outras negativas. Por um lado, ele estimula a inovação e o empreendedorismo, impulsionando o desenvolvimento econômico e melhorando a qualidade de vida das pessoas. Por outro lado, ele pode levar à exploração dos trabalhadores, à concentração de riqueza nas mãos de poucos, e à degradação do meio ambiente.

Apesar dessas consequências negativas, a busca pelo lucro continua a ser a principal força motriz do capitalismo. Isso pode ser visto em todas as áreas da economia, desde a produção de bens de consumo até a exploração de recursos naturais.

Mesmo com as mudanças tecnológicas e sociais que ocorreram ao longo dos séculos, o capitalismo se adaptou e evoluiu, mantendo sua característica central. Hoje em dia, vemos a emergência de novas formas de capitalismo, como o capitalismo de plataforma e o capitalismo de vigilância, que utilizam as novas tecnologias para explorar novos mercados e criar novas fontes de lucro.

A busca pelo lucro não é a única característica do capitalismo que se manteve constante ao longo do tempo. A desigualdade social, o individualismo e a competição também são traços distintivos desse sistema econômico.

Apesar das críticas que enfrenta, o capitalismo continua a ser o sistema econômico dominante em quase todo o mundo. É importante que sejam encontradas formas de atenuar seus efeitos negativos, como a desigualdade e a exploração, enquanto se mantém sua capacidade de estimular a inovação e o desenvolvimento econômico.

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