quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Selic e a política monetária

Por Ernane Galvêas *
Parabéns à nova Diretoria do Banco Central, sob o comando de Alexandre Tombini, que está quebrando o tabu do comportamento da taxa de juros, no contexto da política monetária de prevenção das pressões inflacionárias.
A elevada taxa de juros SELIC, fixada pelo Banco Central, produz dois impactos diretos, de curto prazo: de um lado, aumenta o déficit fiscal do Governo e sobrecarrega os custos da dívida pública; de outro, induz o sistema financeiro a aumentar o rendimento de seus títulos (CDB’s, etc.) e dos Fundos de Renda Fixa. Por esse processo, a elevação da SELIC encarece o financiamento dos bens de consumo duráveis e eleva os ganhos da poupança, reduzindo a propensão a consumir. E mais, encarece o crédito para as empresas, reduzindo as taxas de retorno e, pois, diminuindo a propensão a investir.
Assim sendo, a elevada taxa SELIC reduz o nível da demanda agregada (C+I), aliviando a pressão sobre os preços.
Essa é a teoria dos juros. Na prática, a eficácia da política monetária baseada na taxa de juros vai depender da oferta de crédito. São as variações na disponibilidade do crédito que mais influenciam as variações dos preços (inflação). Uma elevação das taxas de juros pode atrair capitais do exterior, que vão expandir a liquidez e aumentar a oferta de crédito, anulando o primeiro impacto da elevação da taxa de juros.
É isso, basicamente, o que ocorre no Brasil. A taxa de juros alta estimula o ingresso de capitais e expande o crédito. Para impedir o impacto da expansão do crédito sobre a inflação, o Banco Central entra no mercado vendendo títulos do Tesouro, comprando dólares e acumulando reservas cambiais. Um giro financeiro desordenado, cujos resultados práticos são a sobrecarga fiscal e a desnecessária e onerosa acumulação de reservas.
Por outro lado, há uma forte expansão de crédito dos bancos públicos – CEF, BNDES, Banco do Brasil, BNE e BASA – independentemente da política monetária do Banco Central.
No fundo, observa-se uma correlação mínima ou quase nula entre a manipulação da taxa SELIC pelo Banco Central e seus resultados sobre a inflação. Ao fechar o circuito de todos os resultados produzidos, resta a conclusão de que a teoria da taxa de juros, no Brasil, não funciona.


ATIVIDADES ECONÔMICAS

Quadro do PIB 2012 - Estimativas
Em %
Crescimento do PIB
3,0%
Indústria
2,0%
Comércio
6,0%
Agricultura
-2,8%
Exportações
5,0%
Importações
7,0%
Nível de desemprego
5,0%
Expansão de crédito
15,0%
Juros Selic – 31/dez
8,5%
Transações correntes
US$ 68 bilhões
Ingresso de IED’s
US$ 60 bilhões
Taxa de câmbio – 31/dez
1,85/US$


Indústria
Após crescer 10,5% em 2010, a indústria brasileira cresceu apenas 0,3% em 2011. Dos 27 setores analisados, 12 apresentaram queda. Em novembro e dezembro, a indústria voltou a crescer. A produção de bens de capital subiu 3,3% e equipamentos para transportes 12,4%; a produção de bens duráveis caiu 2%, puxada pela indústria automobilística (-7,8%). Espírito Santo (+6,8%) e Paraná (+7,0%) tiveram forte alta, enquanto Ceará (-11,7%) e Santa Catarina (-5,1%), tiveram fortes quedas.
A produção têxtil caiu 14,9% em 2011, sendo -10,1% no Rio e -8,7% em São Paulo. A agroindústria sofreu queda de 2,3%, sendo -1,6% no setor agrícola e  -0,6% na pecuária (IBGE).
Segundo a CNI, o faturamento real da indústria de transformação cresceu 5,1%, com queda nas horas trabalhadas de 1,2% e aumento de 3% no rendimento médio real. O nível do emprego cresceu 2,2%.
Em janeiro/12, a produção de veículos caiu 19,2% ante dezembro/11 e as vendas -23% (Anfavea). As vendas da indústria fluminense subiram 13,3% (Firjan)
A produção de petróleo, em 2011, aumentou 2,5% e a de gás natural 4,9%. Mas a venda de gás teve uma redução de 32%, devido ao menor uso das termoelétricas. A indústria consumiu mais 5,64%, o comércio +16,48 e as residências + 13,22% (Abegás). O consumo de energia cresceu 1,8% em dezembro/11 / dezembro/10.
A produtividade industrial (PTF), que deslanchou desde 2006, perdeu fôlego nos últimos trimestres e fechou estável (+0,07%) em dezembro/11 (FGV).
Comércio
Segundo a Abrasce, as vendas dos shopping centers, em 2011, tiveram crescimento de 18,6%. As vendas do comércio varejista, em geral, perderam força, em dezembro/11 e janeiro último, ao mesmo tempo em que se reduziu em 2,3% o índice de confiança dos empresários (ICEC), divulgado pela CNC. A intenção de investir caiu 4,5% e a de contratar mão de obra caiu 10,8%.
Pelos dados da Serasa, o varejo caiu 1,6% em janeiro, ante dezembro/11, mas com alta de 6,4% sobre janeiro/11. A CDL registrou alta de vendas de 7,8% no Rio de Janeiro em 2011.
A PEIC da CNC apurou que o endividamento das famílias com renda inferior a dez salários mínimos recuou de 61,3% para 59,5% e dos que ganham mais de dez salários subiu de 48,9% para 53,4%, nos últimos 12 meses.
O otimismo dos paulistanos aumentou 0,9% em janeiro segundo a Fecomercio-SP, mas o ICEC caiu 1,7%. Em Goiás, caiu a intenção de contratar, mas o ICEC continua positivo (Fecomercio-GO). No Rio Grande do Sul, ao contrário, o ICEC sofreu queda de 4,1% em janeiro (Fecomercio-RS). Segundo o IPEA, o otimismo das famílias cresceu de 67,2 em dezembro para 69 pontos em janeiro.
A inadimplência do consumidor caiu 0,4% em janeiro, ante dezembro/11, conforme levantamento da Serasa, face ao recuo dos cheques sem fundos e das dívidas com bancos. Para o SPC, entretanto, a inadimplência do consumidor registrou alta de 2,91% em janeiro, sobre janeiro/2011.
Agricultura
Segundo a Conab, a safra 2012 de grãos deve ficar em 158,4 milhões de toneladas, 2,8% abaixo da anterior. A queda da produção na Região Sul, por causa da seca, será em boa parte compensada pelo aumento no Centro-Oeste.
As chuvas continuam em Minas Gerais, onde 230 municípios estão em situação de emergência, com mais de 100 mil pessoas desalojadas. De outro lado, 70% dos municípios gaúchos estão em emergência, por causa da seca. O Governo vai subsidiar a compra de milho pelos pequenos produtores, a R$ 20,00/saco, contra R$ 30,00 no mercado.
A estimativa da safra de soja no Brasil caiu de 75,6 bilhões de toneladas para 72 milhões.
O índice de preços recebidos pelo agricultor subiu 0,45% em janeiro. Na Bolsa de Chicago, no início do mês, subiram os preços da soja, do milho e do trigo, revertendo numa breve tendência anterior de queda. O café continua em queda na Bolsa de New York.
Mercado de Trabalho
Certamente, o baixo índice de desemprego é o fator mais importante na atual conjuntura econômica do Brasil, com nível recorde de 4,7%, registrado em dezembro último.
O emprego na indústria cresceu 0,2% em dezembro, em relação a novembro/11. Na construção civil, houve contratação de 211 mil vagas(FGV/Sinduscom-SP).
O piso salarial subiu cerca de 14% em quase todos os Estados; no Rio de Janeiro, o salário mínimo do empregado doméstico passou a R$ 729,58.
O mercado de trabalho está sofrendo uma revolução: a taxa de expansão do PEA caiu de 2,5% em 2010 para 1,1%, segundo a Fiesp. O número de estrangeiros residindo no Brasil, entre 2010 e 2011, subiu 56%, enquanto 2 milhões de brasileiros retornaram do exterior.
Setor Financeiro
Sinal amarelo: a inadimplência aumentou 23%, em 2011, e já representa R$ 154 bilhões no ativo das instituições financeiras. Segundo o Banco Central, a inadimplência de 5,7%  em 2010 subiu a 7,3% em 2011, em linha com o resultado da PEIC coordenada pela CNC, para famílias com renda acima de dez salários mínimos, cuja alta foi de 48,9% para 53,4%. O Banco Central está liberando R$ 30 bilhões para os bancos grandes comprarem ativos dos pequenos.
O mercado financeiro brasileiro está em véspera de criar mais uma “jabuticaba”, a securitização do CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários), além da liberdade que já existe nesse mercado e nos derivativos da BM&F Bovespa. Parece que a CVM e o Banco Central não conhecem a história do Lehman Brothers.
Os economistas de plantão estão tentando vender ao Banco Central a ideia de um juro neutro que, aliado ao PIB potencial, serviria de base para a política monetária. Juro neutro seria o juro real que controla a inflação sem sacrificar o crescimento. O Banco Central continua vivendo à sombra da teoria quantitativa da moeda e achando que é a Selic que controla a inflação.
Segundo a CNSeg, o mercado segurador no Brasil vai de vento em popa, com reservas técnicas de previdência privada de cerca de R$ 300 bilhões.
Inflação
A inflação de janeiro vai refletir a alta dos alimentos provocada pelo clima muito seco no Sul e muito chuvoso no Sudeste. No atacado, em janeiro, a soja subiu 3,4% (-3,5% em dezembro) e o milho 5,2% (-7,0% em dezembro) Ainda assim, o IGP-M subiu apenas 0,25% e o IGP-DI 0,30%. No varejo, o IPCA subiu 0,56%, reflexo da alta na alimentação, transporte, aluguéis e educação, mantendo-se em torno de 0,5% nos últimos cinco meses. Há uma significativa queda no preço dos bens de consumo duráveis. A diária dos hotéis subiu 20% no 4º trimestre 2011.
O índice do DIEESE (ICV de São Paulo) subiu 1,32% em janeiro e a cesta básica aumentou em: Brasília (+4,72%), João Pessoa (+3,90%), Florianópolis (+3,51%), Rio de Janeiro (+3,25%), Recife (+3,32%), Curitiba (+3,17%) e Aracaju (+3,11%). Houve queda em Vitória (-1,54%) e Porto Alegre (-0,81%). Na cidade de São Paulo, o índice ICV-Fipe subiu 0,51%.
Ao fixar a taxa Selic em 10,5%, o Banco Central continua transmitindo ao mercado a expectativa de que a inflação ainda gira acima de 6,0%.
Setor Fiscal
O Governo continua trabalhando com a ilusão de que um superávit primário de 3,1% do PIB é suficiente para equilibrar as contas públicas. Não é. O peso dos juros chegou a R$ 236,7 bilhões em 2011, elevando a dívida bruta a 54,3% do PIB. Mas o Governo caminha para substituir as LFT’s indexadas à Selic por títulos prefixados.
O Tesouro Nacional autorizou a emissão de R$ 49,2 bilhões de NTN-B, para pagar ao Banco Central o custo de carregamento das reservas internacionais, no 1º semestre 2011. O Governo Federal esperava arrecadar R$ 5,5 bilhões com a concessão dos aeroportos e arrecadou R$ 24,5 bilhões. Os investimentos a que se obrigam os vencedores terão 80% financiados pelo BNDES. Segundo os analistas de Termômetro Tributário, a carga tributária no Brasil chegou a 36,2%, em 2011.
Setor Externo
Está “secando” a boa temporada das exportações. Pelas estimativas do Governo, em 2012, as exportações devem crescer apenas 5,0% e as importações 7,0% deixando um saldo de US$ 23 bilhões. Para a AEB, as exportações devem diminuir 7% e as importações crescer 3,2%, com saldo pouco superior a US$ 3 bilhões (!). Em 2011, o minério de ferro foi negociado a US$ 126/tonelada e, hoje, a US$ 100,00, uma baixa de 20%, e a soja vendida a US$ 430/tonelada, 13,13% abaixo da média de 2010.
No cenário internacional, melhoraram as expectativas com  a aprovação da proposta da Troika (FMI, BCE e MCE). A Grécia, que já recebeu ajuda de € 110 bilhões, vai receber mais € 130 bilhões, inclusive para pagar € 14,5 bilhões que vencem em março. Vamos aguardar os resultados.
Nos Estados Unidos, o Governo fechou um acordo de US$ 26 bilhões com os cinco principais bancos, com o objetivo de subsidiar e solucionar a dívida hipotecária de 2 milhões de mutuários, o que deveria ter sido feito em 2008. Por outro lado, o FDIC estendeu até 31/12/2012 uma cobertura, sem juros, para garantir os depósitos bancários à vista.
O Banco Central Europeu está em vias de realizar novo leilão de créditos, além dos € 489 bilhões de 21/12/2011. Também o Banco da Inglaterra planeja operação idêntica, no montante de £ 275 bilhões. Como se sabe, esse aumento de liquidez monetária pode produzir um efeito equivalente à desvalorização cambial. Agora, sim, há uma guerra cambial, entre o dólar e o euro.
Um fato que abalou os ânimos na Europa foi a queda de 2,9% na produção da Alemanha, em dezembro/11. Some-se a isto a terrível onda de frio que se abateu sobre toda a Europa, especialmente no Leste, nos Balcãs, na Áustria e na Itália.
A exportação da China caiu 15,3% em janeiro, mas sua produção industrial cresceu levemente. Em mais um Relatório terrorista, o FMI adverte que o crescimento chinês pode cair à metade, isto é, até cerca de 4%(!).
ex-ministro da Fazenda


STF aprova Lei da Ficha Limpa para as eleições deste ano


BRASÍLIA - O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu na tarde desta quinta-feira 16/02 que a Lei da Ficha Limpa pode ser aplicada nas eleições deste ano. Ainda falta o posicionamento de quatro ministros, mas como seis deles já votaram a favor da norma - portanto a maioria -, a decisão já é conhecida mesmo antes do fim do julgamento. Isso se nenhum ministro mudar de opinião até o fim da sessão.  


 Votaram a favor da norma:
  • Joaquim Barbosa, 
  • Luiz Fux, 
  • Rosa Maria Weber, 
  • Cármem Lúcia, 
  • Ricardo Lewandowski e 
  • Ayres Britto. 

Até o momento, apenas Dias Toffoli votou contra. O placar deve ficar em seis a um, já que Gilmar Mendes, Celso de Mello, Marco Aurélio Mello e Cezar Peluso já se manifestaram contra em julgamentos anteriores.

Em tentativas anteriores de votar a Lei da Ficha Limpa, o julgamento

Apolônio de Carvalho uma «paixão libertária» pelos ideais socialistas


Foi um militar brasileiro e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT)

Apolônio de Carvalho - Corumbá, 9 de fevereiro de 1912 — Rio de Janeiro, 23 de setembro de 2005 - 

Apolônio de Carvalho foi uma figura ímpar no cenário da vida política brasileira. Poucos como ele viveram com tanta intensidade a «paixão libertária» que o impeliu, desde os seus anos de cadete da Escola Militar de Realengo, a engajar-se na luta pelos ideais socialistas e contra os regimes de opressão, com uma coerência que se manifestou em todos os episódios vividos: da militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e na ANL (Aliança Nacional Libertadora) à participação na Guerra Civil Espanhola e na Resistência Francesa contra o fascismo; da luta clandestina contra a ditadura militar no Brasil, como membro do PCBR, à militância no PT, desde o momento da fundação do partido até sua morte.
Apolônio de Carvalho era filho de um soldado sergipano e de mãe gaúcha. Teve contato com a política bem jovem, na época em que cursou a escola militar, conforme disse à revista Teoria e Debate em 1989: "Em fins de 1933 eu já era oficial, achava que era necessário mudar a sociedade brasileira", contou ele.
Dois anos depois, ajudou a criar a ANL: "um colega do Rio Grande do Sul, um capitão do Exército, me falou da ANL (…) Então, eu participei da organização dessa frente popular" Preso em 1936 pelo governo de Getúlio Vargas, tem sua patente militar destituída e é expulso do Exército.
Com a saída da prisão em junho de 1937, Apolônio ingressa no Partido Comunista Brasileiro. Segundo disse Apolônio a Teoria e Debate, o ideário do PCB "era muito parecido com o da ANL: contra os monopólios estrangeiros, pela reforma agrária, pela autonomia sindical, pelas liberdades sindicais, pelas amplas conquistas sociais". Recebe a orientação de embarcar para a Espanha onde, juntamente com outros vinte brasileiros, combaterá nas Brigadas Internacionais ao lado das forças Republicanas contra os fascistas liderados pelo general Francisco Franco.
Apolônio deixa a Espanha juntamente com as Brigadas Internacionais em fevereiro de 1939 e parte para a França, onde permanece em campos de refugiados até maio de 1940, quando consegue fugir do campo de Gurs, dirigindo-se a Marselha. É nesta cidade portuária que ele ingressa na Resistência Francesa, em 1942, da qual se torna comandante da guerrilha dos partisans para a região sul, com sede em Lyon. É também em 1942 que conhece Renée, uma jovem militante comunista da Resistência, que se tornaria sua companheira para o resto da vida. Em janeiro de 1944, Apolônio e Renée se instalam em Nîmes, onde em fevereiro, se organiza o ataque à prisão daquela cidade, libertando 23 militantes da Resistência. Em maio, mudam-se para Toulouse. Em agosto, Apolônio comanda a liberação de Carmaux, Albi e Toulouse. Em novembro, nasce o primeiro filho do casal, René-Louis. Por sua coragem, é considerado um herói na França, onde foi condecorado com a Legião de Honra.
O fim da guerra encontra a família em Paris, de onde embarca no ano seguinte para o Rio de Janeiro. Em 1947 nasce o segundo filho do casal, Raul. Apolônio, Renée e as duas crianças passam a viver na clandestinidade, militando entre Rio e São Paulo até 1953, quando ele parte para um curso na União Soviética que dura cerca de quatro anos. Em 1955, Renée o encontra em Moscou e, em 1957, a família está de volta ao Brasil, vivendo na semi-legalidade, situação que se estende até o golpe militar de 1964.
Na década de 1960, participou da oposição popular ao regime militar. Logo após o golpe de 31 de março de 1964, Apolônio passa a viver em profunda clandestinidade no estado do Rio de Janeiro, longe da família. Em conseqüência das divergências com o Comitê Central do Partido Comunista (do qual era membro) Apolônio e a Corrente Revolucionária do Estado do Rio deixam o PCB, em 1967. Em abril do ano seguinte, juntamente com Mário Alves, Jacob Gorender e outros dissidentes, Apolônio fundará o PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário).
Em janeiro de 1970, no bojo de quedas que atingiram dezenas de militantes do PCBR, Apolônio e Mário Alves são presos no Rio e Jacob Gorender em São Paulo. Todos são violentamente torturados e Mário Alves, assassinado. Em fevereiro, os filhos Raul e René-Louis também são presos.
Em junho, Apolônio e outros 39 presos políticos brasileiros chegam a Argel, trocados pelo embaixador alemão, seqüestrado por um comando revolucionário no Rio de Janeiro. René-Louis será libertado em 1971, trocado (juntamente com 69 outros presos políticos) pelo embaixador da Suíça. Raul sai da prisão no ano seguinte. Depois disso que Renée deixa o Brasil e a família se reúne em Paris.
Durante os anos que teve de ficar fora das terras brasileiras, mantém contato com o Brasil e se articula com os exilados no exterior. A volta ao Brasil será em outubro de 1979, depois da Anistia de agosto daquele ano.
No fim dos anos 70, aproximou-se dos grupos que então trabalhavam para criar o PT, tornando-se um de seus fundadores. "Nós tivemos uma imensa simpatia pelo PT", disse ele. "Em fevereiro de 1980, quando se lança (o partido) oficialmente, vemos o primeiro partido de esquerda em todo o século que pleiteia, como um de seus traços essenciais, a conquista da legalidade".
O PT foi oficialmente reconhecido como partido político pelo Tribunal Superior de Justiça Eleitoral no dia 11 de fevereiro de 1982. A ficha de filiação número um foi assinada por Apolonio de Carvalho, seguido pelo crítico de arte Mário Pedrosa, pelo crítico literário Antonio Candido e pelo historiador e jornalista Sérgio Buarque de Hollanda.
Permanece na direção do novo partido até 1987, quando se afasta por orientação médica.
Apesar das limitações da saúde e da idade, Apolônio prossegue um militante que não se furtará jamais aos debates e à manifestação pública de suas posições de socialista convicto. Um socialista que soube combater criticamente as distorções do socialismo real mas que, nem por isto (ou por isto mesmo), a queda do muro de Berlim ou o diversionismo das teorias propagadas pelo capital conseguiram dobrar.
Entusiasta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ao qual sempre prestou apoio e junto ao qual esteve sempre presente, frente ao que não abriu mão da crítica ou da esperança. Para ele, um novo mundo (socialista) era sempre possível e poderá estar sempre ao alcance de nossas mãos, desde que estejamos dispostos a nos organizar e a lutar por ele.

Dilma uma presidenta obcecada por gestão vai desanimando a tropa política

Depois de um ano de mandato, Dilma Rousseff reforça cobranças dentro e fora do governo por eficiência. Visão gerencial da presidenta faz subir cotação dos ministros Aloizio Mercadante (Educação) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil). E leva setores da máquina pública identificados com lulismo a sentirem-se cada vez mais desconfortáveis com o que consideram despolitização.

Brasília – A presidenta Dilma Rousseff passou dois dias no Nordeste vistoriando a transposição do rio São Francisco e a ferrovia Transnordestina, obras federais bilionárias. Durante o giro, aproveitou uma entrevista para avisar empreiteiros que tocam obras públicas. Daqui em diante, todas terão monitoramento sistemático e online pelo governo, metas serão cobradas, prazos deverão ser cumpridos. “Nós queremos obra controlada”, disse.

O recado ilustra como Dilma está cada vez mais obcecada pelo tema gestão, traço que carrega desde os tempos de “mãe do PAC”, o programa de obras do antecessor. Na primeira reunião ministerial do ano, em janeiro, Dilma já tinha alertado a própria tropa, sobre a importância crescente que dá à gerência. Cobrara a implantação de um novo sistema de acompanhamento de gastos, que permita “uma verdadeira reforma do Estado”, tornando-o “mais profissional e meritocrático”.

A fixação de Dilma por gestão foi a causa principal, segundo a reportagem apurou, da crise de hipertensão que mandou a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, ao hospital dias atrás. Atual “mãe do PAC”, que ajudara a supervisionar com Dilma quando ambas eram da Casa Civil de Lula, Miriam levou a responsabilidade junto para o novo cargo. Agora, vê a presidenta insatisfeita, pressionando-a por resultados e cogitando devolver a atribuição à Casa.

Mais do que na saúde, o reforço do enfoque gestor de Dilma impacta o espírito da máquina pública. Sobretudo em círculos mais lulistas. Em diversos escalões, sente-se falta de debates internos sobre rumos e políticas públicas, de decisões colegiadas, da retórica polêmica do ex-presidente. Sente-se falta, em suma, de mais política, entendida como construção coletiva e negociada, que perde espaço à medida que a postura gerente avança.

“Esse é o nosso governo, mas é outro governo”, diz um secretário-executivo de ministério, cujo nome será preservado, como o de todos os personagens desta reportagem, para evitar embaraços.

É uma constatação evidente desde as primeiras horas do terceiro mandato presidencial petista, não raro acompanhada de solavancos cotidianos, como a suspensão inegociada de rotinas ou a desconfiança sobre lealdades. “Às vezes, somos tratados como oposição”, afirma um assessor governamental que frequenta o Palácio do Planalto desde Lula.

Certa vez, ainda em 2011, a reportagem perguntara a um ministro egresso da gestão Lula e que hoje não está mais no cargo, se o governo Dilma era muito diferente. “Nem me fale...”, respondera ele, sem hesitar, ar preocupado.

“Agora as decisões são tomadas só no gabinete do ministro. Às vezes, com o secretário-executivo”, aponta, como uma dessas diferenças, um dirigente de escalão intermediário de um ministério.

Impacto externo

Se mexe com o espírito da tropa, a postura distinta de Dilma não parecer causar problemas perante o público externo. Ao contrário. Ela ostenta hoje índices de popularidade superiores aos de Lula e FHC, quando os dois tinham o mesmo tempo de Presidência. E isso, apesar de já ter trocado sete ministros por denúncias de corrupção publicadas pela imprensa, simpática à atitude gerente da presidenta.

O estilo Dilma possui, contudo, potencial para virar um problema político e se voltar contra ela. Sem se considerar participante de um projeto coletivo, com o qual se identifique e no qual veja um pouco de si, a máquina tende a desanimar mais e a se mostrar menos disposta a defender o governo em debates públicos, entrevistas ou uma eventual crise.

Há o mesmo risco no Congresso, entre partidos e parlamentares aliados, também eles formadores de opinião. Depois de um ano de pouco contato com a presidenta, ao contrário do que acontecia nos tempos de Lula, ninguém duvida. Dilma não gosta de política, fica mais feliz e à vontade lendo relatórios em seu gabinete, do que em cima de palanques ou num tête-a-tête com políticos.

No início do mês, quando o Congresso reabriu depois de umas semanas de férias, um líder de partido governista observava o senador José Sarney (PMDB-AP) discursar para um plenário vazio e desatento, e comentou: “Veja isso. O presidente do Congresso está falando e ninguém ouve. Cadê a Dilma? Ela tinha de vir todo ano nessa sessão. Não vir é um sinal, quer dizer muito.”

É preciso registrar, entretanto, que é costume o presidente da República mandar ao Congresso, na volta do recesso, seu chefe da Casa Civil levar o documento com as prioridades do governo. E foi isso que Dilma fez, ao despachar a ministra Gleisi Hoffmann, de quem a presidenta espera cada vez mais que funcione como ela, Dilma, funcionou para Lula durante cinco anos.

Segundo um assessor governamental, a postura gerente de Dilma tende a fazer de Gleisi uma peça política cada vez mais importante, como teria ficado demonstrado na reunião ministerial de janeiro, em que a presidenta emitiu sinais de que a auxiliar de Palácio do Planalto “cresceu”.

Até agora, o grande ganhador político da tropa dilmista é o ex-senador Aloizio Mercadante. Dias antes de tirá-lo da Ciência e Tecnologia para botá-lo na Educação, mas já tendo anunciado a decisão de fazê-lo, Dilma viajara ao Rio de Janeiro. Em conversa com o governador Sérgio Cabral (PMDB), ouvira uma pergunta sobre o motivo da mudança. “O Mercadante é a maior revelação do meu governo”, respondera Dilma, segundo relato de uma testemunha.

Na própria posse do ministro, Dilma revelaria a razão de o auxiliar estar em alta. “O ministro Mercadante é um excelente gestor”, afirmou a presidenta, para quem este era um “talento escondido” do ex-senador petista.

O incômodo do Congresso com a postura mais técnica de Dilma não deve, porém, produzir efeitos neste ano de eleições municipais. Segundo o líder do PT no Senado, Walter Pinheiro (BA), a eleição deve gerar colaboracionismo entre parlamentares e governo, porque os primeiros terão interesse de contribuir para a realização de investimentos nos municípios, o que ajudaria o grupo político deles.

Entre os chamados movimentos sociais, igualmente formadores de opinião, existe a mesma ameaça de que a sensação de despolitização geral do governo, patrocinada por Dilma, se volte contra a presidenta.

Não por acaso, a presidenta começou 2012 reconhecendo que "exagerou" com os movimentos, ao manter-se distante deles no ano passado, e agora tentativas de reaproximação, como fez ao topar se sentar com um grupo grande de movimentos para discutir com eles a Rio+20, a Conferência das ONU sobre Desenvolvimento Sustentável.


Via Carta Maior

Cynara Menezes: O medo do hétero diante do gay

Por: Cynara Menezes 
Outro dia, numa festa, um grupo de homens comentava numa rodinha que um amigo tinha virado gay. Separou da mulher e virou gay. Assim, como quem descobre de um dia para o outro que prefere uva a maçã. “Eu sempre achei que ele levava jeito”, disse um deles. Não foi o suficiente para acalmar os demais. Reparei na risada um tanto nervosa daqueles machos cinquentões, como se aquele acontecimento tivesse o poder de balançar suas certezas, de lhes plantar uma pulga atrás da orelha: será que eu também…? Não foi a primeira vez que presenciei conversas do gênero. Ao contrário, elas têm se tornado cada vez mais frequentes.
Tenho notado também que, nos últimos tempos, volta e meia aparece uma notícia bizarra envolvendo se tornar homossexual num piscar de olhos. Literalmente. Em novembro passado, veio à tona a história do jogador de rúgbi britânico que, ao acordar do coma após sofrer um AVC, se descobriu gay, pintou o cabelo, emagreceu, começou a malhar na academia e arranjou um namorado. “Sei que parece estranho, mas quando ganhei consciência, imediatamente me senti diferente. Não estava mais interessado em mulheres, eu era definitivamente gay. E nunca tinha sentido atração por homens antes”, jurou o rapaz.
Na semana passada, uma transexual americana de 40 anos revelou que se chamava Ted, era felizmente casado com uma mulher e tinha dois filhos, até que, em uma tarde ensolarada de primavera, foi picado por uma abelha. Seu organismo passou então a perder testosterona, o hormônio masculino. Ao passar as mãos sobre sua pele e senti-la macia, gostou da metamorfose e resolveu ir mais fundo: fazer uma cirurgia de mudança de sexo. Ao contrário do jogador de rúgbi, porém, ela admitiu que, quando criança, brincava de se vestir de menina e tinha sentimentos ambíguos em relação à sua identidade.
Vejo dois sintomas aí: um é a relativa conveniência da situação. Deve ser bem mais cômodo atribuir a homossexualidade a um AVC ou a uma picadura (ops) de abelha do que admitir que sempre sentiu atração por pessoas do mesmo sexo. Algo como: “Ah, eu era superhetero e tinha três namoradas, até que um raio caiu na minha cabeça numa sexta-feira 13 e virei gay”. Ou: “Eu tinha uma família adorável com mulher e cinco filhos, mas um dia tomei por engano uma caixa de paracetamol e agora me sinto atraído por homens”. Num passe de mágica, contorna-se o conflito com a família e a sociedade: foi só um efeito colateral, gente.
Outro sintoma, mais subjetivo, é o completo pânico heterossexual que vejo por trás dessas notícias. “Quer dizer que eu também posso virar gay assim, sem mais nem menos?” Tenho observado que, com a maior divulgação da causa gay e a maior visibilidade dos próprios homossexuais, o mundinho hétero entrou em polvorosa. Como se os machos tivessem se transformado em uma espécie em extinção. Como se a homossexualidade fosse contagiosa e os que se salvarem da “praga” não fossem resistir ao meteoro que irá se chocar contra a Terra em 2014, matando todos os heterossexuais, assim como aconteceu com os dinossauros: bum! Ah, vocês não estavam sabendo disso? Brincadeirinha…
(Um terceiro sintoma poderia ser o desejo oculto de alguns de que o tal raio da homossexualidade caísse de uma vez por todas em sua cabeça. “Que alívio!” Mas esse eu deixo para os psicanalistas.)
Honestamente, rapazes? Não entendo do que vocês sentem tanto medo. Alguns dos homens mais bem resolvidos que eu conheci confessaram já ter sentido dúvidas em relação a sua sexualidade. Outros – menos numerosos, é verdade – até assumiram ter tido uma ou outra experienciazinha com o mesmo sexo, na infância e até depois dela. Relaxem, garotos. Tenho certeza que vai haver menos homofobia e mais tolerância no mundo no dia em que todo macho do planeta for capaz de admitir que pelo menos em algum momento da vida, por fugaz que fosse, passou pela sua cabeça que… Talvez… Quem sabe? E o que é que tem de mal nisso?
"Liberdade é a liberdade dos que pensam diferente." (Rosa Luxemburgo)

O Declínio Americano Em Perspectiva

Muito já foi dito sobre o professor Chomsky, e é difícil encontrar um adjetivo original para ilustrar esse seu mais recente artigo, inspirado pelo aniversário de 50 anos da agressão genocida dos Estados Unidos contra o Vietnam. Eu diria que o professor é um antídoto contra a ignorância, um sábio generoso e democrata que descreve-nos, em uma linguagem acessível a todos, um mundo que os donos do poder prefeririam que não entendêssemos, por ser "excessivamente complexo." Aos donos do poder interessa que sejamos ignorantes e, olhando à minha volta, constato com pesar que eles vêm sendo, em grande parte, bem sucedidos. E que, afinal de contas, a preguiça mental é uma enfermidade infinitamente mais grave do que a burrice.


O Declínio Americano Em Perspectiva by Noam Chomsky "Perdendo" O Mundo

Aniversários significativos são solenemente comemorados - o ataque do Japão à base americana em Pearl Harbor, por exemplo. Outros são ignorados, e eles podem dar-nos lições valiosas sobre o que o futuro provavelmente nos reserva. Agora mesmo, com efeito.

Neste momento, estamos deixando de comemorar o 50º aniversário da decisão do presidente John F. Kennedy em lançar o mais destrutivo e homicida ato de agressão do período pós-II Guerra Mundial: a invasão do Vietnam do Sul, mais tarde de toda a Indochina, deixando milhões de mortos e quatro países devastados, causando vítimas até hoje pelos efeitos de longo prazo, por terem encharcado o Vietnam do Sul com alguns dos mais letais carcinógenos conhecidos, a fim de destruir a cobertura vegetal do solo e colheitas alimentícias.

O alvo primário era o Vietnam do Sul. A agressão mais tarde espalhou-se para o Norte, então para a remota população camponesa do norte do Laos, e finalmente para a zona rural do Camboja, a qual foi bombardeada ao espantoso nível de todas as operações aéreas na região do Pacífico durante a II Guerra Mundial, incluindo as duas bombas atômicas despejadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Nisso, as ordens de Henry Kissinger estavam sendo cumpridas - "qualquer coisa que voe sobre qualquer coisa que se mova" - um chamado ao genocídio que é raro no registro histórico. Pouco disso é lembrado. A maior parte mal foi divulgada além de estreitos círculos de ativistas.

Quando a invasão foi lançada há 50 anos, a preocupação era tão pequena que houve poucos esforços em justificá-la, praticamente nada além do apaixonado apelo do presidente de que "nós somos confrontados em todo o mundo por uma monolítica e impiedosa conspiração, que utiliza-se primariamente de meios clandestinos para expandir a sua esfera de influência," e se essa conspiração for bem sucedida no Laos e no Vietnam, "os portões serão escancarados."

Em outra ocasião, ele advertiu que "as sociedades complacentes, auto-indulgentes e pouco duras estão a ponto de ser varridas com os cacos da história e somente os fortes... podem possivelmente sobreviver," nesse caso refletindo sobre o fracasso da agressão e do terror americano em esmagar a independência cubana.

À medida em que os protestos começaram a erguer-se seis anos mais tarde, o respeitado especialista em Vietnam e historiador militar Bernard Fall previu que "o Vietnam enquanto entidade cultural e histórica está ameaçado de extinção, com a zona rural literalmente morrendo sob os golpes da maior máquina militar jamais lançada sobre uma área desse tamanho." Ele estava novamente se referindo ao Vietnam do Sul.

Quando a guerra chegou ao fim oito horrorosos anos mais tarde, a opinião vigente foi dividida entre aqueles que descreviam a guerra como uma "causa nobre" que poderia ter sido vencida com mais dedicação, e no extremo oposto, os críticos, para quem ela foi um "equívoco" que custou muito caro. Por volta de 1977, o presidente Carter chamou pouca atenção quando explicou que não temos "nenhum débito" com o Vietnam por que "a destruição foi mútua."

Há importantes lições em tudo isso para os dias de hoje, além de mais uma prova de que somente os fracos e derrotados são chamados a responder pelos seus crimes. Uma lição é que para compreender o que está acontecendo devemos atentar não apenas para eventos críticos do mundo real, não raro eliminados da história, mas também ao que os líderes e a opinião da elite acreditam, por mais encoberto pela fantasia que isso seja. Uma outra lição é que paralelamente aos vôos da fantasia construídos para aterrorizar e mobilizar o público (e talvez tidos como verdade por alguns que estão hipnotizados pela própria retórica), há também um planejamento geo-estratégico baseado em princípios que são racionais e estáveis por longos períodos, por que têm as suas raízes em instituições estáveis e em suas preocupações. Isso é verdadeiro no caso do Vietnam também. Eu retornarei a isso, apenas destacando aqui que os fatores persistentes na ação do estado são geralmente bem camuflados.

A guerra do Iraque foi um caso instrutivo. Ela foi vendida a um público aterrorizado com os argumentos usuais de auto-defesa contra uma tremenda ameaça à sobrevivência: a "única questão," George W. Bush e Tony Blair declararam, era se Saddam Hussein iria abandonar os seus programas de desenvolvimento de armas de destruição em massa. Quando a única questão recebeu a resposta errada, a retórica do governo moveu-se sem esforço para o nosso "desejo de democracia," e a opinião educada aceitou imediatamente; pura rotina.

Mais tarde, quando a escala da derrota dos EUA no Iraque tornou-se difícil de ser suprimida, o governo tranquilamente admitiu o que estava claro desde o início. Em 2007-2008, a administração anunciou oficialmente que um acordo final deveria incluir a concessão de bases militares americanas e o direito a operações de combate, além de privilegiar investidores americanos no rico sistema energético - exigências relutantemente abandonadas mais tarde em face da resistência iraquiana. E tudo bem ocultado da população em geral.

Com tais lições em mente, é útil olhar para o que é destacado nos principais jornais de política e opinião hoje. Examinemos o mais prestigiado dos jornais estabelecidos, o Foreign Affairs. A manchete estampada na capa da edição de dezembro de 2011 diz em letras garrafais: "Está A América Acabada?"

O artigo do título clama por "economia" nas "missões humanitárias" no estrangeiro, que estão consumindo a riqueza do país, de forma a interromper o declínio americano, o que é um tema preponderante no discurso dos assuntos internacionais, acompanhado pelo corolário de que o poder está movendo-se para o Oriente, para a China e (talvez) a India.

Os principais artigos são sobre Israel-Palestina. O primeiro, por duas altas autoridades israelenses, é intitulado "O Problema É A Rejeição Palestina": o conflito não pode ser resolvido por que os palestinos recusam-se a reconhecer Israel como um Estado Judeu - o que está de acordo com a prática diplomática padrão: estados são reconhecidos, mas não setores privilegiados em seu interior. A exigência não passa de um novo mecanismo para afastar a ameaça de um acordo político que prejudique os objetivos expansionistas de Israel.

A posição oposta, defendida por um professor americano, é intitulada "O Problema É A Ocupação." O subtítulo diz "Como a Ocupação Está Destruindo a Nação." Qual nação? Israel, é claro. O par de artigos aparece sob o título principal "Israel Sitiado."

A edição de janeiro de 2012 contem mais um apelo para bombardear o Irã agora, antes que seja tarde demais. Alertando para "os perigos da intimidação," o autor sugere que "os céticos de uma ação militar deixam de considerar o verdadeiro perigo que um Irã nuclear ofereceria aos interesses dos EUA no Oriente Médio e além. E as suas previsões pessimistas assumem que a cura seria pior que a doença - isto é, que as consequências de um assalto americano ao Irã seriam tão más ou piores do que o Irã realizar as suas ambições nucleares. Mas essa é uma falsa assunção. A verdade é que um ataque militar destinado a destruir o programa nuclear iraniano, se administrado com cuidado, poderia poupar à região e ao mundo uma ameaça muito real, e melhorar dramaticamente a segurança nacional dos EUA a longo prazo."

Outros argumentam que os custos seriam muito elevados, e nos extremos alguns até mesmo notam que um ataque violaria a lei internacional - como a viola a posição dos moderados, que regularmente atiram ameaças de violência, em violação à Carta da ONU.

Vamos rever essas preocupações dominantes uma a uma.

O declínio americano é real, apesar de a visão apocalíptica refletir a familiar percepção da classe dominante de que qualquer coisa diferente do controle total é equivalente a um desastre total. Apesar dos dolorosos lamentos, os EUA permanecem como a potência dominante do mundo por uma larga margem, e nenhum competidor está à vista, não apenas na dimensão militar, na qual é claro que os EUA reinam supremos.

A China e a India têm registrado um rápido (porém altamente desigual) crescimento, mas permanecem países muito pobres, com enormes problemas internos inexistentes no Ocidente. A China é o maior centro manufatureiro do mundo, mas em grande parte como uma linha de montagem para as potências industriais avançadas em sua periferia, e para as multinacionais ocidentais. É provável que isso mude com o tempo. A indústria regularmente fornece a base para a inovação, frequentemente saltos à frente, como agora acontece às vezes na China. Um exemplo que tem impressionado os especialistas ocidentais é o domínio da China do crescente mercado global de painéis solares, não na base da mão de obra barata, mas por meio de planejamento coordenado e, cada vez mais, de inovação.

Mas os problemas encarados pela China são sérios. Alguns são demográficos, abordados na Science, o principal semanário científico dios EUA. O estudo mostra que a mortalidade despencou durante os anos Maoístas, "principalmente como resultado do desenvolvimento econômico e melhorias na educação e nos serviços de saúde, especialmente o esforço de saneamento básico que resultou em uma aguda queda na mortalidade por doenças infecciosas." Esse progresso parou com o início das reformas capitalistas de trinta anos atrás, e a taxa de mortalidade voltou a subir.

Além disso, o recente crescimento econômico chinês baseou-se substancialmente em um "bonus demográfico," uma enorme população em idade de trabalho ativo. "Mas a janela para colher esse bonus poderá fechar-se logo," com um "profundo impacto sobre o desenvolvimento: a oferta abundante de mão de obra barata, que é um dos principais fatores que empurram o milagre econômico chinês, não vai durar muito tempo."

A demografia é apenas um de muitos problemas sérios à frente. Para a India, os problemas são muito mais severos.

Nem todas as vozes de vulto prevêem um declínio americano. Na mídia internacional, não há nenhum mais sério e responsável do que o Financial Times de Londres. Ele recentemente devotou toda uma página à expectativa otimista de que novas tecnologias para a extração de combustíveis fósseis na América do Norte possam permitir que os EUA obtenham a independência energética, e com isso reter a sua hegemonia global por um século. Não há menção a que tipo de mundo os EUA dominarão nessa feliz possibilidade, mas não por falta de evidências.

Mais ou menos ao mesmo tempo, a Agência Internacional de Energia relatou que, com o rápido aumento de emissões de carbono pelo uso de combustíveis fósseis, o limite de segurança será alcançado por volta de 2017 se o mundo continuar no atual ritmo. "A porta está se fechando," disse o principal economista da AIE, e muito em breve "ela vai fechar-se para sempre."

Pouco antes o departamento de Energia americano publicou os mais recentes números de emissão de dióxido de carbono, que "deram o maior salto já registrado na história" a um nível mais alto do que o pior cenário antecipado pelo Painel Internacional de Mudança Climática (PIMC). Isso não constituiu uma surpresa para a maioria dos cientistas, incluindo o programa de mudança climática do MIT, que durante anos vêm dizendo que as previsões do PIMC são excessivamente conservadoras.

Tais críticos das previsões do PIMC não recebem virtualmente nenhuma atenção pública, ao contrário dos negacionistas que são patrocinados pelo setor corporativo, juntamente com enormes campanhas de propaganda que empurraram os americanos para fora do espectro internacional ao minimizar as ameaças. O apoio corporativo também se traduz diretamente em poder político. O negacionismo é parte do catecismo que precisa ser entoado pelos candidatos Republicanos na farsa de campanha eleitoral ora em progresso, e no Congresso eles têm poder suficiente para abortar até mesmo os esforços em inquirir-se sobre os efeitos do aquecimento global, quanto mais fazer-se algo sério a esse respeito.

Em resumo, o declínio americano pode talvez ser interrompido se abandonarmos a esperança de uma sobrevivência decente, perspectivas que são um tanto reais dado o equilíbrio de poder das forças mundiais.

Colocando-se esses pensamentos desagradáveis de lado, um olhar atento para o declínio americano mostra que a China com efeito tem um grande papel nisso, algo que vem acontecendo nos últimos sessenta anos. O declínio que agora suscita tamanha preocupação não é um fenômeno recente. Ele pode ser traçado até o fim da II Guerra Mundial, quando os EUA tinham metade da riqueza do mundo, uma incomparável segurança e um alcance mundial. Os planejadores estavam naturalmente bem cientes dessa enorme disparidade de poder, e pretendiam mantê-la desse jeito.

O ponto de vista básico foi delineado com admirável franqueza em um importante documento de 1948 (PPS 23). O seu autor era um dos arquitetos da Nova Ordem Mundial de então, o chefe da Equipe Política de Planejamento do departamento de Estado, o respeitado estadista e estudioso George Kennan. Ele observou que o objetivo central da política era manter a "posição de disparidade" que separava a nossa riqueza da pobreza dos outros. Para atingir esse objetivo, ele aconselhava, "Nós devemos cessar a discussão sobre objetivos vagos e irreais tais como direitos humanos, elevação dos padrões de vida, e democratização," e devemos "lidar com conceitos diretos de poder," e não sermos "obstruídos por slogans idealistas" sobre "altruísmo e bem-estar mundial."

Kennan estava se referindo especificamente à Ásia, mas as observações generalizam-se, com exceções, para participantes do sistema global controlado pelos EUA. Ficava bem entendido que os "slogans idealistas" continuariam a ser proeminentemente exibidos em público, incluindo as classes intelectuais que, esperava-se, iriam promulgá-los.

Os planos que Kennan ajudou a formular e implementar davam como favas contadas que os EUA controlariam o Hemisfério Ocidental, O Extremo Oriente, o ex-império britânico (incluindo os incomparáveis recursos energéticos do Oriente Médio), e o máximo possível da Eurásia, crucialmente os seus centros comerciais e industriais. Esses não eram objetivos irreais, dada a distribuição de poder. Mas o declínio teve início de imediato.

Em 1949, a China declarou a sua independência, um evento conhecido no discurso Ocidental como "a perda da China" - nos EUA, com amargas recriminações e conflitos quanto a quem fora o responsável por essa perda. A terminologia é reveladora. Só é possível perder uma coisa se ela for nossa. A assunção tácita era de que os EUA possuíam a China, por direito, juntamente com o resto do mundo, de uma maneira muito próxima ao assumido pelos planejadores do pós-guerra.

A "perda da China" foi o primeiro grande passo do "declínio americano." Ela teve grandes consequências políticas. Uma delas foi a imediata decisão de apoiar o esforço da França em reconquistar a sua ex-colônia da Indochina, de maneira que ela não fosse "perdida" também.

A Indochina em si não era uma grande preocupação, a despeito das alegações quanto aos seus ricos recursos pelo presidente Eisenhower e outros. Ao contrário, a preocupação era a "teoria do dominó," a qual é frequentemente ridicularizada quando os dominós não caem, mas permanece um importante princípio da política por que é um tanto racional. Para adotar a versão de Henry Kissinger, uma região que escapa ao controle pode tornar-se um "virus" que irá "espalhar-se como um contágio," induzindo outros a ir pelo mesmo caminho.

No caso do Vietnam, a preocupação era que o virus do desenvolvimento independente pudesse infectar a Indonésia, a qual realmente tem imensos e ricos recursos. E isso poderia levar o Japão - o "super-dominó" como era chamado pelo proeminente historiador da Ásia John Dower - a "acomodar-se" a uma Ásia independente como o seu centro tecniológico e industrial em um sistema que escapasse ao alcance do poder americano. Isso significaria, com efeito, que os EUA teriam perdido a fase do Pacífico da II Guerra Mundial, combatida para impedir a tentativa do Japão de estabelecer tal Nova Ordem na Ásia.

A maneira de lidar com tal problema é clara: destruir o virus e "inocular" aqueles que possam estar infectados. No caso do Vietnam, a escolha racional foi destruir qualquer esperança de desenvolvimento independente bem sucedido, e impor ditaduras brutais na região à toda volta. Essas tarefas foram levadas a cabo com sucesso - ainda que a história tenha os seus próprios caprichos, e algo similar ao que era temido vem acontecendo desde então na Ásia Oriental, muito para a desolação de Washington.

A mais importante vitória das guerras da Indochina em 1965, quando um golpe militar patrocinado pelos EUA na Indonésia liderado pelo general Suharto resultou em crimes maciços que foram comparados pela CIA àqueles de Hitler, Stalin e Mao. A "formidável carnificina em massa," como foi descrita pelo New York Times, foi relatada com precisão pela mídia, e com desenfreada euforia.

Aquilo foi "um raio de luz na Ásia," como o destacado comentarista liberal James Reston escreveu no Times. O golpe pôs um fim à ameaça de democracia ao demolir o partido político dos pobres baseado nas massas, estabeleceu uma ditadura que foi em frente para compilar um dos piores registros de direitos humanos do mundo, e escancarou as riquezas do país aos investidores ocidentais. Não surpreende a ninguém que, depois de muitos outros horrores, incluindo a invasão genocida do Timor Leste, Suharto foi recebido pela administração Clinton em 1995 como "um cara do nosso tipo."

Anos após os grandes eventos de 1965, o conselheiro de Segurança Nacional das administrações Kennedy-Johnson, McGeorge Bundy, refletiu que seria uma sábia decisão terminar a guerra do Vietnam naquele momento, com o "virus" virtualmente destruído e o dominó primário solidamente em seu lugar, amparado pelas outras ditaduras amigas da região.

Procedimentos similares têm sido rotineiramente seguidos em outros lugares. Kissinger estava se referindo especificamente à ameaça de democracia socialista no Chile. Essa ameaça teve fim em uma outra data esquecida, que os latino-americanos chamam "o primeiro 11 de setembro," que em violência e amargos efeitos ultrapassou, e muito, o 11 de setembro comemorado no Ocidente. Uma viciosa ditadura foi imposta ao Chile, parte de uma praga de repressão brutal que espalhou-se pela América Latina, alcançando a América Central sob Reagan. Outros virus têm suscitado profundas preocupações também em outros lugares, incluindo o Oriente Médio, onde a ameaça do nacionalismo secular frequentemente inquietam os planejadores britânicos e americanos, induzindo-os a apoiar o fundamentalismo islâmico contra eles.

A despeito de tais vitórias, o declínio americano continuou. Por volta de 1970, a fração americana da riqueza mundial havia despencado para cerca de 25%, ainda colossal mas muito abaixo do valor ao fim da II Guerra Mundial. À época, o mundo industrializado era "tri-polar": a América do Norte baseada nos EUA, a Europa baseada na Alemanha, e a Ásia Oriental, já a mais dinâmica região industrial, naquele tempo baseada no Japão, mas agora incluindo as ex-colônias japonesas Taiwan e Coréia do Sul, e mais recentemente a China.

Mais ou menos naquela época, o declínio americano entrou em uma nova fase: um consciente declínio auto-infligido. A partir dos anos 70, tem havido uma significativa mudança na economia americana, em que os planejadores, privados e estatais, moveram-na na direção da financialização e da terceirização da produção, em parte um resultado da minguante margem de lucro da indústria doméstica. Essas decisões deram início a um ciclo vicioso no qual a riqueza tornou-se altamente concentrada (de forma dramática nas mãos de 0.1% da população no topo da pirâmide), levando à concentração do poder político, e daí uma legislação que agrava o ciclo: taxação e outras políticas fiscais, desregulação, mudança nas regras de governança corporativa, permitindo ganhos estratosféricos para executivos, e assim por diante.

Enquanto isso, para a maioria, os salários reais estagnaram em grande parte, e as pessoas só conseguem ir em frente através de jornadas de trabalho cada vez mais longas (muito além da Europa), débito insustentável, e repetidas bolhas desde os anos Reagan, criando riqueza de papel que inevitavelmente desaparece quando estouram (e os operadores são salvos com o dinheiro do contribuinte). Em paralelo, o sistema político sofre uma crescente desintegração à medida em que ambos os partidos atolam-se cada vez mais fundo no bolso das corporações com a escalada do custo das eleições, os Republicanos ao nível da farsa, os Democratas (agora em grande parte os ex-Republicanos "moderados") não muito atrás.

Um recente estudo do Instituto de Política Econômica, o qual tem sido a principal fonte de dados confiáveis acerca desses desenvolvimentos por anos, é intitulado Fracasso por Design. A expressão por design é adequada. Outras escolhas foram certamente possíveis. E como destaca o estudo, o "fracasso" é baseado em classes. Não há fracasso para os designers. Longe disso. Ao contrário, as políticas são um fracasso para a grande maioria, os 99% do imaginário dos movimentos Occupy - e para o país, que tem declinado e continuará a declinar sob essas políticas.

Um fator é a terceirização da indústria. Como o exemplo do painel solar mencionado acima ilustra, a capacidade manufatureira fornece a base e o estímulo para a inovação, conduzindo a estágios mais elevados de sofisticação na produção, design, e invenção. Isso também está sendo terceirizado, o que não é um problema para os "mandarins do dinheiro" que cada vez mais fazem o design da política, mas um sério problema para o trabalhador e a classe média, e um real desastre para os mais oprimidos, os afro-americanos, que nunca escaparam à herança da escravidão e do seu sombrio legado, e cuja magra riqueza virtualmente desapareceu após o colapso da bolha imobiliária em 2008, desencadeando a mais recente crise financeira, a pior até aqui.

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