segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Desmascarando o MAV: a máquina silenciosa da opinião política

 

Por Dag Vulpi – texto editado em 17/11/2025 (original 10/10/2015)

Vivemos numa era em que nem todas as vozes que ecoam nas redes sociais são reais — algumas são cuidadosamente orquestradas. Esse fenômeno se chama MAV: Militância em Ambientes Virtuais. Trata-se de organizações estruturadas, criadas para influenciar o debate público com eficiência, não com profundidade. Entender o que é o MAV é fundamental para preservar a autenticidade do diálogo político e proteger a democracia contra a lógica da repetição automática.

Posso afirmar com segurança que o MAV só existe graças à força do Pensador Coletivo. Essa entidade não é movida pela ética do debate ou pela busca genuína de ideias divergentes, mas pela lógica da eficiência: é uma máquina.

Em essência, MAV — ou Militância em Ambientes Virtuais — representa núcleos de militantes, alinhados a pautas partidárias, treinados para atuar nas redes sociais e em espaços de publicação online conforme orientações políticas. A estratégia é simples e poderosa: fabricar correntes volumosas de opinião pública sobre os temas do momento. Um centro de comando define pautas, escolhe os alvos e produz uma série de frases-base. Esses militantes se encarregam de espalhá-las, com mínimas variações, multiplicando vozes por meio de pseudônimos em massa.

O resultado? O Pensador Coletivo parece falar por multidões — em vez de uma conversa genuína, temos um coro orquestrado que repete as mesmas ideias em diferentes lugares. Talvez você nunca tenha ouvido falar de MAV, mas certamente ele conversa com você todos os dias.

O Pensador Coletivo nutre um profundo temor à crítica real. Em regimes pluralistas, a dissonância — a divergência de opiniões — é valiosa, pois revela dilemas ocultos. Mas para ele, a dúvida é um vírus que deve ser imediatamente contido. Seu objetivo nunca é responder com argumentos consistentes: é silenciar ou redirecionar a discordância, convertendo-a em certeza ou rejeição.

Esse modelo nem sequer admite a existência de uma opinião individual. Ele descarta argumentos específicos e se recusa a confrontar críticas com respostas substanciais. Em vez disso, usa generalizações carregadas de adjetivos — “elitista”, “privatizante”, “petralha”, “militonto” — para desacreditar o crítico, não por seu ponto de vista, mas por sua pessoa.

No campo virtual, o debate se torna uma guerra. Segundo eles, “a guerra de guerrilha na internet é a informação e a contrainformação.” No lugar de uma resposta verdadeira à crítica, geralmente encontramos ataques pessoais: “direitista”, “comunista”, “racista”… O manual de ofensas é amplo. Uma tática frequente é acusar o interlocutor de “difundir ódio” ou de “apoiar bandidos”, sem jamais tratar do argumento real.

Essa máquina política não se intimida com exigências de coerência: ela se move com eficiência, não com ética. As estratégias do Pensador Coletivo estão espalhadas pelo lixo informativo do debate público — adotá-las é uma escolha de gosto, não de convicção.

Importante notar: MAVs não pertencem a um único partido. Esta metodologia política foi copiada e adaptada por diferentes correntes ideológicas, cada vez mais presente nas campanhas eleitorais. Na era digital, onde a mobilização se dá em cliques, esse invento se tornou universal.

Se você participa de espaços pluripartidários — como grupos de discussão ou fóruns independentes — saber identificar perfis robóticos ou coordenados deixa de ser apenas um exercício intelectual; torna-se uma urgência cidadã. A percepção de que muitos “militantes” online são, na verdade, vozes replicadas por um sistema direcionado é um jogo que não precisa ser divertido — precisa ser desmontado.

Refletir sobre o MAV nos convoca a uma responsabilidade coletiva: não basta pensar, é preciso pensar bem. A autenticidade no discurso não brota apenas da liberdade de expressão, mas do compromisso com a integridade intelectual. Se permitirmos que as vozes automatizadas prevaleçam, podemos nos ver em um espelho distorcido, confundindo multidão com manipulação. No final das contas, resistir ao Pensador Coletivo é, antes de tudo, um ato de reafirmação da nossa própria humanidade política.

Democracia sem pensamento autêntico vira só barulho organizado.
Desconfie do aplauso unânime — pode ser apenas
copiado e colado.

sábado, 8 de novembro de 2025

O Caminho Onde Crescem as Flores

 


Por Dag Vulpi - novembro de 2025 - Texto editado*: Publicado originalmente em 29 de abril de 2017

Há caminhos que não se desenham nos mapas, mas no coração. Alguns permanecem vivos porque são percorridos; outros desaparecem sob o silêncio das ausências. E quando o mato toma o lugar do chão batido, nem sempre é a trilha que se perde — às vezes é o vínculo.

Certa vez, um bando de jovens pássaros voava despreocupadamente pelo céu, brincando com o vento e descobrindo o mundo lá de cima. No meio daquele voo alegre, um deles começou a notar algo curioso: grandes faixas de terra nua atravessavam a planície, como linhas desenhadas sobre o verde.
Intrigado, perguntou ao mais velho entre eles — um pássaro de plumagem antiga, olhar sereno e memória vasta.

Mestre, por que existem esses caminhos onde a terra fica exposta? Por que ali o mato não cresce?

O velho pássaro sorriu, como quem abre uma porta para uma lembrança muito antiga.

Lá embaixo vivem seres sem asas. Eles constroem suas casas distantes umas das outras. Quando sentem saudade, caminham até seus amigos. Esses passos repetidos pisam a terra, impedindo que o mato brote. Assim nascem os caminhos. E as flores que crescem à beira deles agradecem, porque querem que o amor e a amizade continuem passando por ali.

O jovem pássaro guardou aquelas palavras.
E, pouco tempo depois, sobrevoando um lugar conhecido, viu um menino sentado sobre uma trilha antiga — agora coberta por ervas daninhas e capim alto. O menino chorava baixinho, como quem lamenta algo que não sabe explicar.

Então o pássaro compreendeu.

Aquele caminho, um dia vivo e frequentado, agora estava esquecido. Talvez alguém que antes caminhava até o menino já não caminhasse mais. Talvez a saudade não tivesse força para atravessar o campo.
E quando a saudade deixa de caminhar, o mato cresce depressa.

Aprendeu-se ali uma verdade simples:
Os caminhos que ligam um coração ao outro precisam ser cuidados.
As amizades são trilhas vivas — exigem passo, presença, gesto, tempo.
Se abandonadas, acabam engolidas pela indiferença e pelo silêncio.

Devemos cuidar para que as ervas daninhas não tomem o espaço entre nós.

Porque uma trilha viva é sempre uma promessa de encontro.
E nas bordas dela, ainda nascem flores.

Muitas vezes, a distância que sentimos não está no espaço, mas no hábito. Um único passo pode reacender um caminho inteiro. Se a trilha está coberta, não é tarde: basta começar a caminhar outra vez. O amor, a amizade e o cuidado têm a força de reabrir estradas.

*Inspirado no texto de Eduardo de Paulo Barreto - Pescado no Facebook em 29 de abril de 2017

Entre o Humano e o Abismo: A Dissonância Cognitiva como Ferramenta Política

 


Por Dag Vulpi novembro de 2025

Quando a dor de admitir que fomos enganados se torna maior do que o próprio engano, a mente constrói muralhas. É dentro dessas muralhas que a extrema direita encontrou seu terreno mais fértil.

Há um ponto sensível na condição humana: a necessidade de coerência entre o que acreditamos e o que vemos. Quando a realidade contraria a crença, nasce a dissonância cognitiva. Esse conflito não é um erro moral, mas um mecanismo psicológico que tenta preservar o equilíbrio interno. O que muda é o uso que se faz dele.

A política contemporânea, sobretudo em sua vertente extremista, aprendeu a manipular essa fragilidade. Em vez de oferecer caminhos para uma consciência mais ampla e empática, ela reforça uma espécie de clausura mental. A pessoa é levada para dentro de uma bolha onde toda narrativa externa é inimiga e toda contradição pode ser justificada com um novo discurso — mesmo que esse discurso seja irracional, violento ou flagrantemente falso.

A dissonância cognitiva se transforma, então, em trincheira.
Não se defende uma ideia: defende-se o próprio ego.
Não se debate um fato: debate-se um pertencimento.

A extrema direita entendeu algo simples: quando um indivíduo passa a se sentir parte de um grupo que promete identidade, força e sentido, ele faz o que for preciso para permanecer ali — ainda que isso implique negar evidências, reescrever memórias e rejeitar a própria experiência vivida. Não por maldade, mas por medo de ruir por dentro.

O que o Humanismo Político propõe é o oposto dessa lógica.
Não é sobre destruir identidades, mas reconhecer que elas são vivas e permeáveis.
Não é sobre vencer o outro, mas sobre sustentarmos juntos a dignidade humana como horizonte comum.
É afirmar que o ser humano vale mais que uma narrativa, que o diálogo vale mais que o slogan, que a verdade pode ser difícil, mas é libertadora.

Num tempo em que as bolhas se fecham como muralhas, o Humanismo Político é uma mão estendida.
Não para puxar alguém à força, mas para lembrar que há mundo além da trincheira, que há respiração fora da guerra imaginária.

Reconhecer que fomos enganados não é fraqueza — é coragem.
Retornar à realidade não é derrota — é retorno ao próprio humano.

Reflexão

Talvez a tarefa mais urgente de nosso tempo seja reaprender a olhar o outro sem ódio, e a olhar para nós mesmos sem medo. Dissonância cognitiva não é sentença. É apenas um nó — e todo nó pode ser desfeito quando há paciência, verdade e cuidado.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

O Fio de Ariadne: Caminhos para Sair do Labirinto Moderno

 

Por Dag Vulpi novembro de 2025

Vivemos entre muros que não vemos. As paredes não são de pedra, mas de crenças, medos e rotinas que se repetem como corredores infinitos. A grande questão é simples: ainda sabemos reconhecer o fio que nos guia para fora?

Dizem que Ariadne ofereceu a Teseu um fio para que ele pudesse enfrentar o labirinto sem se perder. Uma corda simples, mas indispensável. Não era uma arma. Não era um mapa. Era apenas um caminho possível para voltar a si.

Na vida contemporânea, todos nós estamos dentro de um labirinto. Ele não é construído por reis ou arquitetos mitológicos, mas por sistemas econômicos, redes sociais, opiniões coletivas, discursos automáticos e desejos fabricados. Cada corredor é uma escolha que parece livre, mas já foi planejada antes que pensássemos nela.

O Minotauro que habita no centro não é um monstro com chifres e fúria. Hoje, o Minotauro se apresenta como um espelho. Uma imagem feita de tudo que acumulamos: pressões, expectativas, fracassos não aceitos, identidades que nos ensinaram a defender. O monstro é o peso de sermos aquilo que os outros acreditam que somos.

O caminho para o centro é fácil. Basta seguir a multidão. O difícil é voltar.

Há quem se orgulhe de não seguir ninguém. Entretanto, até a rebeldia virou produto. Vende-se identidade “autêntica” empacotada em slogans e estilos. Até o ato de dizer não já foi capturado pela lógica do consumo. De repente, é possível estar no labirinto acreditando estar fora.

Então, o que é o fio?

O fio é tudo aquilo que nos devolve a nós mesmos:

  • Uma memória que não se apaga.

  • Uma palavra que faz sentido.

  • Uma pergunta que não se cala.

  • Uma pausa para pensar antes de reagir.

  • Um olhar que enxerga o outro como humano, não como inimigo.

Esse fio é pequeno, frágil, às vezes imperceptível. Mas é real.

O Fio de Ariadne: A Dignidade Humana como Bússola na Polis Moderna



Por Dag Vulpi novembro de 2025

A política pode ser mais do que um jogo de poder? O humanismo político sugere que sim, oferecendo uma filosofia que coloca a dignidade humana no coração da organização social. Descubra como essa visão antiga pode ser a chave para reinventar a nossa polis moderna.

A política, em sua essência mais pura, não deveria ser um labirinto de poder e estratégia, mas um jardim onde a flor da dignidade humana floresce soberana. O humanismo político, longe de ser uma relíquia histórica, emerge como o fio de Ariadne necessário para navegar a complexidade da polis moderna. Ele nos lembra que, antes de ideologias e estruturas, existem rostos, aspirações e a inalienável busca pelo bem-estar.

A cada instante em que a política se distancia do homem real, do cidadão de carne e osso, ela perde sua alma, tornando-se uma máquina fria e indiferente. O humanismo político propõe uma revolução copernicana, onde o ser humano retoma seu lugar no centro do cosmos social. Trata-se de reconhecer que as leis, as instituições e os governos são meros instrumentos a serviço da vida, e não o contrário. A liberdade, a razão e a ética não são abstrações teóricas, mas o solo fértil onde a convivência democrática se sustenta.

Navegar a política com essa bússola humanista é um ato de coragem e esperança. É a aposta na capacidade de construirmos juntos, através do diálogo e da participação, um mundo onde a justiça não seja uma quimera distante, mas uma realidade tangível para todos.

A política pode ser mais do que um jogo de poder? O humanismo político sugere que sim, oferecendo uma filosofia que coloca a dignidade humana no coração da organização social. Descubra como essa visão antiga pode ser a chave para reinventar a nossa polis moderna.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Comparativos econômicos entre os governos Bolsonaro (2019–2022) e Lula (2023–2025): o que mudaram os números?

Por Dag Vulpi

Atualizado em: Novembro de 2025

Entre 2019 e 2025 o Brasil registrou recuperação dos indicadores macroeconômicos, mas enfrentou pressões fiscais e monetárias que mantêm incertezas sobre sustentabilidade do crescimento. O salário mínimo passou de R$ 998 em 2019 para R$ 1.518 em 2025, enquanto o país voltou a crescer após a pandemia — +2,9% em 2023 e +3,4% em 2024 — e a taxa média de desemprego caiu para 6,6% em 2024.

  1. Salário mínimo e poder de compra
    O salário mínimo teve reajustes sucessivos entre 2022 e 2025. Considerando a inflação acumulada entre 2019 e 2022 (≈24,7%), o ganho real do poder de compra depende do índice base escolhido: houve perda relativa em alguns anos e recuperação em outros — portanto, para afirmar “ganho real” é preciso comparar exatamente os índices (INPC/IPCA) usados e o período considerado. Recomenda-se incluir cálculo (ex.: variação real = (reajuste nominal – INPC no período)).

  2. Inflação e política monetária
    O IPCA anual apresentou picos em 2021 e recuos posteriores; a trajetória definida pela autoridade monetária (BC) e as altas de juros recentes explicam desacelerações observadas em 2024–2025. Detalhe mensal/anuais do IBGE devem ser citados quando comparar períodos.

  3. Crescimento econômico
    A retomada do crescimento está presente em 2023–2024, mas há desacelerações trimestrais aparentes no fim de 2024. Explique causas: safra agrícola robusta, consumo interno, e também efeitos de políticas fiscais. Cite IBGE e análises de agências.

  4. Emprego e indicadores sociais
    A queda da taxa média de desemprego para 6,6% em 2024 é um dado-chave — porém convém analisar qualidade do emprego, formalização e rendimento médio real para avaliar impacto social. Use Pnad Contínua do IBGE para detalhes regionais.

  5. Dívida pública e espaço fiscal
    A trajetória da dívida pública preocupa: medidas e projeções mostram que a relação dívida/PIB se manteve elevada (próxima de 
    76% em 2024, dependendo da metodologia). Explique diferença entre dívida bruta do governo geral (DBGG), dívida pública federal (DPF) e dívida líquida. Isso muda a leitura fiscal e os riscos de aumento de juros.

Conclusão:
Os números mostram melhora em emprego e atividade econômica entre 2023 e 2024, mas persistem desafios fiscais e a necessidade de crescimento sustentável com produtividade. Em suma: recuperação macroeconômica em curso, porém com frágil margem fiscal — um alerta para políticas que combinem estímulo ao investimento com ajuste estrutural das contas públicas.

Comparativos Econômicos entre 2019 e 2025

Salário Mínimo (R$)

Ano

Salário (R$)

2019

R$998

2020

R$1.045

2021

R$1.100

2022

R$1.212

2023

R$1.302

2024

R$1.412

2025

R$1.518

Crescimento do PIB (%)

Ano

PIB (%)

2019

1.2

2020

-3.9

2021

5.0

2022

2.9

2023

2.9

2024

3.4

Taxa Média de Desemprego (%)

Ano

Desemprego (%)

2019

11.9

2020

13.5

2021

13.2

2022

9.3

2023

7.8

2024

6.6

Análise do Salário Mínimo

O crescimento do salário mínimo acompanha períodos de maior e menor pressão inflacionária. Entre 2019 e 2021, o aumento nominal foi parcialmente absorvido pela inflação. A partir de 2023, com a recuperação do ritmo de reajustes acima do INPC, observa-se ganho real no poder de compra, embora ainda concentrado em faixas de consumo básico.

Análise do PIB

A queda acentuada do PIB em 2020 reflete os efeitos da pandemia, seguida de recuperação forte em 2021 e estabilização em patamares moderadamente positivos entre 2022 e 2024. O desempenho recente indica retomada baseada no agronegócio, serviços e consumo popular, embora a produtividade e o investimento industrial permaneçam desafios estruturais.

Análise do Desemprego

A redução contínua da taxa média de desemprego entre 2021 e 2024 mostra recuperação da atividade econômica e reabsorção da força de trabalho. Entretanto, ainda persistem questões sobre a qualidade dos empregos gerados, especialmente quanto à formalização, salários e estabilidade. A queda é consistente, mas não necessariamente sinônimo de melhora plena na renda média real.

Sobre o Blog

Bem‑vindo ao Blog Dag Vulpi!

Um espaço democrático e apartidário, onde você encontra literatura, política, cultura, humor, boas histórias e reflexões do cotidiano. Sem depender de visões partidárias — aqui prevalecem ideias, conteúdos e narrativas com profundidade e propósito.

Visite o Blog Dag Vulpi