terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Sociologia - "coitadismo", ou não se deve bater palmas para maluco dançar


Por José Roberto Bonifácio*

"Coitadismo"... este termo é muito corriqueiro e difundido entre olavetes, "constantinetes", "reinaldetes", anti-relativistas e oponentes do chamado "Marxismo" Cultural - uma expressão tão bizarra quanto autocontraditória em seus próprios termos - e outras vertentes da tendência conservadora emergente no Brasil destes últimos dez anos.

No vocabulário destes é uma senha automática para vulgarizar qualquer tentativa de explicação ou compreensão do mundo social. Similarmente se o utiliza para condenar quaisquer políticas governamentais que enunciem em seus princípios, e em seus objetivos ou escopo o atendimento aos segmentos mais vulneráveis - os "coitados" - dentro da sociedade brasileira.

Não por acaso quase sempre ela ocorre em textos ou frases vindo como antecedente ou consequente de raciocínios que condenam a política social como alguma espécie de "socialismo", ou ainda associando sociologia com serviço social.

Porém, ao contrário do que supõem seus múltiplos usuários o mesmo vocábulo "Coitadismo" não exprime nada semanticamente que derive duma leitura embasada dos textos de sociólogos, sejam clássicos sejam contemporâneos, dentro da teoria e da pesquisa social.

Exprimem muito pelo contrário uma profunda ignorância, um grosseiro desconhecimento acerca do oficio do cientista social, instado e advertido que é a "tratar fatos sociais como coisas" (Durkheim) ou ainda "livrar-se de julgamentos de valor" (Weber) e ainda "não confundir as coisas da lógica com a lógica das coisas" (Marx). Expressam a mais torpe falta de conteúdos e lucidez para abordar os temas que se pretende.

Evidentemente que aquelas lições dos pais fundadores do pensamento sociológico são coisas que qualquer aluno, do mais medíocre ao mais sofisticado, aprende nos cursos de graduação em sociologia. É por assim dizer o seu beabá!

Contudo, estes pseudoconhecedores de problemas sociais, em seu desafio ou questionamento aos especialistas nem isto assimilaram de seu breve contacto com a disciplina (se o tiveram). Ignoram solenemente inclusive o fato da história intelectual de que o conservadorismo - a doutrina ou estilo de pensamento que dizem professar - e sociologia tem um íntimo parentesco e implicações.

 Mas isto ainda não ilumina o problema mais crucial. Não tem projeto nenhum para lidar com os pobres, os vulneráveis, os destituídos da vida - como tinham p.ex., as elites vitorianas da Inglaterra no sec. XIX (somente para mencionar exemplo mais caro aos portadores duma mentalidade liberal) - e ainda ficam tacando pedra em quem os tem. Nutrem sentimentos morais os mais ambivalentes e negativos quanto ao funcionamento das instituições públicas em favor das maiorias da população, taxando-o de anormal ou patológico.

Diante de tantas, rudes e sistemáticas provocações da parte de jornalistas (vide os episódios dos rolezinhos e outros) o que devem fazer os sociólogos?

A resposta mais sensata seria dizer que, diante de indivíduos e organizações (como certos veículos de imprensa ou o Instituto Liberal, se julgarmos pelas manifestações de alguns dos seus mais altos representantes) querem desencadear uma guerra intelectual com as Humanidades, particularmente com sociólogos, de qualquer maneira, o melhor a fazer é a SBS, a ABA, a ANPOCS e a ABCP não lhes darem "ibope". Não adianta "bater palmas para maluco dançar", como se diz nos subúrbios e periferias, aumentando-lhe a audiência, a credibilidade e a reputação. 

Que fiquem falando sozinhos, sobre assuntos que não conhecem - ou pensam que conhecem. Emitindo elevadas lições moralistas e proferindo frases de efeito para o deleite de suas plateias. Nada pode ser feito. É o comportamento mais genuinamente liberal - sem aspas e num sentido mais pleno do que o que praticam tais oponentes - a se adotar.

Pensando melhor, o sociólogo pode até - e com isto Weber e Durkheim concordariam - tentar encará-los como algum tipo de tribo ou comunidade exótica, portadora de algum tipo de cultura - em sentido antropológico - diverso. Tentar compreendê-los antes de combatê-los ou ainda, utilizar-se de sua valorizada inclinação para a objetividade e o afastamento de pré-noções, por certo é a atitude intelectual mais saudável e democrática que se pode ter. Quem sabe algum tipo de "observação participante" (outros gostariam de fazer "participação observante") seja recomendável.

De todo modo e sem pretender rotular ou desqualificar, o que em si denuncia intolerância e aversão ao dialogo - ainda que não mais do que chamar para "sair no braço" como parece ser o mote dos "coitadistas" - a tarefas de construir pontes ao entendimento mútuo já se acha muito prejudicada (talvez irremediavelmente, mas não se sabe).

Depois esta mesma turma toda vem em coro para as redes sociais ficar chorando pitangas e reclamar que seus candidatos perdem votos na eleição presidencial.
Vai ser, como tem sido, um choro e ranger de dentes sem precedentes na historia deste país. Daí então ver-se-á quem são os verdadeiros coitados - sem aspas - desta história toda.
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*José Roberto Bonifácio é Sociólogo (UFES) e Especialista em Ciência Política (IUPERJ). Professor da UVERSITA - Universidade Aberta (SP) e do curso de Pós- Graduação Lato Sensu Gestão de Instituições sem Fins Econômicos com ênfase em Medidas Sócio educativas da Faculdade Unidas (ES).  Email: bonifacio78@gmail.com.

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