
Dias desses, um velho conhecido — cujo nome omitirei por razões que se provarão necessárias ao final deste texto — me ligou dizendo-se um pouco mais animado. Afinal, seu advogado acabara de informar que havia sido marcada a audiência para a divisão litigiosa dos bens que ele e a ex-esposa acumularam ao longo de mais de 25 anos de matrimônio.
Eles já estavam separados há quase um ano. Porém, pelo fato de o ex-sogro ser juiz, a ex-sogra ser uma advogada bem-sucedida e um dos ex-cunhados ser deputado, o meu velho amigo acabou saindo de casa com uma mão na frente e outra atrás. E assim permaneceria, ao menos até que o juiz determinasse como ficaria a partilha dos bens do casal.
Com muito trabalho e dedicação, ele conseguiu construir um belo patrimônio nesses 25 anos. Tinha um excelente apartamento de frente para o mar, onde morou por mais de 15 anos com a ex-esposa, e outros dois apartamentos com os quais presenteou as filhas quando elas se casaram. Tinha também um sítio agradável na região das montanhas espírito-santenses, dois carros importados (um para ele e outro para a esposa), uma moto e uma quantia considerável aplicada.
Ele sempre comentava com orgulho sobre suas conquistas, fruto de toda uma vida de dedicação ao trabalho e à família. Certa ocasião, mencionou que, quando jovem, o único bem que possuía era um Fusquinha 66 — relíquia que ainda guardava na garagem da casa de sua mãe e com a qual, de vez em quando, dava umas voltas para matar a saudade. Agora, estava andando com o Fusquinha para cima e para baixo; afinal, era o único meio de transporte que lhe restara.
Mas, voltando ao que interessa — a bendita partilha —, ele pediu que eu ficasse na torcida. Sabia que não seria fácil conseguir um acordo justo, pois a ex-esposa estava muitíssimo bem amparada: contava com um juiz, dois advogados (sendo uma delas a própria mãe) e um irmão deputado. Enquanto isso, ele dependia apenas de um jovem e inexperiente defensor público.
Diante desse cenário desfavorável, sugeri que nos encontrássemos pessoalmente para conversar. Talvez eu pudesse ajudá-lo. Marcamos um almoço. Ele chegou no horário combinado, tentando demonstrar tranquilidade, mas percebi sua tensão. Depois de colocar os assuntos em dia, entramos no tema principal.
Após analisar os fatos e considerar os trâmites, fui direto ao ponto. Ciente dos detalhes jurídicos e do real patrimônio do casal, busquei ser objetivo na formulação de uma proposta que atendesse às expectativas dele e, quem sabe, às dela.
Lembrei que, enquanto ele adorava o sítio, a ex-esposa o detestava; por outro lado, ele não morria de amores pelo apartamento da praia, que ela amava. Isso seria um facilitador, já que os valores dos imóveis se equivaliam. Como haviam dois carros, a divisão também seria simples. Quanto à moto, sugeri que deixasse para ela ou para o neto, ficando ele com o Fusca (lembrando-o de que, por ter sido adquirido durante a união, ela também teria direito a ele). Já o valor aplicado bastava dividir em duas partes iguais.
Ele coçou a cabeça e refletiu:
— Sabe que você tem razão? A partilha nem seria tão complicada assim. Mas é uma sacanagem ter que dividir em partes iguais tudo o que conquistei com uma vida de trabalho. Quase não tenho dormido de tanto pensar nisso.
Voltei a argumentar, tentando deixá-lo mais tranquilo, que ele deveria considerar os mais de 20 anos de convivência harmoniosa. Afinal, sem ela, não teria construído essa linda família, com filhas maravilhosas que já lhe deram três netos.
Ele concordou:
— É verdade, não tinha pensado por esse lado. Sem ela, eu não teria essa família.
Ao final, tomamos um café. Quando nos despedíamos, ele fez um pedido:
— Você não poderia me acompanhar ao Fórum no dia da audiência? Você me passa uma tranquilidade que meu advogado não consegue.
Respondi que, por mim, sem problemas. Apenas avisei que talvez precisasse sair um pouco antes, mas que nos falaríamos mais tarde sobre o resultado.
No dia e hora marcados, lá estava eu. Ele havia chegado mais cedo com seu velho Fusquinha — segundo ele, seu talismã de sorte. O jovem advogado chegou exatamente no momento em que foram chamados. Uma pena, pois eu queria ter conversado com ele para entender sua linha de defesa.
Eles entraram na sala. Encontrei alguns conhecidos no corredor, mas trocamos poucas palavras, pois ali todos estão a trabalho ou atendendo à Justiça. Aguardei mais alguns minutos e me retirei.
Mais tarde, tentei ligar para ele, mas a chamada ia direto para a caixa postal ("deve ter ficado sem bateria", deduzi). Resolvi ir até a casa da mãe dele, onde ele estava morando há mais de oito meses. Fui recebido com um belo sorriso por ela. Serviu-me um café e ficamos conversando enquanto esperávamos. Recordamos como antigamente as coisas eram mais difíceis, porém mais simples e felizes.
O assunto inevitavelmente caiu no fim do casamento. A mãe dele entendia que tinha sido o melhor, pois o filho andava infeliz e desconfiado. Segundo boatos não confirmados, a ex-esposa estaria tendo um caso com um jovem advogado — apadrinhado justamente pelo ex-sogro do meu amigo.
O tempo passou e nada dele chegar. Despedi-me da mãe dele, prometendo ligar mais tarde. Fazia um calor danado. Atravessei a rua e fui até o bar da esquina, onde pedi um chope na esperança de ver meu amigo chegar com boas notícias. Já tinha até decidido que, se tudo desse certo, passaríamos o fim de semana no sítio para comemorar e esquecer essa fase triste.
Terminei o primeiro chope e, quando ia pedir o segundo, um veículo na rua me chamou a atenção. Olhei e custei a acreditar: era o meu amigo dirigindo meio Fusca! Isso mesmo: um Fusca serrado ao meio foi o que lhe restou.
Depois, fiquei sabendo dos pormenores da audiência. O coitado acabou praticamente sem nada. O celular para o qual tentei ligar também ficou com a ex-esposa. O juiz encarregado do caso, um tal de Sérgio Mauro, era amigo íntimo do ex-sogro. A ex-esposa, além de ter a mãe como advogada (que nunca perde uma causa, e todos sabem o motivo), recebeu uma ligação no meio da audiência. Era o irmão deputado, ligando de Brasília para dar um "recado" ao juiz Mauro. E, para coroar a armação, o defensor público escalado para o caso era ninguém menos que o advogado apadrinhado do ex-sogro — o mesmo que estava saindo com a ex-esposa. Quer mais ou está bom?
Resumo da ópera: O juiz determinou que absolutamente tudo ficasse com a ex-esposa: o apartamento na praia, o sítio nas montanhas, os dois carros importados, quase dois milhões de reais aplicados e até o celular. E, para encerrar com chave de ouro, ao notar que havia um Fusca 66 no processo, o magistrado decidiu "ser justo": como o carro fora adquirido antes do casamento, determinou que fosse dividido ao meio, serrado em duas metades, como se faz com um pão francês.
"Isso será o justo", afiançou o nobre representante da lei, Sua Excelência Sérgio Mauro. E assim foi feito.
Confira abaixo o vídeo que gravei de dentro do bar quando percebi que era o meu amigo que estava chegando da audiência de separação de bens litigiosa dirigindo agora o seu, meio Fusca 66.
rsrsrs por isso que nao caso
ResponderExcluir