quinta-feira, 1 de março de 2012

A conscientização da humanidade será o fim deste mundo.


A visão de fim de mundo tem tomado corpo nos últimos tempos, fazendo com que as pessoas passem a refletir sobre isto. O fato dá ensejo a inúmeras e mais variadas manifestações, notadamente aquelas de caráter religioso, propiciadas especialmente por fanáticos que vêem em qualquer alteração da natureza os sinais desse final mundial.
            Há aqueles que alardeiam as chamadas Profecias de Nostradamus, o ilustre mago da era medieval que em suas centúrias previu ocorrências ao longo do tempo, dentro do qual muitas delas se confirmaram e outras não. Há os apocalipsistas que se apegam a interpretação literal dos versículos do Livro do Apocalipse, pregando as terríveis catástrofes mundiais e a salvação das igrejas que serão arrebatadas. Sem contar com tantas seitas de menor expressão, cujos líderes fazem soar suas vozes de terrível vingança divina sobre a humanidade.
Dentre tantas uma tem se sobressaído, sendo objeto de diversas análises. Trata-se das Profecias Maias, ou seja, as previsões do antigo povo indígena maia de que o mundo alcançará seu fim em 21 de dezembro de 2012. Anunciam essas profecias que a Terra está submetida a ciclos cósmicos de 26.000 anos, em que tudo deve se ajustar, não somente a natureza como o próprio homem. Será esta data que marcará o ponto central desse período. O sistema solar estando posicionado a 180 graus em relação ao tempo da civilização destruída da Atlântida, o centro da galáxia pulsará e ocorrerão manifestações de fogo, água, terra e ar.
            Não obstante tais vigorosas alterações, as profecias não falam em fim de mundo, senão em momentos de mudanças, de aumento de energia do planeta que produzirá "eventos do destino", ou seja, grandes transformações na humanidade. Elas não falam da vinda de nenhum ser que virá para salvar os homens de boa vontade, mas falam de que os eventos do destino darão a oportunidade de que cada homem venha a mudar seu nível de consciência para transformar-se.
            E isto já está acontecendo. Basta ver a busca crescente pela espiritualidade ao largo da religiosidade, pois as religiões não estão dando mais respostas de felicidade e paz interior às gentes. Por estas profecias o mundo não se acabará, mas se transformará, surgindo um mundo novo na perspectiva de uma nova consciência.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Um brinde a Jaguar


Ídolo de gerações, ‘movido a álcool’ e embalado a humor, cartunista Jaguar é reverenciado por outros artistas e ganha homenagem hoje, dia de seus 80 anos

Rio -  Um de nossos grandes cartunistas e cronistas, Jaguar chega hoje aos 80 anos de idade — ou 20, já que ele nasceu num ano bissexto, no dia 29 de fevereiro, que só ocorre a cada quatro anos. E o melhor: em plena atividade, já que ele publica em O DIA suas charges às segundas e quintas-feiras, um cartum às sextas e uma crônica aos sábados.
Fundador do lendário jornal ‘O Pasquim’, que muito incomodou os militares durante a ditadura (a equipe chegou a ser presa), Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, nome completo de Jaguar, é reverenciado por seus contemporâneos e pelas gerações seguintes.
Artistas fazem homenagem ao cartunista que completa 80 anos
 “Ele é um dos melhores humoristas do Brasil. É um homem à frente e atrás de seu tempo, o primeiro humorista movido a álcool”, brinca Marcelo Madureira, do ‘Casseta & Planeta’.
O cartunista Laerte não poupa elogios. “Acho o Jaguar um gênio da raça. É um dos maiores mestres que eu já tive. É antes e depois do Jaguar. É um cara que ensina muito sobre a vida no Brasil, a nossa cultura”, diz.
Amigo de Jaguar desde os anos 60, o jornalista e escritor Sérgio Cabral recorda a criação do ‘Pasquim’. “Ele deu o nome. Na reunião, eu levei uns 50 títulos para o jornal, mas, depois que ele falou, nem mostrei os meus. Só lamento que nossas vidas caminharam em direções diferentes e hoje quase não nos vemos. E uma das coisas boas da vida é conviver com Jaguar, com seu humor, ler suas crônicas no jornal”, diz Cabral. “Ele só precisa me consultar de vez em quando, porque troca as bolas. Tenho uma memória melhor do que a dele. Mas Jaguar pode tudo!”, brinca.
O cantor e compositor Martinho da Vila é outro amigo do cartunista. “O Jaguar é um grande brasileiro e, além do seu talento como cronista e como cartunista, é mesmo uma pessoa que gosta da vida, do Brasil, e gosta da boemia, do samba. Ele é uma coisa fantástica”, derrete-se.

Caindo nos 80
Começou com Elizabeth Taylor, minha colega etária, 79 anos, que cantou pra subir, seguida pelo nosso vice-presidente e outros menos votados. Ainda bem que pararam um pouco de morrer. A onda agora é comemorar os 80. Afinal, viver é melhor que morrer (há controvérsias). O mais novo octogenário é o chatíssimo e genial João Gilberto, inventor da Bossa Nova e da técnica de seduzir a mídia dando a impressão de que foge dela como o diabo da cruz.
Não temos como escapar da versão baiana da Greta Garbo. Nas rádios, tevês e folhas só dá ele, 24 horas por dia, de paletó e gravata, se escondendo atrás de um banquinho e um violão. A tardinha cai, o barquinho vai: mas volta sempre, como a barca da Cantareira.
Homenagens e especiais continuarão acontecendo seguramente até João Gilberto apagar um bolo de 81 velinhas. Ziraldo, que, como eu, vai fazer 80 no ano que vem, acusou o golpe: “Vocês não perdem por esperar! O pessoal de Caratinga desde já está se mobilizando para o meu ‘octogenário’. Virão oitenta ônibus lotados de lá para os festejos no Rio!” Preparem-se: em setembro de 2012 o Rio vai ficar entupido de caratinguenses.
Quanto a mim, que faço 80 no dia 29 de fevereiro (como sou bissexto, na verdade completo 20 anos), pretendo usar só um ônibus. Meu plano é ir para a rodoviária, ler os letreiros dos guichês e comprar um bilhete para alguma cidade de que nunca ouvi falar. Sempre detestei a ideia de comemorar aniversários. Festejar o quê? Um ano a menos de vida?
A menos que o diretor da Underberg (que é produzida no Brasil desde o ano em que nasci, 1932) aproveite a data para me convidar para conhecer a fábrica na Alemanha, como promete.

Rebelde inventor de piadas não-perecíveis
Não é só como cronista e jornalista que Jaguar mostra seu lado politizado: ele já protagonizou atos de rebeldia. Em 26 de outubro 1999, foi para a frente da Academia Brasileira de Letras protestar contra a posse de Roberto Campos, ex-ministro do Planejamento do governo de Castelo Branco, em plena ditadura militar. Vestido a caráter, com fardão dos imortais, jogou ovos da escadaria do lugar.
“As pessoas vão pisar em ovos ao entrar. Este será o pior dia da Academia, o mais vergonhoso”, disse à época.
No sentido horário: Jaguar com o presidente cubano Fidel Castro; jogando ovos na ABL em protesto contra a eleição de Roberto Campos, ex-ministro da ditadura; com a medalha Pedro Ernesto, que devolveu como protesto; e com Baiano (chapéu) e Moacyr Luz (de laranja) na feira de São Cristóvão | Foto: Agência O Dia / Divulgação
Em 2006, em 22 de junho, voltou a protestar: devolveu a medalha Pedro Ernesto, porque a mesma comenda foi dada ao ex-deputado Roberto Jefferson, cassado por corrupção.
“É um cartunista que quanto mais velho fica, mais ácido e escroto é o humor. Longe de ser um velhinho fofo”, observa o cartunista Allan Sieber, outro fã de Jaguar. “Jaguar é o nosso único humorista não-perecível. É impressionante como ele nunca fica datado, cartuns que ele publicou nos anos 50 ainda não estão com o prazo de validade vencido. Eu rio toda vez”, concorda o cartunista Arnaldo Branco. “Outra coisa: é um dos melhores textos do nosso jornalismo”, elogia.
O poeta Ferreira Gullar já era amigo do cartunista antes da criação do ‘Pasquim’, onde também foi colaborador. “Jaguar tem muito talento, senso de humor, é um dos maiores cartunistas do País. É excelente, criativo, original, não só nas ideias, mas no desenho. O desenho em si já é muito engraçado. Ele se tornou um patrimônio da cidade”, diz.

Dois encontros com Fidel
Outro episódio engraçado na vida de Jaguar é a história de quando conheceu Fidel Castro em Cuba. Há mais de 40 anos, ele foi ao país participar de um salão de humor em Santo Antonio de Los Baños, cidade próxima a Havana. A viagem era proibida pelo regime militar no Brasil, mas Jaguar conseguiu ir pelo Panamá.
“Festejando a façanha, exagerei no rum e acabei subindo num palco onde alegres comunistas tocavam bongô e rebolavam do jeito deles, com os ombros. Tirei meu tamborim da mochila e me esbaldei”, lembrou ele.
Fidel, que assistia, depois parou ao lado do brasileiro para cumprimentar um ‘camarada’. Anos depois, Jaguar voltou a encontrar Fidel em Havana, em evento oficial. 

Via odia.ig

A ANTIGA IDEOLOGIA DE SEGURANÇA NACIONAL E O DESENVOLVIMENTO

Flavio Lyra*
O conceito marxista de ideologia é concebido em torno da idéia de “falsa consciência”, ou seja da noção de que conteúdo das ideologias reflete de forma distorcida a realidade, ocultando seu comprometimento com a defesa dos interesses da classe dominante.
O pensamento científico, no campo das ciências naturais, tem nos princípios da coerência interna, propiciado pelo uso da lógica, e na adequação à realidade, derivada do método experimental, os dois fatores primordiais que asseguram sua efetividade, na medida em que permitem um discurso de aceitação universal e eficácia na explicação e aplicação prática dos conhecimentos. Nas questões sociais ainda não foi possível avançar na mesma direção, dada a natureza imprevisível que o livre arbítrio introduz na conduta dos seres humanos e não seria exagero admitir que nunca seja possível atingir tal resultado. Resta, assim, conviver com as ideologias como substitutas do conhecimento “neutro”, propiciado pela ciência no caso dos fenômenos naturais. Fica, assim, para o pensamento social a tarefa crítica de apontar as incoerências internas e os desvios em relação à realidade de que estão eivadas as ideologias que movem nossas condutas.
Na América Latina e no Brasil ainda prepondera uma ultrapassada ideologia de segurança nacional, muito enfatizada durante os anos da Guerra Fria, que coloca como inimigos potenciais da segurança nacional as organizações da classe trabalhadora e os chamados movimentos sociais. Tal concepção foi exacerbada durante os anos da Guerra-Fria, em função da influência da ideologia comunista nas organizações populares, consideradas a grande ameaça à soberania e à segurança nacionais. Com o desaparecimento do comunismo soviético e da Guerra-Fria, as grandes potências ainda não conseguiram inteiramente colocar em cena um novo inimigo externo. A “guerra ao terror” e a ameaça islâmica, proclamadas e difundidas como justificativa para a adoção de medidas contra a autodeterminação dos países economicamente mais frágeis, especialmente dos que têm a ousadia de tentar caminhos próprios para a exploração de suas riquezas, não têm conseguido granjear o apoio internacional necessário para ocupar o vazio deixado com o término da guerra-fria.
Não obstante, a idéia do “inimigo interno” continua muito viva na cabeça dos ideólogos da segurança nacional que, embora nem sempre o explicitem, continuam achando que as organizações populares são o grande inimigo da segurança nacional.  
Falar de soberania nacional e de desenvolvimento nacional, sem ter em conta o alto grau de convergência existente entre os dois conceitos, é certamente cometer um erro interpretativo injustificável.  O exercício da soberania na tomada de decisões no contexto internacional,  arena da luta competitiva pelos interesses nacionais, é fundamental para dar sustentação ao processo de desenvolvimento nacional.  Por conseguinte, uma ideologia de segurança nacional que delegue a potências estrangeiras, a defesa de sua soberania no plano internacional, constitui um obstáculo de monta ao processo de desenvolvimento.
 Caberia indagar, agora, por que o Brasil perdeu a capacidade de levar adiante seu processo de desenvolvimento, inclusive de formular um projeto com esse propósito, e como isto se relaciona com a antiga ideologia de segurança nacional.
A partir da Revolução de 30, com o Getulismo, o Brasil foi capaz de realizar um intenso processo de desenvolvimento, baseado na industrialização, que prosseguiu no pós-guerra até o final dos anos 70. As transformações econômicas realizadas no governo JK (1956-60), entretanto, estiveram associadas a  grande penetração do capital estrangeiro na estrutura produtiva, além de ser altamente concentrador de seus benefícios nas mãos da elite  latifundiário-empresarial, do capital estrangeiro, e da classe média alta que se formou nos grandes centros urbanos.  Os inimigos comuns destes segmentos, por serem capazes de ameaçar seus privilégios, passaram a ser cada vez mais a classe trabalhadora e os movimentos sociais.
No contexto da Guerra-Fria, a antiga ideologia da segurança nacional, praticamente deixou de lado as preocupações com a segurança no plano externo, delegada aos Estados Unidos, e focalizou-se “no inimigo interno”, as organizações de trabalhadores, os intelectuais de esquerda e os movimentos sociais, os quais constituíam real ameaça aos interesses da elite latifundiário- empresarial, do capital estrangeiro e da classe média urbana. Os militares assumiram o poder em 1964, em estreita aliança com esses grupos sociais, e os políticos que passaram a conformar os quadros da ARENA, o partido político constituído pelos militares para apoiar o governo, eram representantes de tais grupos.
 As Reformas de Base defendidas pelo governo de João Goulart, com forte apoio popular, consideradas fundamentais para impulsionar o processo de desenvolvimento eram vistas pela elite proprietária e pelo capital estrangeiro como uma ameaça fatal a seus interesses. Não sem razão, pois, foram relegadas ao esquecimento depois da chegada dos militares ao poder. 
O processo de desenvolvimento sobreviveu, mesmo que crescentemente dependente do capital estrangeiro, durante a maior parte do tempo dos governos militares, e somente recebeu seu golpe mortal, no início dos anos 80, com a crise de endividamento externo gerada pela mudança na política econômica dos Estados Unidos, que elevou as taxas de juros a níveis desconhecidos na história econômica.
 A antiga ideologia de segurança nacional adotada pelos militares era contraditória com os interesses do desenvolvimento nacional, pois não permitia desenvolver uma atuação soberana no plano internacional.  Essa contradição ficaria inteiramente explícita com as mudanças introduzidas na política econômica dos Estados Unidos, que ao priorizarem seus interesses nacionais deixaram seus aliados fiéis na luta contra o comunismo, entregues à própria sorte. A chamada “década perdida”, 1980-90, em que o Brasil, sufocado pelo serviço da dívida externa, defrontou-se com a estagnação e o descontrole inflacionário, esteve intimamente associada às mudanças internas e no plano internacional realizadas pelos Estados Unidos.
As realizações do II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND- 1975-79) do governo Geisel, voltadas para sustentar o processo de desenvolvimento, tornaram-se na década de 80, um verdadeiro pesadelo, em face das dificuldades derivadas do  alto endividamento externo em que foi preciso incorrer para materializá-las.
Não é de admirar, pois, a conduta ambígua dos militares no poder, sob a influência da antiga ideologia de segurança nacional.  Por um lado, desfecharam uma guerra aberta contra as organizações de trabalhadores, os intelectuais e os movimentos sociais e, por outro, tentaram fortalecer o poder nacional com a execução dos planos nacionais de desenvolvimento. Acontece que seus aliados internos, pertencentes à elite latifundiário-empresarial, o capital estrangeiro, e a classe média, não constituíam uma base social suficientemente coesa, ampla e comprometida com os interesses nacionais, a ponto de poder dar sustentação política ao processo de desenvolvimento.
Diante da crise que impedia o avanço da acumulação interna de capital, os capitalistas nacionais e estrangeiros, sob a orientação do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial (influenciados pelo governo dos Estados Unidos) voltaram-se para privatização das empresas estatais e o desmonte do que restava do estado desenvolvimentista, no que foram muito bem sucedidos, a partir dos anos 90 com o Governo Collor e, em seguida, com os governos de FHC. Como a antiga ideologia da segurança nacional havia permitido destroçar as organizações trabalhistas e os movimentos sociais e contribuído para que a população visse a ação estatal como fator de opressão, a tarefa foi realizada sem maiores resistências.
A realidade mais recente do Brasil é o de uma sociedade que busca, sob a hegemonia da classe trabalhadora e dos movimentos sociais, retomar o processo de desenvolvimento, num contexto de grave crise internacional e de fortes pressões competitivas no plano das relações econômicas e financeiras. Mas, ainda são fortes as resistências ao avanço desse processo, dada a influência da ideologia neoliberal dominante na classe proprietária, nos meios de comunicação, e em importantes segmentos da classe média, bem como do que restou da antiga ideologia de segurança nacional, especialmente entre os militares.
Muitos estrategistas militares continuam professando a ideologia herdada da guerra-fria, que os impede de perceber que os inimigos externos do desenvolvimento do Brasil são as nações centrais e suas corporações, muitas delas aqui instaladas, que através do controle que exercem sobre os mercados internacionais de bens, de tecnologia e de capitais, bloqueiam a projeção internacional de nossa atividade produtiva. Dita ideologia é prejudicial à constituição de uma base social suficientemente ampla, forte e coesa para dar sustentação a uma nova política de desenvolvimento nacional.
As ameaças à segurança nacional a que estamos sujeitos, já há bastante tempo, provêm das grandes potências do mundo, às quais não interessa um novo e poderoso participante no cenário internacional, e não dos fantasmas do passado. A nova base social para o fortalecimento da soberania nacional e a posta em prática de um projeto nacional de desenvolvimento,  reside nos trabalhadores e nos movimentos sociais, cujos interesses são eminentemente nacionais. As ameaças que rondam nosso território e apontam na direção da internacionalização da Amazônia e do aproveitamento das reservas de petróleo e gás do Pre-sal, por exemplo, são nitidamente de origem internacional e não provenientes das organizações populares.
Não cabe, entretanto, desconhecer que os partidos políticos de base popular que elegeram os últimos três governos padecem de insuficiente entendimento da realidade nacional e acusam desvios em suas condutas que os tornam antipáticos à população, dificultando a coesão nacional em favor de um projeto de desenvolvimento. Esses partidos, também sofrem a influência da ideologia dominante no plano internacional, que defende a entrega do destino dos países aos humores do mercado, atrás dos quais se escondem os interesses das grandes corporações privadas que dominam a economia internacional.
Faz-se, assim necessário criticar e denunciar as condutas inaceitáveis, porém não incorrer no erro de jogar fora a água do banho com a criança, pois a recuperação da soberania nacional e da capacidade do país para desenvolver-se reside, em última instância na massa trabalhadora e nos movimentos sociais, e não na classe proprietária desfigurada e descomprometida com os interesses nacionais que domina economicamente o país.
(*) Economista. Cursou doutorado de economia na Unicamp. Ex-técnico do IPEA.

A geografia da violência


Quando escreveu 'Geografia da Fome', em 1946, Josué de Castro, sofreu pressões para eliminar a palavra incômoda do título de sua maior obra. Contrariando a elite melindrada e gelatinosa, deixou um  clássico que desnaturalizou a fome brasileira, isentando 'jeca tatus' e 'nortistas' de serem os responsáveis pela própria desnutrição. A partir daí o tema ganhou fórum de desafio político, decorrente de estruturas de poder que aboliram a escravidão, mas mantiveram direitos e riquezas concentrados na casa-grande.

De certa forma, a palavra violência substitui hoje o espaço que um dia foi ocupado pela fome como a ligadura dos desafios que enfeixam a grande questão da política brasileira: a realização plena da cidadania na vida das grandes massas do seu povo. Como a fome, a  violência é uma palavra incômoda. Muitos prefeririam não anexá-la à agenda do país, menos ainda reconhecê-la como estuário das pendências e desafios dessa década.

 Policiais inaceitavelmente armados reivindicando direitos - justos, diga-se - são parte desse mosaico desordenado e urgente, que inclui a macabra colheita de 100 cadáveres em cinco dias de recuo parcial do policiamento nas ruas de Salvador.

A exemplo da fome, a violência não responde a um cardápio único. Superá-la requer uma verdadeira revolução no acesso e na qualidade de bens que formam (hoje deformam) a subjetividade brasileira.

Uma escola efetivamente republicana que nivele por cima, oferecendo um mesmo ponto de partida igual para todos, por exemplo (para isso o orçamento do MEC não pode secundar a massa de recursos fiscais transferidos aos rentistas da dívida pública). Ou uma mídia pluralista capaz de democratizar a informação e a cultura, aguçando em vez de entorpecer o discernimento crítico e a subjetividade livre e independente. Serviços públicos de saúde, segurança e acessos a bens culturais que afrontem - a palavra é justamente essa, afrontar - abismos seculares escavados pela desigualdade, alinham-se como requisitos à restauração de portas da civilização corroídas pelo cupim do elitismo excludente e parasitário.

Nada se fará sem democracia e bons empregos e tampouco basta ter orçamento se o aparelho público for desastroso - colocando, como agora, no caso dos aeroportos, o governo no desgastante dilema de privatizar ou caminhar para o colapso aéreo em plena Copa de 2014. Tudo isso é relevante, mas o grande salto para o futuro consiste justamente em admitir que a mobilidade incremental azeitada pelo sistema econômico disponível não é suficiente.

Não é que seja apenas insuficiente: é quase um suicídio social depositar a formação da subjetividade nas mãos do mercado.

A nova geografia da violência parece desmentir avanços quase épicos alcançados na redução da pobreza, da fome e do desemprego, mas não é verdade. Eles são reais. Foram e serão decisivos na reformulação do desenvolvimento brasileiro. Infelizmente, porém, não há paradoxo: o rastro da violência avança em linha com a interiorização do crescimento, do consumo e do investimento.

O fato de uma greve policial, como a de Salvador, ter gerado - se com 'ajuda' de setores grevistas pior ainda - mais de 100 homicídios em menos de uma semana confirma as dimensões da emergência política embutida nessas linhas paralelas. A ruptura de equilíbrios precários, substituídos por impulsos mórbidos de consumo --e a indução a comportamentos anti-sociais, inoculados pelo canhão midiático-- gera confusão e endosso cego ao que o mercado difunde como sendo o novo, o desejável e o indispensável, ao preço do 'custe o que custar'. Geram, ademais, uma percepção desesperadora da desigualdade medida por paradigmas de riqueza e ócio nefastos e inviáveis.

A reiteração da sexualidade como uma dimensão utilitária, exibicionista e descartável do relacionamento humano faz parte desse desterro ético. Seu apelo lubrifica a emergência de padrões de comportamento incensados por novelas e animadores psicopatas de Big Brothers, que precipitam a baldeação de valores tradicionais para zonas cinzentas em que semi-cultura, semi-informação, mercado e barbárie se marmorizam e se alimentam em perfeita metástase social. Se um factóide de estupro induzido e capitalizado, rende prestígio, dinheiro e admiradores aos seus protagonistas, como impedir efeitos em cascata numa subjetividade desprovida de filtros para rejeitar a fraude, a falta de ética, a corrosão do caráter e dos laços da convivência compartilhada?

O "Mapa da Violência-2012", coordenado por Julio Jacobo Waiselfisz, dimensiona essa espiral pela fita métrica da uniformização dos padrões de violência homicida no território nacional. "Seria altamente desejável se essa transformação atuasse no sentido de homogeneizar as taxas por baixo', pondera o relatório. " Contudo", constata, "se isso realmente acontece em algumas regiões do país, na maior parte dos casos, presenciamos o efeito inverso: o crescimento vertiginoso da violência em locais considerados pacíficos e tranquilos". Em 2010, o conjunto daquelas que eram até então as 17 menores taxas de homicídio da federação, superou em 25,7%, a soma das que detinham antes os índices recordes. Um exemplo ilustrativo e atual: nessa baldeação, a Bahia saltou do 23º lugar para o 3º no ranking nacional de homicídios.

A juventude fragilizada pela mistura de semi-formação e semi-maturidade é a principal vítima desse 'ajuste' pelo pior. A taxa média de homicídios na sociedade brasileira encontra-se estabilizada há alguns anos na faixa de 26 mortes por 100 mil (nada a comemorar: em 2010 foram 50 mil assassinatos; média de 137 homicídios por dia). Mas na faixa etária entre 20 a 24 anos, as coisas assumem contornos de chacina geracional: a taxa salta para 60,4 homicídios por cem mil. A violência homicida já é responsável por 38,6% de todas as mortes de jovens no país, enquanto entre os não jovens a taxa cai para 2%.

Os avanços propiciados nos últimos anos na esfera da educação, com o acesso ampliado ao ensino superior através do Prouni, bem como a disseminação das escolas técnicas, são antídotos encorajadores. A exemplo da multiplicação de vagas de trabalho, eles alargam os trilhos da mobilidade e da esperança dos que nasceram à margem deles e estavam condenados assim a viver e a morrer . Algo se move e não é pouco diante da calcificação de interditos estruturais agravados pela contração da economia internacional. Em crises anteriores, de gravidade e duração muito aquém da atual, o país despencou, a economia regrediu, a miséria aumentou. Mas os dados da violência parecem dizer que ainda não atingimos o nervo da iniquidade.  Ainda carecemos de um desassombro político e programático. Um novo marco divisor que não pode ser apenas a boa gestão do ciclo anterior.

Que busque inspiração no exemplo de Josué de Castro e não retire o desafio da violência do lugar que ele ocupa, queiramos ou não admitir: o incômodo corolário de estruturas e interesses que, ao incorporar ao mercado, cobram o pedágio da servidão ao consumo, magnificam o sentimento da desigualdade e selam o cativeiro de uma subjetividade desumanizada desprovida da compreensão crítica da sociedade e do seu lugar na história.
Carta Maior

O Brasil entre a ruptura e a inércia

O Brasil precisa fazer na educação (e na saúde) o mesmo que Lula fez com o salário mínimo: uma ruptura em relação à inércia conservadora. Num intervalo de oito anos o presidente petista elevou o poder aquisitivo do mínimo em mais de 53% em termos reais. Rejeitou a lógica incremental. Entendeu que mudar apenas na margem seria manter à margem os que sempre viveram na soleira do país.

Deu-se então a mudança estrutural. Um novo degrau de acesso à renda passou a ordenar a vida de milhões de brasileiros beneficiando a economia e toda a sociedade. O poder de compra popular, associado às políticas de combate à fome e à miséria, revelou-se um contrapeso decisivo de demanda interna na crise mundial.

Criticado pela ortodoxia, Lula desabafou: 'foi preciso uma crise igual ou pior que a de 1929 para a elite brasileira entender o acerto histórico dessa decisão'. Os avanços registrados na educação desde 2002 não são desprezíveis. O Fundeb pavimentou o caminho a melhora do ensino básico; o Prouni alargou o acesso à educação superior; a rede de escolas técnicas dobrou. Os resultados só não são melhores porque o gargalo do ensino médio, sob guarda-chuva estadual, ainda desabona a ficha escolar da juventude pobre.

A guerra pela qualidade é uma guerra por orçamento. Os recursos fiscais destinados à educação são da ordem de R$ 85 bi; os da saúde giram em torno de R$ 90 bi. Somados, ficam muito aquém do saco sem fundo da dívida pública que consome mais de 1/3 da receita tributária federal entre juros, refinanciamentos e amortizações. A inércia se propõe a elevar a fatia da educação do equivalente a menos de 5% do PIB para 7% dele. Até 2020.

Mesmo com o aumento substantivo de 22,2%, o novo piso do professorado brasileiro não vai além de R$ 1.451,00, por 40 horas semanais, em classes com média de 30 alunos. Quem se habilita? Pesquisas indicam que a carreira do magistério tornou-se uma espécie de lotação da meia-noite: a escolha dos que não tem mais escolha, impedidos de concorrer em outras áreas por conta das piores notas no ENEM.

Os dados do Enad confirmam: predominantemente, a opção pelo magistério é feita pelos que tem renda mais baixa (até três mínimos) e são obrigados a conciliar o trabalho e estudo. Entidades representativas dos municípios brasileiros alegam que nem isso podem pagar: precisariam de um subsídio federal de R$ 7 bi/ano para viabilizar a nova folha do professorado. Compare-se esse 'déficit' com o supergasto na ponta dos juros: fica claro que o salto na educação passa por um corte graúdo no apetite rentista, caso contrário, como atrair os melhores talentos que uma revolução educacional requer?

Na Finlândia, o extremo oposto que ocupa a 3ª posição no ranking do Pisa, entre 65 países, o magistério é a opção preferencial de um em cada cinco estudantes. Cursos de pedagogia são disputados em uma seleção rigorosa: 10 candidatos por vaga; o ensino é 99% público, não há 'incentivos' de desempenho para escamotear arrocho, classes são pequenas e o salário médio se equipara ao das carreiras mais valorizadas. Um dia a Finlândia decidiu que não podia desperdiçar nenhuma criança e nenhum jovem. E o Brasil?


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