sábado, 17 de agosto de 2013

Dólar dispara e ameaça controle da inflação

SÃO PAULO E RIO - Nem mesmo a atuação do Banco Central (BC), que injetou US$ 3,05 bilhões no mercado futuro nos últimos dois dias — sem incluir a rolagem de US$ 989 milhões em contratos — evitou que a moeda americana encerrasse a semana próxima de R$ 2,40, no maior patamar desde 3 de março de 2009. O dólar fechou os negócios cotado a R$ 2,396, com alta de 2,44%, a maior escalada diária desde setembro de 2011.

A queda de braço entre a autoridade monetária e o mercado, no entanto, parece estar longe do fim. Após o encerramento do pregão, o BC anunciou novo leilão de até 20 mil contratos na próxima segunda-feira. Com a disparada de 5,36% na semana e a proximidade do patamar de R$ 2,40, aumentaram as incertezas sobre o rumo do dólar até o fim do ano e seu impacto sobre a inflação, que acumula alta de 6,27% nos 12 meses até julho, patamar próximo do teto da meta fixada pelo governo.

A maioria dos economistas já começa a refazer suas projeções considerando ainda o impacto do início do processo de retirada de estímulos à economia americana pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). O próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse nesta sexta-feira não saber qual seria a direção do câmbio.

— Esse câmbio não é definitivo, pode subir mais um pouco, cair um pouquinho, ou ficar onde está, eu não sei dizer. Mas o governo brasileiro vai agir no sentido de impedir uma volatilidade excessiva — disse o ministro. — Estamos vivendo um momento de alta volatilidade e enquanto o Fed não define a mudança na política monetária americana, o mercado especula.

Para Mantega, o ambiente volátil no mercado de câmbio pode se estender até o próximo ano, período no qual o Fed deve começar a reduzir as compras de US$ 85 bilhões mensais em títulos. Ao fim desse processo, a expectativa do mercado é de uma alta de juros nos EUA, o que atrairia ainda mais recursos à economia americana.


Nesta semana, com a divulgação de dados mais favoráveis da economia americana, como a redução no número de pedidos de seguro-desemprego, alimentaram temores de que a retirada do auxílio mensal ao mercado possa começar em setembro. O ministro criticou as análises pessimistas do mercado e ressaltou que o dólar alto beneficia a indústria.

A leitura dos operadores de câmbio, porém, é menos otimista. Para Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da corretora Treviso, as mudanças de estratégia do BC em relação às intervenções no câmbio — ora atuando quando o dólar já se desvalorizava e ora intervindo quando a moeda sobe — deixaram o mercado confuso. Para ele, o próprio Banco Central está perdido em relação à sua estratégia de atuação.
— Hoje não existe teto para a moeda americana. Acredito que a cotação pode chegar a R$ 2,50 em pouco tempo. Se fechar o ano neste patamar, estará de bom tamanho — disse.

‘Ainda há muito para piorar’, diz analista
Nesta sexta-feira, as intervenções do Banco Central foram feitas por meio de leilões de contratos de swap cambial tradicional, que equivalem a uma venda de dólares no mercado futuro. No primeiro leilão, entre 10h30m e 10h40m o BC rolou US$ 989 milhões em 20 mil contratos. A segunda intervenção aconteceu entre 12h30m e 12h40m, com a venda de mais US$ 1,076 bilhão em 21.600 contratos, dos 40 mil ofertados.

Sérgio Vale, economista da MB Associados, aponta um cenário ainda mais nebuloso e não descarta uma escalada do câmbio a R$ 2,70 nos próximos meses. Ele ressalta que além das incertezas quanto à atuação do Fed há ainda uma frustração com o crescimento da economia brasileira.

— Quem acreditava no discurso de crescimento de 4%, 5% neste ano sabe agora que o país pode crescer 2% e olhe lá. Ainda há muito para piorar — disse.

José Julio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do IBRE da FGV, lembra que a tendência de valorização do dólar é global, mas tem mais intensidade na comparação com a moeda brasileira em razão da fragilidade da economia. nesta sexta-feira, o avanço do dólar frente ao real nesta sexta-feira foi o mais intenso entre as 16 principais moedas acompanhadas pela agência Bloomberg News.

— Existe uma percepção geral sobre problemas do país que envolvem a política econômica, como as intervenções na economia e mudanças de regras em setores — explica Senna.

Déficit de US$ 43 bi no saldo corrente pressiona
Para Nathan Blanche, economista da Tendências, a própria expectativa de que o dólar deve se valorizar mais no futuro pode estar turbinando a alta da moeda. O dólar turismo, referência para quem pretende viajar ao exterior, já chegou a R$ 2,48.

Segundo Blanche, a deterioração das transações corrente — saldo de transações entre o Brasil e o resto do mundo — é um dos fatores que tem colocado pressão sobre a moeda. No primeiro semestre, o déficit foi de US$ 43,47 bilhões.

Na Bolsa de Valores de São Paulo, o principal índice fechou pelo oitavo pregão consecutivo em alta. O Ibovespa subiu 1,24% aos 51.538 pontos e volume negociado de R$ 8,7 bilhões.

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